Quarta-feira, 1 de Agosto de 2018

Para Rui Rio o PSD é a mesma coisa que o BE

2018-08-01 Rui Rio, Elina Fraga e Silvano.jpg

Desde que apresentou a sua candidatura à presidência do PSD, e continuando depois de ter sido eleito, Rui Rio e a sua direcção fizeram da insinuação, sem concretizar, como é próprio da insinuação, que o PSD é um partido de gente desonesta uma das linhas sistemáticas da sua estratégia de comunicação.

Que o partido precisa de um banho de ética, que se há investigações judiciais, aliás desencadeadas por uma denúncia anónima, possivelmente de alguém do próprio partido, a nomeações suspeitas de assessores em autarquias do PS e do PSD, os factos ocorreram durante a direcção de Passos Coelho, que provavelmente há especuladores imobiliários no PSD.

Porque se dedica a fazer insinuações, não identificadas, sobre a falta de ética dos militantes, não identificados, do PSD, só ele saberá a razão, e não podemos mais do que especular para tentar adivinhá-la.

Talvez porque a insinuação recorrente pode induzir o público no engano de acreditar que quem a faz está acima dos comportamentos reprováveis que insinua, numa lógica de o primeiro a apontar o dedo merece imunidade? Talvez. Mas na realidade não está, e a insinuação costuma até ser usada por pessoas desonestas para sujar o nome de pessoas mais honestas do que elas. Há mesmo vários ditados populares para explicar que quem é muito desconfiado por natureza é geralmente desonesto, mas eu não me lembro de nanhum para citar aqui.

Talvez por ter esperança que as insinuações o beneficiem por lançar suspeitas sobre os seus adversários políticos? Se for por este motivo, não parece particularmente inteligente. Porque se no interior do PSD as insinuações o podem beneficiar relativamente aos alvos delas, que por não serem concretizados podem ser potencialmente todos os outros militantes do partido, com alguma habilidade comunicacional podendo sugerir a excepção dos que o rodeiam, no exterior do partido as insinuações apenas lançam suspeitas sobre o PSD e desse modo apenas beneficiam os outros partidos. Estes partidos não precisam de ter génios do tacticismo político, e alguns deles têm figuras muito competentes em tacticismo político, a começar pelo primeiro-ministro, para transformarem o "banho de ética" numa autocrítica ao PSD, o comentário sobre a investigação aos assessores numa crítica ao PSD de Passos Coelho, neutralizando o facto de a investigação também abranger autarquias do PS, e a admissão de que também pode haver especuladores imobiliários no PSD uma neutralização da pressão mediática sobre os especuladores imobiliários do BE, deixando a ideia de que são equivalentes aos do PSD.

Na boca do presidente Rui Rio e da sua direcção o PSD é, pois, um partido de gente desonesta. Incluindo-me a mim, que ao longo dos meus 61 anos de vida acumulei na política uma fortuna de 128,24€ (cento e vinte e oito euros e vinte e quatro cêntimos) em sete senhas de presença na Assembleia de Freguesia da Venteira para que fui eleito em 2017.

Há no entanto uma hipótese alternativa para explicar esta insinuação sistemática sobre a falta de ética no PSD. A de ser, não uma estratégia de comunicação, mas acidental.

Quando admitiu que pode haver casos como o de Ricardo Robles no PSD Rui Rio pode apenas ter caído ingenuamente na armadilha infantil que lhe foi estendida pela jornalista para lhe sacar um título sensacionalista quando lhe perguntou "Pode garantir que algum vereador do PSD ou deputado não faz fortuna à conta da especulação imobiliária?". A pergunta tem erros de sintaxe, mas a armadilha é bem visível. E em vez de lhe ter respondido, como podia e devia, algo que desviasse o foco da questão de no PSD se fazer especulação imobiliária como o bloquista foi apanhado a fazer, fazendo do PSD uma coisa semelhante ao BE, para o facto de, se alguém do PSD fizesse especulação imobiliária não estaria a violar hipocritamente em privado, como o bloquista esteve, os princípios morais e políticas que prega, porque a especulação imobiliária não é reprovável à luz dos princípios em que acredita e que prega quem acredita na economia de mercado, Rui Rio caiu na armadilha e admitiu que no PSD também pode haver especuladores imobiliários.

