Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016

Os professores

Coisa surpreendente entre nós são aquelas pessoas que circulam no espaço público opinativo e que, não obstante a tenaz repetição da vacuidade das suas ideias, e a periódica revisão dos seus pontos de vista para os adequar aos ares do tempo, disfrutam de um geral apreço.

 

O exemplo por antonomásia desta variedade de notabilidades é Marcelo: não deixa obra jurídica que valha, nunca ninguém lhe ouviu uma opinião que não fosse uma banalidade, um dito que ficasse pela sua originalidade ou justeza, uma análise que o futuro tivesse revelado clarividente, uma escolha política que fosse além das jogadas florentinas em que toda a vida se desdobrou... nada. E tendo chegado pacificamente a presidente da República, e dando todos os dias o espectáculo torpe de lisonjear a costela portuguesa choramingona, pedinchona e sentimental, dá a sua caução a uma provável débâcle do país, que depois não saberá explicar - Marcelo do futuro não sabe nada, e do passado pouco mais.

 

É caso único, no sentido de sempre ter tido uma vasta corte que lhe bebeu as charlas hebdomadárias, e hoje se deslumbra com a sua hiperactividade. Mas com plateias mais restritas há outros inexplicáveis exemplos de carreiras de sucesso: Adriano Moreira é tido por especialista de direito internacional, analista da política planetária e depositário de um saber feito de cultura, estudo, reflexão e experiência de vida.

 

Sucede porém que - caso estranho - nem escrever sabe. E debalde se procurará no emaranhado dos seus textos algum fio condutor que nos conforte numa ideia clara sobre qual é exactamente o problema de que está a falar, e qual a solução que defende. A gente percebe que há ali um problema e que são necessárias reformas. Mas qual o problema e quais as reformas, isso, Adriano nunca se dá à vulgaridade de explicar claramente.

 

Exagero? Consideremos a frase inicial deste artigo: "O desaparecimento de Fidel Castro produziu os juízos sobre a intervenção na vida do seu país e sobre as consequências que respeitam às relações internacionais que são baseadas na inegável importância dos efeitos e marcas deixados na época em que assumiu o poder, e o exerceu longamente, em Cuba".

 

O que é que esta merda quer dizer, Nossa Senhora? Que Fidel morreu e que a sua vida teve importância, é isso? Ah bom, e daí? Daí, continua Adriano: "Quando era esperado que na chamada Pequena Cuba, a comunidade de cubanos que habitam, trabalham e encontraram futuro pessoal em Miami, se manifestassem, até com maior excitação do que mostraram quando abandonou o poder, o que os noticiários acentuaram é a moderação dos ajuntamentos de exilados, e dos seus descendentes já americanos, e que estes foram já conhecendo maiores liberdades de ir e voltar à ilha pátria".

 

Temos portanto que em Miami não se fez tanto barulho como se poderia esperar, e que os noticiários não assinalaram o barulho que não houve, além da novidade de os descendentes dos foragidos de Cuba serem americanos. Imagina-se que este facto extraordinário nos deva ser caro ao coração, visto que a mesma coisa sucedeu aos descendentes dos nossos compatriotas que para lá emigraram, e já agora a todos os outros descendentes de todos os outros emigrantes de todos os outros países.

 

E vão dois parágrafos sem dizer absolutamente nada, o que possivelmente aguçaria o apetite para os restantes.

 

Não saímos defraudados, porque na continuação temos direito ao prato de resistência. Reza assim: "A serenidade, com firmeza, é recomendável nas circunstâncias desafiantes de mudança, e a morte de Fidel é sem dúvida, do ponto de vista das emoções, mais desafiante, porque não é sobretudo o passado que se extingue, é o desafio de construir um futuro ocidental que será exigente, requerendo criatividade, ativa política de reconciliação entre as fações, um trabalho que vai exigir generosidade, aos que sentiram a recusa de cidadania e humanidade, e sobretudo aos que assumiram a necessidade de salvaguardar outros valores, que pareceu lembrada na histórica visita de João Paulo II, em que vimos, nos documentários, um Fidel Castro que parecia lembrado da circunstância galega de origem, e da reverência em relação ao pontífice".

