Confesso: sou admirador de João Ricardo de Barros Oliveira. A primeira obra (Vi:Ela Sentada) que tive o privilégio de conhecer deste escultor sonoro foi uma epifania, e delas (da obra e da epifania) dei pávido testemunho aqui.
No meu post acima referido já se anunciava a 5ª Sound. E ela aqui está, gloriosa, "um galinheiro amplificado, na Horta Pedagógica, em Guimarães, composto por um teclado musical suspenso e coberto de milho. O esgravatar das galinhas e dos galos e o som que produzem ao comer o milho nas teclas do piano, dão forma ao laboratório vivo de sonoridades."
Fallait y penser. Nas palavras imorredoiras do artista: "...apesar da muita 'inspirasom', durante a criação, há sempre uma 'insatisfasom' no processo criativo." E acrescenta: "Estou sempre à procura do som perdido que ainda não encontrei e espero não encontrar"; e "Há todo o levantamento e canalização para o som, a canalizasom."
Também esperamos - eu espero - que não encontre. De modo a que continuemos a ser brindados com obras que elevam as almas nestes tempos deprimentes que estamos a viver.
Estas coisas custam muito dinheiro ao contribuinte europeu, e portanto também a nós. Mas a Cultura, não é verdade? - não tem preço.
No meu último post, ao referir-me à realização da Quinta Sound no corrente mês, informei erroneamente que consistia num Concerto para Galinha e Pato. Entretanto, inteirei-me, através da agenda oficial da Capital Europeia da Cultura, que aquela instalação plástica sonora se denomina afinal 5ª Sound - Concerto para Galo, Galinha e Pato. Aqui fica a rectificação e o alerta.
Pude através da mesma Agenda tomar conhecimento de outros eventos que merecem atenção, e destes não posso deixar de salientar o Concerto para Chávena, Galão e Bolo, uma "performance" da Lixoluxopoético a decorrer na Horta Pedagógica - a não perder - e o Shelter Bygg, um objecto escultórico habitável.
Este ambiente artístico em que está mergulhada a minha Cidade não me deixa, nem a ninguém, indiferente: ainda hoje de manhã me perdi com turistas na contemplação deste painel, que me pareceu uma alegoria particularmente bem conseguida à Juventude, à Irreverência, às Guerras - o vermelho sanguíneo do fundo - e à Globalização (a camiseta amarela representando a adesão da China à OMC), antes de me aperceber que era um tapume para obras devidamente licenciadas.
Quando era miúdo, tropeçou numa figueira, bateu com o joelho num tanque e caiu-lhe um dióspiro na cabeça. O dióspiro ficou até hoje a sua fonte de inspiração. E foi ela, a inspiração, mais o convite da Direcção da Capital Europeia da Cultura, que o levou a conceber esta instalação, na qual uma sardinha que caiu de uma varanda e, escorregando num guardanapo que estava a secar, aterrou num balde de lampreias, também desempenhou um relevante papel.
O autor diz ser "casado com o som e contra o divórcio sonoro", e que "os contentores do lixo são as minhas bibliotecas e as minhas enciclopédias". E a sua criatividade é esfusiante: prepara para o corrente mês a "Quinta Sound", que inclui um "Concerto para Galinha e Pato".
As extensas declarações do artista, para as quais remete o link acima, merecem a visita, ao menos para quem não seja indiferente à "sensibilização e sentido crítico e da mudança de atitudes e valores". Porém, quem for insensível, não tiver razões para mudar de atitudes, e estiver satisfeito com os seus valores, pode também ouvir as declarações, que não dará o seu tempo (e dinheiro - estas coisas saem caro) por perdido: não me recordo de nenhum monólogo tão cómico em todo o cinema português.
P.S.: Embora se passe na minha cidade, acedi a esta história por este post (vergonha minha - um lisboeta mais atento do que eu).
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