Quinta-feira, 22 de Novembro de 2018

De boas intenções está o Inferno cheio, ou Gato escondido com o rabo de fora?

Na semana passada especulei aqui sobre quais podem vir a ser as consequências possíveis do anúncio pelo novo presidente brasileiro Jair Bolsonaro, não se lhe pode chamar medida política porque ele ainda não governa, de exigir alterações ao contrato entre os governos brasileiro e cubano ao abrigo do programa "Mais Médicos" que são consideradas inaceitáveis pelo governo cubano, pelo que conduz inevitavelmente à ruptura do contrato.

Fiz essa análise essencialmente na óptica mais relevante para analisar uma medida política de um governo, a que olha para as consequências dessa medida para os governantes que a tomam e para os governados que são afectados por ela, o presidente Bolsonaro e os brasileiros servidos por médicos cubanos, e cheguei à conclusão que a medida terá certamente consequências positivas para o presidente, e para os utentes dos médicos terá consequências que poderão ir da neutralidade, se não houver uma disrupção dos cuidados médicos a que têm acesso hoje em dia, à catástrofe humanitária, se perderem durante um período longo o acesso a esses cuidados. E esta distância entre as consequências mais positiva e mais negativa inspirou o título do texto "Roleta Russa".

Mas alguém me chamou a atenção, e bem, para o facto de ter discutido insuficientemente as consequências da medida para uma parte que por um lado é importante neste processo e por outro está sujeita a uma situação de alguma fragilidade, os médicos cubanos.

Os médicos cubanos, tal como todos os cubanos, vivem numa ditadura comunista. Não têm, portanto, a liberdade que nós temos, mas alguns dos mais velhos de nós já não tivemos, e ao não ter tido aprendemos a perceber bem a diferença entre tê-la e não a ter. E vivem num país com a ineficiência económica inerente ao socialismo. Ou seja, não são livres nem prósperos.

E, como faz parte da natureza humana tentar a sorte noutras paragens quando não se é livre nem próspero onde se está, são impedidos de sair para o estrangeiro para não fugirem, e só lhes são permitidas as saídas em circunstâncias excepcionais. Por exemplo, quando são enviados pelo governo para desempenhar funções no estrangeiro, como acontece aos médicos cubanos.

Uma das formas de os desincentivar de fugirem quando se encontram num país estrangeiro como o Brasil, não sendo possível vigiá-los e controlá-los permanentemente, é de não permitir que se façam acompanhar pelas suas famílias quando saem do país, tendo a noção que se fugirem, como lhes é relativamente fácil fazer, podem não as voltar a ver por elas serem impedidas de sair do país para irem viver com eles.

Isto tudo é importante neste contexto porque um dos motivos pelos quais aqueles a quem a medida, ou a sucessão de anúncios de ameaças e de promessas, do presidente Bolsonaro parece mais positiva do que negativa é justamente a falta de liberdade que vitima os médicos cubanos que estão no Brasil, e a possibilidade de lhes devolver a liberdade se se desligarem, como têm oportunidadede fazer se o presidente cumprir a promessa de os acolher no Brasil, das amarras que os prendem ao regime cubano. E, quer sejam oito mil e tal, quer sejam onze mil e tal, e há notícias a citar os dois números e não sei determinar qual deles é o real, libertá-los a todos seria um sucesso extraordinário, sem qualquer tipo de cinismo político.

O presidente Bolsonaro não se cansou, aliás, de repetir que os queria no Brasil, livres (com a possibilidade de ter as famílias a viver com eles) e com direitos (a receber directamente o salário em vez de receberem do governo cubano um salário que é substancialmente mais elevado do que o que têm em Cuba mas substancialmente mais baixo do que o de um médico brasileiro e do que o valor pago por cada um ao govero cubano). E de comparar a situação actual deles com a escravatura, no que tem sido um argumento de carga dramática muito forte dos adeptos da medida.

Que consequências é que esta intenção declarada do presidente Bolsonaro, que desencadeou a reacção natural e esperada do governo cubano de rescindir o contrato com o governo brasileiro e ordenar o regresso dos médicos cubanos, pode ter então para os médicos cubanos?

