Sábado, 30 de Junho de 2018

Vamos falar de bola

Eu hoje vou-vos revelar um segredo que peço que tratem discretamente, nomeadamente evitando divulgá-lo nas redes sociais.

Por junto, fui para aí uma dúzia de vezes ver futebol no estádio. Mais ou menos meia-dúzia quando era miúdo, a maioria deles com o vizinho do lado dos meus pais que era sócio do Benfica e nos levava, uma vezes a mim outras ao meu irmão, à Catedral da Luz, uma vez com o marido de uma colega da minha mãe que era sócio do Sporting ao Estádio de Alvalade, e uma vez com o meu pai ver um Portugal-Suécia no belíssimo Estádio Nacional que, se bem me lembro, Portugal perdeu por 2-4. E outra meia-dúzia ver jogos da Selecção Nacional quando a minha filha chegou à idade de se interessar por futebol. O que significa que não vale a pena perguntarem-me o que é um lateral ou se é mais ofensivo jogar em 4-3-3 ou em 2-5-3, que eu não consigo mais do que inventar uma resposta pela pinta da pergunta, porque não sei de ciência certa. Por favor, tratem esta informação discretamente.

Mas hoje vou falar de bola.

 

Qual deles é o melhor?

2018-06-30 Eusébio chora 1966.jpg

Mas tenho um activo que impressiona as gerações mais jovens, que o confundem com uma competência: vi jogar em campo o Eusébio e vi jogar em campo o Cristiano Ronaldo.

E por isso já aconteceu perguntarem-me a opinião sobre qual dos dois joga melhor. Pergunta a que eu, para não decepcionar o jovem que se ilude com a minha ciência desportiva e deposita em mim a esperança de o ajudar a resolver este importante dilema, não fujo a responder e respondo assim.

O Cristiano Ronaldo tem uma capacidade atlética como o Eusébio nunca teve. Mas também é verdade que se o Eusébio tivesse hoje a idade que o Cristiano Ronaldo tem também teria provavelmente uma capacidade atlética como nunca teve quando tinha essa idade.

O Cristiano Ronaldo trabalha que nem um cão e tem uma força de vontade extraordinária quando está determinado a ganhar, e está normalmente, exactamente como o Eusébio trabalhava que nem um cão e tinha uma força de vontade extraordinária quando estava determinado a ganhar, e estava normalmente. E quando, depois e apesar de deixar tudo o que tinha no campo, perdia, chorava como uma criança injustiçada, porque tinha sido mesmo injustiçado.

O Cristiano Ronaldo tem um talento extraordinário, e o Eusébio também tinha. E posso exemplificar os dois. Reparei pela primeira vez na existência do Cristiano Ronaldo nos dois jogos finais do Euro 2004, que vi completos por estar de férias, e lembro-me de me ter impressionado com as fintas e movimentos endiabrados que fazia, e de ter comentado essa impressão junto de amigos com quem me cruzava habitualmente nas férias, que vinham do Porto e diminuiram o talento do rapaz dizendo que fazia uns rodriguinhos mas não concretizava. Eles podiam saber de triangulações e jogadas em profundidade, podiam até assinar a Sport-TV, mas a história deu-me razão e tirou-a à tirada infeliz deles, que eu desconfio que se devia ao facto de o Cristiano Ronaldo ser do Sporting, como eu era e eles sabiam, e não do Porto, como eles eram todos, e até tinham tomado o Scolari de ponta por ter substituído o Baía pelo Ricardo, opção que se acabou por revelar genial nos quartos de final com a Inglaterra numa noite em que o torneio de Bridge no Centro de Bridge de Lisboa foi cancelado para se ver a bola. E num dessa meia-dúzia de jogos que vi em criança vi o Eusébio marcar um golo de canto directo contra o Porto, e ainda hoje me lembro da trajectória improvável que fez a bola curvar, ao cair sobre a pequena-área na frente da baliza, do arco comum de projecção horizontal recta que tinha seguido desde o pontapé até chegar à frente da baliza, para uma curva acentuada que a fez entrar inesperadamente. Uma trajectória substancialmente diferente na natureza da curvatura do livre que o Cristiano Ronaldo marcou contra a Espanha neste mundial, em que a bola iniciou a trajectória numa direcção que a levaria ao lado da baliza mas toda a trajectória foi uma curva suave que a levou para dentro da baliza. No canto, a bola só curvou, acentuada e repentinamente, quando chegou à frente da baliza. Eu não faço cálculos de aerodinâmica há muitas décadas, e não tomem isto por ciência certa, mas especulo que a bola pode ter sido atirada com um efeito muito poderoso mas que não a fez curvar enquanto teve velocidade, e quando reduziu a velocidade ao cair na pequena área o efeito pode-se ter tornado preponderante para a fazer curvar. Seja porque motivo tenha sido, foi um golo do caraças.

