Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

Paz à sua alma. As ideias estão vivas.

Este post de Samuel Paiva Pires tocou-me, apesar de não ser directamente dirigido para os lados do Gremlin. E fê-lo porque de facto hoje instrumentalizei a morte de um homem para avançar a minha agenda política.

 

Primeiro enfiei a carapuça e depois vi que não tinha de o fazer. Não tinha, porque penso que a melhor honra que se pode prestar a qualquer homem falecido é discutir as suas ideias que por enquanto e até prova contrária, são a única coisa que aqui fica, além dos justamente pesarosos familiares.

 

As ideias de um homem, se ele for capaz de as deixar vincadas nos contemporâneos e vindouros, serão o maior orgulho póstumo (se tal é possível) para alguém que já tenha partido. Sendo Borges um democrata, um homem da luz, das luzes e também do espectáculo, tenho razoável certeza de que a ele não incomodaria que usassem as suas ideias, mesmo na ocasião da sua morte, para discutir temas que lhe fossem caros. 

 

O assunto da permanência no euro era muito caro a Borges, como se pode constatar no artigo linkado e penso que, repetindo-me, ele gostaria que alguém discutisse o tema com base nas suas posições públicas.

 

A pura e simples comiseração, mesmo por um homem que não conhecemos, de um RIP ou de um "que a sua memória descanse em paz", não basta. Não é uma homenagem. Homenagear é considerar válidas "a posteriori" as suas ideias, a sua personalidade, e claro, discuti-las sem entrar no valor estritamente pessoal com juízos subjectivos emocionais.

 

Claro que houve mais aproveitamentos à esquerda e direita. Manifestações populares nas redes sociais com júbilo incluído, mas essas são "vozes de burro que não chegam aos céus", como bem saberia Borges e não sentiria mover-se-lhe um fio de cabelo, ao ouvi-las.

 

Vivo directamente a evolução da participação no euro em dois países e indirectamente nos restantes da zona. Tenho visto as dificuldades pessoais de milhões de pessoas em Portugal e Itália aumentarem quotidianamente sem fim à vista. Penso que pelo percurso que seguimos, uma vez que não seremos capazes de nos reformar (tal como explicado abaixo) iremos perder soberania. Quer isto dizer que ficaremos sujeitos ao arbítrio de pessoas, repito, pessoas, não estados que esses são uma abstração e necessariamente amorais, estrangeiras que não são nem melhores nem piores que nós. Apenas pessoas mais organizadas colectivamente e mais disciplinadas governativamente que passarão a decidir em aspectos muito importantes de nossa anterior independência.

 

Isto é muito grave, do meu ponto de vista. Gostaria de ter conhecido directamente Borges  e fazer-lhe algumas perguntas que naturalmente agora são impossíveis, mas poderei sempre interrogar a sua memória escrita, pois foi dos poucos defensores do euro em Portugal, capaz de esboçar duas ou três ideias em sequência lógica. Não é pouco.

 

Paz à sua alma e oxalá usemos muito do seu registo para nos interrogarmos sobre o nosso futuro e dos nossos filhos. 

publicado por João Pereira da Silva às 21:01
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O caminho dos homens é guiado pela esperança.

E não pelo derrotismo. No meu (i)modesto cantinho de dimensão não-comparável à de António Borges, discordo da sua esperança quase atávica no futuro do euro e aceito o derrotismo baseado na noção de que a moeda é um reflexo objectivo e não falsificável da nossa cultura e organização social. Como tal, não podemos partilhar a mesma moeda com alemães e restantes países norte europeus muito diferentes. Será eventualmente menos difícil transformar os alemães e núcleo duro do euro, em assistencialistas do sul, que tornar os europeus do sul em povos eficazes, eficientes e económica e politicamente disciplinados, contribuintes de modo positivo para uma moeda única forte. 

 

Dito isto, e desaparecido o homem ficam, se ele as tinha fortes e claras, as suas ideias. Este artigo de 2013 de António Borges deixou-me uma impressão de uma pessoa muito convicta, segura, inteligente e clara. Também demonstra como era um homem fortemente empenhado em nos salvar de nós-próprios e talvez por isso tenha gerado tantas incompreensões por parte de alguns barulhentos que escolhem viver no mundo das sombras e aparências simples. Provavelmente a melhor síntese portuguesa sobre a criação, situação do euro as origens da crise, suas causas e soluções. Ora recordem as ideias de um dos nossos. Ontem ficámos mais pobres porque perdemos uma voz de esperança. 

"António Borges: 
Como ultrapassar a crise 


Ao contrário do que por vezes se lê na imprensa, não falta solidariedade na Europa. Hoje, centenas de biliões de euros – na verdade, com o início de funcionamento do ESM, chegaremos a mais de um trilião – estão disponíveis para ajudar os países em dificuldade. Existe também já hoje um mecanismo extremamente poderoso para ajudar a financiar a dívida dos países em dificuldade, graças à disponibilidade do Banco Central Europeu em intervir no mercado de obrigações. Não é necessário mais nada para que os mercados se acalmem, os países possam ganhar tempo, as economias voltem ao equilíbrio.

O único obstáculo a uma saída rápida e segura da crise é que todo este impressionante arsenal está disponível com uma condição: que os países em crise ponham a sua casa em ordem. Não se pode pedir aos países fortes da zona euro – seja a Alemanha, a Finlândia ou a Áustria – que ponham à disposição o dinheiro dos seus contribuintes para que os países em crise continuem a praticar políticas irresponsáveis, se recusem a fazer os ajustamentos que são indispensáveis ou façam tudo o que podem para minar ainda mais a sua credibilidade nos mercados.

Aqueles que continuam a insistir que, quaisquer que sejam os erros e incompetências dos países em dificuldade, qualquer que seja a arrogância e tontaria dos seus governantes, os países mais ricos e fortes têm de continuar a financiar as economias da periferia, serão os verdadeiros coveiros da União Monetária. É que toda a Europa vive em democracia; e os eleitores revoltar-se-ão muito depressa se virem o seu dinheiro, que tanto custa a ganhar, servir apenas para financiar quem não se sabe governar."


O resto, aqui.

 



publicado por João Pereira da Silva às 07:38
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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012

Saber onde pisar

 

Havia no meu grupo de amigos da adolescência um moço, excepcionalmente simpático e excepcionalmente burro, que tinha um catálogo de frases engatilhadas para diversas situações. Por exemplo, para um chumbo numa cadeira, o falecimento de um conhecido, um furo num pneu, lá vinha a frase, sacramental: "Que queres? É a puta realidá!" (achava fino afastar-se do sotaque da terra e usar um outro, pessoal, que imaginava ser o de gente de outra criação).

 

Tinha razão o meu amigo: a realidade explica muita coisa. E tenho para mim que, se nos governos que temos tido houvesse mais gente a conhecê-la, muita asneira se evitaria.

 

Desde que o Estado moderno se afastou das suas funções clássicas e começou a ser visto como responsável pelo crescimento económico, o desemprego, o bem-estar, e a saúde, que quem legisla e decide devia saber bem onde põe os pés.

 

Não sucede assim - boa parte da actividade legislativa destina-se a corrigir defeitos de legislação anterior, a qual produziu efeitos perversos. E a nova legislação, o mais das vezes, apenas troca uns erros por outros, com frequência piores.

 

Isto deve-se ao perfil académico e profissional da maioria dos políticos e à competição feroz em que a actividade política é, e tem que ser, exercida: um político raramente vem das fileiras do empresariado e, se eleito, passa a gastar o seu tempo nos jogos de poder e da administração do seu pelouro, se o tiver. O capital de conhecimentos que tem sobre a realidade é o que tinha antes - e vai-o gastando.

 

As coisas são piores ainda: se o crescimento económico é a mãe e o pai de todos os benefícios, entender os mecanismos da criação da riqueza seria o conhecimento mais útil que um político poderia ter. Mas a experiência evidencia que sobre isto há a maior cacofonia: cada partido tem uma receita para o progresso material diferente, e até antagónica, da do vizinho. E isto significa que não podem estar todos certos; embora, desgraçadamente, possam estar todos errados.

 

Então, devíamos como eleitores privilegiar empresários e oferecer a chefia do Governo, por exemplo, ao Engº Belmiro de Azevedo, a das Finanças ao Sr. Américo Amorim e a da Economia ao Sr. Henrique Neto?

 

Não, de todo, a perspectiva de um tal governo gela o sangue mais fleumático: uma empresa não é um país; relações sociais não são relações laborais; gerir conflitos em democracia, e até em ditadura, não é a mesma coisa que geri-los na clausura e no despotismo esclarecido da boa empresa; sempre haverá oposição, dissensão, facadas nas costas e na barriga; e há as relações com outros estados, instituições internacionais e todo um mundo de diferenças, grandes e pequenas.

 

O que os decisores políticos fazem, sob pressão para tomarem medidas e debaixo dos holofotes e do ruído da opinião pública, é pedir conselho a especialistas. E como na ciência económica há igrejas, e dentro destas capelas, cada grande tendência ideológica rodeia-se dos seus clérigos e, se no Poder, segue-lhe os conselhos.

 

E é isso que, se cada um se puder abstrair de angústias e dúvidas sobre o futuro, faz estes nossos tempos tão interessantes: tirando os comunistas, que não têm dúvidas,  e os bloquistas, que são compagnons de route daqueles mesmo quando julgam não ser, nas hostes do PS para a direita lavra a confusão, as igrejas cindem-se, as capelas proliferam.

 

Os fiéis não estão mais seguros: este Vosso criado, por exemplo, deveria em princípio, nesta polémica, estar ao lado do Borges, de quem está mais próximo. Mas não, está ao lado do Amaral, de quem está mais afastado.

 

Não é que me incomode: lá está, tenho idade e experiência relevante. Se a modéstia não mo impedisse, chamar-lhe-ia sabedoria.

 

publicado por José Meireles Graça às 02:28
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