Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2019

Revolucion y muerte 3

E se um dia os funcionários públicos no activo e aposentados se aperceberem que no novo modelo de gestão implementado pelo governo António Costa os beneficiários da ADSE já estão representados nos orgãos de gestão da instituição que é integralmente sustentada pelas contribuições deles por representantes dos sindicatos e organizações de reformados que concorreram a representá-los numa eleição para a qual nenhum outro grupo de funcionários tinha estrutura nem logística para se organizar e montar uma candidatura, e nenhum apresentou nenhuma, e em que só 2,2% dos beneficiários votaram?

E se se aperceberem que os representantes, em teoria deles mas na prática escolhidos pelos sindicatos e organizações de reformados, estão lá, não a defender os seus interesses, a sua saúde a e sua vida, mas a tentar concretizar na ADSE a agenda ideológica das organizações que lá os colocaram, de erradicação dos privados do sector da saúde para chegar ao socialismo, pelo menos na saúde, com um modelo de SNS exclusivamente público?

2019-02-14 Eugenio Rosa.jpg

E se se aperceberem que o membro colocado no Conselho Directivo da ADSE pela CGTP em representação deles até se gaba no seu blogue, onde retrata os prestadores de cuidados de saúde privados como associações de criminosos organizados para se apropriarem indevidamente do dinheiro dos associados da ADSE, de os representantes dos beneficiários, de que ele é o membro mais proeminente e poderoso por integrar a direcção, terem sido determinantes para forçar a gestão da ADSE a impôr aos privados com contrato de convenção com a ADSE o processo de regularizações, em que depois de ao longo dos anos facturarem a ADSE pelos serviços que prestaram aos beneficiários pelos quais eles apenas pagaram taxas moderadoras lhes pede posteriormente reembolsos milionários imprevisíveis, que está a conduzir à rescisão das convenções que eles têm comunicado oficialmente nos últimos dias?

2019-02-14 Eugenio Rosa blogue.jpg

E se se aperceberem que, por perderem a possibilidade de recorrer a prestadores de cuidados de saúde privados ao abrigo das convenções que lhes possibilitam pagar apenas taxas moderadoras comportáveis no momento da prestação e passarem a ter de pagar integralmente os cuidados, e alguns cuidados de saúde são incomportáveis para a capacidade de tesouraria mesmo de muita classe alta, para depois solicitar o seu reembolso parcial à ADSE, ou seja, vão passar a pagar mais, adiantar o custo integral, e nos casos não tiverem meios de o fazer terão que desistir de se tratarem num privado e que se conformar com as listas de espera do SNS público?

E se se aperceberem que o PCP, que está a ser levado para a cova pelo governo António Costa por lhe ter assegurado a sustentação parlamentar e, ao fazê-lo, ter prescindido do seu papel de alternativa à esquerda aos socialistas pelo que os seus eleitores podem passar a votar no PS sem qualquer consequência substancial, neste caminho para a cova está determinado a levar com ele os funcionários públicos destruindo-lhes, porque actualmente ela é deles, a ADSE? E que o governo socialista, em parte porque tem que alimentar a aliança com os bloquistas que lhe permitirá continuar a governar sem conquistar maioria nas eleições, mas em parte também porque os socialistas predominantes na orientação política actual do partido estão ideologicamente mais próximos da extrema-esquerda dos bloquistas do que da raiz ideológica original de socialismo democrático do partido, são bloquistas que ingressaram no PS porque dentro do PS a carreira política era mais promissora do que nas seitas de extrema-esquerda onde militavam antes ou poderiam militar, não está a fazer nada para o evitar?

E se, apercebendo-se do que lhes estão a tirar, em vez de esperarem pelas eleições para manifestar ordeiramente a sua discordância com a perda dos direitos que tinham, sem ter de os mendigar a ninguém por serem eles que os pagavam, se virarem à paulada, metafórica, aos governantes, sindicalistas e dirigentes de associações de reformados que colocaram a gerir a ADSE gente com o objectivo de extinguir a única utilidade que a ADSE tem para eles e justifica a contribuição de 3,5% do salário, o acesso a cuidados de saúde no sector privado em prazos e com qualidade aceitáveis que o SNS não lhes garante?

Os governantes, sindicalistas e dirigentes de associações de reformados agredidos metaforicamente irão para a bicha do centro de saúde da residência para se tratarem no público, ou vão ao privado?