A primeira definição que é necessário precisar para proceder a esta análise é que uma medida política vale pelas suas consequências, e a consequência de uma medida é a diferença entre a situação prévia e a situação real que resulta da concretização da medida, e não a diferença entre uma situação prévia que carece de intervenção e uma situação ideal que ela pretende ou alega atingir.

Neste quadro, a consequência de uma medida destinada a libertar os médicos cubanos que não são livres como deviam não é necessariamente a desejada liberdade deles, mas a situação real em que se vierem a encontrar depois de a medida ser implementada.

Posto isto, qual e a situação prévia que carece de intervenção?

É o facto de os cuidados médicos serem assegurados a um número cuja estimativa varia entre notícias mas que não deve ser inferior a vinte milhões de brasileiros por médicos cubanos ao abrigo do programa "Mais Médicos" , e de estes médicos receberem salários indignos para os padrões brasileiros e serem sujeitos a limitações inaceitáveis  à sua liberdade, nomeadamente ao não serem livres de levar as famílias com eles para o Brasil, numa condição que uma retórica activista dos direitos humanos e sociais define como "escravos" com os familiares "reféns" do regime cubano. E serão mesmo?

Escravos? Já vimos que livres não são, como ninguém é numa ditadura, comunista ou de outra orientação ideológica qualquer. Mas para poderem ser honestamente considerados escravos seria preciso, em primeiro lugar, que fossem forçados a trabalhar contra a sua vontade.

Ora estes médicos trabalham no Serviço Nacional de Saúde cubano onde têm emprego assegurado e candidatam-se a vagas nas missões no estrangeiro para onde, quando as suas candidaturas são aceites, são enviados. E porque é que se candidatam a missões no estrangeiro em vez de continuarem nos seus portos de trabalho de origem? Porque, mesmo recebendo menos do que os médicos brasileiros e muito menos do o governo cubano recebe pelos serviços prestados por eles, recebem muito mais do que no SNS cubano. Estes médicos estão no Brasil porque querem e porque têm interesse pessoal, nomeadamente a nível salarial, em lá estar. Escravos não são.

Explorados? Os médicos colocados no Brasil recebem apenas um terço, vamos tomar esta fracção por fidedigna mas, mesmo que não seja, não tem grande relevância determinar o montate exacto, do que o governo cubano recebe pelos serviços que eles prestam. Isto é exploração? Se nos esforçarmos por olhar para a situação numa óptica trabalhista podemos dizer que sim.  Se olharmos à nossa volta para a economia de mercado em que temos a sorte de viver, pode ser que não.

Eu iniciei a carreira profissional numa multinacional de informática onde, se eu passasse um dia completo a prestar assistência a um cliente e a empresa lhe facturasse as oito horas do trabalho prestado por mim, recebia por esse dia de trabalho meu mais do que me pagava de salário mensal. Eu sentia-me explorado? Não, ganhava muito bem e até sentia uma certa vaidade por ver como o meu trabalho era tão valorizado pelos clientes que apoiava. As empresas de serviços numa economia de mercado compram a mão-de-obra a preços de mercado e vendem os serviços a preços de mercado, e mesmo que os trabalhistas vejam nisto uma perversão, é o melhor que se arranjou até agora para proporcionar vidas mais decentes a mais trabalhadores. O governo cubano não faz muito diferente ao oferecer a médicos cubanos com salários inferiores a cem euros por mês a oportunidade de se candidatarem a ganhar várias vezes mais no Brasil, e a oferecer ao governo brasileiro serviços de médicos por um valor competitivo com o que o governo brasileiro teria que oferecer a médicos brasileiros para aceitarem ocupar as vagas nos locais pobres e remotos onde os médicos cubanos trabalham. Havendo aqui intervenientes que não são agentes numa economia de mercado, todos participam neste negócio bem informados sobre as suas condições e livres de decidir participar ou não, pelo que não se pode dizer que este negócio viole as exigências de uma economia de mercado, nem que a exploração a que é sujeta uma das partes seja diferente da exploração a que é sujeito qualquer trabalhador numa economia de mercado.