 

A serenidade com firmeza é de facto recomendável para navegar, não nas "circunstâncias desafiantes da mudança" mas neste amontoado de lugares-comuns pedantes: O "desafio de construir um futuro ocidental"? Mas qual desafio qual quê? Ou Cuba se torna numa democracia ou não. Se sim, não será decerto por evolução do regime; se não, talvez possa imitar o capitalismo chinês ou vietnamita, numa versão adaptada. Ou poderá tentar ficar na mesma, até que alguma coisa suceda que faça cair o regime - as ditaduras não são eternas. Haverá decerto quem sobre isto tenha algumas ideias e as defenda com argumentos. Mas não haverá quem se lembre de ver na visita do Papa, e na reacção do velho farsante Fidel, outra coisa mais do que uma habilidade de um regime decrépito para concitar apoios. E a "circunstância galega" de Fidel é de rir: eu também tenho uma devoção especial pelo deus Larouco, decerto pelas minhas origens célticas.

 

Depois, vêm as citações de autores obscuros para fundamentar um bosquejo histórico onde os americanos são, como era de prever, os maus da fita. E, a fechar, numa arrojada invocação do abade Correia da Serra: "O próprio abade Correia da Serra, tão esperançoso da evolução futura do continente, teria dificuldade em enfrentar o processo em curso, e encaminhá-lo, como é exigido pela justiça e pela paz, para o regresso geral ao aceitamento dos princípios da ONU, em pousio, dos princípios da Declaração Universal de Deveres, nunca aprovada, e para a contenção do complexo militar-industrial, que angustiou o diálogo de Eisenhower com o presidente Juscelino, este que teria hoje outras patrióticas preocupações".

 

Quanto ao aceitamento dos princípios da ONU (não sabemos se por parte das autoridades americanas se das cubanas, Adriano deixa-nos nessa dúvida excruciante), esse organismo fatal pelo qual imagina passarem todas as soluções, estou em condições de sossegá-lo: agora que Guterres vai estar ao leme, aquelas nações que tripudiarem em cima dos princípios encontrarão adversário à altura; e quanto ao complexo militar-industrial também podemos ter alguma esperança - afinal o complexo em questão nunca colocou obstáculos a que ditaduras comunistas evoluíssem para outros regimes.

 

Desejo sinceramente que Adriano Moreira continue por muito tempo a brindar-nos com as suas análises. E tenho nisso um interesse egoísta porque, na ordem natural das coisas, é de prever que abandone o número dos vivos antes de mim. E tremo só de pensar no que dirão, ao longo de uma semana, os que lhe fingem entender os artigos e subscrever as ideias. Marcelo, ao menos, percebe-se o que diz, além de ter a enorme superioridade de para liquidar os seus inimigos, e promover a sua imagenzinha, não invocar a ONU.

publicado por José Meireles Graça às 01:47
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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2015

Conde de Moreira

"Mas, repito-o, era um avaro intelectual que não gostava de fazer a esmola de uma ideia. Não o censuro, pois é sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu génio às grandes questões sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual – sempre que diante dele se falava de assuntos políticos – ouvi-lo murmurar soturnamente:
– Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões! Questões terríveis!"

 

Já ninguém fala de pauperismo. A palavra caiu em desuso, decerto porque pobreza toda a gente sabe o que é, e pauperismo nem por isso. Depois, está provado que nos podemos todos entender com um léxico de 70 palavras, donde porquê complicar? É certo que a palavra "prostituição" poderia ser igualmente substituída - por "putedo", conforme lembrou recentemente o camarada Arnaldo Matos. Mas a designação de "puta" tem uma inegável carga pejorativa, razão pela qual as pessoas verdadeiramente modernas preferem a perífrase "trabalhadora do sexo" (com grande impropriedade, consta-me, porquanto muitas senhoras que exercem a profissão tendem a oferecer apenas o merecimento dos autos, trabalhando pouquíssimo quando em exercício - mas sobre isto não há trabalhos de campo credíveis).

