Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Grande Colar da Desordem

A coroa de ervas era raramente atribuída e o detentor tinha direito, segundo se lê no romance com o mesmo nome de Colleen McCullough, a que quando aparecesse em público toda a gente se levantasse e aplaudisse.

Era conferida pelos soldados ao seu general. Mas já com Augusto foi o Senado que a atribuiu, numa saudável evolução: o Senado era de muito mais confiança que a soldadesca e além disso o primeiro imperador não era para brincadeiras.

As condecorações actuais, nem sequer as mais altas, não conferem, graças a Deus, o direito a que os agraciados façam levantar o respeitável público. Senão, dada a profusão delas, haveria sérios riscos, pelo menos nos restaurantes em Lisboa, de ninguém saborear a sua refeição sem estar constantemente a interrompê-la para se pôr em sentido, com grave risco de varizes e indigestões.

De resto, ninguém liga a ponta de um corno. E quem ligar, ou receber um convite para jantar com a indicação dinner jacket with medals, pode sempre adquirir alguma na Feira da Ladra ou num adeleiro, onde se encontram por um preço módico os adereços de glórias passadas.

Daí que o Grande Colar atribuído a Durão Barroso não aqueça nem arrefeça. Mornamente, o que se designa por esquerda há-de protestar: escravo da senhora Merkel e do imperialismo para os comunistas, fujão das suas responsabilidades e adepto das políticas austeritárias para os socialistas. E, mornamente, o que se designa por direita há-de aplaudir: grande estadista e europeísta, credor de universal respeito e dono de um grande prestígio nos areópagos internacionais.

Na realidade, Durão Barroso é uma rolha de génio, por saber tudo sobre como se faz uma carreira brilhante sem saber nada sobre o que sejam princípios ou o interesse de Portugal.

O homem julga que com a quantidade adequada de subsídios e prebendas, pequenas cedências aqui e além, faro apurado para sentir o que realmente querem os poderes do dia, e reforço insano das competências da nebulosa bruxelense, a carroça do projecto europeu avançará, e que nuvens como esta ou esta ou esta são coisa passageira.

Pode ser que sejam. Ainda que, com o chão cada vez mais molhado, o que parece crescentemente provável é que ela atole qualquer dia. Seria então o tempo, se a esperança média de vida estivesse nos cento e cinquenta anos, de Durão lembrar o seu acrisolado amor pelo caldo verde, o galo de Barcelos e a praia de Moledo, e continuar a sua carreira numa reencarnação como fervoroso patriota.

publicado por José Meireles Graça às 23:25
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