Sábado, 3 de Março de 2018

Correio spam

Às quintas-feiras, vejo a Quadratura do Circulo para efeitos de saber o que pensa a nomenclatura do regime, na parte não-comunista.

 

Sabe-se em que consiste aquele duradouro e bem-sucedido programa, na sua versão actual: um entrevistador socialista moderado e três comentadores residentes - um socialista cristão, um socialista negocista e um socialista radical.

 

Serei talvez injusto quanto ao comentador Pacheco. Este pode a qualquer momento mudar de orientação, como faz periodicamente, em se dando o caso de ter lido recentemente três livros que recomendem uma cambalhota e permitam manter o panache de intelectual arguto, lúcido e culto que julga, com bastante razão, conferir com a sua imagem pública, e, sem razão nenhuma, com a realidade.

 

No último programa Carlos Andrade mencionou o famoso e-mail que a Autoridade Tributária dirigiu a um número indeterminado de cidadãos, e que reza assim (não arranjei graficamente o texto por ser, também sob esse aspecto, uma moxinifada):

 

“Em colaboração com o Ministério da Administração Interna e o Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural enviamos uma comunicação, bem como um folheto informativo em anexo, sobre a importância da limpeza de terrenos e árvores na prevenção de incêndios. 

Comunicação do Ministério da Administração Interna e do Ministério da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural.

Antes que seja tarde, antes que o atinja a si, limpe o mato 50 metros à volta da sua casa e 100 metros nos terrenos à volta da aldeia.

Até 15 de março é obrigatório e vital.

É obrigatório:

  • Limpar o mato e cortar árvores:
  • 50 Metros à volta das casas, armazéns, oficinas, fábricas ou estaleiros;
  • 100 Metros nos terrenos à volta das aldeias, parques de campismo, parques industriais, plataformas de logística e aterros sanitários;
    • Limpar as copas das árvores 4 metros acima do solo e mantê-las afastadas pelo menos 4 metros umas das outras;
    • Cortar todas as árvores e arbustos a menos de 5 metros das casas e impedir que os ramos cresçam sobre o telhado;

Se não o fizer até 15 de março, pode ser sujeito a processo de contraordenação. As coimas podem variar entre 140 a 5 mil euros, no caso de pessoa singular, e de 1500 a 60 mil euros, no caso de pessoas coletivas.

E este ano são a dobrar.

Até 31 de maio, as Câmaras Municipais podem substituir-se aos proprietários na limpeza do mato. Os proprietários são obrigados a permitir o acesso aos seus terrenos e a ressarcir a Câmara do valor gasto na limpeza.

É Importante:

  • Mantenha-se informado do risco de incêndio na sua área de residência
  • Verifique se o sistema de rega e mangueiras funcionam
  • Limpe telhados e coloque rede de retenção de fagulhas na chaminé
  • Mantenha afastados da casa e edificações:
  • Sobrantes da exploração agrícola ou florestal
  • Pilhas de lenha
  • Botijas de gás ou outras substâncias explosivas

É vital:

A vida da sua família e a segurança dos seus bens dependem do seu gesto.

Para mais informações ligue 808 200 520

Portugal sem fogos está nas mãos de todos.

Esta informação, não dispensa a consulta do DL n.º 124/2006, de 28 de Junho, na sua redação atual.

 

Com os melhores cumprimentos

Manuel Gonçalves Cecilio

Subdiretor Geral

Área do Planeamento, Organização e Comunicação”

 

Lobo Xavier foi um dos que, como eu, não receberam este e-mail, mas dele teve conhecimento por amigos. Portanto, desvalorizou-o, dando a entender que se tratava de uma tolice, um deslize. Compreende-se: que a Autoridade Tributária incomode centenas de milhares de cidadãos com correspondência spam, abusando do conhecimento que tem dos respectivos endereços electrónicos, só seria grave se o incluísse, e presume-se que a outros fiscalistas, no abuso; como não foi o caso, não passa de um pecadilho, mesmo que en passant referisse alguns evidentes disparates do articulado.

