Laurence J. Peter não estava, mas poderia estar, a pensar em Rui Rio quando inventou o princípio que leva o seu nome.
Rio foi um excepcional presidente de câmara, muito melhor do que quem o precedeu, quem veio a seguir e qualquer das nódoas que têm ocupado a mesma cadeira na capital, incluindo os dois velhacos que por lá passaram em estágio para a presidência da república um e para a chefia do PS e do governo, o outro.
Saneou as contas do município; hostilizou os bonzos da cultura, tratando com desprezo e arrogância a parasitagem dos subsídios; e pôs o capo local do futebol no lugar que a ele, e aos seus colegas dos outros dois grandes, naturalmente compete.
Fez isso ganhando eleições, com o que provou que não é preciso lisonjear nem a gente da cultura nem a do futebol nem a da comunicação social para o conseguir, desde que o eleitor acredite na seriedade de propósitos e na capacidade de os realizar. Convém ainda, para conseguir o primeiro mandato, que o antecessor não tenha caído no goto do munícipe, como era o caso no Porto de 2002.
Mas isso é nas eleições concelhias, nas nacionais outro galo canta: a quase totalidade dos eleitores depende, directa ou indirectamente, do Estado, para que este os sustente, lhes arredonde o fim do mês, ou lhes crave mais ou menos bandarilhas no lombo sofrido de contribuinte; e qualquer ignoto secretário de Estado tem mais poder no dedo mindinho para beneficiar ou prejudicar um grupo de cidadãos no país do que o senhor presidente da câmara, com o corpo todo, para fazer o mesmo num município.
No tempo já decorrido desde que Rio tomou conta do PSD quem tinha ilusões perdeu-as: o homem tem como ambição atrelar o PSD ao PS, com o meritório propósito de afastar da governação os pés comunista e demente do tripé geringôncico; e conta com os seus quadros, e a sua reputação de seriedade e de apreciador de contas à moda do Porto, para fazer um segundo lugar honroso numa coligação centrista, e ganhar créditos para um primeiro nas eleições seguintes.
É pelo menos o que diz gente subtil. Sucede que mesmo que o PSD não fosse, como sempre foi, um saco de gatos dos quais uma parte, a melhor, tem anticorpos anti-PS; mesmo que na giga-joga da baixa política Costa não fosse um cinturão negro, contrastando com a alvura do de Rio: o país não pode ter esperança de romper com a situação deprimente da sua dependência dos juros artificiais que o BCE garante, da sua dívida pública que resiste tenazmente a qualquer redução sustentada, do seu Estado que não se reforma e faz a economia crescer poucochinho, não obstante o bodo dos fundos europeus e a sorte grande do turismo, enquanto o PS, e o resto da esquerda, não fizerem um estágio na oposição de pelo menos dois mandatos, e idealmente uma geração.
Resumamos: o PS é parte do problema, não da solução. E portanto é errada qualquer estratégia de contemporização, Rio é um líder a prazo, e quem não for socialista de raiz, ou não comprar o paleio demagógico do virar a página da austeridade e o resto da propaganda com que o PS pinta de cor de rosa a dança do país à beira do abismo pode fazer melhor do que abster-se, e votar no CDS.
Entretanto, não vem mal ao mundo se Rio se lembrar de acertar uma, e foi esse o caso com o estudo “Uma política para a infância”. O texto não chega a 90 páginas e o palavreado escusava de ser em oficialês, mas tem gráficos que o aligeiram e não escamoteia mas pelo contrário ilustra convincentemente a bomba-relógio demográfica em que nos deixamos acantonar.
Tencionava comentar o documento medida a medida e abalancei-me, Deus me perdoe, a ir lá atrás ver o abono de família, o digno avô dos apoios aos pais com filhos – convém ter uma perspectiva histórica para tudo. E encontrei um precioso estudo, de 2009, de um Gabinete de História Económica e Social, que se lê bem e desfaz algumas ideias feitas sobre o assunto, a começar pela data do primeiro abono – 1942. Mas entretanto calhou ler nesta notícia do Eco que “o financiamento deste projeto acontecerá por via de ganhos de eficiência no sistema de educação até porque ‘as crianças que têm um bom início têm uma menor probabilidade de repetir o ano”; e pouco depois, nesta notícia do Observador, o próprio Rio esclarece que não faz a menor ideia de onde vai buscar os 500 ou 600 milhões de euros que a coisa custa por ano.
E perdi a vontade de sequer pensar muito no assunto. Porque o problema do inverno demográfico é grave e merece estudo e medidas. Mas o do endividamento do país ainda é mais e prometer às pessoas resolver seja que problema for sem o casar com os constrangimentos da dívida é transformar as eleições em leilões de bens emprestados.
De resto, como os prometidos apoios são até aos 18 anos de idade, conviria ter a certeza de que o país não vai falir pela quarta vez nesse período, porque das anteriores o Estado não hesitou em cortar no que se estimava adquirido, via inflação nas duas primeiras e via cortes propriamente ditos na última.
Ora, para fazer leilões de bens furtados, como é o caso quando se prometem coisas a uns e se agravam impostos a outros; e para acrescentar à moscambilha bens a crédito, suposto que haja quem o conceda, já temos o PS, que é o artigo genuíno. Não precisamos de um sucedâneo.
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