Sábado, 9 de Julho de 2016

Tão diferentes, tão iguais que até assusta

2016-07-09 Marine Le Pen.jpg

Ainda não foi desta que a Marine Le Pen e a Catarina Martins nos decepcionaram entrando em contradição, e "...Se alguém tinha alguma dúvida de que a governação europeia é uma governação feita ao sabor dos interesses financeiros..." é uma tradução quase perfeita de "...rien d'étonnant pour ceux qui savent que l'UE ne sert pas les peuples mais la grande finance...".

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 19:27
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

Grande Colar da Desordem

A coroa de ervas era raramente atribuída e o detentor tinha direito, segundo se lê no romance com o mesmo nome de Colleen McCullough, a que quando aparecesse em público toda a gente se levantasse e aplaudisse.

Era conferida pelos soldados ao seu general. Mas já com Augusto foi o Senado que a atribuiu, numa saudável evolução: o Senado era de muito mais confiança que a soldadesca e além disso o primeiro imperador não era para brincadeiras.

As condecorações actuais, nem sequer as mais altas, não conferem, graças a Deus, o direito a que os agraciados façam levantar o respeitável público. Senão, dada a profusão delas, haveria sérios riscos, pelo menos nos restaurantes em Lisboa, de ninguém saborear a sua refeição sem estar constantemente a interrompê-la para se pôr em sentido, com grave risco de varizes e indigestões.

De resto, ninguém liga a ponta de um corno. E quem ligar, ou receber um convite para jantar com a indicação dinner jacket with medals, pode sempre adquirir alguma na Feira da Ladra ou num adeleiro, onde se encontram por um preço módico os adereços de glórias passadas.

Daí que o Grande Colar atribuído a Durão Barroso não aqueça nem arrefeça. Mornamente, o que se designa por esquerda há-de protestar: escravo da senhora Merkel e do imperialismo para os comunistas, fujão das suas responsabilidades e adepto das políticas austeritárias para os socialistas. E, mornamente, o que se designa por direita há-de aplaudir: grande estadista e europeísta, credor de universal respeito e dono de um grande prestígio nos areópagos internacionais.

Na realidade, Durão Barroso é uma rolha de génio, por saber tudo sobre como se faz uma carreira brilhante sem saber nada sobre o que sejam princípios ou o interesse de Portugal.

O homem julga que com a quantidade adequada de subsídios e prebendas, pequenas cedências aqui e além, faro apurado para sentir o que realmente querem os poderes do dia, e reforço insano das competências da nebulosa bruxelense, a carroça do projecto europeu avançará, e que nuvens como esta ou esta ou esta são coisa passageira.

Pode ser que sejam. Ainda que, com o chão cada vez mais molhado, o que parece crescentemente provável é que ela atole qualquer dia. Seria então o tempo, se a esperança média de vida estivesse nos cento e cinquenta anos, de Durão lembrar o seu acrisolado amor pelo caldo verde, o galo de Barcelos e a praia de Moledo, e continuar a sua carreira numa reencarnação como fervoroso patriota.

publicado por José Meireles Graça às 23:25
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Segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Dubito ergo cogito

Durão Barroso distinguiu-se, na União Europeia, por flutuar. Agora que quer regressar à casa paterna está a agitar as águas. E, é claro, caíram-lhe em cima com a comparação entre os números de agora e os de há cinquenta anos, como se o regime anterior, se não tivesse caído, ficasse parado nos níveis de 1974, não registando qualquer progresso de então para cá. Uma evidente falácia argumentativa, no ensino e no resto, mas que tem livre curso.

 

Invejo as pessoas que, sobre Educação, têm ideias claras. Porque eu, ruborescido, confesso que tenho demasiadas perguntas sem resposta satisfatória:

 

1. Por que razão os defensores exaltados da escola pública não advogam a liberdade de os pais escolherem o estabelecimento onde querem colocar os filhos, obrigando os mais expeditos (ou desonestos, ou preocupados, é como se queira) a falsificarem atestados de residência, ou indicarem encarregados de educação residentes nos sítios "certos"?

 

2. Por que razão, sempre que se comparam enunciados de exame antigos de Português (como aqui), ou Matemática, ou História, ou Geografia, em níveis iguais de escolaridade, com os correspondentes actuais, se percebe que os nossos (e os dos outros - a importação de modas e ideias faz com que cometamos os mesmos erros, apenas com algum atraso) ricos meninos, sabendo embora muitas coisas que dantes se não sabia, ficam a perder na comparação?

 

3. Por que razão há tanto, mas tanto, adolescente incapaz de traduzir ideias por escrito, ou de as compreender, e tanto licenciado que ou se refugia num palavreado hermético e pretensioso, nos melhores casos, ou tem uma relação conflituosa com a sintaxe, em particular concordâncias, e isto mesmo em áreas, como o Direito ou Jornalismo, em que o domínio da língua deveria ser uma condição sine qua non para a obtenção do grau?

 

4. Por que razão se acreditou que a multiplicação de cursos e universidades iria originar, num mercado pequeno como o nosso, uma hierarquização delas que tivesse tradução na conquista de empregos, desde logo na Função Pública, e na diferenciação de remunerações para licenciaturas obtidas em estabelecimentos diferentes? E que a proliferação de licenciados geraria a sua própria ocupação? Ou, se não eram esses os resultados pretendidos, quais eram?

 

Perguntas destas tenho um saco cheio. A resposta seguinte não é minha, e tem implícita uma outra pergunta, que formularia assim: queremos que toda a gente tenha no mínimo uma formação a nível do secundário completo ou admitimos que nem isso é acessível a uma parte da população estudantil?

 

"A escola democrática tem que ser exigente e inclusiva. Se for só inclusiva é um centro de ocupação dos tempos livres, se for só exigente é uma escola elitista. Se estivermos dispostos, através da exigência dos exames e da selecção social, a reduzirmos os actuais alunos do ensino secundário aos 13 116 que existiam em 1961, poderemos ser tão exigentes com esses quanto quisermos. Ser exigente, excluindo, é fácil".

 

Eu acho que não precisamos de estatísticas baseadas no número de aprovados neste e naquele grau, se as pudermos manipular baixando o nível de exigência; que as comparações feitas nesses termos são intelectualmente desonestas; que ser exigente não implica reduções brutais de educandos, mas implica alguma redução; e que o País precisa de técnicos, que não há, mas não de resmas de moços imaginando que os diplomas secundários que angariaram sem esforço lhes dão direito a terem formação superior assente em alicerces duvidosos e ela própria baseada nos mesmos facilitismos que lhes permitiram lá chegar.

 

E quanto ao elitismo? Se partirmos do princípio que as proporções de génios e inteligentes, idiotas e medíocres, trabalhadores e preguiçosos, são hoje as mesmas que sempre foram, então a massificação do ensino tem algo a seu favor: sempre a partir de uma base maior haverá melhores resultados do que de uma base pequena, por nesta os late bloomers ficarem pelo caminho. Mas nisto, como no mais, os recursos públicos têm que ser rateados. E, a ter que haver escolhas, que sejam as escolhas dos melhores, mesmo que depois estes venham muitas vezes a descobrir que, do ponto de vista do sucesso material, foram ultrapassados por alguns daqueles que já estavam a fundar as suas carreiras enquanto eles continuavam nas suas bibliotecas ou laboratórios - mundo complicado, este.

 

E aqui está como, não tendo respondido às perguntas que fiz, acabei por responder a algumas que não fiz.

publicado por José Meireles Graça às 18:01
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