 

Pacheco, campeão noutras marés das liberdades cívicas, achou muito bem: os disparates da lei quanto à distância dos troncos às casas, quanto à distância entre copas, quanto aos depósitos de lenha para consumo junto às casas, e um imenso etc.? Ora, lérias, é preciso manter a pressão e isso são detalhes.

 

O último comentador, com os olhos em alvo e o coração apertado, abundou no discurso governamental, como abunda sempre: ai!, temos de acabar com esta calamidade dos incêndios, pelo que é obrigação de alguns, que são os proprietários, garantir a tranquilidade de quase todos, que são sobretudo os citadinos espectadores das notícias, e a segurança dos seus vizinhos.

 

A mesma segurança que o Estado não garante nem sequer no que directamente administra, e isto independentemente de terem ou não meios para o fazer, e de terem de o fazer todos os anos porque todos os anos o problema renasce. Doravante, fica escancarada a porta à execração pública, sempre que houver um incêndio, de quem na área queimada não tenha escrupulosamente cumprido a lei incumprível; e fecha-se a da responsabilidade dos serviços do Estado, e sobretudo do governo, que apenas poderá ser censurado por não ter aplicado tempestivamente a quantidade suficiente de multas, ou das câmaras, que apenas poderão ser censuradas por nem sempre saberem a quem mandar a conta do trabalho lerdo e provavelmente desastrado a que se vão, com municipal vagar, dedicar, ou por não terem os meios, que aliás sempre lhes faltam.

 

Comecemos pelo princípio: pode a Autoridade Tributária usar os endereços que lhe foram confiados para facilidade de comunicações no âmbito estritamente fiscal para veicular propaganda de outros departamentos? Não, não pode, é um claríssimo abuso de poder. Se a moda pega, amanhã os proprietários de automóveis serão informados, por causa da mortalidade nas estradas, do que sobre a matéria entende o Comando-Geral da GNR, com a habitual redacção  insolente e imperativa, e a listagem conscienciosa das multas terroristas, que são a marca de água do Estado socialista; o ministério da Saúde não deixará, se confrontado com um surto de qualquer maleita, de se dirigir aos utentes informando-os do que podem fazer para aliviar os hospitais, que mesmo sem surtos de nada já são pela maior parte deploráveis; e todos os restantes serviços encontrarão razões, em nome de bens maiores, para bombardearem o cidadão com o cumprimento de obrigações sob ameaça, reforçando a tradicional inoperância e inimputabilidade do Estado e seus agentes.

 

Ou seja, este abuso da AT não é inocente: destina-se a transferir habilidosamente as responsabilidades futuras do governo, que se constata falhou clamorosamente, para os próprios cidadãos. Estes, se tiverem queixas, devem endereçá-las aos outros, ao governo nunca. E ele, o governo, passa de responsável a vítima.

 

Continuando: o e-mail não foi enviado apenas a proprietários rurais, ou de espaços abandonados, ou de terrenos manifestamente em risco; foi enviado indiscriminadamente. E não vem assinado sequer por um secretário de Estado, menos ainda pelo primeiro-ministro, o autor, ou alguém por ele, desta torpe manobra. Não: um subdirector-geral serve perfeitamente.

 

Talvez não se possa esperar de um subdirector-geral que saiba interpretar a lei. E esta, que não fui ler (ninguém me paga para trabalhos forçados), parece que exclui jardins. Mas o dr. Cecílio não exclui e manda cortar as árvores 50 metros à volta das casas. Sim, dr. Cecílio, devo abater a minha faia rubra, e a japoneira, e o metrosidério, e muitas outras árvores inocentes que gente de tino e gosto mandou plantar antes de eu nascer?

 

E na fábrica onde trabalho, localizada num parque industrial, que tem um renque de plátanos ao longo da fachada, aí a uns 4 ou 5 metros da parede, vai tudo raso?

 

E sobre o meu cedro, abraçado pela copa da tília, que achas, Cecílio? Vai abaixo ele ou ela? Já agora: não te ocorreu que, se deixares espaços entre as copas, a luz que chega ao solo vai acelerar o crescimento da vegetação rasteira?

 

E as copas, meu chapa? Queres que limpe até 4 metros de altura ou acima de 4 metros? E limpar quer dizer o quê? Cortar ramos secos ou cortar tudo o que fica acima ou abaixo daquela altura funesta? Tu não deves ter um gosto muito apurado, Cecílio, mas olha que há árvores que em as despindo desde a base ficam com a saúde abalada; e outras que em as cortando acima dos 4 metros ficam uns tocos.

 

Hum, e os ramos por cima do telhado? A tal faia rubra, o maior exemplar que conheço nas redondezas, atira os seus ramos quase até meio da casa. Se os amputar a árvore fica desequilibrada (já não digo feia, sei que a isso não ligas) e no próximo temporal pode vir abaixo. E como está num socalco e no nível inferior passa um caminho público, não é impossível que ao cair estronque a cabeça de um socialista que vá a passar, responsabilidade que não quero sobre os meus ombros cansados. Assim como não devem faltar casas rurais com situações semelhantes.

 

Escrevo estas linhas enquanto o recuperador vai consumindo uns reconfortantes toros de lenha. E estou tranquilo que, se a lenha acabar no cesto, posso ir buscar mais ao depósito, que fica logo ao sair da porta da sala, da parte de fora. Não posso? E também não poderia se a casa fosse rural? E as pilhas de lenha têm que estar afastadas, mesmo que cozinhe a lenha e a água do banho seja aquecida também a lenha? Enlouqueceste, Cecílio?

 

E se eu tiver uma quinta de recreio, cheia de árvores, que mesmo bem cuidada não dá senão despesas, na extrema da qual erigiram um parque industrial, em lugar dos campos que lá estavam, tenho de abater 100 metros de árvores à minha custa para não pôr em risco os edifícios cuja construção foi licenciada sem que eu tivesse metido prego nem estopa? Ah.

 

Em resumo, tudo isto é um desastre. E para os que acharem, como Pacheco, que é preciso fazer alguma coisa, seja o que for, e que não há incêndios onde não houver matéria para arder, lembro duas coisas: no Sara não há incêndios; as pessoas que realmente sabem deste assunto, que é muito mais complexo do que o que pode caber numa cabeça pachequiana, ou na de um Cecílio qualquer, não acreditam nos efeitos benéficos desta lei.

 

Não há nada a fazer? Num post escrito em Outubro do ano passado remetia para estudos e especialistas. Algum deles recomenda estes delírios? Não me parece.

publicado por José Meireles Graça às 15:43
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Fogos políticos

Muitos especialistas em ideias gerais, categoria a que pertenço num lugar de merecido anonimato, pronunciaram-se publicamente desde o princípio do incêndio de Pedrógão Grande e foram num crescendo até ao rescaldo. Presumivelmente, continuarão.

 

Helena Matos, Maria João Marques, José Manuel Fernandes, Rui Ramos, Henrique Raposo, muitos outros menos conhecidos, tiveram palavras de perplexidade e indignação contra o desastre da Protecção Civil, a anedota obscena do SIRESP dos 500 milhões, a actuação inacreditável da GNR, as manobras de contenção de danos de imagem por parte de Costa e da sua patética ministra da Administração Interna, a inépcia ostensiva do presidente da Liga dos Bombeiros, o desequilíbrio histórico entre os gigantescos recursos públicos afectos ao combate a incêndios e as migalhas guardadas para a prevenção... tudo isto e muito mais, quem quiser que procure os textos destes e doutros no Observador, no Facebook, no Insurgente e no resto da blogosfera e imprensa.

 

Perplexidade desde logo porque não deve ter escapado à argúcia do espectador médio que a presença obsessiva do primeiro-ministro, da ministra da Administração Interna, do secretário de Estado que com ela disputava a visibilidade pública, todos encafuados no posto de comando, não podia senão agravar a confusão: a condução política de uma situação de calamidade pertence ao poder político; e a operacional ao comando, que aliás ficamos a perceber não é sequer unificado. E perplexidade também porque todas as declarações de responsáveis afinaram pelo mesmo diapasão: as causas são naturais, o que aconteceu foi inesperado, os meios estiveram à altura com um ou outro pequeno contratempo e o combate abnegado.

 

Subscrevo quase tudo o que aqueles três colunistas escreveram. E não duvido que subscreverei também o que vierem a dizer Vasco Pulido Valente e Alberto Gonçalves, se e quando lhes calhar pronunciarem-se sobre o Portugal oficial, institucional, político, que estadeou em directo na televisão para perplexidade dos cidadãos, por alguns dias afastados de concursos, futebóis, telenovelas e vidas dos famosos, e estarrecidos por perceberem que aquela gente a quem o Estado falhou e que perderam uns vidas, outros bens, e os restantes a paz, poderíamos ter sido nós.

 

O presidente da Republica deu o mote, logo no dia 18, declarando que "o que se fez foi o máximo que se podia fazer". A afirmação era pornográfica no contexto, e mesmo que mais tarde a tentasse corrigir, quando o número de mortos começou a escalar, terá tido um, provavelmente inconsequente, efeito, o de um número indeterminado de portugueses se ter começado a aperceber da incurável superficialidade e do porreirismo imbecil da personalidade que elegeram.

 

Outros efeitos terá tido esta tragédia. Pode parecer um exercício cínico conseguir ver algum lado que não seja esmagadoramente trágico nos mais de 60 mortos, mais de 200 feridos e um número indeterminado de desaparecidos, mas não: o melhor serviço que podemos prestar à sua memória é que não tenham morrido em vão. E como a legislação que regula a propriedade e todos os aspectos da prevenção e combate de incêndios é a moldura necessária para qualquer reforma, e as alterações decorrerão não de um unanimismo impossível mas de escolhas políticas, convém perceber como estamos. Eis alguns aspectos:

 

i) O PCP e o Bloco distinguiram-se todo este tempo por um impressionante silêncio. Parece que Catarina Martins implorou no twitter, imagina-se que intimamente a um xamã da sua devoção, por chuva; e o bom do Jerónimo, já quase no rescaldo, disse umas coisas anódinas; mas foi tudo. O contraste entre esta contenção e o berreiro que atordoaria o país caso não fossem aliados do governo, de mais a mais liderado por um político profissional que tem pesadas responsabilidades passadas tanto nos escândalos ligados a meios (SIRESP, helicópteros KAMOV) como na forma como (não) foi posto em prática o famoso Relatório de 2005 elaborado pelo Instituto Superior de Agronomia, escancaram perante quem não for indefectível apoiante daquelas agremiações o seu carácter basicamente oportunista. Tanto o PCP como o Bloco têm um discurso de superioridade moral em relação aos outros partidos, que este tacticismo desmente.

[O texto do Relatório é de difícil leitura, por estar redigido em catedratês, mas as melhores vozes de técnicos (Paulo Fernandes, António Salgueiro, as dezenas de participantes no estudo, o próprio Coordenador, Cardoso Pereira) ou de amadores - classificação dele - esclarecidos (como Henrique Pereira dos Santos, que tem feito um trabalho notável de divulgação dos problemas do abandono do campo e da floresta, do ordenamento do território, fogos e seu combate, meios, organização, soluções, etc.) lamentam que tivesse sido amputado, desfigurado e só muito parcialmente aplicado].

ii) No comentariado de esquerda a tónica foi, declinada em textos sentimentais quando não piegas, a de que discutir o assunto de Pedrógão Grande era inoportuno enquanto não acabasse o incêndio e um não especificado período de nojo; e que a crítica às evidentes falhas da Prevenção Civil, e de modo geral à barafunda da gestão desta crise, era uma grande falta de respeito pelos mortos e pelos soldados da paz e uma precipitação, por o ambiente não ter aquela serenidade que as grandes decisões profícuas exigem. Daniel Oliveira, por exemplo, tem um texto (falo de memória) nesse sentido, adequadamente replicado nas redes sociais por quem navega nas mesmas águas governamentais. Miguel Sousa Tavares aproveitou, na televisão, para exorcizar alguns dos seus fantasmas e declarou, peremptório, que a culpa era de Cavaco Silva e Álvaro Barreto, o primeiro porque acabou com a agricultura e o segundo porque promoveu o eucalipto. Que o abandono dos campos era inelutável, com ou sem Cavaco, e que tal facto foi positivo para os fugitivos, não lhe ocorre, e que haja muito boas razões para não vilipendiar o eucalipto também não. Sousa fala muito com o coração de esquerda, uma víscera que usa com frequência em lugar da cabeça.

Não é provável que este silêncio se mantenha mas o seu carácter interesseiro, e não generoso e nobre, decorrente do incómodo de saberem que o Governo não está isento de culpas sérias, de algum modo pode ter passado para a opinião pública ofuscada pelo bombardeio da propaganda de um governo supostamente eficaz.

iii) O senso comum não chega para perceber as causas dos incêndios, mas os culpados tradicionais, e que aliás vão mudando (madeireiros, fogueteiros, incendiários, celuloses, mais recentemente alterações climáticas) têm vindo a ser substituídos, à medida que sucessivos técnicos vão sendo entrevistados e lidos, pela conclusão de que a fuga dos campos, e o correspondente abandono da exploração dos subprodutos da floresta, com a inerente proliferação de matos secos que não são limpos, é que está na origem da gravidade dos incêndios. Vão continuar a ouvir-se estas pessoas quando acabar a época dos incêndios e vier outra novidade qualquer que excite e comova a opinião pública? Seria vantajoso para o Governo que assim acontecesse. Há porém muitas vozes, mesmo entre os técnicos, mesmo em comentadores ditos de direita, como Lobo Xavier, que defendem formas de atropelo ao direito de propriedade que, podendo ser necessárias para a eliminação do perigo de incêndio, comportam oportunidades para a gestão pública, companhias majestáticas, lugares de nomeação política, prebendas e gestão ruinosa. Numa palavra, oportunidade para socialismo de contrabando, isto é, que não resulta de escolha consciente. E essa perspectiva pode talvez manter o assunto na actualidade.

 

É desejável que o assunto não saia do radar da opinião pública por três razões: uma é que o problema da época de incêndios precisa de ser resolvido, como já o foi noutros lados, não tanto para que nos livremos completamente deles (coisa que, aliás, segundo o melhor entendimento, não é sequer possível ou desejável) mas para que nos poupemos tragédias evitáveis e prejuízos escusados; outra é que nas várias soluções, ou mistura delas, para o inevitável ordenamento do território, fique claro que há escolhas que ofendem mais, e outras que ofendem menos, a racionalidade económica e o direito de propriedade; e a terceira é que aqueles mortos que serviram em vida para pagar impostos e ansiavam talvez por uma selfie com Marcelo têm direito a que se lhes honre a memória não com evocações líricas mas com a certeza de que não haverá novos defuntos pelas mesmas razões.

publicado por José Meireles Graça às 12:33
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Terça-feira, 27 de Agosto de 2013

Encenar um pandemónio

 

 

Para quem tiver a curiosidade de se informar junto de quem dedica a sua vida a investigar o assunto, deixo o link para um blog onde se fala de incêndios.

 

Não alinho, em particular, com este post: porque remete para uma "Petição". E apesar de muito bem escrita, estou pouco convencida que a iniciativa de lançar um debate deva partir da Assembleia da República (desconfio que são os últimos interessados e os menos habilitados).

 

O debate que se pede (e bem) deve ser lançado por quem se interessa directamente. Por exemplo, pelas associações de proprietários de terrenos florestais (se é que existem), pelos representantes das empresas que exploram a floresta e as indústrias derivadas, ou pelos núcleos das universidades que estudam a gestão florestal e o combate a fogos.

 

Escrevam para os jornais. Pressionem os canais de televisão. Sejam chatos, insistentes, insuportáveis. Organizem conferências, congressos, colóquios, jamborees. E chamem a imprensa, entupam os telefones e os computadores das redacções. Trepem para as varandas das autarquias e massacrem a paciência dos edis. Acampem, vistam-se de amarelo, cantem uma oitava acima, ou mascarem-se de sobreiros. Perguntem às Avoilas e aos deputados do Bloco qual é a melhor maneira de encenar um pandemónio: talvez seja preciso. E se inventarem um que seja mesmo hediondo estou certa que o dr. Costa disponibiliza o Terreiro do Paço. Desde que lhe prometam que a cidade, durante um dia inteiro, se transforma num lugar infrequentável.

 

Mas não esperem que os políticos se adiantem: isso é um absurdo. Não é esperável nem é uma boa ideia. Os políticos estão lá para ordenar e formalizar as vontades dos cidadãos, e não o contrário. Quando os cidadãos se vêm obrigados a digerir as vontades dos políticos, ainda que revestidas de papel celofane e enlevos do tipo "isto é a pensar no vosso bem", o resultado raramente é diferente de péssimo.

 

De resto, recomendo a leitura dos outros posts do blog. Fala-se muito sobre incêndios e não vejo por lá arrogâncias: inclusivamente, até já dei de caras com o reconhecimento de um erro.

 

Por fim, tem aquilo que para mim representa um selo de qualidade: a presença de Henrique Pereira dos Santos e a referência aos estudos do Zé Miguel Cardoso Pereira.

 

Mas se preferirem continuar a derrapar no asneirol, esqueçam. Nem visitem - pode o cabimento contaminar-vos o protesto.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 23:55
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Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

No barbeiro com Savonarola

 

O nosso Savonarola da corrupção também, pelos vistos, entende de fogos. Infelizmente, utiliza a mesma receita simplista (sou caridoso - na realidade é simplória) que consiste numa mistura de intuição (o mais traiçoeiro dos sentimentos), populismo, traduzido num apontar de dedo tremente de indignação aos "políticos", ignorância, vertida em análises superficiais e generalizações abusivas, e justicialismo, que se declina em soluções castigadoras dos maus.

 

Paulo Morais acha que, se não houvesse corrupção, não seriam necessários nem impostos altos nem austeridade; que o principal antro da corrupção é o Parlamento; e que, fosse ele o legislador, ai!, varria a testada.

 

Não lhe ocorre que a principal fonte da corrupção é a presença sufocante do Estado regulador e interventivo na Economia; que a nossa tradição no relacionamento dos cidadãos com o Estado é uma de dependência, público desprezo e privada subserviência, abuso do Poder com os fracos e consideração servil perante os poderes fácticos; um caldo cultural de tolerância realista, impotente e videirinha; e que nada disto se resolve em definitivo a golpes de decretos-lei feitos por iluminados com nós de gravata tão grossos como as ideias.

 

Isto sobre o que Paulo diz da corrupção. O que adianta sobre os incêndios releva da ignorância suficiente, que é a sua marca-d'água. Curiosamente, no Público de hoje, saiu um artigo que, sobre a matéria, ensina a pensar. O autor, aliás, tem um blogue, onde costuma falar destas coisas. Não é obrigatório concordar com tudo, nem sempre, mas é obrigatório discordar com boas e pesadas razões, se as houver.

 

Para despachar assuntos em três penadas, quem quiser, toma um táxi ou vai ao barbeiro. Para conversa séria convém algum critério na escolha dos interlocutores.

 

publicado por José Meireles Graça às 20:11
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