As mulheres, hoje, quase nunca sabem cozinhar, digo-o como quem enuncia um facto, não como quem quereria que o tempo voltasse para trás, senão nem precisava de sair do meu grupo de amigas para ter que pôr caneleiras e capacete.
A razão é simples: a Grande Guerra provou que, no mundo do trabalho, elas, que ficaram a substituir a carne para canhão que foi para as trincheiras, se desenrascavam igualmente bem, o que a II Guerra confirmou. E faltava assim apenas a pílula, que as libertou de um rancho de filhos, para, no início da década de 60, estarem reunidas as condições para darem um pontapé na dependência económica dos maridos, na escravatura das tarefas domésticas e na sociedade patriarcal.
Houve as sufragettes, a luta pelo voto, outras coisas muitas ainda, hoje há quem queira discriminações positivas a favor da igualdade entre os sexos no que toca a salários e postos de trabalho (uma reivindicação tola porque assenta no pressuposto de que os patrões são idiotas que, podendo contratar mulheres baratas, preferem contratar homens caros), no que toca a lugares no aparelho político, no comando das empresas, nos outros lugares de chefia, na educação das crianças e em todas as situações e estatutos em que estejam, ou pareçam estar, sub-representadas, condicionadas na sua liberdade ou menoscabadas nos seus direitos.
É natural que o pêndulo da história, que tanto tempo esteve inclinado para um lado, se incline agora para o outro, e não será decerto nos meus dias que se encontrará um ponto de equilíbrio; e, de resto, os exageros reivindicativos a que se assiste pela malta das causas, predominantemente de esquerda, soam com frequência ridículos, quer por confundirem igualdade de direitos com negação de diferenças (que, graças à divina Providência ou às leis da Biologia, existem), quer por, na maior parte do mundo, e desde logo nas sociedades muçulmanas, nem sequer a igualdade dos direitos dos dois sexos perante a Lei estar assegurada.
Mas adiante, que este post não é sobre o movimento de libertação das mulheres, nem sobre sexismo, nem sobre o uso ou não de soutiens e outras matérias controversas e apaixonantes.
Do que eu quero falar é de bacalhau.
Dantes, cada região tinha a sua tradição culinária, e o depositário principal dessa tradição era a dona de casa, que passava o segredo da confecção às filhas, que o perpetuavam. Os homens da casa serviam de provadores, confirmando, pela voracidade do apetite, o apuro do prato, ou pelo desabafo irritado - este bacalhau está uma pilha! - a dificuldade da demolha. Com senhoras da alta, de fino trato, e que por isso não faziam a ponta de um corno, a tradição passava pela cozinheira, mulher do povo, e o resultado era igual - alguém aprendia.
A tradição caseira está moribunda, e a única possibilidade de sobreviver passou para o restaurante. E lá poderá talvez, se as crianças aprenderem a gostar (a parte principal do gosto, e a mais duradoura, fixa-se nos verdes anos), perdurar se a cozinha de autor, a internacional, a estrangeira, a fast e a do empreendedor que quer enriquecer com uma cadeia de lixo alimentar moderno não a sufocar.
Isso é uma das condições, e das incógnitas. Mas há outra, que é a da qualidade do bicho propriamente dito. Fosse eu adepto da intervenção do Estado e recomendaria a preservação das formas tradicionais da preparação, antes da comercialização, através de gorda despesa pública, como se faz com o lince da serra da Malcata, neste caso propinando subsídios através de um qualquer Instituto para a Preservação da Seca do Gadídeo.
Mas não sou. E nisto como noutras coisas ao Estado peço que não estrague, que já faz muito.
É por isso que não se pode ler esta notícia sem indignação: O pescado em causa encontrava-se exposto ao meio ambiente, sobre passadeiras de redes para seca, não cumprindo assim, os requisitos legais de armazenamento e transformação, conforme estipulado em regulamento próprio.
Ó deuses, já não nos bastava essa organização terrorista que dá pelo nome de ASAE, agora a GNR compete no ramo do fascismo higiénico? Há um regulamento próprio para a seca do bacalhau, é? E o crime consistia em "estar exposto ao meio ambiente"?
VV. Ex.ªs puseram este escarro na tradição, no senso e no gosto na vossa página na Internet, sob a epígrafe "UMA FORÇA HUMANA, PRÓXIMA E DE CONFIANÇA".
Humana sê-lo-á, na medida em que a estupidez o é; próxima também, porque, por causa do trânsito automóvel, está por toda a parte; agora, de confiança? Da confiança dos louros legisladores que, em Bruxelas, vão sufocando toda a diferença, sem dúvida; da legião de cobardes, indiferentes, oportunistas, ignorantes e inconscientes que transpõem acriticamente a legislação, também; mas, dos apreciadores de bacalhau - não.
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