Salvador Massano Cardoso é um médico e professor que quase diariamente relata casos do que se chama quotidiano, às vezes numa toada pessoal e intimista, num blogue cujos colegas se dedicam sobretudo ao comentário sobre economia e política - se é que estes dois assuntos não são apenas um.
Fá-lo de forma invariavelmente cordata. Mas hoje zangou-se e intitulou um post "FDP".
Lida a história, eu iria pelo extenso - filhos da puta indeed.
Sucede que as operadoras têm um supervisor, a ANACOM. A consulta ao sítio desta entidade é um exercício fascinante: Só o organograma já impõe respeito - Direcções são 10, de entre as quais a que se dedica à gestão do espectro (com delegações nos Açores e na Madeira), uma actividade com contornos, para os leigos, vagamente sobrenaturais, e a Direcção de Informação a Consumidores, sem dúvida destinada a industriá-los nas artes do yoga, para lhes reforçar a paciência; depois, sob a epígrafe Áreas Temáticas, há uma secção, entre mais de duas dúzias, denominada Oferta do Lacete Local (OLL), um propósito que se afigura, aos meus olhos leigos, altamente suspeito; e não podia faltar o espaço destinado a reclamações, onde não se pede o número de cartão de cidadão, decerto por lapso, mas se exige o número de contribuinte.
A julgar pela minha experiência, reclamar não vale a pena: o operador empata; a ANACOM finge que não está ao serviço dos operadores; e, no fim, quem for vítima de abuso fica com ele, se não tiver outro remédio.
Fui tentar descobrir quanto custa ao consumidor (horrível palavra) o estropício oficial e qual a sua dimensão - um trabalhão, a informação aparece diluída num documento de quase noventa páginas, recheado de entulho oficialês. Pois bem, as receitas previstas para 2014 são à volta de 69 milhões de Euros (pág. 78); as despesas com o pessoal quase 22 milhões (pág. 76); e empregados são 399, dos quais 248 quadros superiores (pág. 75).
Claro que a ANACOM deve servir para algumas coisas indispensáveis; e, se não existisse, algumas das suas atribuições estariam encaixadas numas quantas direcções-gerais. E deve ter ao serviço muita gente trabalhadora e capaz. Mas supervisor - não é.
Boa tarde Sra. Dra. xxxxx xxxxx.
Antes de mais, os nossos penhorados agradecimentos pela resposta, tanto mais devidos e penhorados quanto o tempo decorrido (mais de 6 meses) nos levou a pensar que esse serviço teria sido, no âmbito das reformas do Estado, extinto, ou teria havido óbitos ou outros imponderáveis que impedissem uma resposta tempestiva. Não foi, pelos vistos, assim, e pelo facto damos graças a Deus, no caso de todos se encontrarem de perfeita saúde, e à tróica, visto que a ANACOM ainda existe, para conforto dos clientes das operadoras de telecomunicações.
O incidente com a Vodafone foi já há algum tempo resolvido. Pedimos licença para narrar com indisfarçável satisfação o sucedido: Deu-se a feliz circunstância de, pouco antes de expirar o período de fidelização, a Vodafone nos ter abordado para efeitos de renovação de contrato. Significámos ao representante daquela prestigiada empresa a nossa relutância em renovar contratos com uma quadrilha de ladrões, ponto de vista porventura retórico e excessivo, mas que a Vodafone aceitou com equanimidade, visto que prontamente anulou os débitos que abusivamente vinha fazendo, tendo-nos creditado os que já havia feito e que foram objecto da nossa reclamação junto de VV. Exªs.
Tudo está bem quando acaba em bem. Não fora esse o caso e teríamos ainda que enviar cópias de documentação, conforme o que o e-mail de V. Exª agora nos diz. E essa obrigação causar-nos-ia algum embaraço, não porque a documentação não exista, mas por nos parecer que uma entidade de supervisão não tem que duvidar do que o consumidor lhe diz, o supervisionado é que tem que fazer prova de que o cliente está no torto, se estiver.
Mas, enfim, isto é mais uma peguilhice da nossa parte, reconhecemos. Onde iríamos parar se o Estado acreditasse, sem provas, no que dizem os cidadãos?
Renovando os nossos agradecimentos, aproveitamos para apresentar os nossos mais
Cordiais cumprimentos.
11 de Março de 2013
Exmos. Senhores:
Sobre o n/ e-mail abaixo, de 9 de Janeiro último, quer-nos parecer que já terá decorrido tempo mais do que suficiente para uma informação, a menos que VV. Exªs entendam que não têm obrigação de responder a uma empresa que apresenta uma queixa relativa a um operador que está sob a V/ supervisão.
Se for esse o caso, agradecemos no-lo digam, quer para que deixemos de vos maçar quer para ficarmos habilitados a protestar junto de quem de direito por sermos tratados com arrogância e descaso por uma concessionária de serviço público, ao mesmo tempo que o serviço de supervisão, que pagamos com os nossos impostos, age de modo similar.
Com, de cumprimentos,
Quanto baste.
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