Através de um post anódino, fiquei a saber que há quem planeie um serviço de táxi fluvial entre as duas margens do Douro, presumo que para jusante da ponte D. Luís e até à Afurada.
Não investiria um cêntimo no projecto e certamente não me passa pela cabeça ir de carro até, por exemplo, Massarelos, para o estacionar nos parques que não há e apanhar um barco ̶ barcos apanham-se para fazer, além de cruzeiros, travessias onde não haja pontes. E entre o Porto e a outra margem, pontes, há seis: a do Freixo, a de S. João, a D. Maria (esta desactivada em favor daquela S. João, em geral considerada "muito elegante", na realidade feíssima), a do Infante, a de D. Luís e da Arrábida. Há ainda, creio, um serviço de lancha entre o Ouro e a Afurada.
Mas pode bem ser que com a incrível afluência de turistas ao Porto o negócio se venha a revelar interessante ̶ se sim ou não é problema do investidor, ao qual desejo a melhor sorte.
Se as coisas correrem bem, milhares de pessoas farão a travessia do modo que mais lhes convém, uma vez que a escolheram livremente, porque as alternativas existem; serão criados postos de trabalho; riqueza; e gerar-se-ão impostos, que só não aliviarão os meus porque o Estado Socialista está sempre um passo à frente do que cobra.
Se, porém, correrem mal, nem por isso perderei o sono: os financiadores ficam a arder, os trabalhadores encontrarão a seu tempo outro modo de vida, os credores sobreviverão e eu, que não arrisquei nada, tenho, como toda a gente, uma grande capacidade de resistência a problemas que não sejam meus.
Está tudo bem, então? Não, não está: há quem veja nisto uma "verdadeira captura do potencial económico do património público" e entenda que o negócio "poderia perfeitamente ser público, de responsabilidade municipal, revertendo os lucros desse serviço para as respectivas autarquias e populações".
Ou seja, um comunista (ignoro se tecnicamente o é, nem interessa: na prática comunistas e bloquistas têm, no tratamento da economia, a mesma varinha de condão chavista que transforma riqueza em merda) acha que o rio, por ser um bem público, deve ser explorado pelo Estado. Nem preciso de perguntar para estar certo de que entenderá que a TAP deve ser pública porque o ar é, igualmente, público; que os transportes de passageiros, que circulam em estradas que não são privadas, deveriam pertencer ao Estado; e que os táxis, vá lá, podem pertencer a privados desde que estes sejam pobrezinhos. Se pertencerem a empresas exploradoras temos a burra nas couves.
Esta maneira de ver o mundo não me surpreende excessivamente ̶ são socialistas, coitados, portadores portanto de uma doença crónica. O que me perturba é que, com tantos exemplos, em particular na área dos transportes, do desastre do investimento e da gestão públicos, insistam em bater com a mesma cabeça na mesma velha parede. Só pode ser porque gostariam muito de ser empresários, desde que invistam o que não lhes pertence, arrisquem o património de terceiros e sejam nomeados para cargos de gestão por terem, do lado certo, o coração, uma víscera que, posta a pensar, dá origem geralmente a calotes e à ruína ̶ dos outros.
Blogs
Adeptos da Concorrência Imperfeita
Com jornalismo assim, quem precisa de censura?
DêDêTê (Desconfia dele também...)
Momentos económicos... e não só
O MacGuffin (aka Contra a Corrente)
Os Três Dês do Acordo Ortográfico
Leituras
Ambrose Evans-Pritchard (The Telegraph)
Rodrigo Gurgel (até 4 Fev. 2015)
Jornais