 

A palavra "pauperismo" caiu em desuso mas o problema, infelizmente, não. E, para o resolver, os comunistas e as pessoas com bons sentimentos, com perdão da redundância, têm uma receita infalível: tira-se aos ricos; dá-se aos pobres; e ficam todos remediados. E vozes liberais têm outra solução, que tem aliás sido seguida, consistindo na globalização, a qual tem tirado milhões da miséria e atirado milhares para o desemprego - mas não nos mesmos lugares.

 

Quer dizer que nisto já não somos condes d'Abranhos: conhecemos os problemas e temos as soluções - apenas não nos entendemos sobre quais elas sejam.

 

O conde morreu, então?

 

Que nada - anda por aí. Mas modernizou-se: os problemas são inúmeros, mas convém embrulhá-los em citações, que sempre o leitor julgará que erudição e sabedoria são a mesma coisa; de preferência, profundos, não vá julgarmos  que percebemos o mundo que nos rodeia; e quanto a soluções, nada, que já não é pequeno esforço identificar o problema, era o que mais faltava dizer como remediá-lo.

 

Por exemplo: Não faltam analistas a discutir, ou a inquietar-se mais silenciosamente sobre a questão de saber se o Estado, imaginado segundo os valores ocidentais, ainda é a forma de governar, por vezes sugerindo que pelo menos é necessário reformar o Estado.

 

Com os analistas que se inquietam silenciosamente podemos nós bem - os incontinentes verbais é que não nos deixam sossegar. E, realmente, os valores ocidentais, para efeitos de definir o que é um Estado, parecem uma coisa francamente obsoleta: por mim, encararia favoravelmente o governo por um comité de sábios interestelares; mas, como a vida noutros planetas ainda se nos não revelou, veria com bons olhos a reforma do Estado, ainda que essa ciclópica tarefa só seja sugerida "por vezes".

 

Vamos lá então: e como se reforma o Estado? Não se pode, porque temos que "começar por reformar a ONU, para, com coerência, poder reformar o Estado".

 

Há por aí gente que julga que Eça não criou personagens intemporais.

publicado por José Meireles Graça às 21:46
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Sábado, 5 de Abril de 2014

Cantemos!, diz o senhor

A idade é um posto, e logo quanto maior a idade maior o ranking e maior o respeito. Costuma ser assim, e por mim não está mal que assim seja.

 

Quando a idade é realmente provecta, então, é costume não responder a casos de incontinência verbal, dando um silencioso desconto - é o que hoje muitos fazem com Mário Soares, incluindo os seus embaraçados correligionários.

 

Adriano Moreira, porém, está perfeitamente lúcido, e exprime-se nos antípodas do seu antigo adversário - onde um é chão e primário o outro sofisticado e jesuítico. Tanto que a mim, que o ouço há anos, já me aconteceu perguntar aos meus botões: mas ele está a dizer o quê, ao certo? E o que é que defende?

 

Mas não dizem, hoje, coisas muito diferentes, pelo menos na invectiva. Nesta entrevista, AM caracteriza assim o momento actual: Volvidas quatro décadas de democracia, Portugal está governado por um "neoliberalismo repressivo", focado no "ataque ao Estado social" e que justifica tudo com a "resposta simples" de que "não há dinheiro".

