Terça-feira, 3 de Dezembro de 2013

Casadas e felizes

 

 

Ligo a televisão e caio no Prós & Prós. No indispensável arrazoado soez, uns cavalheiros protestam o desprezo dos jornalistas pelas associações "cívicas". Dizem que não lhes dão acesso à imprensa e às televisões, ao contrário do que fazem com os partidos políticos.

 

Fátima não concorda: "tanto é que os senhores estão aqui". E ilustra, pivoteando a palavra para uma senhora da plateia que apresenta como "reformada da Função Pública". Alexandra Gonçalves levanta-se e despeja a indignação "dos portugueses", que observa "nas ruas, nos mercados, e nos centros comerciais", e "lamenta" que "só tenham invadido quatro ministérios".

 

Conheço bem esta "reformada". Era vereadora da Câmara Municipal de Lisboa, no período em que João Soares se entendeu com os comunistas para governar a geringonça - de resto, com arroubos poéticos de educado requinte.

 

Foi nos últimos anos do mandato e Alexandra Gonçalves, do PCP, tinha os pelouros da Higiene Urbana, do Saneamento, do Turismo, e da Intervenção Local. Aparentemente, agora representa o PCP numa qualquer "plataforma" apropriada à mais casta intervenção "cívica", e tem os pelouros da Observação, da Listagem, do Lamento, e da Invasão de Edifícios Públicos - especialidades em que o partido comunista sempre se distingiu com reputados pergaminhos.

 

O interesse destas memórias não é, desta vez, apontar as aldrabices que a RTP nos serve diariamente. Nem é mostrar que a "cidadania" está infectada de elementos oriundos dos partidos políticos, onde exercem as suas pressões de maneira dissimulada e traiçoeira. A moral desta história é concluir que as duas princesas têm tudo o que é preciso para se manterem casadas e serem felizes.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:59
link do post | comentar
Terça-feira, 26 de Junho de 2012

Uma agente cultural

 

 

A Raquel é jornalista e escritora. Em "jovem" (até perto dos 40 anos) deitava-se com "gajos" - na altura ainda não eram "fulanos", isso veio com a maturidade. Um deles tinha o apelido atraente, e escusou-se a repetir a farra porque não justificava outra viagem a Corroios. Uma guerra jurídica, com testes de ADN, obrigou "o gajo" a reconhecer a paternidade da Benedita, porque nem o nome da criança conseguiu enternecê-lo. Morreu de cancro, pouco tempo depois.

 

Ficou orfã a Benedita e atraente de apelido, uma vez que do pai não herdou mais nada. Conheceu uma variedade grande de sofás alheios, onde dormiu sempre que a mãe conseguiu que as amigas tomassem conta dela enquanto jantava, entrevistava, investigava e teorizava gajos. Ou fulanos. Ou directores. Ou candidatos. Ou especialistas. Ou editores, que a Raquel preparava-se para escrever um romance. Às vezes colegas de redacção, que a Raquel, nas suas palavras, não gostava de arranjar problemas laborais com a ralé. Um desses demorou-se lá por casa mais tempo do que era habitual, o suficiente para a Benedita ficar a saber que se chamava Vítor. E que tinha uma empresa de "conteúdos" ligados "à cultura" chamada Convicções Propícias, cheia de "contactos". E que a mãe odiava as camisolas que ele vestia, e a maneira como pronunciava os "erres", e nem sempre lhe atendia o telemóvel.

 

A Benedita viu como eles se cansavam a trabalhar, porque respiravam depressa e com muito barulho, e a mãe dobrava as pernas em posições muito esquisitas, e deixava as roupas espalhadas por cima das almofadas da sala e penduradas no poster do Paul Klee, e tinha as costas todas lambuzadas com tofu, e diziam coisas que a Benedita não percebia, acerca da "formação social" e da "instância do económico", e o Vítor tropeçava na ficus benjamina, e respondia com a "sobredeterminação da instância dominante" enquanto apertava um cachecol de tricot à volta dos pulsos da mãe, e a mãe gritava pelo "materialismo aleatório" e tinha uma pastinaca na mão, e no fim quem é que ia limpar aquilo tudo?

 

Mudaram de casa, foram viver para as Avenidas Novas, e a Raquel disse ao Vítor que "precisava de espaço". O Vítor deu o seu melhor. Entrou "em diálogo". Adoptou a Benedita, que se viu na contingência de passar a tratá-lo por "pai". Mas a Raquel não voltou atrás, e a Benedita passou a estar com o Vítor em fins de semana alternados, às quartas feiras para jantar no japonês, na véspera de Natal e durante metade do período de férias escolares.

 

Passados uma série de fulanos, a mãe começou a entrevistar o Zé Gonçalo, que a Benedita conhecia do Liceu Francês porque era pai de uma colecção de irmãs, as Fonseca Bastos, e costumava ir buscar as filhas às quartas feiras num carro escuro com a bandeira de Portugal no capot.

 

"Por insistência do Zé Gonçalo", a Raquel passou a andar muito ocupada a presidir a um "organismo da cultura". E a Benedita percebeu, passado um tempo, quando o governo caiu e o Zé Gonçalo já não era ministro nem andava lá por casa, que era dele que a mãe falava na televisão, dizendo que "a direita, ignorante e trauliteira", tinha "passado as últimas décadas a oferecer-nos gentinha deste género, como o dr. Fonseca Bastos" e que "toda a sua biografia" demonstrava que ele era "um carreirista praticamente analfabeto", e que não entendia "como é que as pessoas estavam tão surpreendidas".

 

Distraí-me uns anos e perdi o rasto à Benedita. Mas sei da Raquel que continua a participar em debates televisivos e a escrever (para os jornais; que se saiba, ainda não publicou nenhum romance). Sei também que, nas redes sociais, é considerada uma pessoa muito contundente.

 

______________

 

Nota: Pura ficção. Qualquer semelhança com nomes, factos ou não sei quê, é simples coincidência.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:28
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Últimos comentários

Como lhe escrevi em 5 de Agosto passado, o 'site' ...
Não sei que lhe diga, Gato, excepto que decidi pas...
O blog fechou? Aconteceu alguma fatalidade? Digam ...
Como me fiei em endereços do seu perfil, recebi a ...
Perceber da Vida é o melhor, gato. Obrigado.

Arquivos

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cds

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desigualdade

dívida

educação

eleições europeias

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

populismo

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds