Segunda-feira, 14 de Março de 2016

Coisas de gringos

Partilho com Trump a aversão ao palavreado politicamente correcto, e mesmo detestando-lhe o prodigioso mau gosto no penteado, nas toilettes, nas casas, nos discursos e nos debates, sinto uma reflexa simpatia pelo homem: se a esquerda tão fervorosamente o odeia alguma coisa deve ter de bom; e se com tanta facilidade diz ao que vem, mesmo que sejam ideias peregrinas e impraticáveis como o muro para impedir a migração para norte de hispânicos, o bloqueio à entrada de muçulmanos e as taxas delirantes sobre a importação de produtos chineses, pode bem ser que os políticos de outras paragens aprendam que a língua de pau deixa os eleitores em casa.

 

Se os problemas que os americanos comuns têm não se resolvem com soluções simplistas, ainda menos se resolvem com o tributo aos mandarins do pensamento económico (que partilham a suficiência científica, ao mesmo tempo que propinam soluções diferentes para os mesmos problemas), com a treta calculista de quem não se quer comprometer com coisa alguma, e com a negação de problemas reais, como a diluição de um conjunto de valores anglo-saxónicos, que fizeram a América grande, num melting pot impossível de quem não quer falar inglês nem adoptar a mesma ética do trabalho.

 

Mas isso são lá coisas de gringos. Que a gente aqui, sensatamente, não se preocupa com as eleições americanas, mesmo que elas possam ter consequências para nós: Portugal, na Europa e no mundo, dança consoante a música, mas não escolhe nem a partitura nem a orquestra, e portanto o que tiver de ser - será.

 

Preocupamo-nos tão pouco, aliás, que o que está a dar, entre nós, são os bons sentimentos de solidariedade com os pobres e um arreigado amor pela igualdade, que serviram para fazer o governo que está, e o afecto incondicional que Marcelo nutre por todos os inscritos nos cadernos eleitorais, que serviu para o levar onde chegou.

 

Durante as eleições, que se saiba, nas mais recentes ou em qualquer das outras, não há notícia de um embaixador português se ter pronunciado sobre os candidatos da sua preferência. Pode imaginar-se o nosso embaixador nos EUA a declarar ao Luso-Americano Newspaper (é pouco provável que um jornal de grande divulgação fizesse uma tal entrevista): ai o dr. Passos é um neoliberal empedernido, não me parece que um tal discurso vá apelar ao eleitorado?

 

Não pode. Nem que a dra. Ana Gomes fosse embaixadora. Até ela, presumo, saberia que representa o país, não uma certa facção do país.

 

Pois o embaixador dos E.U.A. em Lisboa não sabe: o homem diz que o "discurso fraturante e intolerante não vai apelar ao eleitorado”, referindo-se a Trump. E acrescenta, não vá escapar-nos quais são as suas preferências, que, ao centrar-se no tema das desigualdades económicas, Sanders “trouxe um assunto e uma mensagem importantes e ele fê-lo de uma forma muito responsável e razoável”.

 

Olhe, senhor embaixador, um dos defeitos de Trump é não ter sentido de estado; e uma das qualidades é ser, ou parecer, sincero. Vossa excelência partilha-lhe a qualidade, que num embaixador é defeito; e o defeito também.

publicado por José Meireles Graça às 03:25
link do post | comentar | ver comentários (8)

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

8 comentários

Últimos comentários

Marxismo Cultural o tanas:-» BOYS E GIRLS DE SOROS...
E prontos...Manuel Vilarinho Pires gastou algum do...
Que a Igreja é humana, faz parte da definição. Uma...
No vosso 'post' «Um passeio primaveril» escrevi al...
José Meireles Graça, o seu apontamento é bom, expl...

Arquivos

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

populismo

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds