Não é possível não gostar de Adriana, que "não acredita em partidos, nem no dinheiro - o dinheiro só gera maus sentimentos, só gera ódios". E o impulsivo abraço dela, com sorte e quando a poeira assentar, ficará como imagem de marca da manifestação do dia 15: temos sempre espaço para a ingenuidade, a juventude, os impulsos e o improviso feliz.
Infelizmente, era de dinheiro que se tratava: o que foi e não devia ter sido gasto e por quem, o que foi e não devia ter sido emprestado, quem paga, quem recebe, como se paga, se é que se paga ... dinheiro, só dinheiro.
E partidos, só partidos: pode-se criar um partido - o do interesse nacional, por exemplo - para acabar com os partidos, mas há grupos de pessoas com ideias diferentes sobre o que seja o interesse nacional e essas pessoas, se se organizarem, fazem ... partidos.
A realidade é uma detestável maçada. E pode às vezes ser grotesca: por exemplo, na manifestação podia ter participado este senhor. E não o fez porquê? Mas não se está mesmo a ver? Por decoro, diz o próprio.
Diz bem. Porque estando nós em estado de zanga permanente uns com os outros por causa do que se gastou e é preciso pagar, e sendo ele um dos tenores do "pr'á frente é que é o caminho", só poderia participar com a cara enfiada num tacho.
E isso, realmente, não teria muito decoro.
Margaret Thatcher começou a cair por causa da poll tax - os colegas de partido tiraram-lhe a cadeira porque nenhum partido político permite, conscientemente, que o seu líder o enterre. A poll tax não podia ser engolida pelo eleitorado britânico, tal como o aumento da TSU para os trabalhadores, em conjunto com a redução para as empresas, não pode ser engolida pelo eleitorado português. Não pretendo discutir os méritos da poll tax, que existem, nem da redução da TSU, que também existem. Mas também há argumentos a favor da poligamia (e da poliandria, já agora) e nem por isso um governo sensato decide remover do Código Penal a criminalização da bigamia. Nenhum governo pode, mesmo que tenha, ter razão contra a razão das pessoas, porque os governos, em regime democrático, dependem delas - e não o contrário.
Como foi que Thatcher pisou essa mina, que ela própria colocou, é para mim um mistério. E como na cabeça de Passos, ou de quem gizou o disparate, germinou a ideia peregrina de diminuir os salários líquidos dos trabalhadores, e ao mesmo tempo a contribuição dos patrões, desafia o entendimento. Não há políticos no Governo?
Com uma pitada de vindicta pessoal, e possivelmente outra de encomenda do Presidente da Republica, é a esta luz que devem ser vistas as declarações de Manuela Ferreira Leite: quando um líder claudica, a oposição interna vem ao proscénio oferecer-se para salvar a Pátria em perigo. Manuela deu assim o seu contributo ao sucesso da manifestação de ontem, e não terá sido muito pequeno.
Todavia, convém que haja, no meio da excitação geral, algum discernimento: a maior manifestação nos tempos recentes teve lugar em 5 de Junho de 2011, e deixa a de ontem num canto envergonhado: mais de cinco milhões de pessoas na rua é obra. E mesmo que os quase três milhões que então compraram o Poder actual já não sejam tantos, em caso de esboroamento os herdeiros nunca seriam nem os bons dos comunistas, que ontem andaram disciplinada e discretamente a ajudar, nem os indignados profissionais da agremiação de Frei Anacleto. Seria o PS, com Seguro ou outro qualquer socialista que se tome por predestinado, provavelmente o edil Costa (um ou outro, aliás, sólidos como uma rocha - o poder de distribuir lugares faz maravilhas pela unidade).
Não é credível que na cabeça de um socialista pudesse nascer a ideia do aumento/redução da TSU. Naqueles privilegiados crânios nascem recorrentemente visões de futuros gloriosos através de investimento público, "apostas" na educação e na modernidade, grandiosos projectos tecnológicos, apoios à indústria "virada para o futuro", e iniciativas dinâmicas sortidas, tudo coisa de custos certos e resultados improváveis.
A prazo, e bem curto, a perspectiva duvidosa de regresso aos mercados transformava-se na certeza de uma impossibilidade; o crédito um tanto humilhante do bom aluno transformava-se no descrédito do caloteiro; e as manifestações ordeiras e pacíficas de ontem tornavam-se na barafunda do desacato e da bastonada, senão pior.
Pensando bem, a manif, pelo que teve de manifestação autêntica de desconfiança dos políticos todos, pode ter contribuído para abrir aquelas cabeças de apparatchiks da economia de Excel: teóricos da economia querem-se na universidade, nas revistas da especialidade e nas colunas de opinião. No Governo querem-se políticos, gente que sabe que a Política é a arte do possível, está preparada para o desprezo geral e conhece os limites do viável.
Porque, se não conhecerem, outros virão. E será tarde para o povo se lembrar do ditado popular: atrás de mim virá quem de mim bom fará.
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