Terça-feira, 15 de Maio de 2018

O homem que sabia demais. E continua a saber.

2018-05-15 selfie Costa Marcelo.jpg

No tempo em que já tinha uma boa rede de conhecimentos na justiça portuguesa, já tinha sido Ministro da Justiça, mas ainda não era suficientemente cauteloso para evitar ser escutado a organizar crimes, o actual Primeiro-Ministro António Costa foi apanhado pela justiça a organizar uma conspiração para abafar um caso judicial que envolvia o camarada de partido e Deputado Paulo Pedroso, juntamente com o actual Presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues, que na altura se tornou conhecido por uma frase lendária, o então Presidente da República Jorge Sampaio, e o então Procurador-Geral da República, que o anterior deveria sensibilizar no almoço que tinham marcado para esse dia para abafar o caso, impedindo o processo de chegar ao Tribunal de Instrução Criminal que estava fora do alcance da rede de influências dos conspiradores.

A conspiração saiu frustrada porque à hora do almoço o procurador já tinha chegado ao Tribunal de Instrução Criminal e entregue o processo e já não seria possível evitar que o entregasse, mas os conspiradores foram escutados a conspirar e, além de as escutas terem proporcionado reveladores retratos de cidadania dos intervenientes e um inesquecível momento de humor político, também justificaram a prisão preventiva do camarada investigado por comprovada tentativa de perturbação do inquérito, uma das razões previstas na lei para decretar prisão preventiva.

Mais tarde, durante o inquérito, uma das testemunhas ouvidas, um antigo director da Direcção Central de Combate ao Banditismo à época em que a Polícia Judiciária tinha sido tutelada pelo Ministro da Justiça António Costa, um dos homens da tal rede de conhecimentos, revelou que, num almoço com o antigo Ministro uma semana antes de o caso vir a público no dia em que o Deputado foi detido na Assembleia da República, ele lhe tinha revelado que o Deputado estava referenciado no caso Casa-Pia de Lisboa com indícios consistentes, e o seu camarada de partido Ferro Rodrigues também, mas com indícios menos consistentes.

O actual Primeiro-Ministro foi portanto apanhado a conspirar para interferir num processo judicial envolvendo as mais altas figuras do Estado, incluindo a mais alta de todas, o que constitui um crime, e a ter conhecimento antecipado de processos judiciais de que nessa altura não devia ter por estarem em segredo de justiça, o que constitui outro crime, mas por estes crimes não foi incomodado pela justiça, exceptuando os danos de reputação que lhe possam ter sido causados pela revelação mediática das escutas onde foi apanhado.

Danos que, a avaliar pelo seu percurso político e mediático subsequente, Ministro da Administração Interna e número dois do primeiro Governo José Sócrates, Presidente da Câmara de Lisboa quando o então presidente do PSD Luís Marques Mendes forçou a queda da Câmara PSD pela demissão dos Vereadores que lhe acolheram a ordem de demissão, comentador residente no canal de televisão do Pinto Balsemão, e finalmente secretário-geral do PS, para não falar de Primeiro-Ministro apesar da derrota eleitoral, não lhe parecem ter sido fatais.

E alguma coisa deve ter aprendido, porque, desde essas, nunca mais foi apanhado com a boca nas escutas.

Se a rede de conhecimentos na justiça lhe tem dado jeito, para além de almoços ocasionais com antigos colaboradores, não sabemos? O facto de não haver conhecimento público de ter sido mais alguma vez mais apanhado na malandragem pode ter um de três motivos: ou nunca mais andou na malandragem; ou continuou a andar mas aprendeu a comunicar sem recorrer a meios de comunicação interceptáveis ou interceptados pela investigação judicial; ou continuou, e foi interceptado, mas tem a sorte de daí não lhe terem sido criados problemas. A sorte constrói-se, como dizia o seleccionador nacional Luís Felipe Scolari.

Mas uma coisa sabemos. Sabemos que ele tomou conhecimento da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa de transferir para a justiça angolana o processo por corrupção do antigo Vice-Presidente de Angola Manuel Vicente uma semana antes da publicação do acordão. Sabemo-lo porque, todos os aldrabões têm aquele momento de descuido em que falam verdade correndo depois a desmenti-la com uma mentira para não habituar mal o público, ele revelou-o numa entrevista. O gabinete emitiu depois um comunicado a explicar que ele tinha dito na entrevista que sabia da transferência do processo há uma semana porque apenas tinha tido conhecimento no próprio dia mas pensava que a entrevista só seria transmitida na semana seguinte, explicação que deve ter sido suficiente para esclarecer os mais fiéis dos seus fiéis, os que não se importam de passar por tontinhos para mostrar a força da sua Fé no querido líder, e mostra que ele está em grande forma no exercício da aldrabice.

Não foi nada inesperado. Já percebemos que, pelo menos desde que passou pela pasta da Justiça, ele conhece algumas decisões judiciais antes de serem tornadas públicas. Tem artes de adivinhação. Ou então tem uma rede de magistrados que não se importam de o ir mantendo informado, directamente ou partilhando a informação com outros magistrados ou conhecidos que lha fazem chegar.

Isto é grave?

O Primeiro-Ministro não deve saber o resultado de uma decisão ou providência judicial um minuto que seja antes de ela ter sido tornado pública e, portanto, disponível para todos os cidadãos que estão interessados em tomar conhecimento dela. Mas tomar conhecimento de um acordão sem usar a informação recebida para qualquer iniciativa ou decisão, nomeadamente sem dar conhecimento público dela, não parece excessivamente grave. É como se o juiz tivesse confidenciado à mulher, ao jantar, neste caso vou mandar fazer buscas na casa do fulano, não achas que faço bem? e o segredo tivesse ficado ali entre eles.

Mas se fulano fosse das relações da mulher e a mulher aproveitasse a inconfidência para o avisar que ia haver buscas na casa dele já seria grave. A informação sobre o que a justiça anda a fazer permite aos malandros andar sempre um passo à frente dela e fazer as malandrices com impunidade.

E o Primeiro-Ministro é gente para usar a informação que lhe chega para ajudar amigos a fugir à justiça?

É. Já o fez.

Por isso, eu posso ficar indignado por ele nunca ter sido apanhado na malandragem mesmo quando eu desconfio que anda. Mas, surpreendido, não fico.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:16
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Sexta-feira, 4 de Maio de 2018

As trinta e sete razões para termos regressado ao pântano socialista

2018-05-03 Feios porcos e maus, veneno de ratos.jp

O Mário Soares tinha todos os defeitos do mundo, e algumas qualidades. E tinha ainda características que podiam ser classificadas em ambas as categorias. Uma delas era a lealdade aos amigos. Era capaz de visitar ostensivamente um amigo condenado por um crime infame como a corrupção, ou mesmo preso, para lhe manifestar a sua amizade e a sua solidariedade, sem olhar a inconveniências nem custos de imagem. E relativamente a eles não se escondia atrás da presunção de inocência, mantinha, sim, uma convicta presunção de culpa sobre quem os acusava. O último de visitou nestas condições foi José Sócrates, quando cumpria a "pena" de prisão preventiva em Évora.

Mas o Mário Soares morreu, e sucedeu-lhe um partido liderado por gente com qualidades diferentes das dele e com uma dimensão, para o bem e para o mal, muito diferente da dele.

[Nesta cena de "Feios, porcos e maus", a família Mazzatella conspira para assassinar Giacinto organizando um almoço de reconciliação, ele tinha levado para casa uma nova namorada, a menina Iside, uma prostituta de peito felliniano e modos delicados de princesa, acalmando-lhe a apreensão sobre a reacção da mulher com a explicação que a mulher era muito compreensiva, bastanto bater-lhe, e explicando à mulher que a levava para viver com ele e dormir com eles, em que lhe serviram um delicioso macarrão confeccionado pela mulher Gaetana, temperado com os ingredientes que ela lhe enumera e a avó complementa com quatro pacotes de veneno para ratos todos no prato dele, comprados ao vendedor de banha da cobra Cesaretto, que ele desconfia que é amante da mulher e mesmo pai de uma das filhas, como revela numa frase lapidar "non è figlia mia, é figlia di puttana". Giacinto foge e sobrevive ao envenenamento aplicando a si próprio uma lavagem ao estômago na borda do rio com uma bomba de bicicleta, após o que incendeia a barraca e trepa a uma árvore para assistir ao incêndio a tocar metaforicamente cítara, na cena de salvamento da avó de que vos falei antes, e depois vende a barraca a uma família de ciganos tão numerosa como a dele, formalizando a venda num documento. Quando os ciganos se apresentam na barraca para tomar posse e mostram o documento, o documento desaparece e o diferendo sobre a propriedade do imóvel derime-se à pancada entre as famílias. Na penúltima cena do filme, e a última da comédia, chega a manhã à barraca, agora ocupada pelas duas famílias. A última cena conhecem todos, é a da Maria Libera a ir à fonte, já engolida pelo sistema, que foi mostrada na publicação anterior].

Depois de dois anos e meio a gerir com o instinto de sobrevivência que já é lendário o equilíbrio instável de ter o antecessor acusado de actos gravíssimos, e cada vez menos disfarçáveis, de corrupção, recorrendo até agora ao tradicional princípio de separação dos poderes, à política o que é da política, à justiça o que é da justiça, e ao inocente até prova em contrário, para escapar a tomar uma posição clara sobre os aspectos éticos em questão, para não falar na sua participação directa nesse governo, o primeiro-ministro, talvez aconselhado por algum focus-group que lhe disse que a partir de agora, com a informação pública já acumulada sobre as façanhas do anterior primeiro-ministro e do seu ministro da Economia, manter a neutralidade começaria a ter custos políticos, decidiu quebrar a neutralidade, e com estrondo.

Aproveitando a saída para uma visita de 4 dias ao Canadá, e saiba-se lá o que pode justificar uma visita de Estado de 4 dias do primeiro-ministro ao Canadá? borrifou-se no inocente até prova em contrário e largou-lhes às canelas os mais ferozes dos seus jagunços, o presidente do partido Carlos César e o trauliteiro João Galamba, que manifestaram, à vez, a sua indignação, primeiro com o antigo ministro Manuel Pinho, e depois, para tornar a coisa mais clara, com o antigo primeiro-ministro José Sócrates, cobrindo com pazadas de terra o caixão onde já estão sepultados. E ele próprio acabou por, no Canadá, simular indignação com eventuais casos de corrupção na era Sócrates, completando com as suas pazadas a terra que faltava para cobrir a cova. Passou de se manter em equilíbrio na corda bamba para evitar uma queda que lhe poderia causar danos políticos, a montar um cordão sanitário à volta dele e do seu inner circle para se imunizar e os imunizar contra os danos do fim cada vez mais expectável deste caso de polícia. Mandou-lhes dar veneno para os ratos para saírem de circulação, politicamente falando.

Convenhamos que nenhum deles é uma referência de ética, nem os assassinados, nem o padrinho e os esbirros, pelo que a condenação destes não é propriamente infamante, podendo até ser vista por alguns como um indício de virtude. Mas a reviravolta de dependentes, a apoiantes convictos, a observadores independentes, a carrascos, é certamente uma prova inequívoca do carácter deles.

Dos assassinados deixemos a justiça tratar, porque já o está a fazer. Da ética dos assassinos, do António Costa já tenho aqui falado, mais resumida ou mais detalhadamente, e muito mais haveria para dizer mas não vale a pena continuar, até por questões de higiene, a reputação que precede o Carlos César dispensa qualquer acréscimo de detalhes, e o João Galamba também já tem um caminho percorrido nas divisões secundárias que comprova talento e lhe assegura futuro na modalidade.

Têmo-los então a simular estupefacção e indignação se, e apenas se, se vierem a confirmar os delitos cometidos no tempo da governação de que eles próprios também fizeram parte como governantes nacionais ou regionais, dirigentes partidários ou membros a soldo de claques organizadas, fazendo parte da simulação o pressuposto que à época não deram por nada, como se fossem ingénuos apesar da evidência de serem espertalhões, tudo isto procurando delimitar os danos do caso aos que foram apanhados nas malhas da justiça, para não os atingirem a eles, que não foram, até agora. Têmo-los a assassinar o Manuel Pinho e o José Sócrates para se safarem sem mácula.

O BE e o PCP, que andam a explorar todas as oportunidades que lhes aparecem de se desmarcarem do governo PS para defenderem junto dos seus eleitores que, em vez de meras muletas que o sustentam, são imprescindíveis para o manter na linha correcta através de críticas e exigências, não vão eles ponderar que se é para sustentar governos socialistas podem antes votar no PS como já fizeram muitos eleitores do PCP nas eleições autárquicas de 2017, também trataram de se desmarcar mediaticamente deste pântano de corrupção que foi o anterior governo socialista. Foram até menos duros que os socialistas, porque tanto o BE como o PCP defenderam um alargamento do âmbito das investigações a outros governos e a outras empresas, diluindo o enfoque nos casos já em investigação até as investigações assumirem proporções impossíveis de gerir e chegar a conclusões.

Percebe-se que dediquem um grande empenho a desmarcarem-se do governo socialista, não só, mas também, por causa do pântano moral que parece alagar o chão que os socialistas pisam e a que eles não querem ficar associados.

Mas a demarcação não passa de uma farsa. Se hoje em dia Portugal é gerido por um bando de socialistas de que a maior parte, a começar pelo primeiro-ministro, já fazia parte do pântano do José Sócrates, é apenas por trinta e sete razões. E as trinta e sete razões são Carlos Matias, Catarina Martins, Ernesto Ferraz, Heitor de Sousa, Isabel Pires, Joana Mortágua, João Vasconcelos, Jorge Campos, Jorge Costa, Jorge Falcato, José Manuel Pureza, José Soeiro, Luís Monteiro, Maria Manuel de Almeida Rola, Mariana Mortágua, Moisés Ferreira, Pedro Filipe Soares, Pedro Soares e Sandra Cunha, do BE, Ana Mesquita, Ana Virgínia Pereira, António Filipe, Bruno Dias, Carla Cruz, Diana Ferreira, Francisco Lopes, Jerónimo de Sousa, João Dias, João Oliveira, Jorge Machado, Miguel Tiago, Paula Santos, Paulo Sá e Rita Rato, do PCP, Heloísa Apolónia e José Luís Ferreira do PEV, e André Silva do PAN. São os trinta e sete deputados que derrubaram no parlamento o governo da coligação que ganhou as eleições para o substituir pelo do partido que as perdeu, pelos governantes que estiveram no pântano José Sócrates e agora estão neste, e agora o sustentam sempre que a sua continuidade vai a votos, mesmo se o criticam nos discursos. É a estes trinta e sete que há-que pedir contas quando se fizerem as contas desta legislatura pantanosa.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:55
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Quinta-feira, 26 de Abril de 2018

Ética republicana e socialista

2018-04-20 Maria Libera.jpg

Esta é a imagem, e cada um é livre de usar os critérios que entende e com que se identifique melhor, e podem ser diferentes dos meus, mais violenta da história do cinema.

O filme é, estão a reconhecer, "Feios, Porcos e Maus", de Ettore Scola.

Podia ser um filme violento que retrata sem dó nem piedade a miséria abjecta a que são sujeitos os habitantes de um bairro de lata romano nos anos 70.

Mas não é. Em vez de olhar para eles numa óptica neorealista de vítimas da sociedade que os exclui, contrapõe-lhe a óptica alternativa de os mostrar como os carrascos que os encarceram a si próprios na sua miséria, tais como um Giacinto Mazzatella capaz de vazar um olho para receber o dinheiro do seguro, e não vale a pena puxarem das calculadoras, um milhão de liras eram cem contos, quinhentos euros actuais, e compra uma caçadeira para defender o dinheiro da indemnização da cobiça da numerosa família que coabita com ela na barraca, gente que se desqualifica permanentemente, que se agride mutuamente sem dó nem piedade, a tiro, se preciso for, mas se o agressor e a vítima trocassem de circunstâncias trocariam também de papéis e agredir-se-iam exactamente na mesma medida, que se rouba mutuamente se e sempre que tiver oportunidade, que abusa sexualmente de quem puder, através da chantagem ou da violência quando o piropo não chega a ser eficaz, gente que abandona a avó na barraca a arder até se lembrar da ser necessária a presença dela para lhe levantar a pensão e a salvar in-extremis com a roupa e o cabelo meio ardidos, em resumo, gente tão miserável moralmente que vive no meio daquela miséria material como peixe na água, e a merece, e por isso não nos desperta a mais pequena ponta de empatia pelo sofrimento por que passa.

