Há uns condutores masoquistas que se deslocam voluntariamente em automóveis velhos ou com manutenção defeituosa. Não é que lhes falte o dinheiro para adquirirem novos ou para fazerem reparações, é que têm um grande amor às antiguidades, uns; e não dispõem de vagar para ir à oficina, outros. E como são todos burros de nascença, e com tais omissões e descasos poderiam pôr em risco as próprias vidas, e as de terceiros, e este grave problema já estava solucionado lá fora, o Estado resolveu há anos copiar as soluções que nações notoriamente mais adiantadas e lúcidas haviam posto em prática.
Daí vieram, com grande aplauso, as inspecções periódicas. Podia ter sido criado mais um serviço público, igual a tantos outros e igualmente daninho, mas a coisa deve ter sido decidida por alguém com inclinações para o mercado, a eficiência, a competitividade e assim - não há nunca falta de imaginação para embrulhar ideias parvas em roupagem moderna - pelo que os centros de inspecção são privados.
Foi uma corrida: quem é que não quer um negócio com clientes cativos, margens garantidas e obstáculos à entrada? E hoje o país está felizmente coberto de pavilhões onde, uma vez por ano, o condutor vai rezar para que o inútil de serviço não note a avaria que sabe perfeitamente existir, e que não corrige porque, entre outras razões, os recursos lhe são sugados para alimentar um Estado insaciável que encara o cidadão, sobretudo, como contribuinte, se este tiver algo de seu, e o automóvel como uma vaca leiteira em qualquer caso.
Claro que essa benemérita associação de consumidores que dá pelo nome de DECO resolveu há anos levar um veículo com avarias ocultas à inspecção, e foram muitos os centros que as não detectaram; e claro que, com o tempo, os Centros evoluíram para departamentos do Fisco, como aqui candidamente se relata: há multas para quem deixar o amarelo das matrículas desmaiar.
Entrou nos usos e não se discute. Se todos os centros fechassem, por a inspecção deixar de ser obrigatória, teríamos manifestações em defesa dos postos de trabalho; gente indignada nas televisões e na opinião, a defender o que imaginam ser segurança rodoviária; e técnicos a brandirem estatísticas, demonstrando que, sem inspecção, uma percentagem significativa dos condutores, afectados de pulsões suicidárias, não cuidaria dos seus veículos.
Pois bem: uns quantos velhos, de longe em longe, circulam na autoestrada em contramão, e nas notícias entre sorrisos de comiseração; em geral andam muito devagar; e já não é o primeiro que se esquece do chapéu, ou de mudar de velocidade.
Isto não pode ser. E esta senhora vê aqui uma excelente oportunidade de emprego, para ela e as ilustres colegas. Para nos sossegar, adianta que o impacto de perder a carta de condução é, no caso dos idosos "mais uma perda das muitas que vão tendo, de forma natural, ao longo da vida".
Já estou daqui a ver o tipo de conforto que esta doutorada pode oferecer a uma mulher que tenha perdido o marido: ai sim? Mas olhe que ele estava num caco; ou a um senhor que tenha perdido o pai velhíssimo: olhe que ele já estava todo fodido.
Siga. E já agora, que está com a mão na massa (enfim, quase), conviria que não esquecesse que os novos também precisam de exames da sua especialidade: não têm eles notoriamente mais acidentes, e mais graves, do que os condutores de meia-idade? E as senhoras, na crise da menopausa, não verão as suas capacidades cognitivas um tanto perturbadas, com aqueles desarranjos hormonais todos? E os senhores de meia-idade, com frequência inclinados a suprirem, com a aquisição de potentes descapotáveis, o vigor físico que vai faltando?
Bem vistas as coisas, além do exame médico, acaba por ser necessário o exame psicológico, para ter carta de condução. E um e outro com pequenos prazos de validade, que hoje está-se na plena posse das faculdades mentais e físicas, e amanhã concorda-se com estes disparates.
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