Reféns? Em Cuba, como na generalidade dos países comunistas, toda a gente é refém, toda a gente é impedida de se deslocar ao estrangeiro a não ser em circunstâncias excepcionais e normalmente acompanhada de funcionários com responsabilidade pela sua vigilância, e nomeadamente por não os deixar fugir.

E as famílias dos médicos também. São impedidas de sair mas não são ameaçadas de represálias no país no caso de o seu familiar fugir. Simplesmente continuarão a ser impedidas de sair, e ele de entrar para não se deixar recapturar, o que significa que uma fuga de um pode ter como consequência a impossibilidade de voltar a ver a família. Isto não faz deles vítimas de qualquer forma de discriminação comparativamente com qualquer outro cubano a trabalhar no estrangeiro ou em Cuba. São apenas, todos eles, vítimas do comunismo.

Acresce que entre os onze, ou oito, mil e tal médicos do contingente cubano no Brasil há cento e cinquenta, entre um e dois por cento, que têm a ambição declarada de não regressar a Cuba, tendo para isso instaurado processos na justiça brasileira.

Tudo junto, quais são as consequências para os médicos cubanos desta intenção de medida política do novo governo brasileiro com o objectivo confesso de os libertar?

Para os cento e cinquenta que querem ficar no Brasil isto é a oportunidade de libertação, tanto mais que o presidente Bolsonaro já prometeu publicamente que os acolherá no Brasil. Em boa verdade não seria necessário provocar a rescisão do contrato com o governo cubano para os libertar, bastaria conceder-lhes dupla nacionalidade ou o estatuto de refugiado político e contratá-los directamente para trabalharem no SNS brasileiro.

Para os que, mesmo sem terem até agora iniciado qualquer procedimento formal para tentar permanecer no Brasil, desejem aproveitar esta oportunidade para permanecer, a mesma consequência. É a oportunidade de libertação, mas não seria necessário o governo brasileiro rescindir o contrato com o governo cubano para os libertar.

Para os médicos cubanos que, por ter rescindido o contrato com o governo brasileiro, o governo cubano mandar regressar antecipadamente a Cuba, é uma oportunidade de ganhar melhor e juntar dinheiro para eles e para as famílias durante uma missão no estrangeiro para a qual se candidataram e conseguiram ser escolhidos que é terminada prematuramente. Vão perder dinheiro. E vão conquistar alguma liberdade ao libertarem-se desta escravatura a que estão sujeitos no Brasil com as famílias reféns em Cuba? Não, vão continuar a ter a mesma falta de liberdade que têm e sempre tiveram e as famílias vão continuar a ser impedidas de viajar como sempre foram e são enquanto eles estão no Brasil. Se eram escravos e as famílias reféns, vão continuar a ser escravos e as famílias reféns. Terão danos e não terão quaisquer benefícios a compensá-los.

Tudo junto, a rescisão do contrato com o governo cubano para colocar médicos no Brasil ao abrigo do programa "Mais Médicos" vai beneficiar um número de médicos cubanos previsivelmente muito reduzido, e cujo problema se poderia resolver com medidas alternativas directamente dirigidas a eles, e vai prejudicar financeiramente e no percurso profissional todos os outros sem lhes incrementar em nada a liberdade. Para eles a bala da Roleta Russa está mesmo na câmara.

Significa isto uma grande trapalhada do presidente Bolsonaro que anunciou uma medida política voluntariosa com a intenção declarada de proteger os médicos cubanos que estão a trabalhar no Brasil mas que acabará por prejudicar a esmagadora maioria deles, para além de prejudicar milhões de utentes?

Não.

Como eu tinha avisado na semana passada, a preocupação com o bem-estar dos outros é sempre a primeira que se deve evidenciar quando se fazem reivindicações populistas, mas não é a que motiva realmente as reivindicações.

2018-11-22 Guerrilheiros cubanos.jpg

Quando o programa "Mais Médicos" foi lançado pelo governo Dilma em 2013 o então deputado federal Jair Bolsonaro exigia ao governo que não permitisse a vinda de familiares dos médicos cubanos que o governo brasileiro autorizava no contrato.

O deputado justificava essa exigência insinuando que a autorização para os médicos cubanos virem acompanhados de familiares resultaria numa verdadeira invasão do Brasil por milhares de agentes do governo cubano, que ele estimava em setenta mil. Se a preocupação dele era fundamentada ou uma teoria da conspiração delirante não é importante avaliar aqui. Mas a preocupação não era certamente o bem-estar das famílias dos médicos cubanos, agora designadas por reféns do regime cubano a quem ele exige que lhes permita viajarem para o Brasil, era, pelo contrário, impedir que entrassem no Brasil.

Mas ele entretanto podia ter mudade de ideias, e ter evoluído de uma preocupação securitária talvez paranóica para uma sensibilidade social ao bem-estar dos médicos e das suas famílias negado pelo regime cubano. Podia, mas não mudou.

Ainda em 2016, já tinha caído o governo Dilma, ele exigia a sujeição dos médicos cubanos a um exame à Ordem dos Médicos brasileira para comprovarem as suas competências e, deste modo, o governo brasileiro poder expulsar alegados "médicos" que eram na realidade agentes ou militares cubanos colocados no Brasil para provocar o caos no país depois de ocorrer um atentado islâmico.  Se a preocupação dele era fundamentada ou uma teoria da conspiração delirante não é importante avaliar aqui. Mas a preocupação não eram certamente com os direitos laborais e sociais dos médicos cubanos, era, pelo contrário, a de encontrar um modo de os expulsar do Brasil.

Resumindo, encontramos aqui bem tipificados alguns ditados portugueses.

Se a ambição de quem formulou ou concorda com as medidas propostas pelo presidente Bolsonaro para proteger os direitos laborais e sociais dos médicos cubanos é realmente proteger os direitos laborais e sociais dos médicos cubanos, o melhor é deixar estar como está, porque o que está em curso não os vai proteger, vai-os penalizar sem lhes oferecer em contrapartida qualquer incremento de liberdade. "De boas intenções está o Inferno cheio".

Mas a ambição real destas medidas não é proteger os direitos laborais e sociais dos médicos cubanos, e provavelmente também não será neutralizar uma conspiração imaginária de agentes cubanos no Brasil, será certamente a de iniciar um ciclo de reversões simbólicas de medidas simbólicas do governo pêtista para sinalizar aos brasileiros que o Brasil está a mudar, e para melhor. "Gato escondido com o rabo de fora".

E num balanço global isto vale os custos que terá? Para os médicos cubanos no Brasil, não.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:00
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

Roleta russa

2018-11-15 Brasil médicos cubanos.jpg

O Brasil tem mais de 11 mil médicos cubanos que, como é habitual, não são contratados individualmente mas através de um protocolo celebrado com o governo cubano, o programa "Mais Médicos" , e com direitos laborais e sociais limitados pelo seu patrão, o governo cubano que, entre outras condições contratuais, lhes paga um salário várias vezes inferior aos honorários que recebe do governo brasileiro pelo serviço que eles prestam e lhes limita, nomeadamente, a liberdade de movimentos, e a das suas famílias. É a gestão socialista dos recursos humanos, assunto que considero fascinante por vários motivos e constituiu mesmo o tema do primeiro texto que publiquei neste blogue.

O programa "Mais Médicos"  foi lançado pelo governo brasileiro Dilma em 2013 acompanhado de uma intensa campanha de propaganda mediática a título de fazer chegar a assistência médica a populações desfavorecidas em regiões remotas para onde era difícil recrutar médicos brasileiros, incluindo reportagens apoteóticas à chegada do contingente de médicos cubanos a cada aeroporto brasileiro. E alguma utilidade tem para além do fogo-de-vista mediático, por ter feito chegar médicos a zonas efectivamente desprovidas deles.