Se tiver acontecido isto Rui Rio errou, não por ter apontado os seus tiros ao próprio partido, mas por não ter a competência para comunicar que alguém com a ambição e na circunstância de um dia poder chegar a primeiro-ministro precisa de ter.

Não é melhor nem pior, é mau na mesma.

E eu não tenho meios de avaliar nem posso mais do que especular se Rui Rio tem um discurso que prejudica o PSD por intenção ou falta de preparação.

Uma explicação alternativa é a de ele ter conhecimento de casos de fazer fortuna dentro do seu círculo mais chegado de apoiantes e não ter sido capaz de não o reconhecer?

Venha o Diabo e escolha.

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:07
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Sábado, 28 de Julho de 2018

Uma legislatura dedicada à família e ao lar

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Esta vai ficar conhecida como a legislatura em que os políticos da situação, do primeiro-ministro, e respectiva família ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e respectiva família, ao vereador da mesma câmara, e respectiva família, conseguiram fazer excelentes negócios em investimento imobiliário que conseguiram valorizar com intervenções de requalificação urbana autorizadas pela Câmara Municipal de Lisboa. É até aquela em que na véspera de tomar posse criou in-extremis uma agência de mediação imobiliária um ministro, e respectiva família, e passou à família a propriedade do seu gabinete de arquitectura envolvido em operações imobiliárias interessantes um vereador da mesma Câmara.

Uma legislatura dedicada à família e ao lar.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:37
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

Autoridade e Obediência

Podia vir aqui opinar sobre a recomendação ontem divulgada do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, aos católicos recasados de viverem em continência, e especular sobre quantos se terão conformado a obedecer a esta recomendação que nem anacrónica chega a ser por simplesmente anti-natural, mas a entrevista ao padre Feytor Pinto, sacerdote igualmente respeitável, ainda antes do cair do dia a autorizar-lhes a fornicação desfez as condições para se fazer um teste à obediência à autoridade deste grupo de católicos, e vou opinar sobre a odebiência à autoridade noutros meios.

Eu, tinha 17 anos acabados de fazer quando aconteceu o 25 de Abril de 1974, cresci num mundo onde o conformismo e a obediência à autoridade eram valores da direita, e, com a informação disponível, o inconformismo e o desafio à autoridade da esquerda. Poucas semanas de revolução foram suficientes para perceber que a última parte estava redondamente errada, mesmo sem atender aos casos extremos e patológicos de autoridade que já tinha havido, incluindo genocídios, e continuava a haver mas eu ainda não conhecia, e os ainda mais extremos que ocorreram depois, incluindo genocídios. Pelo que é um local bom para se procurarem casos ilustrativos da autoridade e da obediência.

Um dos episódios mais ricos para ilustrar o conformismo e a obediência genéticos da esquerda foi a substituição, a 31 de Agosto de 2013, da deputada Ana Drago, essa mesma que no parlamento tinha gestos de aparente inconformismo, como dar palmadas na mesa quando não estava de acordo com o orador, pela então assessora do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda e co-autora com o professor Francisco Louçã de livros sobre a necessidade de repudiar a dívida, Mariana Mortágua.

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O Estatuto do Deputado determina que quando um deputado eleito renuncia é substituído pelo primeiro candidato não eleito da mesma lista no círculo que o elegeu. Em caso de impedimento temporário deste, e apenas enquanto durar o impedimento, o lugar é ocupado pelo candidato seguinte, e por aí adiante, até esgotar a lista de candidatos.

Em 2011, o BE tinha conseguido eleger três deputados no círculo de Lisboa. Quando Francisco Louçã renunciou, foi substituído pela 4º candidata, Helena Pinto, como determina o estatuto.

Já quando a deputada Ana Drago renunciou ao seu mandato, a primeira candidata não eleita da lista de candidatos eleita pelo BE no círculo de Lisboa, a 5ª da lista, Rita Maria Oliveira Calvário, engenheira agrónoma, 33, declarou um impedimento temporário para assumir o cargo, que foi aceite pela direcção do grupo parlamentar, determinando a subida do candidato seguinte, o 6º, Francisco Alves da Silva Ramos, escriturário, 55. Que também declarou um impedimento temporário. Tal como o 7º, Bruno Reinhold de Moraes Cabral, cineasta, 30, a 8ª, Beatriz Gebalina Pereira Gomes, professora, 40, a 9ª, Heloísa Maria Pereira Perista, socióloga, 48, o 10º, André Aurélio Marona Beja, enfermeiro, 33, a 11ª, Maria Deolinda Marques Dias Martin, 54, a 12ª, Maria José Vitorino Gonçalves, professora bibliotecária, 55, e o 13º, José Manuel Marques Casimiro, rectificador, 53. Até chegar à 14ª candidata, Mariana Rodrigues Mortágua, economista, 24 (em 2011, 27 na altura da ocorrência), a primeira da lista que aceitou o fardo de servir a Nação como deputada. Ou deu àquela lista de candidatos uma coisa má e contagiosa e tiveram todos impedimentos ao mesmo tempo, ou montaram uma grande aldrabice para contornar a lista votada pelos eleitores e eleger antes o candidato escolhido pela direcção do partido. Mas pronto, a colaboradora do Francisco Louçã lá trepou pela lista acima até chegar a deputada, como tinha sido determinado pela direcção coordenação do partido e foi respeitosamente obedecido pelos nove deputados eleitos conformistas que renunciaram ao lugar de deputado ainda antes de chegar a tomar posse.

O esquema da fraude eleitoral em pirâmide é mais simples de explicar e de fazer do que o esquema da fraude fiscal em pirâmide. E tem outras qualidades. Não é criminalizado. Não desencadeia a indignação dos pastores das redes sociais, e muito menos, a dos seus fiéis seguidores. E permite dar a volta ao voto do povo e promover os amigos. E, a melhor das suas qualidades, não exige mais do que uma equipa conformista e disciplinada pronta a deturpar o resultado das eleições e a sacrificar a possibilidade de tomar posse como deputada eleita para obedecer às ordens da autoridade partidária.

Mas, por mais que os bloquistas se esforcem por, debaixo de uma capa pública de inconformismo, dar provas de obediência cega à autoridade dos chefes coordenadores, está para nascer quem ultrapasse o Partido Comunista Português em obediência cega à autoridade.

E na Assembleia Municipal do Porto desta semana a CDU acabou de bater o recorde nacional de substituição de deputados municipais ao fazer ascender o 30º membro da lista de candidatos eleita ao grupo de três deputados municipais que têm lugar na Assembleia Municipal, através, não de nove, mas de vinte e sete substituições.

Por mais que o BE se esforce, e o BE pode estar na eminência de ocupar responsabilidades governativas no próximo ano se o António Costa não conseguir nas eleições uma maioria absoluta e não se interessar pelo apoio do PSD para sustentar uma solução governativa, tem muito que aprender no domínio da disciplina e da obediência com o PCP, que exibiu nesta substituição o triplo do conformismo que o BE tinha exibido na outra.

E a direita? A direita que em tempos assumia o mote Deus, Pátria, Autoridade?

Em obediencia à autoridade a direita anda pelas ruas da amargura. O melhor que se pode arranjar por estes dias é o Pacheco Pereira a denunciar e lamentar "o sector que emergiu à volta de Passos e Relvas e depois ganhou outros mentores, que se comporta como dono do aparelho, e que fará tudo para não o perder" que em vez de "fazer críticas ou discutir orientações" pretende "organizar grupos e frações para manter o poder interno". Fracote, nem parece coisa do militante comunista (no sentido estrito de militante e lato de comunista, que não meramente o de obediência à URSS) que mesmo com o 25 de Abril de 1974 não saiu da clandestinidade porque não estava seguro de ter sido mais do que uma revolução burguesa, e só saiu da clandestinidade depois do 11 de Março de 1975, quando finalmente sentiu a tranquilidade de viver em democracia popular liderada inequivocamente pelos comunistas.