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:17
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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2019

Revolucion y muerte

Desde que na legislatura anterior as contribuições dos funcionários públicos para a ADSE passaram de 1,5% para 3,5% dos salários a ADSE passou de sub-sistema de saúde reservado a privilegiados parcialmente financiado pelos contribuintes a seguro de saúde integralmente suportado pelas contribuições dos utentes.

Continuou no entanto a ser um instituto público gerido pelo governo e, como tudo o que é gerido pelos governos, a acumular as atribuições que lhe são atribuídas por lei com a condição de instrumento das políticas do governo que está.

Na saúde o governo que está é assumidamente de esquerda, e não há nada que o comprova melhor do que a pergunta retórica feita pela ministra da saúde Marta Temido aos jornalistas quando a questionaram, na apresentação da proposta da nova Lei de Bases da Saúde, se desvirtuava pela esquerda a proposta elaborada pela Comissão da Revisão da Lei de Bases da Saúde presidida pela antiga ministra socialista, anterior presidente do PS e candidata presidencial não apoiada pela direcção actual do PS, Maria de Belém Roseira, "Então mas este não é um Governo de Esquerda?". É.

2019-02-10 Marta Temido.jpg

E o que é uma política de esquerda para a Saúde? É uma política que garanta a todos os cidadãos, mesmo aos que não têm meios para os suportar, cuidados de saúde adequados, dignos e humanos? Não, isto pode ser o enunciado de uma política de Saúde de alguém que se considera de esquerda como eu por conter o termo definidor "...garanta a todos os cidadãos, mesmo aos que não têm meios para os suportar...", mas não é uma política de esquerda. Política de esquerda para a Saúde é evoluir no sentido da ambição de um Sistema Nacional de Saúde exclusivamente público, em que qualquer Euro pago a prestadores privados é um Euro desviado dos prestadores públicos para os privados e, portanto, desperdiçado, mesmo que esse Euro consiga assegurar a prestação pelos privados de serviços que em prestadores públicos custaria mais do que custou nos privados.

E porque ambiciona a esquerda um SNS exclusivamente público que pode sair, e sai sempre, mais ineficaz e mais caro, e presta cuidados de saúde piores do que um SNS que garanta o acesso universal a cuidados de saúde prestados por quem é mais capaz de os prestar com a qualidade requerida ao custo mais baixo, mesmo que sejam prestadores privados? Seja porque as raízes ideológicas de onde brotam lhes dizem que tudo o que é privado é perverso e ganancioso e só quer obter lucros sem se preocupar com a saúde dos doentes, seja porque os sindicatos preferem negociar com patrões públicos a quem o dinheiro não sai do bolso e que são sempre impedidos de falir pela boa obra dos contribuintes, seja pelo raio que os parta, ou pela puta que os pariu como diria qualquer minhoto de cepa, a esquerda está-se nas tintas para os doentes, que trata como meras vítimas colaterais na batalha contra os privados que trava no âmbito mais geral da guerra ao capitalismo.

Nesta guerra contra os privados a ADSE é um irritante, como gosta de dizer o primeiro-ministro. Porque os funcionários públicos se quotizam e pagam contribuições do bolso deles apenas para terem a possibilidade de acesso a prestadores de saúde privados, porque aos do SNS já eles têm acesso tendencialmente gratuito como todos os cidadãos. Enquanto houver ADSE há centenas de milhares de utentes dispostos a pagar para terem acesso a cuidados de saúde privados, mesmo depois de financiarem com os seus impostos o SNS público.

E para os impedir de frequentar os prestadores de saúde privados e com essa preferência manter um negócio de saúde privado só há uma de duas alternativas: melhorar o SNS público tanto que os utentes da ADSE criem a percepção que não vale a pena pagar mais para terem o acesso aos prestadores privados; ou rasgar a ligação entre a ADSE e os prestadores privados de saúde.

A primeira alternativa seria uma solução óptima, não só porque desoneraria os funcionários públicos das contribuições actuais para a ADSE de 3,5% do salário por passarem a ter acesso a cuidados de saúde de qualidade satisfatória sem qualquer custo adicional, mas porque os cuidados de qualidade satisfatória estariam acessíveis a qualquer cidadão, mesmo aos que não têm meios para pagar um seguro de saúde nem são funcionários públicos com direito à ADSE. Mas não existe no domínio das possibilidades, porque a tendência tem sido justamente de degradação dos níveis de serviço do SNS por falta de capacidade da gestão pública de os manter, quanto mais melhorar.

A segunda é a única que resta para implementar uma verdadeira política de esquerda na Saúde.

Para a levar a cabo o governo alterou o modelo de gestão da ADSE, agora integralmente financiada pelas contribuições dos beneficiários, de modo a integrar nos seus orgãos de gestão representantes dos beneficiários, o que tem todo o sentido. E quem se candidatou a representar os beneficiários da ADSE nos seus orgão de gestão? Como é óbvio, quem estava suficientemente organizado para preparar uma candidatura, os sindicatos e as associações de aposentados. Numa eleição onde participaram 2,2% dos beneficiários da ADSE foram eleitos  representantes dos beneficiários comunistas e socialistas para os diversos orgãos de gestão, desacando-se o economista comunista Eugénio Rosa no Conselho Directivo.

Assegurando a gestão por representantes do governo, dos sindicatos e das associações de aposentados, todos movidos pelo mesmo objectivo ideológico de fazer evoluir o SNS para um sistema exclusivamente público, a ADSE te-se dedicado a impor aos prestadores privados condições tão leoninas que passem o limite do inaceitável, e já estão a obter os resultados desejados, com a ameaça de três grupos privados, Luz, José de Mello Saúde e Hospitais Particulares do Algarve, de rescindirem as convenções que mantêm com a instituição. Neste processo de guerra aos privados tem participado a esquerda parlamentar que já convocou a ministra, a direcção da ADSE e os representantes dos utentes, ou seja a esquerda extra-parlamentar, para irem esclarecer o parlamento sobre a "chantagem dos hospitais privados".

Entretanto, o grupo José de Mello Saúde formalizou o anúncio da suspensão da convenção com a ADSE nos hospitais CUF a partir do dia 12 de Abril, mantendo a ameaça de a rescindir definitivamente se a ADSE mantiver a sua posição negocial actual de não negociar. A suspensão da convenção, nos termos da qual os utentes apenas pagam taxas moderadoras quando recebem cuidados de saúde do prestador privado que depois factura a instituição para receber o resto do preço da prestação convencionado, obriga os utentes a recorrerem ao sistema de reembolso, em que pagam ao prestador o preço integral da prestação e depois pedem o reembolso parcial à instituição. Como exemplo para perceber a diferença para os utentes, numa cirurgia sem grande complexidade mas com anestesia geral e um dia de internamento isto significa deixarem de pagar algumas centenas de euros de taxa moderadora para passarem a adiantar alguns milhares de euros enquanto não recebem o reembolso parcial da intervenção. Se tiverem disponibilidade para adiantar esses milhares de euros. Se não tiverem, podem-se sempre fazer tratar no SNS.

Os funcionários públicos estão portanto de parabéns pelo governo que alterou o modelo de gestão da ADSE para incluir representates dos utentes e pelos comunistas e socialistas que estão lá a representá-los em nome dos sindicatos porque mais ninguém estava organizado para se candidatar. Vão ficar sem convenção nos Hospitais CUF e outros se seguirão. Daqui por uns tempos, quando quiserem uma consulta de especialidade irão às cinco da manhã para as filas do Centro de Saúde da sua área de residência para conseguirem uma consulta do médico de família que lhes passará uma guia para marcarem a consulta de especialidade num hospital e, com sorte, em dois ou três anos serão finalmente consultados pelo especialista, se ainda estiverem vivos. Isto por apenas um desconto adicional de 3,5% no salário.

Votem nos socialistas, deixem-nos continuar a sua revolução contra o sector privado e sejam carne para canhão.

 

PS: O Grupo Luz Saúde também anunciou o fim da convenção com a ADSE a partir de 15 de Abril. E a ADSE já anunciou que conta com o sector social, os hospitais das Misericórdias, para compensar o fim das convenções com os privados. Deixem-se estar quietos, deixem, deixem-nos continuar a fazer a revolução socialista, e o Senhor que tenha misericórdia de vós.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:01
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Domingo, 15 de Maio de 2016

Gestão bolivariana

Quando o governo anterior aumentou a contribuição dos funcionários públicos para a ADSE para 3,5%, tornando o sub-sistema exclusivamente financiado pelas contribuições dos utentes e originando um excedente das contribuições relativamente às despesas, o Partido Socialista denunciou o aumento como desnecessário e excessivo, "um autêntico imposto". Parte da estratégia neoliberal de empobrecimento dos portugueses, está de ver.

Mal chegaram ao governo, e dando corpo à nova estratégia socialista de devolução dos rendimentos aos portugueses, os socialistas chegaram mesmo a avaliar a possibilidade de reduzirem as contribuições para a ADSE, que a sindicalista Ana Avoila propunha repôr nos 1,5%. Mas acabaram por deixar ficar quieto.

Apenas seis meses depois de terem começado a governar, e com a capacidade de gestão que lhes é universalmente reconhecida, os socialistas já se vêem forçados a cortar benefícios aos utentes para evitar o descalabro financeiro da ADSE em poucos anos. Gerido por eles, o desconto de 3,5% deixou de ser excessivo e passou a ser insuficiente para assegurar a sustentabilidade financeira da instituição a médio prazo. E não só o rendimento não foi devolvido aos portugueses, como vão passar a ter menos benefícios pelo mesmo abatimento ao rendimento. Típico da gestão socialista.

Mas, neste caminho que ficou gravado a pedra na Constituição, e apesar dos avanços entretanto conquistados, como já sermos governados por quem perde as eleições, ainda estamos longe de chegar ao verdadeiro socialismo. É irmos aproveitando os pequenos prazeres do capitalismo, enquanto podemos. Quando lá chegarmos, teremos de nos limpar às notas do Escudo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:41
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014

Assistência no Delírio aos Servidores da Esquerda

Este cavalheiro é o mesmo que se declara a favor da extinção da ADSE; que é um defensor intransigente do Serviço Nacional de Saúde; e que goza de grande prestígio, suponho que merecido, por ter conseguido dirigir uma instituição, o Hospital de S. João, que "recuperou o amor próprio".

 

Vem-nos agora dizer que o SNS  “está falido” e que tudo indica que “a despesa vá crescer” nos próximos anos, por causa da inovação terapêutica e da demografia.

 

Isto quando o Ministro da Saúde goza de um prestígio que não bafejou nenhum dos anteriores, devido às muitas iniciativas para melhorar o funcionamento da gigantesca máquina da saúde pública, racionalizando meios, efectuando cortes, perseguindo abusos, enquanto luta contra uma oposição comunista, treteira ou demagógica.

 

Falhará, o Ministro. Não se verá o falhanço porque quem o suporta dirá sempre, com razão, que se não tivessem sido tomadas medidas a situação seria pior; e os novos cortes na despesa impor-se-ão com a naturalidade do inevitável, mesmo que seja o PS a decidi-los, enquanto a tralha comunista continuará a esbracejar contra a má gestão do capitalismo, que não permite alocar do Orçamento do Estado fatias crescentes para a Saúde, a Educação, a Paz, a Habitação e o mais que diz a canção.

 

Outro ministro virá, menos trabalhador e capaz; e vícios velhos ressurgirão, e novos nascerão. Porque nunca um sistema público, onde ele possa ser privado, foi competitivo: falta-lhe a concorrência e as falências, o egoísta interesse individual e privado e a relação cliente/fornecedor.

 

A futuramente defunta ADSE assentava num princípio simples: o beneficiário escolhe o médico e o estabelecimento; o Estado suporta, para cada acto médico, até xis; e o beneficiário paga a diferença. Nunca ninguém apurou, que eu saiba, se o serviço seria realmente deficitário no caso de o Estado pagar sobre os salários dos seus trabalhadores o mesmo que o sector privado paga. Admitindo porém que ainda assim o fosse, poder-se-ia diminuir à comparticipação do Estado, até ao equilíbrio. E é claro que o doente não teria direito a assistência quase gratuita nos estabelecimentos públicos, que aliás pode e poderia sempre escolher.

 

Mas não: Santo Arnaut, que está no seu altar em Coimbra, inventou o sistema perfeito, um exemplo para o mundo boquiaberto; o sistema alinha com orgulho uma série de reais triunfos; e, não fosse preciso fazer contas, as vitórias poderiam continuar.

 

De corte em corte, chegar-se-á ao ponto em que o estabelecimento público será grátis apenas, e nem isso, para quem não pode pagar o serviço. Como sempre deveria ter sido.

 

Os entusiastas do SNS, da esquerda à direita, queixar-se-ão amargamente de que a economia não cresce - ai!, que se ela crescesse dávamos tudo, saúdinha da boa; e continuaremos a ter, no papel, uma saúde igual para todos, com o Cerbero constitucional de guarda ao texto sagrado.

 

É como as outras vitórias socialistas: até à derrota final.

publicado por José Meireles Graça às 16:03
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Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

Assistência no Delírio aos Servidores da Esquerda

Pessoas apreciadoras de quem não as merece ofereceram-me em tempos um seguro de saúde. Os seguros de saúde tresandam a seguradoras e bancos, e dá-se o caso de a minha experiência de vida me ter feito chegar à conclusão que as companhias de seguros são quadrilhas de ladrões, sob a supervisão de uma entidade que, como as outras destinadas a impedir abusos, garantir transparência e assegurar a concorrência, não faz nada disso; já os bancos, por outro lado, são associações de malfeitores dirigidas por pessoas que, se o mercado fosse deixado funcionar e o Estado não interviesse, teriam o estatuto de desempregados, por terem arruinado as instituições que dizem servir (igualmente sob a supervisão de uma outra entidade pública, esta dirigida por invisuais pagos a peso de ouro).

 

Quer dizer que, teoricamente, não deveria apreciar a prenda. Mas as coisas apenas são más ou boas em relação a outras do mesmo género. E no género saúde a alternativa, que é a conquista de Abril que dá pelo nome de SNS, é uma abominação, por significar filas de espera, impressos, papeladas, abusos e descasos de toda a espécie e, sobretudo, completa ausência de liberdade de escolha - para além da gigantesca malbaratação de fundos que numerosos ingénuos julgam poder ser corrigida a golpes de decretos, portarias, circulares, instruções e reclamações. Isto sem falar do negro destino que está reservado ao mastodonte, que pôde crescer e melhorar espectacularmente a saúde da população da qual cuida apenas porque durante décadas ninguém foi obrigado a pensar se o País pode oferecer cuidados a toda a gente, quer tenha quer não tenha recursos, e fazê-lo através de um corpo de funcionários públicos.

 

O meu médico, que me atura desde que o anterior, seu pai, morreu há décadas, é um daqueles que por dá cá aquela palha quer exames, análises e consultas de especialistas. E, sem nunca ter estado seriamente doente, e evitando aliás a classe médica com algum empenho, adquiri, sobretudo por interpostas pessoas, uma vasta experiência de hospitais, casas de saúde, clínicas, pessoal e organização, tudo na perspectiva de utente e cliente.

 

Tenho assistido à polémica em torno da ADSE com pasmo: que a esquerda não a veja com bons olhos está na ordem natural das coisas - a liberdade que tem o beneficiário de escolher o estabelecimento e o médico contraria frontalmente o princípio universal e igualitário do SNS; que os sindicatos da função pública estejam abençoadamente calados, ou aqui e além esbocem algum tímido apoio à ADSE entendo - podem, à boleia da defesa dos interesses dos trabalhadores, fazer passar de contrabando a agenda do PCP, mas não podem contrariar aqueles interesses de forma demasiadamente óbvia; e que o Governo fira o sistema, não sabemos se mortalmente, também percebo - o estatismo tem os seus cultores em todo o espectro partidário, e, pior, na esmagadora maioria do eleitorado.

 

Mas que na comparação entre os custos para o contribuinte de um sistema e outro se parta do princípio que, se a ADSE fosse extinta, a parte dos custos não coberta pelos descontos seria poupança, como se o acréscimo de afluxo de doentes ao SNS não custasse nada - isso não alcanço; e que, à direita do espectro da opinião, se defenda a extinção da ADSE porque custa - se custa, até nisso há dúvidas - dinheiro ao contribuinte, sem curar de apurar se não seria possível eliminar a punção fiscal preservando a liberdade que os funcionários públicos ainda têm - oh la la, temos a burra nas couves.

 

Gostaria por isso de acreditar nas declarações de Manuel Teixeira, na parte em que diz: “A vantagem da ADSE é constituir-se como um ‘germe’ de seguro público de saúde, garantindo liberdade de escolha ao beneficiário relativamente ao prestador de cuidados de saúde”.

