Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Nuvens negras

Ontem o INE anunciou um crescimento, para o segundo trimestre, de 2,8%, e portanto temos direito às declarações, repetidas até à exaustão, do ministro Centeno, que abunda em gabarolices, do mesmo modo que o faria se estivéssemos a falar de 1,ou 2 ou 3 ou 5%. O homem, como acontece muito aos técnicos paraquedizados no mundo político, absorveu rapidamente os piores tiques da classe, no caso agravados pelo carácter contranatura do governo de que faz parte e pelo perfil essencialmente troca-tintas do chefe.

 

O que este ministro diz, com o característico sorriso alvar que só lhe perdoaríamos se não suspeitássemos que traduz a irremediável mediocridade que o aflige, não tem na realidade qualquer importância: sabemos que o governo aproveita os benefícios do ciclo económico, o boom impressionante do turismo e a tolerância das instâncias europeias, gratas porque Costa faz os malabarismos necessários para fingir que vai seriamente a caminho de respeitar o Tratado Orçamental; e que o Estado anafado disfarça, com as cintas do crescimento, as novas gordurinhas que vai acrescentando.

 

Não houve ocasião de a comunicação social ouvir o chefe, que aparentemente continua de férias, mas podemos estar certos de que o país que acaba de fazer a maior reforma da floresta desde D. Dinis, na opinião do ministro Capoulas, estará sem margem para dúvidas a caminho do maior crescimento desde D. João II logo que Costa tenha ocasião de se pronunciar.

 

Claro que a reforma da floresta durará até à próxima época de incêndios sem precedentes, ou o próximo ministro, conforme o que ocorrer primeiro; e o crescimento até à próxima crise, que o país defrontará mais endividado do que em qualquer das anteriores porque ainda não se inventou maneira de aldrabar a dívida pública, nem a externa, como se tem aldrabado tudo o mais.

 

Que as contas estão aldrabadas não é a Oposição que o diz, embora o diga, nem é o crescimento da dívida pública, nem o que consta sobre as dívidas do SNS e todas as outras que se podem empurrar com a barriga  ̶  é o Tribunal de Contas.

 

Sobre este pobre organismo, porém, não ouviremos entrevistas nem declarações, salvo as de circunstância para protestar um grande respeito, nem haverá um clamor público a reclamar reformas. De reformas, o respeitável público quer saber se há aumentos. E o governo, pressuroso, lá irá esportulando as esmolas que no seu calculismo cheguem para contentar a clientela dos seus parceiros revolucionários, e a sua própria, enquanto o PCP assenta arraiais no ministério da Educação e vai metodicamente minando os serviços do Estado.

 

Nem tudo porém são apenas nuvens negras no horizonte, que o cidadão não quer ver porque está anestesiado por uma comunicação social domada, um comentariado tradicionalmente esquerdista e a fé bovina de quem prefere ser enganado: a tela cuidadosamente tecida da propaganda começa a esgarçar e pelos seus rasgões percebe-se que algumas daquelas nuvens estão afinal muito próximas:

 

Uma entidade que dá pelo nome de Entidade Reguladora da Saúde, e que suponho seja igual, na sua inoperância, ao Tribunal de Contas e a todos os supervisores que o Poder foi criando para dar a impressão que o capitalismo português não vive em conúbio com o Estado e que os serviços públicos estão ao serviço do cidadão, vem denunciar as mortes que ocorreram no SNS (uma pequena parte, presume-se, que fazer a prova seja do que for que suceda dentro de um hospital é uma corrida de obstáculos com frequência inultrapassáveis), num relatório que a notícia qualifica de "retrato assustador".

 

O título é "ERS puxa orelhas", e a julgar pelas medidas que aquele organismo tomou (por exemplo "recomenda que se garanta 'o acesso a tratamentos oncológicos em tempo útil', adequados às necessidades dos doentes e que 'devem ser prestados humanamente, com prontidão e respeito pelo utente") há boas razões para pensar que nem o ministro da Saúde, nem as direcções dos hospitais, nem os médicos e restante pessoal envolvido correm qualquer risco de ficar com aqueles apêndices a arder.

 

A maior parte da população não presenciou tais casos de falência do Estado; nem os dos mortos de Pedrógão Grande, nem as centenas de feridos naquele e noutros incêndios. E é certo que a bem oleada máquina da propaganda governamental para tudo encontra uma explicação que tem a ver com o governo anterior, as forças da Natureza, os incendiários, o acaso, o espírito derrotista e retrógrado da Oposição, as fases da Lua e os desmandos de Donald Trump.

 

As sondagens não mostram ainda, mesmo que se lhes faça a correcção do enviesamento pró-esquerda que quase sempre têm tendência a ter, a censura que devia merecer um governo que todos os dias demonstra que nos livrámos de Sócrates mas não do socratismo. Agravado por uma aliança espúria e completo com a maior parte do mesmo pessoal político, de cuja cumplicidade nas tropelias socratianas é ingénuo duvidar.

 

Estamos assim. E precisamos de paciência porque é como diz o outro: pode-se enganar toda a gente durante algum tempo, e alguma gente durante o tempo todo; mas... (o resto da citação que a complete o leitor astuto).

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 13:05
link do post | comentar
Sexta-feira, 17 de Junho de 2016

Sobe e desce

A subir: os juros.

A descer: a economia.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:55
link do post | comentar
Sábado, 4 de Junho de 2016

Notícias do manicómio: a mitomania

Depois de comparar o papel da TAP, desde que com gestão pública e à mercê dos sindicatos, no século XXI com o das caravelas que no século XIV fizeram os descobrimentos que se iniciaram no século XV, porque "...é isso que nos permite inserir nas rotas da globalização...", e de comparar a inauguração do túnel do Marão por ele próprio com a da ponte Salazar pelo Salazar, porque "...há 50 anos o Tejo, hoje o Marão...", o António Costa volta a insinuar o seu magnífico esplendor anunciando que vai colocar Portugal "...na primeira linha de uma revolução industrial, onde aquilo que é essencial é a qualificação...".

E como é que ele vai conseguir colocar Portugal nessa primeira linha ao mesmo tempo que lançou um sólido conjunto de desincentivos estruturais ao investimento, como a reversão, por proposta do BE, da redução gradual da taxa de IRC até aos 17% acordada entre a maioria e o PS do Seguro na legislatura anterior, o aumento imediato do salário mínimo com promessa de continuar a aumentar até chegar aos 19% durante a legislatura, a redução do horário de trabalho na função pública que incentiva os sindicatos a lutarem por igual redução no sector privado, ou a reposição dos feriados e o aumento das férias, que estão a ter os resultados esperados no investimento, no emprego e no crescimento?

É canja: vai lançar dois programas, o Programa Nacional Start-Up e o Indústria 4.0, programas com nomes fashion e aiteque que, além de fazerem tremer as pernas ao governante irlandês que se vai ver ultrapassado na capacidade de captação de investimento com base em receitas noliberais como taxas de IRC de 12,5%, que martirizam o povo irlandês e o condenam e uma economia anémica e injusta, nos vão permitir liderar a tal revolução industrial do tempo novo. Ou, mesmo que não permitam, apoiarão pelo menos a criação de umas dezenas de empregos a quadros altamente qualificados com salários acima da média que, enquanto permanecerem em laboração, proporcionarão boas reportagens televisivas de visitas de governantes a casos de sucesso da nova economia do tempo novo planeada pelo estado. Para essas dezenas, e enquanto as novas indústrias não falirem e os despedirem, será uma boa alternativa às oportunidades de emprego com salários baixos.

Até aqui, tudo bem. O mínimo que se pode dizer é que ele se esforça por aquilo em que acredita, mesmo que seja ilusório, disparatado, e mesmo em completa contra-mão com a realidade. E proporciona-nos bons momentos de humor, o que, não sendo o principal objectivo de um primeiro ministro, a não ser em regimes populistas, o que ainda não é o caso, ainda não, são pelo menos de se aproveitar, que a vida não está para risotas. Mas o facto de conseguir dizer coisas destas sem se desatar a rir pode sugerir que esteja a ser vítima de uma patologia, a mitomania.

Na falta de um psiquiatra na plateia, vejo-me forçado a socorrer à Wikipedia, sempre falível, mas de alguma utilidade, desde que se tenha noção da possibilidade de conter erros. E o que diz a Wikipedia sobre os sintomas da mitomania que nos possa servir de ajuda para a diagnosticar ao primeiro-ministro? Isto:

  • As histórias contadas não são totalmente improváveis ​​e muitas vezes têm algum elemento de verdade. Elas não são uma manifestação de delírio ou de algum tipo de psicose mais amplo: quando confrontado, o contador pode admitir que elas são falsas, mesmo que a contragosto. 
  • A tendência de contar mentiras é duradoura, não sendo provocada apenas por situação imediata ou pressão social, sendo uma característica natural da personalidade. 
  • A motivação definitivamente emocional (medo, vergonha, desejo por aprovação), sem benefícios externos óbvios (como vender produtos, manter um relacionamento ou escapar impune de um crime). 
  • As mentiras tendem a apresentar o mentiroso favoravelmente. Por exemplo, a pessoa pode ser apresentada como sendo fantasticamente corajosa, muito esperta, feliz, bem sucedida ou bem relacionada com pessoas famosas. 

A acreditar nos critérios enumerados pela Wikipedia, a presença de benefícios externos óbvios nas situações em que o António Costa exibe sintomas de mitomania permite afastar esse diagnóstico. Não é um mitómano. É apenas um aldrabão.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:03
link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 19 de Janeiro de 2013

Acção de formação

 

 

 

 

A senhora chama-se "Ludmila", e apresenta o "Interniet Magázin".

 

Este número é dedicado ao lançamento do "Çiéri Midel Tréc", de uma "firma" vaga (em russo, "váda").

 

O "Çiéri Midel Tréc" é um instrumento de trabalho ("lávuôra"). E vem equipado com uma betoneira, que é uma geringonça que serve para mexer o betão ("bêtôna mêchálca").

 

Pousando a mãozinha em cima da cabine, Ludmila informa que tem doze centímetros ("dzuôdzie çentímiêtra"). Em seguida vira o "tréc" de frente e dá outra medida em "çentímiêtra", parece-me que se refere à distância entre eixos (mas não estou certa, porque a pronúncia é regional).

 

Apontando para o interior da cabine, lembra o potencial comprador que pode levar consigo a sua bicharoca (em russo: "nacharuóca"). Prepara-se para explicar esta vantagem, e antes de voltar a agarrar no "tréc" diz: "e eu vou passar já".

 

A explicação não se faz esperar: a bicharoca sempre pode ajudar a mudar um pneu, desde que não tenha calos ("cálôs"). Basta fazer "açim".

 

Voltando a posicionar o "tréc" de modo a que possamos observar a lateral, diz que tem 3 funções ("tréat fõndçé") ao dispor do operador (não contamos aqui com a função de passear a sua bicharoca).

 

Uma delas é fazer rodar a "plátfuórma" de um lado para o outro.

 

Outra função, tal como indicam os admiráveis dedinhos de Ludmila, é subir e descer a escada (presumo que "liêdzniêtzca", termo ao qual não estou acostumada) e usar a pá ("lá pátca"), possivelmente para enterrar algum cadáver que lhe prejudique o normal funcionamento dos trabalhos.

 

Rodando a manivela, concentra-se agora na betoneira ("bêtôna mêchálca", como já vimos) e aproveita para prevenir que o traço do betão deve seguir as normas russas ("rutchqui"), e pela válvula situada no topo do depósito ("rêzêrvuár") não devem ser expelidos gases com concentrações de CO2 superiores a um determinado valor, tal como previsto na legislação aplicável.

 

Por fim, mostra que de lado tem "espuma" do tipo "chutnutqui" (não vale a pena deter-me nestas explicações técnicas, caso contrário não saimos daqui).

 

Ludmila termina despedindo-se "até amanhã", por volta "das três".

 

__________

 

Nota:

 

Este post nasceu numa caixa de comentários do Malomil, a quem agradeço o mote. Ao dar-me conta da sua extensão, resolvi transferi-lo para esta (vossa) casa.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:11
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Perceber da Vida é o melhor, gato. Obrigado.
Muito bom post, no seu estilo. Mordaz, q.b.E que e...
Extintores (https://www.comprarextintoresbaratos.e...
Além de concordar, acho graça ao seu estilo de red...
«Porque os sistemas, a monitorização, as certifica...

Arquivos

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cds

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desigualdade

dívida

educação

eleições europeias

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

populismo

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds