Há coisas que só consigo publicar com um grande constrangimento, por serem tão elementares e evidentes que os leitores podem suspeitar que os tomo por tontos ao passá-las a escrito. Mas ao longo de tempo tenho verificado que, apesar de serem elementares e evidentes, há muitas pessoas, mesmo de grande craveira intelectual, incluindo lentes de Coimbra, que parecem não ter capacidade de as compreender. E resigno-me a publicá-las, pedindo desde já aos leitores que estão fartos de as compreender que não se sintam ofendidos por lhes estar a repetir coisas tão banais. É isto:
Fumar provoca o cancro.
O cancro mata, é uma doença grave com elevada taxa de mortalidade, e tanto mais elevada quanto menos precocemente for detectado e curado.
Os tratamentos do cancro são todos muito agressivos para o organismo e penosos, e, em muitos casos, o sucesso é menos que garantido. Os cancros curam-se com recurso a quimioterapia, radioterapia ou cirurgia. Não se curam com férias nas termas. E, acima de tudo, não se curam continuando a fumar.
Quando, a um doente que conseguiu controlar à custa de tratamentos de quimioterapia que implicaram grande sofrimento um cancro que tinha apanhado por fumar muito, lhe aparecem curandeiros a dizer que o médico foi malvado por lhe ter prescrito quimioterapia, que a quimioterapia foi mal aplicada e o fez sofrer desnecessariamente, sugerindo que havia alternativas mas omitindo-lhe que as alternativas eram a radioterapia ou ir à faca, como se pudesse perfeitamente ter sido tratado com uma pacata passagem pelas termas, que obrigá-lo a abandonar os cigarros foi uma violência desnecessária e "passar para além da troika", estão a aldrabá-lo.
E, desde o notável consultor da ONU Artur Baptista da Silva, ídolo vivo dos jornalistas que se destacam na divulgação das alternativas à quimioterapia, a ex- colaboradores ou assessores de organismos internacionais, a legiões de investigadores, economistas e sociólogos das universidades portuguesas, onde há até observatórios de crises e alternativas, não têm cessado de aparecer relatórios técnicos a apontar e mesmo quantificar os prejuízos que a quimioterapia causou ao doente.
Se o doente for burrinho, cansado de sofrer e cheio de vontade de acreditar que há alternativas à medicina mais agradáveis, vota nos curandeiros e manda o médico para a oposição. Volta a fumar, e que bem que lhe sabem e lhe fazem as nicotinas e alcatrões nos pulmões? sabe que qualquer improvável recaída se deverá a motivos externos, o Brexit, as agências de rating, crises nos bancos americanos, ou simplesmente a maldade de Bruxelas, e que poderá ser resolvida recusando a doença, batendo o pé à medicina, com uma simples passagem pelas termas. Está de ver que, quando a recaída vier, e eu não disse "se" a recaída vier, o curandeiro que estimulou o regresso ao tabaco e a tratava com férias nas termas desaparece, e o doente chamará de novo o malvado do médico que antes encheu de impropérios por tê-lo feito sofrer com os tratamentos. Na esperança que a doença ainda seja curável, o que é menos que certo, e que a quimioterapia volte a resultar sem necessidade dos tratamentos ainda mais violentos, o que ainda é menos que menos que certo.
Se o doente conseguir resistir à recaída, com ainda mais sofrimento que no primeiro tratamento, é mais do que certo que os curandeiros lhe aparecerão de novo a denunciar a crueldade do tratamento e a reiterar a existência de alternativas. Se, dessa vez, o doente não partir os cornos aos curandeiros e se deixar de novo enganar por eles, é mesmo porque merece ir morrer longe.
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