A direita, em matéria de Autoridade e Obediência, tem tudo para aprender. Se quiser ser igual à esquerda.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:23
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Sexta-feira, 14 de Julho de 2017

Revisão de contas, ou, o tele-evangelismo dá dinheiro

2017-06-10 Situação líquida partidos.jpg

Ao abrigo do artigo 20.º, n.º 2, alínea d) da Lei Orgânica n.º 2/2005, de 10 de Janeiro, com referência apenas ao balanço e demonstração de resultados, e incluindo as contas dos grupos parlamentares e de deputado único representante de um partido na Assembleia da República e nas Assembleias Legislativas das regiões autónomas, nos termos da alínea e) do artigo 9.º da Lei 28/82, de 15 de Novembro, na redação dada pelo artigo 1.º da Lei Orgânica n.º 5/2015, de 10 de Abril, a Entidade de Contas e Financiamentos Políticos publicou no seu site, as Contas Anuais dos Partidos Políticos referentes ao ano de 2016.

Para atalhar razões, a comunicação social deu-se ao trabalho de extrair dos relatórios a Situação Líquida dos partidos com assento parlamentar, e é apenas sobre ela que eu vou dar o meu parecer.

Para não entrar a frio nos números, que como toda a gente sabe, não são pessoas, devemos olhar previamente para a economa das operações, ou seja, para os relatórios de actividade. Na sua indisponibilidade, apoiemo-nos no que sabemos, ou pensamos saber, sobre a fortuna dos partidos.

Em Portugal há três grandes partidos, ou seja, partidos com muitos militantes, muitas sedes e muita despesa: o PSD, o PS e o PCP, por ordem decrescente de número de eleitores, que não necessariamente do número de militantes ou da estrutura de custos.

Destes, o Partido Comunista Português é o mais antigo, provavelmente o que tem mais militantes, e certamente o que tem mais militância. É, ao contrário do que os resultados eleitorais nos últimos 40 anos sugerem, um partido profissional, e um partido de poder. No dia 25 de Abril de 1974, apesar de ter uma boa parte da estrutura de liderança exilada em diversos países, teria sido capaz de apresentar um governo completo e pronto a entrar em funções antes de acabar o dia. E no dia 14 de Julho de 2017 também seria, e sem ter de recrutar os governantes entre os familiares de meia dúzia de amigos do primeiro-ministro. É também o partido que dominava o aparelho do Estado quando foi distribuído pelos partidos o património que se podia distribuir. E como quem parte e reparte e para si não deixa a melhor parte ou é burro ou não tem arte, e o sector intelectual do partido sempre contou com bons artistas, para além dos empregados de escritório, o PCP juntou um bom pecúnio em património imobiliário nos tempos do processo revolucionário em curso. Acresce que o grau de militância dos comunistas, quase comparável ao de uma seita religiosa, sempre se prestou a boas receitas de quotizações dos militantes, sem contar com o dízimo dos que assumem funções públicas remuneradas, para além do intenso voluntariado prestado pelos militantes de base para realizar tarefas que, em partidos mais burgueses, só aparecem feitas se forem terciarizadas, ou seja, se pagarem para as mandar fazer. Tudo junto, potencia um património imobiliário portentoso, um bom nível de receitas e uma estrutura de custos bastante competitiva para a dimensão das operações. E, sem supresa, o partido mais rico de Portugal é, de longe, o PCP, com uma situação líquida de perto de 18 milhões de euros, mesmo com a exiguidade da subvenção pública que os seus não mais de 10% de eleitores lhe proporcionam regularmente.

O Partido Social Democrata, mesmo sendo o campeão em vigor da subvenção pública, por ter ganho as eleições, e as conseguir ganhar com alguma regularidade, está muito longe do PCP, mas tem uma situação líquida apreciável. De fora do partido pode dar a impressão que é um partido de poder que nada em dinheiro, como se gosta de assumir para a política de uma maneira geral, mas de dentro percebe-se que não. Sendo militante ao serviço da secção de uma das maiores cidades do país, a Amadora, posso testemunhar, sem revelar segredos que devem ser mantidos em segredo, que a vida no interior do partido é bastante austera, o único equipamento de telecomunicações disponível na sede é um descodificador de televisão digital que compensa a idade do televisor que seria só por si incapaz de sintonizar os quatro canais digitais, e, internet sem fios, apanha-se por mero caso a gratuita da loja do Continente Bonjour que fica paredes-meias com a sede do partido e está ligada 24 horas por dia. Menos nas próximas semanas em que a loja entrará em obras e provavelmente desligará o benfazejo router wireless. Ou seja, fazendo dieta e vivendo de cinto apertado chega-se uma situação líquida modesta, de quase 1,2 milhões de euros, mas positiva.

O Partido Socialista tem a virtude da coerência. Apesar de também ter constituído um valioso patrimínio imobiliário nos tempos áureos da revolução, provavelmente não tão valioso como o do PCP, mas só o palácio do Rato deve valer uma pipa de massa, de pedir regularmente meças ao PSD em votos e em subvenções partidárias, e de ter um grande número de militantes que pagam quotas, apresenta uma situação líquida negativa de 6 milhões de euros, ou seja, está, exactamente como deixou o país da última vez que legou responsabilidades governativas a outros, tecnicamente falido, e muito falido. O PS não desilude as expectativas que levanta.

O Centro Democrático Social é um partido mais pequeno do que estes, mas praticamente com a mesma idade, exceptuando o PCP que vem dos tempos do jurássico, com uma rede de sedes apreciável, e custos consonantes, e tem uma situação líquida negativa de quase 100 mil euros, ou seja, está em situação de falência técnica. Nada com uma dimensão que não possa ser ultrapassada num partido de quadros que facilmente poderão mobilizar recursos para a inverter, mas um símbolo inequívoco de que a política não dá dinheiro como se gosta de pensar. O partido dos ricos não é um partido rico.

Com o Partido Ecologista os Verdes e o Partido Animais e Natureza não gasto tinta. Os primeiros, por serem um franchise do PCP montado há 34 anos para entrar no eleitorado mais jovem com preocupações ambientais que um partido soviético dificilmente conseguiria satisfazer plenamente, e tendo inflectido há 30 para a formação de um grupo parlamentar de 2 deputados que lhe dá direito a duplicar os tempos de antena e as nomeações para cargos políticos pelos partidos de incidência parlamentar, e os segundos por não me terem encomendado a certificação de contas nem eu estar para esse lado virado.

Resta o fenómeno da turma. O Bloco de Esquerda, partido diminuto em militantes, número de sedes e estrutura de custos, com um grau de implantação praticamente nulo no poder autárquico, à medida exacta da sua implantação no terreno, mas com uma presença quase permanente e omnipresente na comunicação social e no comentariado e nas notícias televisivas, fruto, talvez? do valor e do interesse público das opiniões dos seus dirigentes e comentadores, talvez? da simpatia de que gozam entre jornalistas, editores e proprietários de jornais e canais, apresenta, com 2,4 milhões de euros, a segunda mais elevada situação líquida, logo a seguir ao PCP e com mais do dobro da do PSD.

E o que significa isto tudo somado? Que um partido não tem que investir numa infraestrutura física real nem numa implantação no terreno, e, mesmo com uma oferta política toda ela baseada em ilusões e disparates em tudo semelhantes às que provam o seu valor no terreno económico no socialismo venezuelano, na melhor das hipóteses, e no sonho de um mergulho no socialismo em tudo semelhante ao que prova o seu valor no terreno democrático no socialismo venezuelano, na pior, pode conseguir obter níveis de votação que lhe dão o acesso a generosas subvenções partidárias, desde que consiga assegurar uma presença acarinhada, permanente e omnipresente nas televisões. Por outras palavras, o tele-evangelismo que é gratuito, quando não remunerado, quando o acesso à televisão lhe é franqueado sem pagar por ele a título de compra de espaço publicitário, rende mais do que a montagem de um partido tradicional com sedes e militantes.

De modo que, a título de síntese e de recomendações, se quiserem fundar um partido e ainda ganhar umas coroas, evitem montar grandes partidos com muita gente, que são uma maçada e uma despesa, vão à televisão o mais que possam, e gozem da notoriedade que ela vos proporciona. Optem pelo tele-evangelismo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:29
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

Alt-left

eastofsuez_jude.jpg

Um grupo anónimo de activistas pró-palestinos vandalizou a fachada de um restaurante do Porto cujo proprietário participou num festival de gastronomia em Israel, manchando-o de tinta vermelha e colando nas montras panfletos com a sugestão de menu "Entrada: uma dose de fósforo branco" e palavras de ordem anti-semitas como “Liberdade para a Palestina” e “Avillez colabora com a ocupação sionista”.

Divulgaram o seu manifesto anonimamente através de blogues, esclarecendo que tinham sido alertados pelo Movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) para a intenção do cozinheiro de participar no festival de gastronomia, e lamentando que a "acção indirecta alimentada por cartas educadas a apelar para que Avillez não participasse", nomeadamente o apelo subscrito pelas associações Associação Abril, Colectivo Mumia Abu Jamal, Comité de Solidariedade com a Palestina, Conselho Português para a Paz e Cooperação, Grupo Acção Palestina, MPPM - Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente, Panteras Rosa - Frente de Combate à Lesbigaytransfobia e SOS Racismo, divulgado no blogue da BDS, e este pelo esquerda.net, se tinha revelado incapaz de o demover de participar. E, como não podia deixar de ser, justificando a sua iniciativa de acção directa como um poema solidário. Tudo no tom criatividade literária e ironia tão próprio da esquerda alternativa não associada a partidos que apareceu em Portugal desde o início da legislatura anterior a organizar ocupações e manifestações de indignados, e tão semelhante ao que se tornou característico da esquerda do sistema, até no parlamento.

O esquerda.net tratou de aproveitar a notícia da iniciativa para, com a pedagogia que lhe é tão própria para ajudar mesmo o mais lento de compreensão dos leitores a perceber correctamente a mensagem que lhe é dirigida, justificar que ela tinha sido tomada para "denunciar a sua colaboração num evento de propaganda de Israel", explicar todas as metáforas usadas pelos activistas no seu manifesto, até que o fósforo branco é "material usado nos massacres contra a população palestiniana na Faixa de Gaza, em que as fotos de crianças queimadas vivas chocaram o mundo", e a divulgar o endereço electrónico para a consulta do manifesto. Mesmo o mais burro dos devotos do esquerda.net vai perceber tudo direitinho.

Vai perceber ele, e vamos perceber nós. A harmonia de valores e mensagens entre os promotores do movimento BDS que actua estritamente dentro da legalidade, as associações que aderem aos seus apelos, os activistas anónimos que passam à acção directa a pretexto dos mesmos valores, e o Bloco de Esquerda que assume as relações públicas destas iniciativas não engana ninguém que não queira ser enganado.

Isto não é a esquerda alternativa nem Alt-left. Isto é a esquerda que já está instalada no sistema, é mesmo a Mainstream-left.

 

Post Scriptum.

Com um agradecimento à Helena Matos e ao Blasfémias, a memória de pretéritas iniciativas do BDS, neste caso uma exigência, e a respectiva acção de protesto, ao Leonard Cohen para não cantar em Israel. Desta vez não apareceram lá os vândalos a sujar paredes e a fazer poemas solidários, mas o esquerda.net, que nunca falha, noticiou o comunicado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 09:39
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2015

Curvas e contracurvas

 

Costa-02-640.jpg

 

Sem os adornos que servem para esconder a perplexidade geral, dois motivos são suficientes para o dr. Costa não ter sido claro a anunciar, antes de 4 de Outubro, os seus planos de se coligar com o PC e com o Bloco. Um deles foi o receio de afastar do PS o eleitorado do centro. Só que uma parte dessa gente não se deslumbrou com a linguagem ambígua de Costa e, mesmo sem ter a ameaça da Frente de Esquerda (chamemos-lhe FE) formalmente definida, fugiu das interpretações radicais que Costa luziu para se apresentar como o grande padrinho das "alternativas" contra a dureza da "austeridade".

 

Os ingratos que faltaram ao PS, moderados mas zangados com a coligação, dividiram-se entre os que não saíram de casa para votar e os que votaram na segurança do “protesto”, em partidos pequenos que ninguém imaginou poderem chegar-se ao poder. O centro, que é quase Portugal em peso, detesta a desordem e o descontrolo porque sabe que daí à pobreza vão meia dúzia de “reuniões técnicas”. Por cobardia mental e por incompetência política, António Costa competiu em radicalismo retórico com a extrema-esquerda, mentindo a condizer; e foi por ter-se encostado à extrema-esquerda que António Costa perdeu as eleições.