É aliás semelhante a um protocolo celebrado com muito menos circo mediático entre o governo português Sócrates e o governo cubano em 2009 para acolher médicos cubanos em Portugal, também para colocar em zonas onde de facto era e é difícil recrutar médicos portugueses, que actualmente abrange umas dezenas de médicos, perto de cem. E também sujeitos a condições salariais e sociais típicas de um regime socialista, recebendo de salário poucas centenas de euros dos mais de quatro mil que o governo cubano cobra por cada um, para além das despesas de alojamento suportadas pelas autarquias, e sendo cada grupo de quatro médicos coordenado por um chefe de missão cuja função primordial é a vigilância dos restantes membros. A sua presença em Portugal foi essencialmente contestada pela Ordem dos Médicos que, numa reacção corporativa típica e expectável, alegava que eles estavam sujeitos a um regime de quase-escravatura, a preocupação com o bem-estar dos outros é sempre a primeira que se deve evidenciar quando se fazem reivindicações corporativas populistas, e que se pagasse a médicos portugueses quatro mil euros por mês o governo conseguiria recrutá-los para essas regiões, a verdadeira motivação para a sua reacção.

Um dos sinais distintivos dos populismos é o recurso sistemático a medidas simbólicas, mais motivadas pela mensagem que fazem passar, e quanto mais facilmente passa a mensagem mais eficazes são, do que pela eficácia social, que no limite até pode ser contrária à intenção declarada. Foi para isso, para dar um exemplo, que o BE apresentou logo no primeiro dia desta legislatura em que a esquerda recuperou a maioria parlamentar que não tinha desde 2011 a proposta de eliminar a taxa moderadora para o aborto, cujo efeito prático é nulo, por a taxa ter nessa altura um valor meramente simbólico de 7,50€ e apenas abranger a minoria de cidadãos com rendimentos que não os isentam de taxas moderadoras, mas que serviu para o BE sinalizar que agora quem manda aqui somos nós.

No Brasil o governo mudou e o novo presidente também tem a preocupação de recorrer a medidas de forte carga simbólica, no caso dele anti-comunista, para mostrar que o tempo do petismo acabou e que quem manda ali é ele.

E uma das medidas que elegeu para exibir este simbolismo foi o programa "Mais Médicos". Que, aliás, é uma escolha feliz no domínio da carga simbólica, por ser uma medida do governo Dilma e por envolver o regime cubano.

Além de manifestar, ou de dar voz a manifestações de, dúvidas àcerca das qualificações profissionais dos médicos cubanos, que no Brasil, ao contrário de Portugal, não são obrigados a fazer um exame na Ordem dos Médicos para ficarem habilitados para o exercício da Medicina, também denunciou as condições laborais a que estão sujeitos pelo governo cubano. E a pretexto de garantir a qualidade do serviço prestado por eles e de exigir para eles direitos laborais e sociais que não têm, o presidente Bolsonaro anunciou que vai reformular o programa para passar a exigir que os médicos cubanos façam um exame para poderem exercer Medicina no Brasil e vejam os seus direitos laborais e sociais ampliados, recebendo por inteiro o salário pago pelo governo brasileiro e tendo liberdade para trazerem as suas famílias para o Brasil. Nada de radicalmente diferente do que foi reivindicado em Portugal pelo Bastonário da Ordem dos Médicos, e certamente com a mesma preocupação pelos direitos deles e pelo bem-estar dos seus utentes.

Às ameaças anunciadas de imposição de alterações ao protocolo o governo cubano respondeu declarando-as inaceitáveis e ameaçando por sua vez rescindi-lo e fazer regressar os médicos a Cuba.

E à ameaça do governo cubano de fazer regressar os médicos a Cuba o presidente Bolsonaro respondeu com a promessa de acolher como refugiados todos os que queiram ficar no Brasil.

E é nisto que se está.

Sendo que, se desta circunstância resultar uma grande parte dos médicos cubanos aceitar o acolhimento no Brasil como refugiado, não haverá uma disrupção no serviço que prestam às populações em áreas carenciadas de assistência médica e o presidente Bolsonaro terá uma vitória política de monta, nomeadamente no domínio simbólico da luta contra o comunismo no continente americano, sem penalizar os utentes.

Se a maioria dos médicos obedecer à ordem do seu governo de regressar a Cuba, por motivos que só cada um poderá conhecer mas pode haver vários plausíveis, nomeadamente o bem-estar e a segurança das suas famílias que ficam em Cuba, poderá haver uma disrupção na prestação dos serviços de saúde que poderá ser dramática para as populações servidas por eles, mas o presidente terá uma saída airosa alegando, como já alegou, que foi o governo cubano, comunista, a rescindir unilateralmente o protocolo, ou seja, que abandonou estas populações.

Para o presidente Bolsonaro poderá ser uma grande vitória ou uma pequena vitória. Para as populações servidas pelos médicos cubanos poderá ser um pequeno contratempo ou um grande drama.

Tem todos os ingredientes de uma roleta russa.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:24
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018

Para acabar de uma vez por todas com os ricos.

2018-11-12 Caetano Veloso Paris.jpg

Acabados de ressuscitar e chegados directamente da caverna onde hibernavam desde os tempos da revolução dos capitães em que o Otelo queria acabar com os ricos, ao contrário do Olof Palme que queria acabar com os pobres, uns assanhados que defendem a revolução do capitão contra todos os inimigos andaram a espirrar nas redes sociais ódio ao cantor Caetano Veloso porque quando vai a Paris se hospeda num hotel e come foie-gras, sugerindo-lhe que para ser coerente "devia partilhar a riqueza com os pobres que defende".

Sendo que, com uma carreira profissional de sucesso em que ao longo de mais de 50 anos vendeu milhões de discos e actuou em milhares de concertos, o Caetano Veloso é um homem bastante rico.

E que "defender os pobres" não significa neste caso defender a revolução comunista, a expropriação colectiva dos meios de produção e a ditadura do proletariado, que nunca se lhe ouviu defender, não significa sequer "odiar os ricos", que nunca se lhe viu odiar, mas apenas não ter aderido à revolução do capitão Bolsonaro. Ser um reaccionário.

E não terá aderido, e aqui só posso especular, talvez por ter sido preso político e exilado da ditadura militar que o capitão Bolsonaro louvou genericamente e criticou especificamente por ter torturado e matado menos do que devia? Não sei dizer, mas parece-me um motivo atendível para ele considerar o capitão uma besta sem sentir necessidade de perder algum tempo a documentar-se sobre os discursos recentes e o programa eleitoral dele para perceber bem se é mais autoritário ou mais liberal.

Em todo o caso, a má notícia para estes comunistas ressuscitados é que no Brasil, como em Portugal, já há redistribuição de riqueza, através da fiscalidade, que apesar de ser governado por socialistas há 15 anos a taxa máxima do imposto sobre o rendimento, de 27,5%, é bastante moderada comparativamente com as da generalidade dos outros países, mesmo os capitalistas, e que há poucas esperanças de conseguirem redistribuir toda a riqueza dele sem primeiro levarem a cabo com sucesso uma revolução mais socialista do que a que levou a cabo o Partido dos Trabalhadores ao longo dos últimos 15 anos. No máximo podem ambicionar a que o novo governo aumente as taxas máximas de imposto para lhe ficar com metade, ou mais, do rendimento que aufere.

Como prémio de consolação deixo-lhes uma canção do Caetano Veloso. A obra dele, pelo menos, podem-na partilhar, ao contrário da riqueza acumulada, que tem dono.

 

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 08:56
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

Bolsonaro

Assunção Cristas, perguntada sobre em quem votaria se fosse brasileira, respondeu que não votaria …  porque não seria capaz de escolher entre um partido que "destruiu o sistema democrático brasileiro" e um candidato de "extremismos" em que não se revê.

 

Respondeu mal. Porque um candidato ao lugar de primeiro-ministro deveria dizer algo do género: não tenho de, nem devo, pronunciar-me sobre preferências eleitorais em países amigos.

 

Deixemos de lado o detalhe de Assunção, se fosse brasileira, e tendo menos de 70 anos, ter de votar, sob pena de multa. E dêmos-lhe o benefício exculpatório de hoje todo o responsável, de Trump a Juncker passando pelo incontinente e irrelevante Marcelo, comentar sem rebuço a vida política de estados terceiros.

 

Não deveria comentar porquê? Por várias razões: i) Portugal, país pequeno e dependente, não precisa de inimigos. E mesmo que as relações pessoais, de amizade ou inimizade, contem menos do que os interesses, não é um bom ponto de partida que em Brasília venha a morar quem gratuitamente se hostilizou. Nem em Brasília, nem em Luanda, nem em Pequim, nem em Washington, nem em qualquer outro lugar; ii) Os cidadãos portugueses que se interessam por algo mais do que o destino da selecção e o valor exacto da sua pensão ou ordenado não precisam que os dirigentes políticos lhes digam o que pensar sobre os sucessos noutras terras que não a nossa, excepto se e quando algum interesse nacional corra o risco de ser afectado. Não precisam porque estão abundantemente servidos de comentadores, mesmo que na comunicação social haja, como há, uma superabundância de comentadores de esquerda, e uma não negligenciável dos que se dizem de direita mas não se distinguem substancialmente dos primeiros; iii) O CDS é há mais de 40 anos uma espécie de reserva da república para quando o país ganhar juízo ou as circunstâncias o forçarem a tê-lo. E tendo várias capelas (a católica, a europeísta, a negocista, a nacionalista, a liberal, a conservadora, fora as misturas e as oscilações tácticas) sempre teve o cuidado de praticar a tolerância interna, quando não há muito seria o MRPP da direita. Declarações que impliquem divisão são inevitáveis quando se trate de estabelecer um rumo necessário, porque agradar a todos é o caminho mais seguro para a inoperância e para não agradar a ninguém. Mas a gente cá em baixo não precisa de ajudas para se zangar por questões alheias.

 

Sucede que nas redes logo se estabeleceram duas correntes, uma a favor da abstenção, que concorda com Cristas, e outra a favor de Bolsonaro, que não concorda. E já havia os que votariam Haddad porque são de esquerda, ou porque não são fascistas, e os que votariam Bolsonaro porque são de direita, ou não são comunistas, para não falar em José Manuel Fernandes, que não sabe se votaria num ou noutro porque, votando em branco, dependeria de quem lá pusesse a cruzinha.

 

Tenho-me divertido a acompanhar a polémica, sem me comprometer. Instintivamente, as minhas simpatias vão para Bolsonaro, mas não faltam declarações do candidato num sentido autoritário, troglodita e primário, que fazem com que, em levando a sério o que o homem diz, se fuja a sete pés. Evidenciar simpatia pela tortura e pelos torturadores do tempo da ditadura militar, por exemplo, já seria suficiente, em tempos normais, para esperar que o autor se refugie num qualquer grupo ultra-minoritário onde os membros se confortem uns aos outros nos seus ódios medievais e nas suas certezas de selvagens.

 

Os tempos, no Brasil, porém, não são normais. O PT pode não ter instaurado uma ditadura comuno-bolivariana como na Venezuela, e ter preservado os mecanismos da democracia. Mas criou uma vasta clientela de dependentes do Estado que sufocam a economia exangue pelo fim da alta dos preços das matérias primas que o país exporta e pelo intervencionismo dirigista, ao mesmo tempo que promoveu a corrupção a níveis intoleráveis.

 

Pergunta-se: Haddad tem condições para redimir o Brasil? Não, não tem, absolutamente nada no seu programa, no seu passado e nas suas declarações, na parte em que são credíveis, permite pensar que o PT aprendeu alguma coisa e remediará alguma coisa. Pelo contrário: os lulistas raivosos, de lá e de cá, acrescentariam à gestão inerentemente inepta da economia o revanchismo contra o sistema judicial. E este, que deu provas de ser um baluarte contra o Estado clientelar, passaria a vítima, e com ele o Estado de Direito. O que significaria que, se o Brasil com o PT ficou de joelhos mas não se venezuelizou, desta vez bem correria esse risco.

 

Então, se eu fosse brasileiro e católico, faria o sinal da cruz e votava Bolsonaro; e, se fosse agnóstico, substituía o sinal da cruz por figas.

 

Haddad é que nunca, em que pese aos meus amigos bem-pensantes, como o Adolfo Mesquita Nunes, o Alexandre Homem Cristo, o Bruno Alves, a Maria João Marques (esta amiga a 50%, porque a aprecio sem que retribua), outros muitos ainda aos quais escapa o que está em jogo no Brasil, como lhes escapou o que estava em jogo nos EUA.

 

É aliás o mal das posições ao centro: costuma ser o lugar geométrico de coisa nenhuma. Mas isso fica para outra maré.

publicado por José Meireles Graça às 23:23
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