 

Pois sim: mas, para já, qualquer funcionário pode optar por não pagar a ADSE; mas não pode optar por não pagar, como contribuinte, o SNS. Já o não funcionário pode, como eu, optar por guardar do SNS prudente distância, mas continua a ter que o sustentar. E, tendo pago a uma seguradora o prémio; tendo pago a um estabelecimento privado a diferença entre o que o seguro cobre e o que não cobre; e não tendo gasto um cêntimo ao erário público - nem por isso pode deduzir, nos impostos que paga, a totalidade do que suportou.

 

Grande baralhação, que tem um único fio condutor: pense-se o que se pensar, diga-se o que se disser, vote-se em quem seja, tudo no fim fica bem desde que se seja socialista.

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publicado por José Meireles Graça às 20:26
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

A liberdade abaixo de tudo

 

Correia de Campos foi odiado enquanto Ministro da Saúde: andava por aí a encerrar maternidades e postos de saúde, para desespero das populações locais, esquerdistas em geral e gente preocupada com a desertificação do interior e os pergaminhos das terras.

 

Já o antecessor, Luis Filipe Pereira, também não saiu em odor de santidade: um e outro tinham um grande respeito pela obra do Santo conimbricense Arnaut, mas não eram inteiramente alheios ao facto de o SNS, embora com existência imorredoira garantida pela Constituição, reclamar um módico de racionalidade - afinal a coisa é sobretudo financiada por impostos e estes têm uma desagradável tendência a não serem tão elásticos como a procura de saúde a golpes de química, cirurgias e baixas médicas.

 

A extremosa Ana Jorge, pediatra de formação, veio sossegar os espíritos com o expediente de pouco fazer para além de dar aulas magistrais na televisão sobre como lavar as mãos, a fim de evitar epidemias de gripe. Nos intervalos das lições de puericultura encontrava ainda tempo para dizer coisas sobre o seu pelouro, que se me varreram da lembrança. Suponho que seja lembrada com ternura.

 

Correia deixou a impressão mais duradoura. E em obediência ao princípio "atrás de mim virá quem de mim bom fará" não é surpreendente que encontre audiência simpática para se aliviar das suas opiniões. Acha, por exemplo, que a única "coisa boa" que o actual sistema de saúde dos funcionários públicos tem é a "livre escolha".

 

A ADSE, realmente, tem esta coisa boa: a livre escolha. Mas Correia não lhe atribui grande importância, preocupando-se antes com as coisas más que o sistema tem, das quais a principal é "não ser integrado". Este defeito misterioso e fatal parece consistir no facto de o doente andar a saltar de médico para médico, sendo vítima de armadilhas: se tem um cancro e cai nas garras de um cirurgião, faz de chofre uma operação; mas se o médico for um daqueles que fazem quimioterapia (não sei a designação da especialidade, esta parte ouvi na Sic-N), zás - faz quimioterapia primeiro.

 

Confesso que fiquei perplexo: as clínicas privadas são pelos vistos um covil de patifes - a vigarice começa logo na fase inicial do tratamento. E os funcionários públicos são notoriamente mentecaptos: vão à faca ou não vão dependendo do primeiro que aparece.

 

A troika terá recomendado o fim deste e de outros subsistemas - não fui conferir, tenho mais que fazer do que espiolhar documentos chatos.

 

Mas ocorre-me lembrar que os credores não estarão, nem têm que estar, muito preocupados com a saúde dos cidadãos, mas sim com o que ela custa ao erário público. E se demonstradamente a ADSE custasse mais do que o SNS (do que aliás duvido) o que haveria a fazer seria reduzir as comparticipações do Estado, aumentando os descontos para o efeito (actualmente 1,5%, convindo não esquecer que o funcionário adianta a totalidade do custo do acto médico e não ocupa o pessoal e instalações públicas, para o sustento dos quais todavia contribuiu com os impostos gerais). No limite, dar aos próprios funcionários o direito de opção por um ou outro sistema.

 

Mas não, os funcionários não sabem o que lhes convém - Correia é que sabe. E não hesita em atiçar o resto da população contra os funcionários - malditos, que têm o direito de escolher, uma coisa francamente desprezível; e obrigam o Orçamento a transferir recursos para a ADSE - como se o que o que o SNS poupa por não ser usado não devesse fazer parte da comparação de custos.

 

Comme quoi, entre Correia, que toma os funcionários por idiotas, e Ana, que toma os cidadãos por juvenis, não há um mundo de diferença, a despeito das aparências.

 

Declaração de interesses: Não sou funcionário público e não uso o SNS.

 

publicado por José Meireles Graça às 23:21
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