Ao fadista Carmo foi atribuído o prémio Tacky Latino, por mor de uma carreira em que pôs a sua inimitável voz ao serviço de um estilo em que se discernem afinidades com a canção francesa e a bossa nova brasileira - como se diz aqui, em artigo escrito evidentemente por pessoa com profundos conhecimentos musicais e ouvido apuradíssimo.
O prémio foi comunicado pelo presidente da academia, que aproveitou para dizer "coisas lindíssimas" sobre a vida de Carmo e o trabalho de Carmo, confidenciou o próprio, que se absteve modestamente, porém, de as revelar, decerto também por estar "estarrecido" com a distinção.
Esta modéstia é de resto uma das marcas distintivas do grande artista, tanto que os parabéns pelo prémio são devidos, opina Carlos, não apenas a ele, mas a nós.
Este "nós" é abrangente mas, infelizmente, não universal: a Câmara de Lisboa promoveu uma homenagem, a imprensa delirou, os pivots da televisão pivotaram, Jerónimo e o Belenenses parabenizaram, os três ex-presidentes da Républica, Eanes, Soares e Sampaio, apressaram-se a apresentar as suas felicitações, mas o actual nada - nem uma "mensagem privada", nicles.
Parece que Carmo, nos intervalos de cantar, tem opiniões. E ultimamente tem abundado em coisas gravíssimas que tem dito de Cavaco, culminando nas declarações que proferiu na mesma Aula Magna em que Soares e Pacheco Pereira brilharam à altura do palco: "Nunca me passou pela cabeça, depois de 40 anos de salazarismo, levar com este homem 20 anos. Um homem que é inseguro, inculto, medroso. E não interpretem isto como uma questão pessoal, não sou dado a questões pessoais".
Vozes de burro, às vezes, chegam ao Céu. Porque o ponto é precisamente este: não é uma questão pessoal.
As opiniões políticas do fadista são tão legítimas como outras quaisquer; o direito a detestar Cavaco, as teses de Cavaco, a acção política de Cavaco e as suas gravatas; ou a amar a sua gravidade, os seus discursos, os seus silêncios, as suas acções e omissões ou os seus cortes de fato - são direitos universais, não excluem comunistas, Pacheco Pereira ou sequer um representante da extrema-direita (punha aqui um nome, se conhecesse algum).
Mas, se todos temos direito a pensar, e dizer, de Cavaco o que entendamos, não tem este o direito de, no exercício das suas funções de representação da grei, ter simpatias ou antipatias políticas que o levem a distribuir condecorações e felicitações unicamente a quem preencha o requisito prévio de não o hostilizar.
Não é que me pareça que haja escassez de medalhas ou abundância de quem as devesse receber e tenha o peito virgem; é que se na Presidência se distribuem condecorações a esmo para honrar carreiras de personalidades que se distinguiram sobretudo por terem tento na língua e flutuarem nas águas salobras da conveniência, ou se recebem futebolistas que não ganharam, nem era presumível que ganhassem, nada, então a tradição dos cumprimentos era de manter-se em relação a quem lá fora ganhou alguma coisa. A menos que este presidente tivesse quebrado essa tradição, como seria seu direito - mas sempre e desde o início do seu primeiro mandato.
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