Mas não me lembro de o Eusébio ter falhado um penalti, e já vi o Cristiano Ronaldo falhar um ao vivo no Estádio da Luz e outro em directo neste Mundial contra o Irão, e muito menos de ter dado alguma cotovelada na cara de um adversário, e no entanto era regularmente massacrado com violência pelos adversários. Como se não fosse bem um humano a reger-se pelas regras dos humanos, como se para ganhar lhe bastasse jogar à bola como sabia. Como se fosse um gentleman.

E ver tipos que não são capazes de fazer uma conta de subtrair a calcular, com a cabeça ou com os pés, trajectórias exóticas que nem a Ciência Física consegue deduzir nem nenhum Físico consegue simular em computador, como ver miúdos que cresceram em favelas onde a lei que impera é a da selva a crescerem para se tornarem gentlemen sportsmen é capaz de ser aquilo a que se chama a magia do futebol.

 

O Salvador Sobral deu uma entrevista.

O Salvador Sobral deu uma entrevista a uma televisão espanhola. E o que disse ele?

- Eu sou o Ronaldo da música mas pago impostos.

Grande lata! Um palerma malcriado, esquerdopata e drogado a ousar comparar-se com o Cristiano Ronaldo? E isto é uma selecção muito filtrada para não ultrapassar as fronteiras da civilidade dos comentários que vi nas redes sociais. Eu próprio não fiquei indiferente à parvoíce das afirmações dele, embora dando um desconto ao relato da comparação, que admiti ser uma adaptação de um diálogo que imaginei antes assim:

- Tu és o Ronaldo da música? - Sou, mas pago impostos.

E deixei no meu Facebook um comentário demolidor, não da megalomania que atribuí a um mero exercício de ironia para responder a uma pergunta parva, mas à crítica implícita do cantor aos problemas fiscais do Cristiano Ronaldo, escrevendo "Estas palermices ficam bem a uma estrela de variedades que nasceu em berço de ouro e que, além de ter uma irmã gira e talentosa, é conhecido por dizer piadolas palermas com uma descontração desconcertante. Mas o Cristiano Ronaldo que cresceu com os dentes tortos e uma coragem inimaginável da mãe já deve ter pago numa vida só mais impostos do que toda a linhagem somada dos Condes, Viscondes, Barões e Senhores de Sobral que deu ao menino o berço de oiro onde nasceu e os dentes certinhos, incluindo os banqueiros.".

O Salvador Sobral tem de facto algum historial de afirmações um bocado palermas que parecem exercícios catalogáveis na categoria que noutros tempos se designava como politicamente incorrecta, hoje em dia os conservadores assumem que politicamente incorrectos são eles e que tudo o que tenha inspiração socialista ou liberal (no sentido que os anglo-saxónicos dão ao termo) é apenas politicamente correcto, termo que passou aliás a ser usado como um insulto ainda mais injurioso que comuna para os despachar sintetica e expeditamente em qualquer discussão, ou noutros tempos ainda mais recuados mas que eu sou suficientemente velho para recordar, para escandalizar os burgueses.

Tal como o soissante-huitard Daniel Cohn-Bandit fazia um exercício de puro mau-gosto quando em 1975 sugeria no seu livro "Le Grand Bazar" jogos sexuais entre crianças e de crianças com adultos no jardim de infância onde trabalhava, de que mais tarde se veio a arrepender quando as palermices escritas para escandalizar os burgueses que as tomassem por descrições de práticas reais em vez de meras provocações para os assustar passaram a ser interpretadas como a confissão de antigos crimes de pedofilia num contexto em que a pedofilia ascendeu na hierarquia dos crimes aos níveis mais odiosos, o Salvador Sobral também tem tido diversas tiradas de puro mau-gosto, como quando disse num concerto de apoio e angariação de fundos para as vítimas de Pedrogão Grande "Eu sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês batem palmas. Vou mandar um peido a ver o que acontece", que aliás parece uma apreciação bem fundamentada da sua experiência de passagem rápida do anonimato ao estrelato e um lamento à falta de sentido crítico e de exigência que o novo estatuto parece despertar no seu próprio público, ou "A coca ajuda-me muito" noutra entrevista a outro programa de televisão espanhola. Não passam de palermices politicamente incorrectas, coisa de que não vem grande mal ao mundo por o cantor não fazer o que faz para nos pastorear mas simplesmente para nos entreter, mas que lhe asseguram um ódio de estimação entre as pessoas que ofende com estas provocações.

Já a parte da resposta que insinua que as práticas fiscais do Cristiano Ronaldo que originaram o processo que o fisco espanhol lhe instaurou que acabou num acordo em que ele se comprometeu a pagar "voluntariamente" quase 20 milhões de Euros e o Estado espanhol a não o condenar a uma pena de prisão efectiva, são censuráveis, por contraponto com as dele, que são limpas, pode conter uma certa dose de injustiça, tendo em atenção que o futebolista é certamente um dos maiores contribuintes individuais para o fisco espanhol, pagando anualmente do seu bolso muitos milhões de Euros de impostos que o governo espanhol depois redistribui entre os outros espanhóis das formas que entende e que a lei prescreve, e que a prática em questão, não reconhecer como usufruidos em Espanha e não declarar em Espanha rendimentos de actividades que ele exerce noutros países, por exemplo a utilização da sua imagem em publicidade comercial que passa em Portugal, tem algum sentido, e que o acordo "voluntário" se deveu mais à força bruta do fisco e à sua capacidade para o condenar a uma pena de prisão do que ao reconhecimento pelo futebolista da ilicitude das suas práticas fiscais. Podendo tratar-se de um abuso do fisco espanhol sobre um contribuinte para lhe extorquir ainda mais dinheiro, de a business proposition he wasn't allowed to refuse no sentido corleonico da expressão, mais valia ao cantor ter-se abstido de criticar o futebolista.

E portanto o Salvador Sobral diz palermices, é megalómano e concorda com os abusos do fisco sobre os contribuintes.

Isto seria uma grande verdade se ele tivesse dito na entrevista o que se disse que ele disse. Só que ele não disse nada do que se disse que ele disse. À pergunta "- Tu eres el Cristiano Ronaldo de la musica?" ele respondeu "- Ui!", e à disparada logo de seguida "- Pero pagas impuestos?" ele respondeu "- Pago impuestos." (minuto 16:07).

De resto, uma entrevista de um miúdo modesto e inteligente num Espanhol correcto onde até cabem críticas à política cultural do governo socialista português e à distância entre as expectativas que suscita nos agentes culturais e o que depois está efectivamente disposto a distribuir por eles. E a interrogação sobre se a energia que exibe ultimamente se deverá, não à cocaína, mas à cortizona que tem tomado por causa da sua condição de saúde?

Mas para que interessam os factos quando os factos estragam uma boa história? Para nada. Então podemos manter o resumo original da entrevista.

- Eu sou o Ronaldo da música mas pago impostos.

 

O Marcelo teve um rendez-vous

Depois de desmaiar em Braga por causa de uma intoxicação alimentar que terá apanhado na Rússia o Marcelo, let's skip the "Professor Rebelo de Sousa", foi aos Estados Unidos da America falar com o Donald Trump.

Os seus níveis de energia talvez se devam também a algum medicamento que lhe deram para acordar do desmaio, porque mal chegou à Casa Branca deu ao Donald Trump um passou-bem que o ia arrancando do chão, talvez um golpe aprendido quando era praticante de Aikido, talvez aprendido no seu rendez-vous anterior como o presidente macho-alfa Vladimir Putin.

Mas a energia do passou-bem não se comparou com a da conversa, que foi registada para a eternidade pelas televisões logo a seguir a uma declaração do presidente Trump sobre a substuição de um dos juízes do Supremo Tribunal que a precedeu.

E entre o que eles disseram, o que quiseram dizer e o que pensaram, a conversa foi mais ou menos isto.

- Anyway I'd like to tell that we have a very long lasting friendship and partnership...

- Yes.

- ... it started the moment we recognized you...

- Thats right.

- ...we were the first neutral country to recognize United States of America independence...

[assentar com a cabeça]

- ...although we had as our oldest ally England...

- Hum, hum.

- ...so it was courageous at that time, and I don't know if you know it, but your founding fathers celebrated the independence with our wine, with Madeira wine, they made a toast...

- Good taste!

- ...with our Madeira wine, it's a long story...

[Ganda seca, este gajo pediu aos assessores a história da amizade entre Portugal e os EUA e não se vai calar enquanto não a desboninar toda e ainda vamos no século XVIII]

- ...Madeira island also gave to the world Cristiano Ronaldo, don't forget that Portugal has the greatest football player in the world...

- Oh... [Tirem-me daqui]

- ...Cristiano Ronaldo is now in Russia, by the way, my friend Putin sent a "Hi" to you...

[Tenho que ver se arranjo uma coisa qualquer para dizer a ver se ele fecha a matraca]

- ...Cristiano Ronaldo has balls the size of watermellons, you can see it in his statue, balls of Madeira, wooden balls...

- Right, thats right.

- ...so if you go to Russia before the championship ends Cristiano Ronaldo will still be there and you can send him my "Hi"...

[Já sei!]

- ...as Portugal will still be there and wanting to win...

- So tell me, how good is he as a player, are you impressed?

- I'm very much impressed, he's the best player in the world...

- So, will Cristiano ever run for president against you?

- O caralhinho é que ele me tira o lugar! Pensas que o filho de uma criada de servir alguma vez chega a presidente, seu chimpanzé de cabelo alaranjado? Portugal is not just the United States!

Seguiram-se perguntas da comunicação social sobre o tema que realmente lhes interessava naquela sessão, a substituição do juiz do Supremo Tribunal que se reformou, e o Marcelo ficou sossegadinho durante o resto da sessão. A pergunta tinha resultado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:02
link do post | comentar
Terça-feira, 14 de Janeiro de 2014

Ora bolas

Lá lhe deram a Bola de Ouro. Ou, melhor, como alguém disse a outro propósito, não lha deram: ganhou-a.

 

Isto é estranho. Não que ele tivesse ganho, de mais a mais pela segunda vez, mas que antes dele ainda tivesse havido Eusébio e Figo e que Portugal, neste capítulo, tenha mais prémios do que a Espanha ou a União Soviética, por exemplo.

 

Sabe-se que o futebol pode jogar-se com uma bola de trapos, na rua ou num descampado, e as regras do jogo só não são acessíveis, tal a simplicidade, a alguns treinadores, dirigentes e comentadores. Daí o sucesso quase universal do jogo, em particular nos países pobres mas incluindo os ricos, salvo a excepção notória dos Estados Unidos, um país que de toda a maneira não regula bem da bola.

 

Estes craques premiados são a ponta visível de um iceberg. Porque a quantidade de jogadores de origem que o país exporta, e aqueles, normalmente sul-americanos, que são engordados nas nossas ligas para depois rumarem a pastagens mais verdes, deixando para os seus clubes e empresários substanciais mais-valias, desafia a imaginação.

 

E como o Estado, salvo os investimentos faraónicos no Euro, que pouco ou nada acrescentaram à pujança do futebol, e a tradicional promiscuidade entre o Poder Local e os clubes, nunca gastou nada que permitisse adivinhar este sucesso; como os clubes pátrios ou estão falidos ou são pobretas; como os estádios estão desertos, as arbitragens duvidosas e o dirigismo opaco nas suas negociatas e traficâncias: convém procurar a explicação noutro lado.

 

O bairrismo garante que competição, não obstante o tradicional desequilíbrio das arbitragens a favor dos três grandes, um vício tolerado; o merchandising, a televisão, os jornais, alguma afluência, vão garantindo um módico de recursos à modalidade; as mães e os pais embevecidos vão levando os seus meninos à escola do clube, sonhando com destinos milionários que outras carreiras nem sequer prometem; quem gosta de jogar, mesmo homens feitos, e são milhares, joga, mesmo que já com barriguinhas incipientes e sem horizontes desportivos. O futebol está vivo.

 

Mas a chave  do sucesso é a competição, que o Estado não consegue falsificar com o seu intervencionismo, porque seria contra-natura, e a necessidade, porque nisto podemos ser bons.

 

Curioso: os recentes sucessos das empresas exportadoras de vão-de-escada, dos sectores anteontem condenados, segundo sábias opiniões, como o têxtil e os sapatos, também não cessam de ganhar lá fora - há por aí muitos pequenos Cristianos, de modalidades não desportivas. O Estado não lhes costuma dar nem bolas nem medalhas: associa-se ao sucesso, que passa a ser o das políticas, e vai-lhes ao bolso, não vá cometerem o pecado de ficarem ricos.

 

A propósito: A bola é mesmo de ouro? E tem contraste? Bom, então temos que ver como é que é isso do impostozinho, no caso de ela dar entrada no território nacional.

publicado por José Meireles Graça às 15:25
link do post | comentar
Sábado, 4 de Janeiro de 2014

Auto-golo

Uma senhora Indira Kaviratna e um senhor João Henriques resolveram escrever uma carta aberta a Cristiano Ronaldo, no Facebook, pedindo-lhe que recuse receber a condecoração que o Presidente da República lhe quer impôr em cerimónia a decorrer na próxima terça-feira. Quando a li, já ia em mais de duzentos aderentes, mas reúne os requisitos, se bem propagandeada, para ser um sucesso:

 

Começa por tratar a estrela por "tu". Está certo: Cristiano entra-nos em casa pela televisão de calções e t shirt, portanto praticamente de pijama de Verão, e seria porventura um exagero tratá-lo por "você", dado que é nosso íntimo. Ou não? Não, digo eu, não é nosso íntimo, apenas o é da família e amigos - nós somos admiradores de um atleta excepcionalmente dotado e do sucesso que tem sabido merecer, mas isso não nos deveria consentir familiaridades de trato: o homem é maior de idade, pai de filhos e cidadão eleitor.

 

E este detalhe é denunciador: eh pá, somos todos malta porreira, deixa lá o cota mais as condecorações dele, aqui a gente nova é práfrentex, não liga a essas merdas.

 

Depois, o texto explode numa frase profunda: "Ser português não significa apenas marcar golos com camisolas ou símbolos. Ser português é amar, é querer estar próximo dos seus, é ser um expoente de humanidade".

 

Ai sim, ser português é isso? Olhem cá, acho a vossa ideia perturbadora, porque aqui este ignoto escriba não marca golos, não é um expoente de humanidade, ama sobretudo o bacalhau à moda de Braga, o que provavelmente não o qualifica para grandes voos de patriotismo, e às vezes quer estar longe dos seus, por mor de ouvir música sozinho. Ora, não obstante estas desqualificações, sempre se julgou português, pela razão comezinha de ter nascido e sido educado em Portugal.

 

Isto não chega? Mas tem que chegar, senão a maioria esmagadora dos portugueses seria, afinal... estrangeira.

 

E continua, agora numa toada fadista: "... O povo para quem marcas golos...".  Há aqui um mal-entendido: se Ronaldo marcasse golos para o povo, seria quando muito para o espanhol, mas nem isso - a triste verdade é que os golos são apenas para o Real-Madrid.

 

Passamos à parte substantiva da carta: "Esta pessoa que te quer apertar a mão e usar o teu mediatismo para lavar a sua própria imagem, é o mesmo que representa os poderes e as forças que deixam os miúdos que querem usar a tua camisola sem escolas, é o mesmo que representa quem desemprega os que festejam os teus golos e para quem jogas, é o mesmo que representa quem empobrece os milhões de velhos que ficam mais novos quando te veem jogar ou exploram os milhões que nos estádios, nos cafés ou em casa, cantam o hino contigo".

 

Este trecho é comovente: Cavaco Silva é um monstro; e chegou a Presidente da República, depois de ter sido Primeiro-Ministro dez anos, enganando toda a gente, que não percebeu as ignomínias que iria praticar mal se apanhasse no Poder. Pior: eleito em 2006, conseguiu esconder do eleitorado a sua verdadeira natureza, de tal sorte que foi reeleito em 2011. Ah, que diferentes - e tão melhores - as coisas seriam se este povo cegueta tivesse elegido antes o camarada Francisco Lopes, um gigante da Democracia, ou Manuel Alegre, um vulto da Cultura e da caça desportiva.

 

E chegamos finalmente à conclusão, avassaladora na sua comovente simplicidade:

 

"RECUSA RECEBER ESSA CONDECORAÇÃO..."
"... terás o aplauso e o carinho de milhões de lares portugueses onde a comunicação social não entra. Essa é a tua condecoração. Esse é o teu melhor golo... em milhões de lares, Cristiano, simples, pequenos, pobres, anónimos e invisíveis... como um dia foi o teu".

 

Cristiano Ronaldo, é claro, vai receber com orgulho a condecoração; Cavaco dirá as palavras de circunstância adequadas - nem ele, aliás, mesmo que quisesse, saberia dizer outras; os presentes aplaudirão; cá fora haverá uma multidão de admiradores para aclamar o craque, à saída; e os portugueses de senso, de esquerda e direita e centro aplaudirão intimamente, porque o significado das medalhas é reconhecer o mérito dos que de alguma forma se distinguiram, pelo mérito, dos seus concidadãos. E nem por muitas vezes (mas não é aqui o caso) os contemporâneos e os responsáveis pela atribuição de louros se enganarem nos juízos que fazem o significado pode ser outro.

 

É só isto. A assinatura ("Os Portugueses") é por isso um abuso. A dos promotores, mais a dos aderentes, chegaria perfeitamente.

publicado por José Meireles Graça às 23:57
link do post | comentar | ver comentários (2)
Sexta-feira, 22 de Novembro de 2013

A pátria, o futebol, o refrigerante e o boneco do jogador

A TAP quer agradar aos clientes que apreciam água choca acastanhada e açucarada e faz muito bem: é uma boa parte deles, não podem ser ignorados, e se fossem a preocupar-se em satisfazer minorias em vez da maioria, teriam que oferecer verde tinto sem marca, portanto ilegal e apenas com o selo da fidelidade dos conhecedores da quintarola de origem, a alguns apreciadores, o que levantaria problemas logísticos e com a ASAE.

 

Eu cá não defendo ilegalidades, excepto quando defendo, em obediência ao bordão dos meus concidadãos: dura lex, sed bardamerdam.

 

Nas minorias, há também a dos que apreciam piadas de mau-gosto. Não todas - só as que tiverem piada. E como é que se sabe quais as piadas que têm piada? É fácil - dão vontade de rir.

 

Apreciei o boneco mal parido do Ronaldo atravessado num carril, uma alegoria foleira mas que traduzia bem, simbolicamente, as intenções e o desejo dos suecos que gostam de futebol.

 

Podia agora um desses cartunistas que trabalha para os jornais desportivos representar o bom do Ibrahimovic com um carril enfiado numa cavidade que, sem grande esforço criativo, pudesse admitir uma tal intromissão.

 

Não teria a mesma graça, por ser um eco. No entanto, vá lá, estava ao mesmo nível.

 

Mas não: a dignidade nacional entrou em convulsões espásticas, há abaixo-assinados, a Pepsi apresenta desculpas, ai credo que estão a ofender o nosso Portugalzinho do coração.

 

Sucede que Portugal não arriscou nada, não ganhou, nem perdeu, coisa alguma em Estocolmo; e isto seria ainda verdade mesmo que a esmagadora maioria dos portugueses gostasse de futebol, o que não acontece: mesmo os que gostam não chegam para encher os estádios disponíveis, que se distinguem, salvo nos derbys (um termo reservado para os jogos em que intervêm clubes com alto grau de equivalente influência na arbitragem), por vastas clareiras às moscas.

 

Eu gosto de futebol e aprecio os jogos da selecção; não gosto é de patrioteiros; nem de gente que aplaude alienações de soberania sem pestanejar, ao mesmo tempo que se indigna com um desenhinho insignificante de um artista ignoto, para ridicularizar um grande jogador que, esse sim, deu, sem protestar nem abrir a boca, a melhor resposta que se podia dar.

publicado por José Meireles Graça às 11:48
link do post | comentar | ver comentários (1)

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

2 comentários

Últimos comentários

Como me fiei em endereços do seu perfil, recebi a ...
Perceber da Vida é o melhor, gato. Obrigado.
Muito bom post, no seu estilo. Mordaz, q.b.E que e...
Extintores (https://www.comprarextintoresbaratos.e...
Além de concordar, acho graça ao seu estilo de red...

Arquivos

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cds

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desigualdade

dívida

educação

eleições europeias

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

populismo

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds