Domingo, 7 de Janeiro de 2018

Selfie

2018-01-07 Bocage.jpg

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno.

 

Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura,

De zelos infernais letal veneno.

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

Eis Bocage, em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou cagando ao vento.

 

Não era bem isto que eu queria dizer.

Já fui magro, mas há uns dez anos que deixei de ser. Os olhos nunca foram escuros, mas azuis também nunca foram, mas sim de um tom meio indefinido entre o castanho e o verde. E o carão é tão branco como o de uma donzela de mil oitocentos o picos. E, para ser sincero, dou mais crédito a quem me acha bonito do que a quem acha que faço figuras tristes. Ou que sou triste de figura. Sou talvez metido comigo, mas quando interajo com as outras pessoas até me tomo por cortês e simpático. O nariz não é alto no meio, mas também não é pequeno.

Os pés, bate certo.

A altura agora, que a juventude cresce sem parar por causa das farinhas que lhes misturam no leite, até é meã, mas quando cheguei à idade adulta era um bocado acima da média. Tive até ao bilhete de identidade que tive que fazer após o casamento actual aos trinta e nove anos um metro e setenta e nove, o que já não era pouco, e quando o renovava o funcionário ou funcionária do Arquivo de Identificação não se dava ao incómodo de me voltar a medir, confiante que já tinha parado de crescer, mas este funcionário que mo fez depois do casamento, ou por desconfiar que podia não ter parado de crescer, ou por outro motivo qualquer, mediu-me de novo e atribuiu-me finalmente a marca de um metro e oitenta, que nos meus tempos de criança era tão mítica como os dez segundos nos cem metros.

O mais propenso ao furor do que à ternura é um boato que circula nas redes sociais. Os meus detractores acusam-me de ser convencido, com a mania que sei tudo e que os outros são tapadinhos, um arrogante insuportável, para resumir. E o facto de ser confessadamente neoliberal não me ajuda a limar esta imagem tão angulosa. Os que não desengraçam comigo mas não me conhecem pessoalmente agarram-se a indicadores estatísticos para atribuírem uma probabilidade não negligenciável à hipótese de eu ter mau feitio e ser conflituoso. Que bloqueio muita gente no Facebook, e normalmente em público, ou que sou bloqueado, é verdade que por vezes chego a ser desbloqueado por quem me bloqueara antes, mas atribuo isso mais às boas referências que os mais tolerantes dão de mim do que a qualidades intrínsecas que desaconselhem a continuação do bloqueio. Eu não estou completamente de acordo com estas apreciações, acho que sou até bastante tolerante e cordato, chego a considerar-me encantador, tenho é a fatalidade de, por razões que nunca cheguei a perceber, atrair chatos, que confesso que até tenho algum gosto por chatear, e que tomam por objectivo na vida indignarem-se com as minhas opiniões e exteriorizarem essa indignação, o que muito me honra, mas no meu mural, e eu acho que têm toda a legitimidade para fazer as peixeiradas que quiserem na casa deles, mas na minha não estou para as aturar e acabo por lhes fechar a porta. Em resumo, eu até acho que, além de bonito e inteligente, sou encantador.

À insinuação das mil moças só tenho que responder que a gentleman never tells, de modo que cada um que faça a fantasia que lhe apetecer, mas de mim nunca vai ter nem uma confirmação nem um desmentido.

E a de só amar os frades no altar é uma generalização abusiva da minha falta de capacidade de ter Fé, porque não sinto geralmente animosidade para com quem a tem, nem um apelo irresistível de fazer da sociedade mais laica do que a medida certa, nem também o de escorraçar os fiéis de algumas confissões religiosas minoritárias porque alguns dos seus seguidores são pouco recomendáveis.

A parte do talento é discutível, pelo que não vou abrir uma frente de discussão a propósito dela, as verdades que deixei aqui são mesmo verdades, e o resto também deixo à imaginação dos leitores.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 02:53
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3 comentários:
De Makiavel a 7 de Janeiro de 2018 às 20:43
Parei de ler quando esbarrei com "cincero".
De Manuel Vilarinho Pires a 8 de Janeiro de 2018 às 00:27
Já pode continuar. Obrigado pela revisão de texto.
De Peneda/Soajo a 7 de Janeiro de 2018 às 22:10
"O senhor ganhou 925 mil euros no ano passado. Um trabalhador do Estado que ganha 600 euros tem de trabalhar 128 anos para ganhar o mesmo. Tem de viver três vezes para ganhar o que o senhor ganhou num ano".
Este foi o desabafo do invejoso do deputado do BE José Soeiro na audição a Francisco Lacerda, administrador dos CTT.
Conclusões:
1 - O invejoso só sabe da vida dos trabalhadores do Estado. Não sabe quanto ganham os outros.
2 - O invejoso só sabe que um trabalhador do Estado vive uma média de 42 anos.
3 - O invejoso não sabe quanto tempo vive um trabalhador que não seja do Estado, nem de quantos anos precisa um trabalhador que não seja do Estado para ganhar 925 mil euros.
4 - O invejoso não diz porque é que tem que ganhar seis vezes mais do que um trabalhador do Estado.
5 - O invejoso não diz porque é que um trabalhador do Estado tem de viver seis vezes mais do que ele para ganhar o que ele ganha.
6 -O invejoso é um grandessíssimo filho da puta.

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