
O problema do nepotismo no exercício do poder em democracia não reside apenas na violação evidente da ética republicana que constitui ao criar uma classe social nova, a da família, dos amigos, da família dos amigos e dos amigos da família do detentor circunstancial, e numa democracia republicana todos os poderes são exercidos circunstancialmente pelos seus detentores circunstanciais, do poder.
Reside no facto de a concentração do exercício do poder num grupo de gente muito mais restrito do que numa democracia sem nepotismo, uma famiglia alargada, fazer do mundo visto pelos que lá estão dentro muito mais homogéneo do que o mundo visto pelos que cá estão fora.
O que limita irremediavelmente dois factores determinantes para a socialização, seja de crianças em idade de jardim-escola, seja de governantes, a diversidade de role-models disponíveis para inspirar as atitudes e comportamentos de cada um no seu processo de crescimento, formação e integração, e a diversidade de valores dos membros do grupo no seu papel de se fiscalizarem mutuamente.
Um bocado na linha do que acontece nas redes sociais, onde parece haver evidências estatísticas suficientemente significativas para sustentar a tese de as redes de cada um tenderem dinamicamente a perder diversidade e a tornar-se mais homogéneas ao longo do tempo, por cada um tender a manter contactos mais frequentes com aqueles que mostram valores e opiniões mais próximos dos seus, e por isso cada um vai construindo dinamicamente um mundo onde os seus valores e opiniões parecem prevalecer e ser representativos do mundo alargado, e a deixarem-se enganar por essa ilusão de óptica, dentro de um governo muito homogéneo todos podem cair na tentação de acreditar que os valores do mundo homogéneo onde vivem são representativos dos do mundo cá de fora, de onde vivem crescentemente isolados pela homogeneidade do grupo.
Se numa aldeia recôndita de África onde nunca entrou um homem branco, se é que ainda as há, algumas crianças opinarem que os brancos são racistas, as que não têm opinião formada sobre o assunto e nunca viram um branco não têm razões ponderosas para duvidar da plausibilidade da asserção, e é natural acreditarem nela. Se numa aldeia mais isolada do interior, se é que ainda as há, os frequentadores do café opinarem que os muçulmanos vêm para a Europa para nos violarem as mulheres, os outros que nunca privaram com um muçulmano não têm motivos para desconfiar da plausibilidade da asserção, e é natural acreditarem nela. Ou os participantes de grupos do Facebook onde circulam notícias da alt-right a assegurar que os países do Centro e do Norte da Europa estão em estado de sítio com territórios já ocupados por extremistas islâmicos e explicam uns aos outros que os mainstream media só não dão essas notícias para as esconder.
Ou se os governantes de um governo de família e amigos disserem uns aos outros que é normal aceitarem bilhetes para a bola e que, se não lhos oferecerem, os devem pedir para não ficarem a chuchar no dedo enquanto os outros vão ao estádio à borla, os outros não têm razão para desconfiar da virtude do conselho e colocar a hipótese de, no mundo cá de fora, o pedido poder ser visto como censurável e desencadear suspeitas de troca de favores. Ou um duplex na Avenida da Liberdade ou nas Avenidas Novas. Ou mesmo no Chiado ou nos Champs Élysées.
Portanto, um dos riscos do nepotismo é a tendência para os membros do grupo instalado no poder se imitarem mutuamente, resultante da falta de referências éticas baseadas nos valores preponderantes na sociedade de que vivem isolados pela homogeneidade no seio do grupo, e também da pressão do grupo sobre o indivíduo para não ser otário e aceitar as oportunidades que a vida lhe coloca à disposição, e até de fazer por elas se elas não lhe baterem à porta espontaneamente. Se necessário, retribuindo os favores com pequenas atenções, que de qualquer modo não lhe saem do bolso a ele, mas a nós.
No domínio da pedagogia estes riscos são conhecidos e determinam a tendência para aumentar a diversidade na escola, juntando nos mesmos grupos crianças de origens sociais, culturais e étnicas diferentes.
No da governação no regime socialista actual, em que o governo é formado por um número reduzido de famílias, amigos, famílias de amigos e amigos da família, e o resto do Estado colonizado pelos que não couberam no governo, não.
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