Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

O postulado sexista

 

 

Há um aspecto decepcionante no entusiasmo com a competição olímpica de voleibol de praia feminino. A sugestão de que se o clima britânico fizer o que lhe compete em Agosto (e chover) as jovens núbeis vão sentir-se inclinadas a vestir-se como as atletas da equipa saudita, ou seja, embrulhar-se em roupas, tem sido recebida com uivos de angústia. Aparentemente, "os homens" estão indignados com esta perspectiva, tendo antecipado o pratinho de ver quatro pares de mamas a abanar para cima e para baixo, como cachorrinhos irrequietos, durante umas tardes.

 

Ai sim? Se eu fosse homem, e se o "evento" tivesse lugar no meu quintal de trás, suponho que era capaz de espreitar pela janela de vez em quando. Mas se o fizessem no quintal do meu vizinho acho que não levantava o rabo da cadeira para ir ver. Talvez dissesse à rapaziada que "ia andar por ali", só para parecer normal - "Uuuui, e tal, voleibol de praia feminino, pá, acho que vou lá pedir muitos raminhos de salsa nos próximos dias, etc. etc." - mas a ideia não me excitava muito, com toda a franqueza.

 

Onde eu seria mais estereotipicamente normal é que um campeonato de voleibol de praia feminino disputado entre jovens copiosamente revestidas me interessaria menos do que é possível expressar. Seria um programa tão atraente como, por exemplo, uma conferência perpetrada por Boaventura Sousa Santos sobre as "Causas Económicas das Carências Sociais". Não é sequer passível de ser registado como "interesse". No entanto, se Boaventura Sousa Santos estivesse vestido de biquini e aos saltos para cima e para baixo com as mamas dele a andar à roda, nesse caso eu era capaz de alinhar por uma questão de curiosidade. O que quero dizer é que o único interesse (se é que o tem) do voleibol de praia é a porção de carne feminina deixada a descoberto pelos reduzidos equipamentos da modalidade. Só Deus sabe como é que se transformou num desporto olímpico.

 

Este é o outro lado da ideia (que agora agita os movimentos "das mulheres" e a esquerda bem pensante) de que as Olimpíadas são sexistas porque as mulheres não são tratadas como os homens. Competem, na totalidade, por menos medalhas. E a participação delas é, em muitos casos, levada menos a sério do que a dos seu equivalentes masculinos. Uma das razões possíveis é que em competições que envolvam força, velocidade, e capacidade de reacção, as mulheres não são nem de perto tão boas como os homens. E não são nem de perto tão boas por uma margem muito larga. Para dar dois exemplos, o tempo mais rápido estabelecido por uma mulher nos 1.500 metros é de 3:50:46, da chinesa Yunxia Qu. O record masculino é de 3:26:00. No lançamento de dardo a disparidade é ainda maior - 80 metros para as mulheres, 104,8 para os homens.

 

Estou convencida que a maior parte das pessoas percebe isto e consegue, mesmo assim, ficar emocionada com a excelência do atletismo feminino. No fim de contas, cada um só pode jogar com as cartas que lhe foram distribuidas. Mas isto explica bastante porque é que existe uma tendência para favorecer as competições masculinas; elas representam o melhor do mundo, sem necessidade de qualificações. Devo acrescentar que o mesmo argumento se aplica ao ténis feminino ou ainda, pior que todos os outros, ao futebol feminino. Estou convencida que uma equipa formada exclusivamente por deputados à Assembleia da República ganharia facilmente à equipa feminina nacional, se contasse com Abel Batista na baliza, e optasse por um moderno 4-4-2, com Bernardino Soares a meio-campo atacante, armado em bandido.

 

Mas esta verdade evidente não é aceite, por razões certamente delirantes. Na página da Peter Tatchell Foundation está um manifesto chamado "London 2012: Justice for Women - End gender discrimination at the Olympics" que lamenta a desigualdade nos jogos olímpicos, e alega que isso se baseia no "postulado sexista de que as mulheres são o sexo mais fraco". Presumo que estão cientes de que, sexista ou não, este postulado está absolutamente correcto. Ou não?

 

O manifesto inclui coisas como "acabar com os estereótipos de género, homofobia, transfobia", e o "fim da prostituição", e "um mundo de paz, e harmonia, e igualdade", a ser estabelecido "imediatamente e sem discussão". Penso que todos podemos concordar com isto.

 

Também há grandes protestos contra a equipa olímpica feminina da Arábia Saudita, ou a efectiva falta dela. No que tem sido visto por alguns como um compromisso histórico, os sauditas concederam em enviar duas mulheres a participar em Londres - apesar de nenhuma das duas viver no pardieiro desértico islamista medieval. Além disso, as autoridades sauditas exigiram que estas duas mulheres competissem enfiadas no sambenito do costume, como os homens sauditas gostam de ver vestidas as suas mulheres. Escusado será dizer que as suas mulheres não vão competir no voleibol de praia.

 

Isto tem que acabar, diz Tatchell - bem como a exigência das autoridades iranianas de que as suas beibes se cubram um bocado. Com certeza que sim. Isso é uma coisa que nós aqui vemos como tremendamente ofensiva e incivilizada, e como uma evidência clara de uma atitude perniciosa em relação à igualdade das mulheres.

 

Mas em quantos países do médio-oriente é que as mulheres são discriminadas - todos excepto Israel? Devemos banir todos os árabes de participar nos jogos olímpicos até terem posto a casa deles na ordem que nós gostamos? Ou talvez todos os países Islâmicos? Não consigo ver alguém tão politicamente correcto como o Tatchell, ou neste caso o macacal do Justice for Women, assinar este tipo de proposta. E ainda podemos ir mais longe: será que os desportistas gay são tratados (digamos assim) com igualdade no Uganda, ou na Nigéria, ou no Zimbabwe? Ficaríamos com umas Olimpíadas disputadas entre a Suécia e a Dinamarca.

 

De qualquer maneira, para aqueles que estavam ansiosos pelo voleibol de praia feminino, deixem-me que vos sugira uma fonte de prazer alternativa. Deitem uma olhadela à nadadora australiana Stephanie Rice, que vai sem dúvida usar muito poucas roupas e até talvez o fato de banho com que posou para uma revista recentemente. É uma jovem muito atraente que há pouco tempo se meteu num sarilho por descrever os sul-africanos como "bichonas". Mas não digam ao Tatchell.

 

______________

 

Nota:

Este post foi inteiramente plagiado do Rod Liddle, colunista do Spectator e membro do Partido Trabalhista. Quem não gostar, pode pôr na beirinha do prato.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 02:05
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Segunda-feira, 9 de Julho de 2012

Clássicos do Gremlin: "O Monstro", por Cavaco Silva

 

 

Pensando no problema constitucional que o dr. Cavaco recentemente tomou a iniciativa patriótica de levantar, resolvi reler o seu famoso artigo "O Monstro". Fui à procura de gralhas. Não havia. Segue o texto.

 

«Na ciência económica há um modelo explicativo do crescimento das despesas públicas em que o estado é visto como um monstro de apetite insaciável para gastar mais e mais. É o modelo do Leviatão. São várias as razões apresentadas para justificar o apetite do monstro:

 

- os ministros estão convencidos de que mais despesas públicas trazem-lhes mais popularidade e votos, porque assim podem distribuir mais benesses e ser simpáticos e generosos com os grupos que comem à mesa dos orçamentos dos seus ministérios;

 

- os burocratas, os directores da Administração Pública, lutam pelo aumento das despesas controladas pelos seus departamentos, porque isso lhes dá poder, influência e estatuto;

 

- os grupos que beneficiam directamente com os gastos do Estado estão melhor organizados do que os contribuintes que pagam os impostos e pressionam os políticos para mais despesa pública;

 

- muitas pessoas pensam que os serviços fornecidos pelo Estado não custam nada, porque sofrem de ilusão fiscal e não se apercebem de que as despesas têm sempre de ser financiadas com impostos, presentes ou futuros.

 

Há indicações de que hoje, em Portugal, o monstro anda à solta, atinge um tamanho alarmante e está incontrolável. O orçamento para o ano 2000, em discussão na Assembleia da República, é a prova disso. As despesas públicas apresentam um crescimento enorme e correspondem a mais de metade da produção nacional no ano. Pensa-se, contudo, que a dimensão do monstro é ainda maior que a retratada no orçamento apresentado pelo Governo. Com efeito, muitas despesas públicas fogem ao orçamento votado pela Assembleia da República. Esta parte escondida do monstro não é desprezível, devendo atingir centenas de milhões de contos.

 

Por outro lado, é amplamente reconhecido que o crescimento das despesas do Estado tem alimentado desperdícios e não se tem traduzido em melhoria dos serviços públicos prestados à população. Repare-se, por exemplo, nos relatórios do Tribunal de Contas que têm sido divulgados, onde sobressaem as ineficiências e fraudes na utilização dos dinheiros públicos. O aumento da despesa pública tem servido, acima de tudo, para satisfazer o apetite voraz do monstro e alargar a sua camada de gordura.

 

Quer isto dizer que mais de metade da produção que os Portugueses realizam é hoje desviada para alimentar o monstro. Os benefícios do aumento das despesas do estado que resultam dos serviços públicos (como educação, saúde ou segurança) ou da redistribuição do rendimento são claramente inferiores aos custos que os indivíduos suportam através do pagamento de impostos.

 

Durante algum tempo, as forças políticas mais à esquerda apoiaram o crescimento das despesas do Estado, convencidas de que daí resultava uma redução das desigualdades. Essa ilusão foi destruída pelo fenómeno da globalização e da integração económica e financeira. A liberdade dos movimentos de capitais com o exterior e a concorrência fiscal entre os países fizeram com que o crescimento das despesas seja financiado principalmente com impostos sobre o trabalho e não à custa dos rendimentos do capital. Hoje não há dúvidas de que o crescimento do monstro destrói riqueza e agrava as desigualdades na distribuição do rendimento.

 

Penso que o Ministério das Finanças está consciente de tudo isto e está cheio de medo do monstro. Já o anterior Ministro das Finanças, no final do seu mandato, confessava, desalentado, que não tinha conseguido controlar o crescimento das despesas correntes do estado, porque dentro do Governo havia fortes lobbies a favor do monstro. A própria Comissão Europeia, no seu «Relatório sobre a Situação em Matéria de Convergência e respectiva Recomendação com Vista à Terceira Fase da União Económica e Monetária», salienta que Portugal foi o único país da União em que o monstro cresceu na caminhada para o euro.

 

Não tenho dúvidas de que alguns membros do Governo do actual Ministério das Finanças conhecem bem o perigo que o monstro representa para a economia nacional e é provável que o seu silêncio e olhar triste sejam não só um sinal de medo, mas também um apelo para que os ajudem a enfrentar a besta.

 

O próprio ministro confessou há dias que tinha adiado para o próximo ano o combate ao monstro. Não me surpreende esta atitude, porque eu próprio a tinha antecipado num artigo que tinha publicado no DN no início da presente legislatura, em que me pronunciava contra a decisão de reunir sob o comando de um só ministro as áreas das finanças e da economia. O retrato do monstro que emerge do orçamento para o ano 2000 é a demonstração inequívoca de que foi uma decisão errada.

 

Mas o apelo mais lancinante chega-nos da Senhora Ministra da Saúde: «Mais dinheiro para a saúde só piora a situação do sector.» A Senhora Ministra sabe do que fala, conhece o monstro, pois foi Secretária de Estado do Orçamento e é uma reputada especialista de finanças públicas.

 

No ponto em que nos encontramos, só os partidos da oposição podem responder a estes apelos angustiantes, mas igualmente corajosos, e ajudar o Ministério das Finanças a enfrentar o monstro. Não devem deixar de fazê-lo, porque a situação é grave. Os interesses meramente partidários devem ficar de lado. Deixar o monstro continuar à solta é contribuir para destruir a riqueza nacional, prejudicar o crescimento económico do País, agravar as injustiças e impedir que o nível de vida dos Portugueses se aproxime da média europeia. A urgência em conter o crescimento das despesas do Estado sobreleva tudo o mais.

 

Há três contributos que a oposição pode dar para ajudar o Ministério das Finanças:

 

- votar contra o aumento da carga fiscal que o orçamento para o ano 2000 inclui, por forma a reduzir o fluxo de combustível que alimenta a fúria do monstro;

 

- impedir que as receitas das privatizações sejam utilizadas para financiar as despesas públicas, não tanto porque isso seja ilegal face à legislação portuguesa e comunitária, mas para impedir que o monstro, para além de devorar mais de metade da produção nacional, engula também património acumulado ao longo dos anos;

 

- pedir ao Senhor Ministro das Finanças que elabore um novo orçamento, dando-lhe a garantia de que pode contar com o apoio dos partidos da oposição no combate pelo emagrecimento do monstro. O ministro sentir-se-á então com mais força para desembainhar a espada e cortar-lhe a camada de gordura, eliminando alguns desperdícios nos gastos do Estado. Deve exigir-se que seja um novo orçamento, mas verdadeiro, sem artifícios contabilísticos e défices ocultos.

 

É perigoso adiar este combate. Se no primeiro ano da legislatura, e sem que ocorram eleições autárquicas, o Governo prevê que as despesas correntes do Estado aumentem a uma taxa dupla da do produto, o que não será quando nos aproximarmos das eleições?

 

Receio bem que o monstro atinja uma tal dimensão que o combate, depois, não se faça sem muitos feridos quer do lado do Governo, quer do lado dos partidos da oposição, sem falar nos estragos causados à economia nacional e ao bem-estar dos Portugueses.»

 

(Aníbal Cavaco Silva, in Diário de Notícias, 17 de Fevereiro 2000)

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:53
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