"O público não está devidamente informado, apesar dos esforços dos técnicos e da informação acessível em sítios electrónicos como o da DGS" – diz Savonarola. "Sem boa saúde não há boa economia e as desigualdades acentuam-se", acrescenta. E, para coroar um longo repositório de opiniões que poderia ter a bondade de reservar para o seu círculo de amigos, baseia-se num estudo australiano, outro do Crédit Suisse, um relatório da ONU e um estudo inglês. A estas fontes acrescenta o Banqueiro Anarquista, de Pessoa, que julga ter percebido.
O próprio resume, triunfante, a meio da sua redacção: "O Governo, no seu todo, é responsável pela saúde da população".
Não vou lembrar que estudos há aos montes, para demonstrar tudo e o seu contrário, em matéria de política de saúde; e que, mesmo que nos malefícios deste ou daquele comportamento a maioria, ou até a totalidade, dos "estudos" seja concordante, conviria que o impetuoso frade entendesse o facto básico de os cidadãos terem, numa sociedade democrática, direito a que o Estado não interfira nos seus comportamentos quando estes não ofendam direitos de terceiros.
Não, secretário de uma figa, o Governo não é responsável pela minha saúde - o responsável sou eu. Se eu fumo, se bebo, se como demais, se abuso nas sobremesas, se não faço exercício, as consequências recaem antes de mais sobre mim. E se vamos fazer contas ao que isso pode custar ao teu querido SNS, convém demonstrar que os impostos sobre os vícios não são já rendosos para o Estado; sem esquecer que, aberta a porta ao poder deste para interferir na vida privada do cidadão, não há limites ao que é capaz de fazer em nome hoje da saúde, amanhã do civismo, depois no gosto em arquitectura, em espectáculos de qualidade, e no mais que se lembre quem detém circunstancialmente um poder efémero e se imagina pastor - e fiscal - da comunidade.
Estas coisas são perigosas, antes de mais porque uma vez instalada a burocracia para tratar da felicidade dos povos, ela própria se encarrega de justificar a sua existência, alargar o seu poder, e tornar-se difícil de desinstalar sem dor, muito para lá do esquecido controleiro social que a fundou.
Ah, e antes que esqueça: Pessoa, que não tem culpa de ser lido por qualquer um, fumava como uma chaminé e gostava de copinhos de genebra. Tens a certeza que, sem esses vícios que os seus modestos recursos lhe permitiam - e que hoje, possivelmente, não poderia pagar - teria produzido a mesma obra? Eu não. Mas, lá está, dirás decerto que, se tivesse sido o novo homem que, como todos os totalitários, achas que deve nascer, teria escrito mais, durante mais tempo.
É por isso que és perigoso: a fé é perigosa quando se arroga a si mesma o direito de ser imposta.
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