 

"Não há dinheiro" é realmente uma resposta simples, e pior do que isso um facto simples, mas para que passe a haver o que propõe o ilustre professor? Ora bem, sugere não "lançar os princípios pela janela". A gente a julgar que ia sugerir, como o PS, resolver o problema com a Europa rica, ou expropriar os ricos, como deseja o PCP, ou cortar nas gorduras do Estado, como reclamam muitos desencantados, mas não: em tendo princípios que se não atirem pela janela fora a situação financeira tende a aliviar. Pessoalmente, estaria interessado em conhecê-los, mas suponho que, como não os enuncia, são evidentes para quem os tenha, e ignotos para os outros - nos quais me incluo.

 

Portugal está hoje numa situação que "talvez não tenha precedente na vida europeia", e, para "animar a população portuguesa no sentido de recuperar um futuro com dignidade", é preciso dar-lhe "esperança", prossegue o ilustre catedrático, para grande perplexidade dos paisanos. A frase é, para dizer o mínimo, enigmática: a Grécia, que tem um passado ainda mais ilustre do que o nosso, está numa situação que não invejamos; e nós, no nosso passado europeu (?) tivemos, além de um parto difícil, a crise de 1383-85, a de 1580 e a de 1892, ou a I República, com a sua participação na Grande Guerra, et j'en passe.

 

Prossegue a entrevista, entrando com determinação numa salada de grelos:

 

"Por um lado, parece que temos alguma culpa no cartório - a democracia produziu "efectivamente um grande desenvolvimento" e "o modo de vida aproximou-se da Europa", porém a "espécie de engenharia imaginosa financeira" que se lhe seguiu resultou numa "evolução muito má (…) até chegar a esta crise global". Quando se esperava a denúncia dos autores destas maldades, o Professor admite que Portugal "sempre dependeu de apoio externo", e que essa dependência instalou "vícios" no país. Caído o Muro de Berlim e com ele a divisão entre o modelo ocidental e o comunista, restou o "neorriquismo e a tónica passou a ser gastar mais do que as disponibilidades", resumiu.

 

Ou seja, a Europa, desaparecido o inimigo comunista, começou a gastar à tripa forra: Gorbatchov, com aquelas frescuras da glasnost e da perestroika, acabou por criar aqui, no extremo oposto do continente, um grande problema; e, embora todos tenham gasto o que não tinham, uns países estão em crise e outros não. É subtil, a análise.

 

Finalmente - e, com Adriano Moreira, é raro - entra-se no domínio das soluções. Transcrevo integralmente esta parte da notícia, que é luminosa:

 

'É muito difícil dizer quem é o mais responsável. Eu acho que somos todos responsáveis', frisou, insistindo na importância de definir 'um conceito estratégico nacional', o que implica um 'consenso' alargado e que todas as diferenças se subordinem 'a um conjunto de objetivos e valores que unem a comunidade', em vez de contribuir para 'os desafectos, por exemplo, pondo os velhos contra os novos, pondo os reformados contra os activos'.

Para o académico, esse conceito deve privilegiar a relação de Portugal com o mar e defender 'uma situação de igualdade na comunidade das nações' e de 'dignidade nas relações entre os países'.

A aposta na educação e nas instituições é outra das propostas de Adriano Moreira. 'A investigação e o ensino são matéria de soberania, não são matéria de mercado', sustenta".

 

Trocando por miúdos: Quem defendeu o tratado de Maastricht, ou o de Lisboa, e quem não defendeu; quem gastou como se não houvesse amanhã, e quem denunciou o facto; quem tentou travar as "apostas" e quem as promoveu - são todos igualmente culpados; comunistas, socialistas e estes "neoliberais repressivos", quem assinou e quem não assinou o MoU, os pobres e os novos pobres, vão todos dar as mãos, levantando os olhos ao Altíssimo e cantando O Freunde, nicht diese Töne!, num arranjo de Fernando Tordo; os velhos guardam as suas reformas, os novos tê-las-ão em devido tempo, os emigrantes regressam, os cortes anulam-se, e vamos todos para o mar - de canoa.

 

Tenho amigos que acham este homem um génio.

publicado por José Meireles Graça às 13:48
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