Lê-se e o coração dos verdadeiros democratas freme de indignação pela maldade dos avoengos, orgulho pelo muito que se fez, e preocupação por não se poder - talvez - continuar, porque a hidra fascista sempre levanta uma das suas hediondas cabeças, ao lado da outra que se acabou de cortar há bocadinho.
É que as novas gerações não sabem que no tempo dos seus avós não havia nada, "era tudo uma expectativa". O deserto era de tal ordem que "ainda não havia leis", declara Abílio Fernandes, o comunista que ganhou a câmara de Évora oito vezes. Uma falha gritante felizmente colmatada de forma tão completamente satisfatória que a abundância de leis e regulamentos faz com que, hoje, o Diário da República, se encadernado, ocupe em cada ano uma área não inferior à de dois estádios de futebol.
Não havia leis e não havia nem água canalizada nem candeeiros à porta. E isto ainda não era nada, que para ir à fonte, de cântaro à cabeça, só não se pisava a lama porque "cortava-se mato e punha-se nas ruas", confessa Jaime Marta Soares, um social-democrata de Vila Nova de Poiares que foi eleito não pelos munícipes para ser presidente mas sim pelos presidentes para ser munícipe, segundo o próprio.
Eufrásio Filipe, do PCP, que em 76 ganhou o Seixal, sublinha o mesmo: "Havia grande proximidade com as populações e uma grande participação popular. Antes de fazer um plano de atividades da câmara reuníamos com os párocos".
Custa um bocado acreditar em ti, Eufrásio. Que a gente que viveu aquele tempo tem mais a ideia de que os párocos tinham, em relação ao PCP, algumas, digamos assim, reservas, do que é prova o facto de que o senhor Dom Januário Ferreira, conhecido clérigo vermelho, ainda teria que esperar mais treze anos para ser ordenado bispo - e mesmo assim de Gaudiaba, só o diabo deve saber onde isso fica.
Foram tempos heróicos. "Hoje as autarquias estão totalmente dependentes dos governos", lamenta o reformado Abílio.
Totalmente dependentes é como quem diz, que as receitas próprias dos municípios são maiores do que alguma vez foram. Mas não chegam, nem chegarão nunca, porque entretanto as câmaras municipais se transformaram em agências de empregos, conglomerados de empresas municipais e centros de negocismo e corrupção. E como o eleitor que dantes queria o candeeiro e a água, e entretanto ganhou além disso o pavilhão multiusos e a piscina, continua a querer coisas, mas não faz a ligação entre o que paga de impostos e o que custam os bens públicos, porque os impostos são nacionais e subreptícios e os bens locais e publicitados, resulta que o autarca deve ser hoje, como se não bastasse a designação abominável, um pedinte. Abílio, o recordista das eleições, tem neste ponto razão.
O Estado Central, porém, está falido. Tão falido que se vai devagar espalhando a convicção de que a dívida pública não pode ser paga, que os mais de oito mil milhões de Euros de juros anuais têm que ser reduzidos, que a dívida tem que ser renegociada e que (mas esta última parte fica reservada para socialistas moderados, como confirmei há pouco com deleite ouvindo Miguel Sousa Tavares a preopinar na televisão), em troca, não se podem ter défices para futuro. Em suma, há que dizer aos credores: até agora não valeu, a gente estava a reinar; mas pronto, passem lá uma esponja que os socialistas vão fazer um enxerto de instintos de contenção aos seus fígados despesistas, e os comunistas uma ablação das suas pulsões revolucionárias; e, já agora, a parte da dívida que está nas mãos de bancos portugueses esqueçam - a bem dizer o BCE bem pode arranjar uma solução, que mais trilião menos trilião é tudo igual ao litro.
Que este programa tenha pernas para andar seria milagre, mas já fui mais incréu - a União Europeia tem vindo a mostrar ser capaz de tudo, e ainda o seu contrário, para adiar a ruina do edifício.
Capaz de tudo mas não de nos fazer voltar aos saudosos tempos da revolução. Desde logo porque vivi esses tempos, no antes em que os municípios não tinham, nem podiam ter, défices, e por isso não levavam o saneamento, a água, e a electrificação a todos os lugares, senão ao ritmo das suas capacidades financeiras, e o depois, em que o céu foi o limite, com isso criando dívidas gigantescas, câmaras pletóricas, clientelas infindáveis, e aldeolas e lugarejos inviáveis que nem por terem chegado a estar servidos de quase tudo conservaram os seus habitantes, que emigraram para onde havia empregos ao mesmo tempo que o crescimento económico estiolou e os serviços foram fechando por um esforço de racionalização.
O Poder Local é uma metáfora do país; e que estes esforçados autarcas não percebam ainda hoje que a festa foi bonita, pá, mas acabou, ajuda a perceber por que razão o governo do dia, fiado na tolerância alvar do BCE, no preço do petróleo, em Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, e na benevolência do pateta contumaz que elegemos para presidente de República, tem ainda tão altas taxas de popularidade.
Se votasse no Porto, tinha escolhido Rui Moreira. Não que a personagem me inspire grande simpatia: foi membro da Comissão de Honra da candidatura de Mário Soares e comentador da bola. Ora, a companhia política do ex-Presidente não é exactamente uma boa recomendação; e, tendo o dia apenas 24 horas, e destas metade consumida a dormir, comer e flanar, quem gastar demasiado tempo a inteirar-se das trincas e mincas do futebol - condição necessária para estar à altura de discutir com outros selvagens as transferências, arbitragens, declarações de dirigentes, foras-de-jogo e restante parafernália da irrelevância - não o tem disponível para assuntos sérios. É que o saber ocupa lugar, ao contrário do dito popular, e se pela manhã se leem os jornais desportivos não sobra o tempo para ler, ou fazer, coisa que preste.
Mas enfim, Rio tacitamente, e o meu partido expressamente, recomendavam o homem. E eu, que acredito na mediação, salvo quando tenho razões sérias para desconfiar, tenho respeito por Rio, se for verdade o que se diz: a Câmara do Porto paga a tempo e horas, não tem passivo incomportável, não andou (salvo as corridinhas de automóveis na Avenida da Boavista, uma fraqueza que está dentro dos limites do perdoável) a patrocinar a "Cultura" e uma miríade de empreendedores de pacotilha, trapaceiros e carreiristas sortidos, nem se distinguiu por grandes investimentos "estruturantes", para satisfazer a megalomania da gestão municipal, o ego dos senhores edis e a carteira de protegidos e apaniguados.
E isto não é nada pouco. A malta anda tão atordoada que uma notícia destas ("programa para pagar dívidas duplicou endividamento das câmaras") comove menos do que apurar se Hugo Almeida vai ou não substituir Hélder Postiga na Selecção. E no entanto estamos a falar de gestão danosa, e os criminosos têm nome, que o jornalista não pôde ou não quis apurar.
"Tal evidencia que os órgãos e eleitos locais da generalidade dos (108) municípios aderentes não adoptaram, ao contrário do que seria expectável, medidas adequadas e suficientes para promover a contenção e o controlo da despesa e do endividamento municipal, visando a recuperação da sua situação financeira e o cumprimento dos objectivos subjacentes à adesão ao PPTH (Programa Pagar a Tempo e Horas) e ao PREDE (Programa de Regularização Extraordinária de Dívidas ao Estado)", salienta a Inspeção-geral de Finanças.
Não adoptaram?! E o recurso aos Programas "não resultou, ao contrário do que seria expectável, numa diminuição duradoura e sustentável do nível da dívida, mas antes numa duplicação do endividamento total num valor muito significativo em 582 milhões de euros"?
Eu sei: estes eleitos não se apropriaram dos recursos, antes serviram abnegadamente as populações; o endividamento ficou, mas ficaram também os benefícios; o derramar de dinheiro na economia é altamente benéfico, via consumo, para o crescimento; nos concelhos deprimidos, há que fixar as populações; e há mais dezassete boas razões (consultar, para a enumeração, o recém-eleito edil Costa, ou o Rei Momo da Madeira, propagandistas do gaste hoje e pague qualquer dia) para investir a crédito.
Entretanto, andamos a discutir o corte nas pensões de sobrevivência (100 milhões); e a discussão faz-se em todos os lugares, incluindo a RTP, que nos custa 200 milhões ao ano.
É já hoje possível adivinhar que a dívida pública não será paga; ou, se for, por não haver outro remédio, não chegarão todos os pavilhões gimnodesportivos, todos os canais públicos e todas as pensões.
A população, claro, protestará. E entre os que protestam encontraremos, como já agora vamos vendo, todos os Costas do País, e todos os Costinhas que os elegeram.
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