O equivalente na política de hoje em dia a um primeiro-ministro que enquanto governante no passado tivesse fechado os olhos à corrupção praticada pelo primeiro-ministro que o tinha escolhido para vice, que enquanto presidente de câmara tivesse acumulado o salário de autarca a tempo inteiro com um salário milionário de comentador na televisão, que tivesse declarado este como rendimento de direitos de autor para o poder acumular legalmente com aquele e ainda ter uma redução substancial no IRS, que tivesse habitado um misterioso duplex de luxo na Avenida da Liberdade detido por um misterioso proprietário a quem a câmara tivesse concedido uma misteriosa licença de ampliação do imóvel que incluiu justamente o duplex que ele habitou, que tivesse o dom da trafulhice e o golpe de rins para conseguir chegar a governar apesar de ter perdido as eleições, que se tivesse rodeado de uma equipa onde sobressaísse um presidente de partido lendário por ter dado emprego público a toda uma família mais extensa que os Mazzatella, ou por ter atribuído bolsas de estudo para tirar o brevet a filhos de colegas do governo regional que liderou, ou um presidente da Assembleia da República que uns anos antes tivesse conspirado com ele e o Presidente da República de então para subtrair um camarada de partido à acção da justiça, ou um governo e instituições tuteladas pelo governo todos preenchidos com amigos e familiares de amigos e amigos de familiares, incluindo quase todos os que tinham participado com ele no anterior governo corrupto, que emblematicamente tivesse escolhido para a sua primeira nomeação política como governante o traidor mais notório e notável da liderança do partido que governava antes e passou à oposição com a ascensão dele ao governo, se Roma não paga a traidores o Giacinto paga, que tivesse colocado o seu melhor amigo a representar o Estado numa negociação onde a empresa para que ele trabalhava tinha interesses e esses interesses acabassem por ser efectivamente atendidos, que tivesse sistematicamente mentido em acordos de cavalheiros em que enganou os cavalheiros que cairam no erro de fazer acordos com ele, que tivessem da ética a percepção colectiva que é tudo o que não seja ilegal.

É preciso conceder que ética é um daqueles conceitos que é mais fácil perceber do que definir, e a definição que ao longo da vida me pareceu mais razoável, ético é aquilo que fazemos em privado e não teríamos vergonha que fosse tornado público, tem como limite de aplicação justamente os Giacinto Mazzatella deste mundo que, por não terem vergonha nenhuma, tudo lhes parece ético. Eles e os Carlos César e os António Costa.

O filme é pois um desfilar de misérias, de traições, de sacanices, tem tudo para ser uma tragédia que nos indigne, mas como todas são cometidas sem vergonha nem remorsos e todas são merecidas por todas as vítimas acaba por ser uma comédia que nos desperta gargalhadas da primeira à penúltima cena.

À penúltima, mas não à última, porque há um ser humano tão normal e decente como qualquer um de nós no meio daquela gente doida. A Maria Libera é uma pré-adolescente de 12 anos da família, que vive com a família na barraca, e é a menina que recolhe as crianças do bairro no mais que se pode assemelhar a um jardim de infância, um recinto fechado por uma rede em que ficam durante o dia encarceradas mas ao abrigo de toda a espécie de acidentes ou tragédias que lhes poderiam provavelmente acontecer naquele bairro ameaçador, antes de ir para a cidade trabalhar a dias ou quando há uma zaragata no bairro que as possa ameaçar, e há-as habitualmente, uma menina que não se mete nas confusões nem nas trafulhices nem nas zaragatas dos outros todos, uma menina que é como se não existisse para eles nem ali, mas apenas para nós. Mas ali.

E na última cena, a da fotografia, a Maria Libera está no estado que se vê. Acabou a comédia e ela foi engolida pelo sistema a que parecia estranha e imune e passou de ser uma de nós para ser um deles. E toda a indignação que não sentimos antes pelo sofrimento que era mais do que merecido por eles nos passa a ser impossível de manter ao longe porque desta vez a vítima passou a ser um de nós.

Pelo que a lição que o "Feios, Porcos e Maus" nos ensina, se tivermos a humildade de lhe prestar atenção, é que não é o facto de sermos diferentes deles que nos garante que seremos diferentes deles. No convívio com a corrupção moral, e às vezes não só moral, que vigora actualmente na sociedade portuguesa e naqueles que escolhemos, mesmo não os tendo escolhido, para nos representarem a governar o interesse público, o mero facto de a desaprovar e os desaprovarmos não nos garante imunidade contra ela. Se não corrermos com eles, um dia ver-nos-emos grávidos da miséria moral que eles promovem.

Depois não digam que não vos avisei.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:55
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Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

Socialismo e propriedade privada, uma contradição de termos

2018-02-11 António Costa Tondela.jpg

Eu sou do tempo em que os militares barbudos que andavam pelo país a alfabetizar as populações ensinando-lhes os princípios básicos do socialismo não punham os pés no Alto Minho. Com razão ou sem razão, os minhotos partiam do princípio que a finalidade dos comunistas era expropriar-lhes as terras. Provavelmente os governantes da época nunca o terão chegado a proclamar preto no branco, nem sequer o truculento Vasco Gonçalves, mas o facto de terem deixado os comunistas ocupar e expropriar os grandes latifúndios do Alentejo, e não só do Alentejo, não constituía uma prova sólida em contrário da hipótese. Na dúvida os minhotos optavam por uma prudente atitude de eles que venham, mas só entram por cima do meu cadáver, destruiram com violência algumas sedes do PCP, racharam algumas cabeças, e a mensagem foi percebida e nem os soldados barbudos nem os comunistas lá apareceram a fazer ocupações. Nem faziam falta, que a sociedade civil minhota não precisava deles para nada.

Mas isto era no tempo e que eu tinha 18 anos, e o mapa de resultados das eleições, entre as de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte e as Autárquicas de 1 de Outubro de 2017, nomeadamente no Minho, evoluiu e ganhou tons de rosa onde não os tinha.

2018-02-11 Eleições 1975 e 2017 mapa de resultad

Evoluiu o mapa, e evoluiram as mentalidades.

Em 2018 o primeiro ministro socialista diz coisas sobre a propriedade privada como "Os municípios têm todo o poder para entrar nas propriedades privadas e fazerem o cus [os leitores mais atentos à pureza ortográfica que me perdoem mas, aderindo parcialmente, se não ao Acordo Ortográfico, pelo menos aos seus princípios de ortografia segue pronúncia, é assim que se escreve] proprietários não fizeram. E mais. Têm o direito de tomar posse daquelas terras e de se cobrarem, seja pela venda do material lenhoso, seja pela exploração daquelas terras, das despesas que tiverem por conta dos proprietários que não fizeram o que têm que fazer até ao próximo dia 15 de Março.", que não me lembro de alguma vez terem sido ditas por um primeiro-ministro no tempo do PREC, e no tempo do PREC teriam sido mais do que suficientes para os minhotos racharem cabeças e rebentarem com sedes, se fossem ditas por comunistas mais voluntariosos no local, ou, quem sabe? organizarem uma invasão militar de Lisboa, se fossem ditas pelo primeiro-minstro.

Traduzindo, as palavras do primeiro-ministro têm sempre que ser traduzidas para Português para serem devidamente interpretadas, os proprietários têm até 15 de Março para limparem de matos os terrenos em redor das casas e em redor dos agregados habitacionais, quer os terrenos lhes proporcionem rendimentos para pagar a limpeza, quer não, quer os proprietários tenham dinheiro para a fazer, quer não, e se não o fizerem as autarquias têm legitimidade, e um encorajamento do primeiro-ministro, para tomar posse dos terrenos privados para fazerem elas a limpeza e não os devolverem até extrairem deles rendimentos que paguem o custo da limpeza, que pode ser no dia de São Nunca.

Ou seja, exactamente aquilo porque os minhotos no tempo do PREC estavam dispostos a defender a sua propriedade, se necessário recorrendo à força das armas. Vamos a caminho do socialismo.

E os minhotos?

Os minhotos estão mansos. Tenho muita pena.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:09
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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

Os animais mais ferozes também têm coração ou, são tão lestos numas coisas como lerdos noutras

Acabei de fazer uma modesta descoberta, ainda não sei se para catalogar no domínio da etnologia, se da etologia, que me sinto no dever de não guardar apenas para mim mas partilhar com a humanidade.

Os animais ferozes também têm coração.

Pelo menos, os que habitam a selva mediática.

E como é que eu fiz esta descoberta?

Durante o fim-de-semana, a matilha que ao longo da semana se dedicou a defender na selva mediática o primeiro-ministro das consequências da última trapalhada em que se viu apanhado, a revelação pela jornalista da TVI Ana Leal do envolvimento de vários membros do governo e de outros orgãos do poder político socialista na gestão danosa da associação Raríssimas, de que tinha dado conta ontem de mais uma que me pareceu mais habilidosa, tanto no plano literário, como no argumentário, do que as outras, viu-se obrigada a abrir uma nova frente na defesa da tribo socialista contra o resto do mundo.

Ao justificar à comunicação social o facto de não ter endereçado ao primeiro-ministro um convite para o almoço de Natal organizado pela Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrogão Grande, a sua presidente Nadia Piazza tinha cometido a afronta de dizer "...as pessoas que foram convidadas são ... as pessoas que estão connosco".

Esta mulher notável que perdeu no incêndio o filho, acompanhado do pai e da avó, e que conseguiu encontrar conforto no facto de o cadáver do filho ter sido encontrado nos braços do do pai e de, portanto, ter morrido na companhia de quem o amava e o protegia, cometeu a afronta de, com uma elegância suprema que foge ao alcance da capacidade de compreensão da matilha que o defende, ter revelado que, por exclusão de partes, não inclui o primeiro-ministro no conjunto de personalidades que considera que estão com as vítimas do incêndio.

Poderia, quem somos nós para sugerir que deveria? tê-lo dito de um modo mais directo, por exemplo aludindo ao facto de ele nem se ter dignado a interromper as férias na praia quando ocorreu a tragédia, de não ter manifestado a mais pequena empatia com as vítimas até ser obrigado a fazê-lo pelo presidente, ou de a primeira reacção do governo à tragédia ter sido a de encomendar estudos de opinião para determinar que tipo de resposta preservaria melhor a sua popularidade. Podia ter sido ainda mais directa relembrando o papel que a incompetência do governo e das lideranças que nomeou por méritos partidários e de proximidade pessoal para a Autoridade Nacional da Protecção Civil teve na ineficácia da protecção das populações que resultou nas dezenas de mortes, entre os quais a do seu filho. Poderia até ter sido brutal como o primeiro-ministro sempre é, dizendo algo como "não convidamos bestas para a nossa festa". Mas não, foi apenas de uma elegância suprema, o que agrava a afronta, porque a matilha tem toda a capacidade para actuar ao nível mais rasteiro mas não a de a enfrentar ao nível a que ela foi colocada.

E, a melhor defesa é o ataque, o primeiro-ministro lá teve que soltar a sua matilha à ousada que lhe virou as costas.

No fim do dia, o prémio do comentário mais rasca acabou por ser atribuído sem discussão ao sobrinho do presidente Mário Soares e seu chefe de gabinete nas presidências e actual apoiante do Bloco de Esquerda, Alfredo Barroso, que com um poder de síntese no insulto notável deixou nas redes sociais o breve mas rico de significado comentário "A brasileira de Pedrogão: manipulada ou manipuladora" que em apenas sete palavras conseguiu resumir todo um programa de xenofobia em "A brasileira", aliás com um certo humor, voluntário ou, mais provavelmente, involuntário, porque sendo ele próprio italiano não se pode considerar nos antípodas dos brasileiros na cadeia alimentar da xanofobia, de misoginia, é conhecido o tipo específico de suspeição que as mulheres brasileiras suscitam nas pessoas xenófobas, além de lhe dar a escolher entre a burrice de "manipulada" e a desonestidade de "manipuladora". Tudo isto em sete palavrinhas.

2017-12-18 Alfredo Barroso Nadia Piazza.jpg

Mas não foi ele que me conduziu ao caminho da descoberta, mas a académica Estrela Serrano que, já na véspera, tinha dedicado uma crónica no seu blogue a, entre outras coisas, o "azedume, inexplicável" da mesma Nadia Piazza.

Outras coisas entre as quais o objectivo primeiro da crónica, encontrar um sentido que não fosse boçal à trapalhada n - 1 do primeiro-ministro, a afirmação de que 2017 "foi um ano particularmente saboroso para Portugal" e explicá-lo às massas.

E qual foi a metodologia seguida pela académica socialista? Explicar que a crítica implícita mas clara que o presidente tinha feito às palavras do primeiro-ministro tinha o objectivo de ofuscar os seus magníficos sucessos no plano económico repescando a memória da tragédia de Pedrogão e era baseada numa descontextualização que lhe alterava o verdadeiro significado, e transcrevendo a explicação do verdadeiro significado não-odioso e, pelo contrário, virtuoso, das suas palavras pelo próprio primeiro-ministro. Em resumo, que seria tão deslocado recordar em Bruxelas a tragédia de Pedrogão como dizer em Pedrogão que tinha sido um ano saboroso.

Belo argumento, e merecedor de divulgação pelos seus apoiantes. E uma demonstração de que, mesmo os apoiantes mais ferozes, quanto mais lestos são a descobrir interpretações odiosas nas palavras dos outros, mais lerdos são a reconhecê-las nas palavras dos seus, e rodeiam a sua interpretação de todos os cuidados para eles não sairem magoados da discussão. Têm bom coração.

Mas uma andorinha não faz a primavera, e um caso de animal feroz das redes sociais que, em vez de interpretar maldosamente as palavras de um político, lhe pede para as explicar ele próprio de modo que não se cubra de odioso, não sustenta uma tese.

Por um acaso tão feliz como a descoberta da mayonnaise, encontrei hoje duas obras do antecessor de vultos como o deputado João Galamba ou a jornalista Fernanda Câncio, para além do incontornável sobrinho do seu tio Alfredo Barroso, na vanguarda do combate mediático socialista, a figura lendária da blogosfera que assinava as suas crónicas como Miguel Abrantes de quem circulam as histórias mais inacreditáveis, incluindo a de ser pago pelo então primeiro-ministro José Sócrates para o defender e louvar nas redes sociais.

Pois o tal Abrantes escreveu duas vezes, pelo menos estas duas que descobri, sobre o poeta e seu camarada de partido Manuel Alegre.

Na primeira, de 2008, era o Manuel Alegre o socialista que tinha desafiado dois anos antes o partido liderado pelo primeiro-ministro José Sócrates e concorrido como candidato independente sem apoios partidários às eleições presidenciais contra o candidato oficial socialista Mário Soares e vultos dos outros partidos da esquerda como o comunista Jerónimo de Sousa, o bloquista Francisco Louçã, e o emierrepêpista Garcia Pereira, e tinha-os humilhado com mais de um milhão e cem mil votos contra menos de oitocentos mil do Mário Soares. Era a sombra sobre a direcção socialista que os socialistas deviam abater para lavar a honra manchada do chefe.

E o blogger Miguel Abrantes ridicularizou-o por ter escrito um texto publicitário para um banco, mais a mais o banco privado dirigido ao segmento de mercado dos ricos, e revelando ambições de nouveau riche do poeta.

Na segunda, em 2011, era o Manuel Alegre o candidato oficial do partido às eleições presidenciais, e andava a ser ridicularizado por ter escrito uns anos antes esse texto publicitário.

E o blogger encheu-se de dó pela maldade de que o candidato oficial do seu partido estava a ser vítima e desculpou-o publicando um desmentido que, contextualizando devidamente a publicação o texto publicitário, a esvaziava de qualquer sentido ridículo ou odioso. Teve bom coração.

Os apoios do PS, do BE e do MRPP, além dos das suas máquinas de propaganda, de que o Miguel Abrantes era um membro notável, assim como a saída de cena dos candidatos destes três partidos resultou numa redução de mais de trezetos mil votos no candidato que antes se tinha apresentado como independente e sem apoios. Mas o esforço foi meritório.

E um mais um é igual a dois, e dois comentadores ferozes a apresentarem argumentos para defender os seus chefes de interpretações maldosas já não são um caso isolado mas sim uma tendência.

Os animais mais ferozes também têm coração.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:18
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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

É preciso é ter juízo.

2017-10-20 Helena Roseta António Costa.jpg

Os ratos começam a abandonar a ratazana.

A deputada Helena Roseta, eleita nas eleições legislativas de 2015 como independente integrada na lista de candidatos do Partido Socialista ao círculo eleitoral de Lisboa, onde foi colocada no terceiro lugar de eleição absolutamente garantida, ou seja, foi eleita, não pelos votos dos eleitores que avaliaram positivamente o seu mérito para o lugar, mas pela direcção do PS que ao preparar e ordenar as listas lhe garantiu a eleição, veio agora que, depois de dois anos de passeio triunfal pelas sondagens a injuriar e ridicularizar quem se lhe atravessou nesse caminho, o primeiro-mnistro António Costa abriu uma brecha suficientemente larga para revelar a todos de modo a ser impossível não ver o que desde sempre esteve à vista de todos, o seu carácter de facínora, e também o que também esteve à vista mas nem sempre de todos, a sua incompetência para o que quer que seja para além da demagogia e da correcta aplicação das tácticas de sucesso no combate político, e outras qualidades ainda mais elevadas ficaram por revelar, mas a seu tempo certamente emergirão, lamentar a incompetência do governo, e recomendar-lhe que "é preciso merecer o poder que se tem", num incentivo a, com a incompetência e o carácter que ele tem, se transforme numa pessoa competente e decente, como se a transformação fosse geneticamente possível com a idade dele, como se ela não soubesse que não é.

[Agora, assim de repente, tal como um Pacheco Pereira, o último dos social-democratas do PSD, a dirigir-se a uma Aula Magna repleta de socialistas, hesito sobre o modo como a devo tratar? Mas trato-a por camarada numa boa.]

Ó camarada Helena Roseta, em democracia "é preciso merecer o poder que se tem" tem um significado muito concreto, que não é ser empático nem simpático com os eleitores, nem sequer honesto nem decente, mas sim ganhar as eleições onde o povo decide a quem entrega esse tal poder.

Ao seu camarada António Costa, o poder foi entregue pela maioria de esquerda dos deputados do parlamento, incluindo a camarada, sem atender a essa exigência. Se quiser, pinte a cara de preto de vergonha por isso, ou apresente uma moção de rejeição, ou apoie uma apresentada por outros, para se redimir, mas poupe-nos à sua hipocrisia, deixe-se de exigências fingidas para se esquivar a ser manchada pelas asneiras do governo a quem entregou o poder, e vá chatear o Camões.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:04
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Domingo, 15 de Outubro de 2017

Roubar aos pobres para dar aos ricos

2017-10-15 Charie Brown lemonade.jpg

O António Costa vai passar a chular os putos em 2018, indo-lhes ao dinheiro de bolso que ganham com os biscates de férias com uma retenção na fonte de 10% para o IRS. É preciso ir buscar a algum lado o dinheiro que vai distribuir pelos funcionários públicos, pelos reformados e pelas reduções no IRS, e estes putos, que conseguem receber numas férias duzentos ou trezentos euros, alguns poderão mesmo chegar aos quinhentos, também devem contribuir.

Do ponto de vista fiscal é uma perfeita estupidez, porque quando estes rendimentos forem englobados na declaração de IRS dos pais não pagarão IRS, por ficarem abaixo do limite da dedução específica para rendimentos de trabalho de 4.104 euros, e a retenção na fonte que lhes for feita feita em 2018 vai ser integralmente reembolsada aos pais em 2019.

Do ponto de vista ideológico a medida tem, no entanto, todo o sentido. Os socialistas e a blocalhada detestam, tanto quanto os putos que inventam um negócio e formam uma empresa e se transformam em capitalistas, a quem largam Raquéis Varela a morder-lhes nas canelas nos Prós & Contras, os capitalistas em potência que trabalham nas férias para juntar umas coroas em vez de simplesmente continuarem dependentes da mesada dos pais, a quem preferem os pós-doutorandos em ciências humanas que, passados dos 30 anos, ainda andam a bolsas, vivem na casa dos pais e dão entrevistas ao Público a denunciar a precaridade da sua situação como investigadores. Ou, de uma maneira geral, toda a gente que vive dependente do Estado e que, em caso de necessidade ou conveniência, pode ser aumentada nos anos de eleições.

Do ponto de vista da demagogia orçamental também faz algum. As retenções na fonte serão contabilizadas como receita fiscal em 2018 e contribuirão para um deficit catita no final do ano, o último deficit apurado antes das eleições legislativas de 2019. Já o seu reembolso será contabilizado como despesa fiscal, mas só em 2019, e só contribuirá para o deficit de 2019 que só será apurado depois das eleições.

Mas é do ponto de vista eleitoral que a medida tem mais sentido. O dinheiro de bolso que o fisco confiscar aos putos em 2018 será reembolsado aos pais no Verão de 2019, imediatamente antes das eleições legislativas. Se o eleitorado for tão parvo como o António Costa assume que é ao tomar iniciativas como esta agradecer-lhe-á votando nele.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:55
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Quinta-feira, 5 de Outubro de 2017

Last Tango in Almada

2017-10-05 Last Tango manteiga.jpg

O primeiro-ministro António Costa explicou ao secretário-geral do PCP Jerónimo de Sousa que "A nossa vitória não é derrota de nenhum dos parceiros parlamentares ... Estes resultados reforçam o PS, mas reforçam sobretudo o quadro da maioria parlamentar que permitiu a mudança", e que ser devorado pela criatura que ajudou a nascer não dói nada.

Quando se refizer da surpresa, o camarada Jerónimo de Sousa há-de revelar que não estava nada à espera, que nem com manteiga lhe foi agradável, mas que está lá para garantir aos seus sindicatos vitórias que seriam impossíveis se outra maioria mandasse, e que um homem tem que se sacrificar pelos seus.

O camarada Carlos Brito ressucitou para dizer "ai, eu até gosto".

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:56
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

Vai morrer, ó velha!

2017-09-20 Vai morrer ó velha.jpg

Um grupo de jovens da Juventude Socialista filmou, e depois apareceu publicado nas redes sociais, um vídeo durante uma acção de campanha da candidatura do PS às eleições autárquicas do município de Penafiel em que, do andar de cima de um autocarro sem tampa, e ao passar por uma senhora de idade que agitava uma bandeira partidária de outro partido, talvez do CDS? um dos jovens socialistas lhe gritou, como informam os jornais,

  • "Vai morrer, ó velha... PS! PS! PS! Vai-te fo***, velha do car****! Havia de te dar um ataque!",

que eu estou em condições de transcrever para a afirmação real "Vai morrer, ó velha... PS! PS! PS! Vai-te foder, velha do caralho! Havia de te dar um ataque!". Num aparte, curiosamente não encontrei a notícia no Público, certamente por não ter sido suficientemente diligente na pesquisa.

A Juventude Socialista varreu o assunto para debaixo do tapete com um comunicado em que condenou a atitude imprópria e irreflectida do jovem e apresentou um pedido de desculpas à visada e à comunidade penafidelense, e ao mesmo tempo condenou a publicação do vídeo através "de um perfil falso", o que explica ser o "expediente habitual para fazer campanha suja". Condenou os excessos da irreverência generosa da juventude, mas também a maldade da mão que sai detrás do arbusto, nas palavras sábias de um anterior primeiro-ministro de Portugal, que os expôs publicamente. Tudo está bem quando acaba bem.

Mas estará tudo bem?

"Vai morrer, ó velha!" é quase um mimo comparado com as boçalidades que se lêem regularmente nas redes sociais, com as que são publicadas, moderadas por alguma prudência e muitas vezes disfarçadas de exercício de humor, na comunicação social, onde se encontram regularmente apelos à morte de pessoas e até sugestões de soluções para a concretizar, como contratar um pistoleiro do cinema para as balear nos testículos, e até com alguma propaganda partidária, onde o apelo à morte, neste caso de traidores, assume traços heróicos e patrióticos que o tornam, mais do que uma possibilidade, um imperativo cívico.

Esta radicalização do discurso e banalização do apelo à morte por parte de estratos sociais antes aparentemente civilizados verifica-se principalmente desde o início da legislatura anterior, quando foi preciso recorrer a soluções muito penosas para muita gente para tentar, e acabar por conseguir, mas não era nada evidente para muita gente que se conseguisse e, para alguma, era mesmo evidente que não se conseguiria, retirar Portugal do lixo, não no sentido que atribuem ao termo as agências de notação quando a dívida soberana é de duvidoso reembolso, mas no da falência e do risco iminente de desmoronamento do Estado e da sociedade que o anterior governo socialista tinha conseguido provocar.

E é mais do que reforçado pelos modos brutais que o próprio primeiro-ministro usa quando se dirige à oposição, quer em intervenções públicas, quer em entrevistas, quer, ainda mais claramente, no próprio parlamento a que presta contas da actividade do governo.

As coisas são o que são, e a radicalização progressiva das relações entre forças políticas diferentes que se tem observado, não circunstancialmente, mas como um movimento estruturado e objectivado, e se traduz, já, num crescente apelo à violência, para já verbal, resultará no que resultar e eu não sei prever.

Mas, no passado, nunca resultou em coisa boa e resultou frequentemente em fascismos. E, curiosamente, mais vezes em fascismos de direita do que em fascismos de esquerda, ou socialismos, o que não indicia grande inteligência de quem a promove à esquerda. Mas longe vão os tempos em que toda a inteligência e cultura, e já agora moralidade, se encontravam na esquerda, e toda a direita era estúpida, pelo menos até ter aparecido um centrista a quem era concedido, excepcionalmente e sem constituir exemplo, o benefício de ser considerado inteligente, o saudoso Francisco Lucas Pires. Inteligente e nunca radical, acrescento eu. De modo que ver a esquerda a ser pouco inteligente na radicalização e no apelo à violência não é novidade nenhuma nos tempos que correm, em que alguma falta de inteligência é um grande activo para se conseguir acreditar nas quimeras que ela promete e os enganos com que mascara a realidade para ir parecendo que as está a conseguir criar.

Mas, mesmo sem ser capaz de prever para onde nos levará esta radicalização, uma coisa, ou duas, posso, até eu, anónimo desinformado, concluir.

Quando um comentador que nasceu na esquerda radical, depois se integrou no PSD que o encheu de honras e prebendas e onde se tornou até um liberal radical que colocava em causa a própria existência do estado social europeu, e quando o PSD deixou de lhe dar a importância que acha que merece não se desligou da filiação do partido mas regressou a um estilo de intervenção pública de social democrata radical que voltou a deliciar a esquerda radical de onde saltara para a direita que hoje apelida de radical, diz que esta radicalização da vida política através de "citações falsas ou manipuladas, boatos, calúnias e insultos" é "um fenómeno novo e não adianta dizer que o mesmo existe à esquerda, porque não é verdade", mente.

E quando um político hoje em dia baseia o seu populismo na descrispação por que finge lutar e que se gaba de ter conseguido está simplesmente a aldrabar o país.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:23
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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

Universidades de Verão

2017-09-11 Baptista da Silva Universidade de Verã

Só para lembrar que nem todas as Universidades de Verão são escolas de mal dicência,

e que há universidades que, mesmo sem o serem, ainda são mais do que aquelas que são.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 03:21
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