Pergunta-se: Podemos razoavelmente esperar que as grandes empresas se abstenham de usar o seu poder de influência para que os poderes públicos as ajudem a combater a concorrência, ou adquirir vantagens ilegítimas, quando aquelas dispõem de consultores, especialistas, advogados, marqueteiros, lobistas, cujo papel é precisamente influenciar as decisões de quem as pode, consciente ou inconscientemente, ajudar?
Não, não podemos. Os consultores e fornecedores não servem, nem têm que servir, o interesse público, servem o interesse de quem os paga e contratou. E mesmo que nos processos decisórios não haja corrupção, no sentido comum da palavra, a obrigação de quem administra uma empresa não é dar aulas de lucidez ao mercado, defender uma qualquer visão particular do bem da comunidade ou, menos ainda, adoptar comportamentos que, prejudicando a empresa, beneficiassem porventura esta ou aquela categoria de cidadãos.
Não. Nos limites da lei e dos costumes (enfim, com excepções, as realidades costumam resistir a que se as definam em duas ou três frases), o grande patrão defende o interesse próprio primeiro, o dos accionistas depois, e o dos trabalhadores e fornecedores na medida em que o possa casar com os dois primeiros e o imponha a sustentabilidade da empresa.
Não tem que ser assim, claro: se a grande empresa for de propriedade pública não há conflito de interesses, porque o proprietário da empresa é quem define o interesse público. Mas isto, que parece resolver um problema, cria outros maiores: a concorrência, que era justamente o que o patrão antigo queria mitigar, desaparece de vez - e com ela a necessidade da sobrevivência, que explica o esforço para o progresso, a inovação e a produtividade.
De empresas com pouca ou nenhuma concorrência nós, em Portugal, temos vasta experiência; e de concorrência de pacotilha, supervisores cegos e sem dentes, e captura dos poderes públicos para defesa de interesses privados, também.
Desta nada invulgar história tiram-se muitos ensinamentos. Um deles, que é o que escolho, é lembrar que já temos uma polícia, a ASAE, cuja missão é também impôr legislação que não saiu dos órgãos políticos que nos demos ao trabalho de eleger, mas de burocracias anónimas que não respondem perante ninguém, muito menos perante as pessoas a quem se servem doses massivas de propaganda em nome da saúde pública, da segurança, da protecção da Natureza, do combate ao aquecimento global, da poupança energética, do catano - e da UE.
Nós temos muito menos variedades de queijo do que a França, embora estejamos igualmente servidos de asneirol. Mas poderíamos ter sempre a esperança de remediar alguns dos nossos males em mudando os responsáveis. Mas isso serve de quê, se entretanto importamos os males dos outros?
Blogs
Adeptos da Concorrência Imperfeita
Com jornalismo assim, quem precisa de censura?
DêDêTê (Desconfia dele também...)
Momentos económicos... e não só
O MacGuffin (aka Contra a Corrente)
Os Três Dês do Acordo Ortográfico
Leituras
Ambrose Evans-Pritchard (The Telegraph)
Rodrigo Gurgel (até 4 Fev. 2015)
Jornais