Domingo, 5 de Agosto de 2018

O mundo aferido pelos migrantes

2018-08-05 Emigrantes de partida.jpg

Como toda a gente sabe, na legislatura anterior Portugal transformou-se do paraíso que era durante a anterior governação socialista, com a economia do conhecimento, as infraestruturas abundantes e as energias verdes, num inferno de austeridade decorrente da determinação dos governantes neoliberais em empobrecer o país de onde milhares de portugueses fugiram emigrando, e com o regresso dos socialistas ao governo transformou-se de novo num paraíso onde os rendimentos foram devolvidos e os impostos directos reduzidos, conjugação de factores facilmente comprovável no recibo de vencimento de cada beneficiado, e os emigrantes puderam regressar finalmente ao país de onde tinham fugido.

Como sabe também toda a gente, pelo menos os frequentadores das redes sociais, o Reino Unido está na iminência de se transformar num país mais habitável por se livrar das garras ditatoriais da União Europeia, e a Alemanha da Angela Merkel transformou-se num inferno assolado por refugiados muçulmanos onde há regiões em guerra civil, violações em massa de mulheres e crianças alemãs por refugiados muçulmanos e clérigos islâmicos a impôr a sharia.

Toda a gente sabe e provavelmente é verdade. Só que não é.

Ora diz quem sabe, e já aqui foi dito antes, que se quiserem saber a opinião real de um Nobel da Economia sobre economia não lha perguntem, vejam onde é que ele guarda o seu dinheiro. Pelo que se quiserem perceber em que países se vive bem e em que países se vive mal pode ser uma boa ideia olhar para os movimentos migratórios, que são capazes de ter uma percepção mais real do terreno do que os políticos que podem ter interesse em divulgar visões distorcidas da realidade ou dos tudólogos das redes sociais que, bem, só conhecem o teclado de onde opinam.

E o que nos dizem os movimentos migratórios?

Dizem-nos que depois de uma redução em 2016 a emigração portuguesa voltou a crescer em 2017 para 57.315 e ultrapassou os 56.231 de 2015.

Dizem-nos que o Reino Unido continua a ser o principal destino de emigração portuguesa mas o número de imigrantes portugueses a chegar ao Reino Unido baixou em 2017 para 22.622, dos 30.543 em 2015.

Dizem-nos que o número de novos imigrantes portugueses na Alemanha aumentou em 2017 para 17.750, mais do que duplicando os 8.810 de 2016.

Tudo junto, ou alguém nos anda a enganar porque tem interesse no engano ou porque repete o que lhe dizem sem noção nem cuidado a conferir, ou os emigrantes portugueses são uns tontos que fogem de um paraíso para infernos e mesmo teatros de guerra. Atendendo à convicção com que as ideias são divulgadas nas redes sociais, é capaz de ser a segunda que está certa?

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:04
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Sobre o ensino universitário tendencialmente gratuito

Um adolescente tem boas notas, é responsável e aplicado, os pais metem-no a fazer o secundário num daqueles colégios que preparam os alunos para a média, consegue acabar o secundário com média de 19 e entra em Medicina. Consegue terminar a licenciatura, as boas notas anteriores eram um bom preditor de que teria essa capacidade, e depois consegue completar com sucesso o internato e obter o grau de especialista. Dá o salto para o estrangeiro, onde vai ganhar, pela medida dos salários portugueses, uma pequena fortuna. E nós continuamos sem médico.

2017-12-11 Emigração jovens médicos.jpg

Esta não é a história dos médicos que conhecemos, ou pelo menos dos que eu conheço pessoal ou profissionalmente, que estão esmagadoramente a trabalhar no país onde se formaram ou, se estão no estrangeiro, trabalham em missões humanitárias enquadrados por organizações de voluntariado. Dedicam-se à comunidade e devolvem-lhe o que investiu neles. Tal como provavelmente a esmagadora maioria dos médicos portugueses.

Mas é a ambição de, diz o estudo A carreira médica e os factores determinantes da saída do SNS realizado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto cujos resultados acabam de ser publicados, metade dos jovens médicos que estão a fazer a formação da especialidade no Norte. E como admito que a latitude não deva ser um factor determinante para formar este tipo de preferências, será a ambição de metade dos jovens médicos portugueses que estão a fazer a especialidade.

A ambição deles não tem nada de ilegítimo. Possuem, ou estão em vias de adquirir, uma formação valiosíssima, trabalharam aplicadamente desde a adolescência para a adquirir, têm a possibilidade de exercer um trabalho de grande utilidade social, onde quer que o venham a exercer, e ponderam todas as opções profissionais que têm pela frente privilegiando as que lhes oferecem melhores perspectivas laborais e remuneratórias. Não há nada que se lhes possa apontar.

Mas a saída para o estrangeiro de médicos especialistas acabados de formar é um péssimo negócio para todos os portugueses genericamente e para os contribuintes em particular.

Os cursos universitários custam muito mais do que é cobrado aos alunos das universidades públicas em propinas, cerca de mil euros por ano para a licenciatura. E se há cursos que envolvem custos moderados por serem ministrados essencialmente à base de papel e tinta, como os de Direito, há outros que envolvem custos elevados, nomeadamente os que exigem a disponibilidade de laboratórios e equipamentos por vezes muito sofisticados, como os de Engenharia. Ou de Medicina. As estimativas do custo de formar um médico especialista rondam os cem mil euros para a licenciatura de seis anos, para os quais os próprios contribuem em propinas com cerca de seis mil, e duzentos a quatrocentos mil para a especialidade.

Se os médicos especialistas acabados de formar emigram, o investimento da comunidade na sua formação, que pode atingir valores da ordem dos quinhentos mil euros, não tem retorno nenhum, ou terá, mas na comunidade que os acolher sem ter investido na sua formação.

Não sendo a oferta de formação aos médicos um prémio pelas boas notas conseguidas no secundário, mas um investimento num bem social maior, a saúde dos portugueses, seria importante a comunidade dispor de instrumentos para garantir que esse investimento é efectivamente utilizado para contribuir para o fim que o justifica.

Não tendo já chegado ao socialismo cujo caminho a Constituição nos obriga a percorrer, não temos à nossa disposição instrumentos como os das ditaduras que respondem pelo nome de democracias populares, em que o indivíduo não tem mais direitos do que os que lhe advêm de ser propriedade do Estado, de que o mais óbvio é de servirem o Estado, e não podemos tratar os médicos do modo que são tratados, por exemplo, pelo regime socialista cubano, que os proibe de emigrar e, quando é oportuno colocá-los ao serviço de sistemas de saúde de outros países, cobra pelo seu trabalho honorários de advogado de negócios e paga-lhes a eles salário de empregada doméstica. Não os podemos proibir de sair.

O problema, ou o risco potencial de o problema se concretizar, não resulta da liberdade de escolha deles, que é um dado em sociedades livres como aquela em que vivemos e queremos, eu pelo menos quero, viver, mas de a comunidade investir neles sem qualquer compromisso deles que lhe ofereça uma garantia mínima de retorno do investimento. O problema é de o ensino ser tendencialmente gratuito e, no caso específico da formação em Medicina, cobrado muito abaixo do custo real. Se o curso de Medicina tivesse propinas compatíveis com a cobertura dos seus custos, o investimento da comunidade estaria liquidado no fim do curso e não haveria prejuízo para a comunidade se eles emigrassem.

Mas se os alunos de Medicina tivessem que suportar propinas que cobrissem integralmente os seus custos, cerca de cem mil euros ao longo dos seis anos da licenciatura seria algo como mil e quinhentos euros por mês onze meses por ano, abrir-se-ia uma frente de ineficiência na alocação de recursos. O curso seria limitado, não aos alunos com provas dadas de terem potencial para virem a ser no futuro os melhores médicos, mas aos que tivessem capacidade de pagar propinas nestes montantes. A qualidade média dos médicos formados seria certamente inferior à que pode ser conseguida se todos forem elegíveis para entrar e forem seleccionados por critérios que indiciem a sua capacidade para virem a ser bons médicos. E se as notas obtidas no secundário são uma medida adequada ou não para a aferir é outra discussão, mas que são uma tentativa de aferição quantificada do seu potencial como futuros médicos é indesmentível. E o ensino tendencialmente gratuito permite alargar o recrutamento de estudantes a todos, independentemente da classe social de origem, os que têm mais potencial para o transformar em conhecimento em benefício da comunidade.

O problema pode ser então reformulado como encontrar modo de a comunidade garantir o retorno do investimento que faz no ensino sem negar liberdades cívicas aos diplomados mas também sem impedir jovens com capacidade mas sem meios de se diplomarem.

E mesmo para este problema mais complexo há muitas soluções provadas.

Desde o ensino tendencialmente gratuito mas sujeito ao compromisso de no fim do curso o formando ficar a trabalhar durante um determinado período para o Estado, ou para o que a comunidade determinar como relevante para reaver aquilo que investiu nele, e sujeito a uma indemnização que compense os custos da formação se o formando quiser sair antes de ter completado esse compromisso com a comunidade, como se faz por exemplo para os pilotos formados na Força Aérea...

... ao ensino com propinas ajustadas à cobertura dos custos reais mas suportado pela concessão aos formandos que o necessitam de crédito a ser reembolsado ao longo da vida profissional pós-formação, como é prática corrente em países onde vigoram versões mais light do Estado Social do que na União Europeia, como os EUA...

... há muitas formas de, com mais Estado Social formal ou menos Estado Social formal, conciliar a maximização de eficiência que permite o acesso ao ensino dos melhores independentemente da sua classe social de origem e da sua capacidade financeira, com a garantia de a comunidade não investir nos que forma sem qualquer garantia de retorno desse investimento. De conciliar a justiça social com a eficiência na alocação dos recursos públicos. De fazer Estado Social sustentável

Oferecer ensino gratuito a todos como se fosse a única possibilidade de o fazer, e permitir aos que podem, que frequentemente até são dos que à partida tinham menos necessidade de apoio do Estado para estudarem, que recolham em privado os resultados desse investimento público é que é um desperdício de recursos, um desperdício do nosso dinheiro, porque o Estado Social somos nós, e não dinheiro caído do céu, que o pagamos.

Estado Social, sim, mas minimamente inteligente para poder servir para enriquecer a comunidade em vez de lhe drenar recursos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:08
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2016

Os "cientistas" sociais e os cretinos da direita

sabemos que a luta é a Fenprof que a determina, não os cretinos da direita.

Mas os cretinos da direita têm limitações, cognitivas, ainda mais graves.

2016-11-01 Saldo emigração 2015.jpg

 

Quando colocados perante a evidência de em 2015 terem emigrado menos 18,5% portugueses e de terem imigrado mais 53,2%, entre estrangeiros que entraram e portugueses que regressaram, do que em 2014, em que por sua vez já tinham emigrado menos e imigrado mais do que em 2013, são capazes de distorcer as conclusões que é lícito tirar do facto para admitir que era a economia a retomar gradualmente a sua capacidade de reter mais portugueses e acolher mais estrangeiros. A esboçar o crescimento.

Nada de mais errado, e o jornal Público, como lhe é clássico, foi consultar "investigadores" em ciências sociais capazes de desfazer essas perniciosas impressões antes de elas contaminarem e enganarem a opinião pública com a impressão viral que a crise já estava a ser resolvida ainda durante a legislatura anterior.

O que aconteceu então?

O antropólogo Jorge Malheiros, visita frequente do esquerda.net, onde já tinha prognosticado no início de 2014 que a inversão do surto de emigração que então se verificava só seria possível com a criação de emprego estável, explicou agora que a emigração não se reduziu em 2014, e de novo em 2015, pela melhoria da economia do país, mas por um certo capital de esperança criado em 2016 pela reposição dos salários na função pública, que como toda a gente sabe era a maior vítima da sangria da emigração, em 2017 pelo aumento do salário mínimo para 557 euros, e em ambos os anos pelo aumento dos impostos indirectos. Só de antecipar estas medidas, os portugueses começaram em 2014 e 2015 a refrear a sua vontade de emigrar. Em que manicómio investiga este "investigador"? No Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. Pago por todos nós.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:06
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Domingo, 30 de Outubro de 2016

O iPad de cartão

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Como muito bem lhe topou o Vítor Cunha, o ministro Tiago Brandão Rodrigues, o mesmo que demite secretários de estado para os impedir de demitir por aldrabarem os seus curricula os chefes de gabinete que lhes coloca nos gabinetes para os vigiarem, e faz o que pode para evitar o acesso ao ensino privado por quem não tem dinheiro para o frequentar, é mais um a recorrer a uma das pantominas mais clássicas, e também mais cínicas, do populismo anti-austeritário pós-socratino, a pantomina de chorar baba e ranho pela emigração de jovens qualificados que deixa o país exangue dos seus melhores cérebros, mas de festejar quando são os seus próprios filhos a arranjar colocação lá fora a ganhar mais do que ganham cá ou, quando ainda são novos para isso, quando conseguem eles próprios dar o salto para fazer carreiras internacionais.

Tal como com frequentar a escola pública, ficar cá é bom para os filhos dos outros que, para eles e os filhos deles, o bem bom é fazer a escola no ensino privado (excepto a universidade pública oferecida pelos contribuintes a dois tostões de propina) e ir trabalhar para fora.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:25
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Terça-feira, 14 de Junho de 2016

A estrada da Beira

Obviamente que o António Costa, apesar do estilo trauliteiro e manhoso dele ou do seu assessor de Twitter que diz mais que o conteúdo, também não apelou à emigração, na mesma medida em que o Passos Coelho não tinha apelado, tendo-se ambos limitado a fazer uma sugestão construtiva para professores a quem é cada vez mais difícil arranjar colocação no sistema de ensino, público e privado, português procurarem trabalho. Mas as semelhanças entre eles acabam aqui.

Obviamente também que o António Costa, sabendo que o Passos Coelho também não tinha apelado, e muito menos ordenado, explorou o "apelo" inventado até à náusea, antes, durante e depois da campanha eleitoral, e mesmo depois das eleições. Nisto, foi um vigarista. Mas as coisas são o que são, e as pessoas são o que são, e um vigarista é um vigarista. Foi também um asno, porque não antecipou que corria o risco de um dia vir a dizer a mesma coisa, e até um asno descuidado, porque não se lembrou de evitar dizê-la quando a oportunidade lhe apareceu.

Agora, que se desminta. Só se perdem as que não lhe acertarem.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:45
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