 

O outro motivo foi o receio de as ganhar. Supondo que a sua audácia acertava, e tinha de ponderar essa possibilidade, Costa arriscava-se a subir à Gomes Teixeira com uma maioria relativa, de relações cortadas com Passos e Portas. O PC e o Bloco teriam posto um carimbo de benemerência nos propósitos deste PS purificado, e para o novo chefe, acabado de ungir, não havia maneira de se desembaraçar destes dois atrasos de vida que ele nunca tolerou. O que Costa queria, na sobra de racionalidade política de “um excelente conciliador”, que vive na zona parda dos “acordos” há muitos anos, era “negociar” as medidas pop com a extrema-esquerda - e “apoiar-se” na coligação para fazer o país engolir as brutalidades mais azedas.

 

Ainda quer. A bendita FE que anda a cozinhar, se algum dia sair daqueles encontros sinistros, vai estoirar à primeira rosnadela dos credores, à primeira falta de comparência dos malvados “mercados financeiros”. Costa vai transpirar, espremer-se em entrevistas verbosas, e todo o jornalismo vai exigir de Passos e Portas o tão mal explicado “sentido de responsabilidade”.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 17:55
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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013

Poucos mas bons

"Mais pérolas racista-eugenista-delatórias do 'Bloco de Esquerda de Elvas' e/ou da candidatura de Francisco Castelo".

 

Fui ver e o candidato, entretanto desautorizado pela direcção do BE, distinguiu-se por algumas denúncias verdadeiramente pidescas. Exemplos:

 

Uma viatura "cigana", cuja fotografia apresenta, estava roubando materiais de construção civil no Museu Militar. Isto é grave: por um lado, a carrinha não era cigana, mas sim Mercedes; depois, as carrinhas não roubam.

 

Outra fotografia mostra um muro borrado com artística pichagem, na qual se percebe perfeitamente não sei quê. O candidato intitula a imagem do seguinte modo: "Informação nas escolas para acabar com isto nas paredes!". Um comentador diz: "Formatação ideológica nacional-cristã impõe-se para acabar com o 'graffiti', essa praga de uma juventude que 'está perdida'...em que brochura do PNR já terei lido uma destas?". Realmente, digo eu: todo o jovem sem recursos deveria, se houvesse uma política cultural consequente, receber uma caixa de sprays por mês. E, na disciplina de Lavores, aos jovens de ambos os sexos deveria ser ministrada formação na confecção de cocktails Molotov.

 

Noutra imagem aparece um vulgar portão. E a legenda diz: "Eram 9:05 da manhã de sábado e este portão ao fundo do Jardim Municipal estava fechado". Título na página do feicebuque de um controleiro: Denuncias pidescas 3.

 

Em resumo, a candidatura local do BE está enganada de partido, fachos é mais para a direita. E a direcção nacional fez muito bem em retirar-lhes a confiança, ainda corriam o risco de ter votos. E isso não pode ser: poucos mas bons.

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publicado por José Meireles Graça às 19:21
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Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

O ouvido é o caminho do coração*

Duas patetinhas do BE resolveram trazer para a praça pública a inclusão do piropo no conceito de assédio sexual, por sua vez um "crime" moderno de cuja abrangência muito reaccionário que anda por aí (saravá, irmãos) discorda.

 

Não pude, infelizmente, encontrar fotografias das senhoras em questão, há mais do que uma Adriana Lopera e montes de Elsas Almeida.

 

Tinha curiosidade em ver as imagens, a ver se delas extraía alguma conclusão maldosa. Ainda que, se as ilustres militantes fossem feias, nem por isso seriam menos dignas de um piropo simpático: li algures de um tipo que, precisamente, só se dava ao trabalho de piropar mulheres feias, por gostar de ver nelas um sorriso feliz, em vez do habitual trombil enfadado que as bonitas reservam para os desbocados.

 

Caiu-lhes a blogosfera e a opinião pública em cima. Ainda bem, o senso não está ainda tão embotado que a indústria das causas e dos direitos possa colocar no mercado mais interditos a eito.

 

O BE que se dedique às touradas, não falta por aí quem fique com o coração a sangrar quando sangra o lombo do touro - há mercado.

 

E, no intervalo, deixe-nos a nós, regalados, ler esta recolha de poesia de andaime.

 

* Voltaire

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publicado por José Meireles Graça às 15:28
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