Partilho com Trump a aversão ao palavreado politicamente correcto, e mesmo detestando-lhe o prodigioso mau gosto no penteado, nas toilettes, nas casas, nos discursos e nos debates, sinto uma reflexa simpatia pelo homem: se a esquerda tão fervorosamente o odeia alguma coisa deve ter de bom; e se com tanta facilidade diz ao que vem, mesmo que sejam ideias peregrinas e impraticáveis como o muro para impedir a migração para norte de hispânicos, o bloqueio à entrada de muçulmanos e as taxas delirantes sobre a importação de produtos chineses, pode bem ser que os políticos de outras paragens aprendam que a língua de pau deixa os eleitores em casa.
Se os problemas que os americanos comuns têm não se resolvem com soluções simplistas, ainda menos se resolvem com o tributo aos mandarins do pensamento económico (que partilham a suficiência científica, ao mesmo tempo que propinam soluções diferentes para os mesmos problemas), com a treta calculista de quem não se quer comprometer com coisa alguma, e com a negação de problemas reais, como a diluição de um conjunto de valores anglo-saxónicos, que fizeram a América grande, num melting pot impossível de quem não quer falar inglês nem adoptar a mesma ética do trabalho.
Mas isso são lá coisas de gringos. Que a gente aqui, sensatamente, não se preocupa com as eleições americanas, mesmo que elas possam ter consequências para nós: Portugal, na Europa e no mundo, dança consoante a música, mas não escolhe nem a partitura nem a orquestra, e portanto o que tiver de ser - será.
Preocupamo-nos tão pouco, aliás, que o que está a dar, entre nós, são os bons sentimentos de solidariedade com os pobres e um arreigado amor pela igualdade, que serviram para fazer o governo que está, e o afecto incondicional que Marcelo nutre por todos os inscritos nos cadernos eleitorais, que serviu para o levar onde chegou.
Durante as eleições, que se saiba, nas mais recentes ou em qualquer das outras, não há notícia de um embaixador português se ter pronunciado sobre os candidatos da sua preferência. Pode imaginar-se o nosso embaixador nos EUA a declarar ao Luso-Americano Newspaper (é pouco provável que um jornal de grande divulgação fizesse uma tal entrevista): ai o dr. Passos é um neoliberal empedernido, não me parece que um tal discurso vá apelar ao eleitorado?
Não pode. Nem que a dra. Ana Gomes fosse embaixadora. Até ela, presumo, saberia que representa o país, não uma certa facção do país.
Pois o embaixador dos E.U.A. em Lisboa não sabe: o homem diz que o "discurso fraturante e intolerante não vai apelar ao eleitorado”, referindo-se a Trump. E acrescenta, não vá escapar-nos quais são as suas preferências, que, ao centrar-se no tema das desigualdades económicas, Sanders “trouxe um assunto e uma mensagem importantes e ele fê-lo de uma forma muito responsável e razoável”.
Olhe, senhor embaixador, um dos defeitos de Trump é não ter sentido de estado; e uma das qualidades é ser, ou parecer, sincero. Vossa excelência partilha-lhe a qualidade, que num embaixador é defeito; e o defeito também.
O processo eleitoral nos EUA e no Reino Unido é arcaico e anti-democrático, sem dúvida porque os locais não se inspiram na Venezuela; hoje eleger-se-á "o último imperador que se curvará perante um chinês escolhido com igual mestria"; "Aliás, em matéria de comparações se somarmos os votos dos dois únicos partidos de alterne, somada a impossibilidade de um não milionário se meter de permeio, também temos a Coreia do Norte".
Isto é forte, é muito forte - um paisano fica emudecido perante tanta lucidez. E atenção: convém não se deixar embevecer com estes espectáculos mediáticos do Primeiro Mundo, que é para não ser tachado de "mentiroso, pobre de espírito e idiota."
"As most of you know our company, Westgate Resorts, has continued to succeed in spite of a very dismal economy. There is no question that the economy has changed for the worse and we have not seen any improvement over the past four years. In spite of all of the challenges we have faced, the good news is this: The economy doesn’t currently pose a threat to your job. What does threaten your job however, is another 4 years of the same Presidential administration. Of course, as your employer, I can’t tell you whom to vote for, and I certainly wouldn’t interfere with your right to vote for whomever you choose. In fact, I encourage you to vote for whomever you think will serve your interests the best."
Este tipo acha que mais quatro anos de Obama não darão saúde à economia em geral e à empresa dele em particular. E di-lo num e-mail a todos os trabalhadores da empresa.
Escândalo: o título da notícia é "Multimilionário ameaça despedimentos se Obama ganhar". No texto, entre outros detalhes, informa-se que David Seagal vive numa casa com quase 3 hectares, inspirada em Versalhes (vê-se pela fotografia que Versalhes fica realmente muito longe da Florida, a casa nem com Vaux-le-Vicomte compete). Mas a informação é útil: um tipo que vive numa casa deste tamanho só pode ser um patife. E o patife leva o desplante a pontos de tentar influenciar o voto dos seus trabalhadores - maldito cacique.
Sucede que acho que Obama é, no Olimpo da política mundial, uma espécie de casamento gay entre Hermes, deus dos oradores, e Éolo, deus dos ventos. Falas bem mas fazes tudo o resto mal, Obama. E mesmo que o outro candidato já tenha o seu pé de meia de deslizes, se eu fosse Americano não hesitava.
E ainda que não me passasse pela cabeça escrever aos trabalhadores a confiar-lhes as minhas opiniões políticas, confesso não perceber por que razão é moralmente censurável fazê-lo: o voto não é secreto? os trabalhadores têm uma cabecinha tão fraquinha que a opinião do patrão, do padre, do polícia e do presidente da câmara - conta muito? tentar influenciar não é o que todos fazemos, até este ignoto escriba?
Histórias de gringos, é o que é. Nós cá não temos disso; nem casas à moda de Versalhes.
Blogs
Adeptos da Concorrência Imperfeita
Com jornalismo assim, quem precisa de censura?
DêDêTê (Desconfia dele também...)
Momentos económicos... e não só
O MacGuffin (aka Contra a Corrente)
Os Três Dês do Acordo Ortográfico
Leituras
Ambrose Evans-Pritchard (The Telegraph)
Rodrigo Gurgel (até 4 Fev. 2015)
Jornais