Sabe-se o que as boas almas do Abril das nacionalizações dizem: não foi o Estado que falhou, foram os gestores que o Centrão nomeou.
E sabe-se o que diria o simpático imigrante da Coreia do Norte radicado em Loures se os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, em vez de terem dado cem milhões de prejuízo nos últimos doze anos, tivessem dado cem milhões de lucro: se dá lucro, porquê privatizar?
O argumento dos gestores é bom, realmente quem falha nunca é o Estado, é quem ele nomeia. Mas o PCP e o Bloco têm um alfobre de gestores de altíssima competência desocupados que, se nomeados, mostrariam à direita em especial, e ao povo em geral, o que é que um comunista pode fazer em lhe cometendo responsabilidades de gestão de topo? E quem são essas pérolas? E, se existem, do que estão à espera para fazerem empresas, actividade que a Constituição não proíbe?
O argumento do lucro, realmente, é de tomo. Tanto que me pergunto por que razão se não nacionalizam as empresas privadas que dão lucro, a fim de se beneficiar a colectividade: com o lucro das públicas que o têm, mais o das antigas privadas que o continuariam a ter, a economia floresceria.
Navegamos em plena fantasia: porque a verdade é que uma empresa pública que dá lucro ou é monopolista, ou tem privilégios que lhe garantem a sobrevivência, ou, se e quando começar a dar prejuízos, irá custar ao contribuinte rios de dinheiro porque, no Estado e na sua esfera, o instituto falimentar não funciona.
Dito isto, a rejeição da Comissão de Inquérito é um erro: ainda que a privatização fosse, como era, necessária e oportuna; mesmo que os fundamentos que o PCP apresentou para o pedido tivessem sido absurdos (apurar por que razão uma gestão não produz resultados positivos não está ao alcance dos deputados, dos quais a maioria seria incapaz de gerir uma fabriqueta de carrinhos de mão, e no limite não está ao alcance de ninguém, para efeitos de apurar culpas, porque a maioria dos erros de gestão só é detectável ex post facto), quem não deve não teme. A Oposição faria o possível para levantar uma quantidade de dúvidas sobre a lisura do processo de privatização, pondo quantidades inverosímeis de lama nas ventoinhas da opinião pública.
E daí? A lama, bem explicada, é sempre mais palpável do que a nuvem - da suspeita.
Este iate feíssimo podia ser feito pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo? Talvez - não estou por dentro dos arcanos da construção naval.
E podia estar atracado numa dessas marinas às moscas que vai havendo costa abaixo? Talvez: afinal esta parte do Atlântico não é menos convidativa que o Mar do Norte, dar um salto de avião até aqui não é mais moroso que até à chatíssima Holanda, e cá não comemos (ainda) o lixo de que se alimentam os grotescamente altos habitantes locais, segundo reporta esta fonte fidedigna.
Mas não: roubaram-nos in illo tempore o comércio no Índico; e hoje são muito nórdicos, muito social-democratas e progressistas, mas cuidam de que os ares por lá sejam apetecíveis para os ricos.
Deviam mazé inspirar-se no artº 104º da nossa Constituição, que reza, no seu nº 4, de forma lapidar: "A tributação do consumo visa adaptar a estrutura do consumo à evolução das necessidades do desenvolvimento económico e da justiça social, devendo onerar os consumos de luxo."
Alguns espíritos mais virados para a crítica à outrance acharão este artigo da Constituição um exemplo de estultícia.
Engano: o preceito legal, cujo respeito o Governo faz questão de acentuar para o próximo Orçamento, destina-se singelamente a reforçar a nossa competitividade em certas modalidades desportivas. Neste caso, os 1500 Metros Grilhetas e a Corrida de Sacos.
O comprador vê cuidadosamente os dentes ao bicho, examina-lhe os cascos e o mais que os compradores de cavalos examinam, informa-se sobre a saúde, a história e o preço - em suma, vê se há potencial no negócio.
Não se deixa impressionar pela treta do vendedor. Este, por princípio, põe a besta nos cornos da Lua e afiança despedir-se dela com desgosto. Mas as circunstâncias de vida impõem-lho, diz, com uma lágrima furtiva que lhe corre pela face transida de desgosto.
O negócio é assim. Agora, se vem o amigo do vendedor, entendido em cavalos, e rosna: Ah, esta alimária tem uma doença grave, é teimosa e velha...o comprador foge a sete pés.
Cá para mim, a este amigo, que talvez o seja mas de outra alimária - a onça - ficavam-lhe bem uns patins.
Mas parece que não.
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