Sábado, 19 de Março de 2016

Abominável César das Neves

João César das Neves é muito bem visto pelo meu lado do espectro político porque passa por ser um economista de direita, e é de facto - uma certa direita.

 

Ser de direita ou esquerda, hoje, não chega para fundamentar escolhas. Não chega porque ser conservador, ou liberal (no sentido europeu da palavra), ou libertário, ou democrata-cristão, não basta - é preciso ainda demonstrar que cada uma destas condições é a que melhor garante o crescimento económico. Sem isso nada feito, que o eleitor diz para os seus botões: ora bardamerda para as tuas tretas, que eu quero é saber se vou ter emprego e posso trocar de carro.

 

E também não chega apenas ser comunista, socialista ou social-democrata, em qualquer das múltiplas espécies que formam o género comuna e a família da esquerda, pelas mesmas razões.

 

Daí que haja economistas comunistas, uma evidente (para quem não for alucinado) contradição nos termos, que dão aulas de gestão do capitalismo e o querem aperfeiçoar tanto, mas tanto, que quando já está razoavelmente depurado dos seus defeitos se suicidou.

 

A comunistada é, aliás, além de desonesta, cómica nos seus esforços: querem eliminar o desemprego, e por isso extinguem o mercado de trabalho e comprometem a selecção dos melhores; aumentar a produção, a produtividade e a qualidade, mas sem concorrência; investir mas sem recompensa para investidores privados, que assim são substituídos por meros apparatchiks com essa função; e, sobretudo, conservar a liberdade amputando-a da económica, para garantia do que eliminam todas as outras. Tudo para assegurar a igualdade material entre as pessoas, no que fatalmente também falham porque a burocracia que instalam para reprimir em permanência o ressurgimento da dissensão e garantir a coerência do edifício acaba por reservar para si a melhor parte do bolo.

 

Mas num ponto quase todos os economistas são iguais, e esse é a suficiência com que, numa realidade que nunca abarcam completamente, isolam meia dúzia de gráficos, meia dúzia de números, meia dúzia de estatísticas, e daí ilustram uma tese que, por vir embrulhada em números, aparenta ser científica.

 

Neves é nisto pior ainda, se possível, que os seus colegas, porque exibe permanentemente o sorriso da sua imensa satisfação com a argúcia com a qual julga ter sido dotado pela Natureza (o próprio sem dúvida achará, dada a sua condição de teólogo católico amador, que foi Deus que se deu a esse trabalho), que verte na escrita sob a forma de qualificação como "palermices" de opiniões diferentes das suas.

 

Que diz então o preclaro? Que o consulado de Cavaco foi um tempo de leite e mel, decerto porque (adivinhamos nós) o tomou a ele, Neves, como consultor, em mais uma manifestação concreta do génio que aquele estadista tinha para seleccionar colaboradores. "Todos sabem, por exemplo, que foi no consulado governamental de Cavaco que a nossa agricultura, pesca e indústria foram desmanteladas a mando de Bruxelas" - diz, com fina ironia.

 

Todos? Os comunistas sem dúvida, frei Anacleto Louçã e as suas freirinhas do BE também; e decerto no PS, dos milhares de economistas que a seita acolhe e a muitos dá emprego - também a maior parte, seguramente. Mas daí para a direita as memórias que se guardam de Cavaco são a das privatizações, da abertura da televisão à iniciativa privada, da reforma fiscal e, sobretudo, da preparação do país para a adesão ao Euro.

 

Memórias boas, em parte. Mas também da consagração do dirigismo do Estado na economia (completo com o estatuto das carreiras dos funcionários públicos, uma bomba que Cavaco plantou, segundo Cadilhe veio a confessar muito mais tarde) e a escolha da Europa como o alfa e o ómega de todas as políticas - Cavaco nunca deixou de ser o deslumbrado que sempre interpretou o destino ideal do país como uma tradução em funcionalês do que de melhor se faz lá fora - para usar as expressões a que recorria no seu dialecto.

 

Sobre isto Neves diz nada, porque o destino traçado naquela época lhe parece ainda hoje inevitável e desejável. E compara, Deus lhe perdoe, o desempenho cavaquista na gestão dos fundos de coesão com a que fizeram os seus sucessores - como se ser melhor do que medíocre fosse necessariamente bom e não medíocre +.

 

Podia comparar com alguma época em que, sem fundos de coesão, sem défices, sem aumento sério do endividamento, e com moeda própria, a economia tivesse crescido muito mais, e nem precisava recuar muito - escusava de pesquisar no ridículo livrinho que escreveu há anos, que se intitulava, com característica petulância, "Dois milhões de Anos de Economia".

 

Triunfante, pergunta: "Deveríamos ter recusado a adesão à moeda europeia, ficando desligados do mercado único? E qual é a tal vantagem excelente de não ter o euro? Seria bom que o Estado continuasse a roubar-nos regularmente, desvalorizando o dinheiro que temos no bolso para beneficiar empresas exportadoras ineficientes? Querem eles que os trabalhadores e consumidores sejam habitualmente enganados, com salários mais baixos e preços mais altos, mascarados por moeda fraca? A desvalorização interessa muito a certos grupos de pressão, que influenciam os opinantes, mas não à população nacional, que bem sofreu nos anos da sua vigência".

 

Segundo Neves, a Noruega, a Suíça, que não estão na União Europeia, ou o Reino Unido ou a Dinamarca, que estão mas têm moedas próprias, não têm acesso ao Mercado Único. Trata-se de simples tolice: os que não estão na UE têm acesso via tratados; e os que estão nem de tratados precisam porque Europa do Euro e Mercado Único não são a mesma coisa.

 

Quanto às vantagens de não ter o Euro, faz tempo que deixaram de ser os comunistas e meia dúzia de eurocépticos (por cá; que noutras paragens sempre abundaram) a achar o passo da adesão desastroso e as consequências aterradoras; e pelo contrário é hoje relativamente pacífico que foi uma calamidade, que, segundo uns, urge corrigir com o reforço da integração das políticas orçamentais e financeiras e, segundo outros, assustados pelo abismo da saída, que será melhor não fazer nada, porque esses reforços não são populares e, adiando, sempre a realidade, qualquer que seja, se imporá.

 

Sem Euro, é mais do que provável que teríamos tido tanto ou mais défices do que tivemos, e governos de esquerda, e pântanos, e tangas. Mas o endividamento antes da falência nunca teria atingido a estratosfera a que chegou por trás da cortina do Euro, nem o desvio do investimento para sectores de bens não transaccionáveis teria sido o que foi, nem o desemprego tão elevado e tão duradouro, nem as empresas exportadoras eficientes teriam deixado de aparecer.

 

As empresas exportadoras, sobre as quais tudo o que Neves sabe é de oitiva, e da leitura de colegas que constroem a moda do pensamento na Academia, devem ter a sua vida dificultada, porque isso enrijece-as, no caso de não morrerem, diz o iluminado. Os governos seguintes acharam precisamente o mesmo e por isso nunca deixaram de lhes pendurar pedras fiscais, regulamentares e burocráticas ao pescoço, tudo a compensar, em casos contados, com subsídios - moda que Cavaco inaugurou. Ramalho Ortigão achava o mesmo, aplicado às criancinhas, mas para o ramo dos banhos gelados nas manhãs de Inverno, com pequeno-almoço no fim.

 

João César das Neves podia, discretamente, refugiar-se na prognose do desastre da saída e ir adiantando maneiras de lidar com a situação - é o que fazem os melhores dos seus colegas, como Vítor Bento.

 

Mas não, prefere dizer as merdas que diz. Os meus amigos e correligionários aplaudem.

 

Fazem, quase todos, parte do clube dos reflexos condicionados - se o coelho sai daquela lura é porque é bom. Eu não.

publicado por José Meireles Graça às 01:16
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Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2016

Liberdade mas

"Em nome da liberdade de expressão vão-se praticar os piores atentados contra essa mesma liberdade, por pessoas que não entendem que a decência e o respeito são suportes da liberdade". 

 

Isto diz um teólogo civil. E di-lo porque imagina que "decência" e "respeito" são valores absolutos cuja definição é igual para toda a gente e que, portanto, não há o direito de ofender uma crença religiosa, ou convicção política, ou de desrespeitar uma autoridade ou símbolo, porque todas as pessoas se sentem ofendidas.

 

Mas não sentem, o que ofende uns não ofende outros. Por exemplo, se eu dissesse (e é provavelmente verdade) que entre os comunistas há mais invejosos do que entre os liberais, haveria comunistas que, se o que escrevo tivesse importância, se sentiriam ofendidos - mas os liberais não; e se afirmasse que a igualdade entre os sexos, consagrada legalmente entre nós, é uma conquista das mulheres (e de muitos homens) contra a Igreja Católica, que aliás ainda não a realizou no seu seio, estaria a enunciar uma evidência que não poucos considerariam ofensiva; o mesmo se dissesse que não há qualquer indício, muito pelo contrário, de que as convicções religiosas tornam as pessoas mais bondosas, mais solidárias ou mais tolerantes.

 

Do lado de lá do direito a não ser ofendido está o direito à livre opinião. E como a lista daquilo com que cada qual se pode sentir, e sente, ofendido, é praticamente infinita, sobra que a única maneira de congraçar os dois direitos é limitar o direito a não ser ofendido à conjugação com outros direitos individuais - o direito ao bom nome é o que com mais frequência está envolvido.

 

Por exemplo, se eu disser que o prof. Cavaco (de quem João confessa ter sido consultor, numa louvável manifestação de sinceridade em relação a detalhes pouco lisonjeiros do seu passado) é um exemplo gritante do bom aluno marrão e manhoso não particularmente dotado, mas que teve muito sucesso na vida, estarei a enunciar a minha opinião. E se Cavaco dela tivesse conhecimento e se sentisse ofendido, pior para ele. Mas já se dissesse que Cavaco, no exercício de funções, foi corrupto, constituir-me-ia na obrigação de adiantar os factos que baseassem uma tal suspeita.

 

Tudo isto são platitudes, e cansa ver ayatollahs de banca posta na comunicação social a defender obscurantismos. Diz César das Neves: "Por outro lado, é hoje fácil no mundo muçulmano invocar as blasfémias e indecência da revista como prova da hostilidade ocidental ao Islão. Mais, ver a publicação atingir o estrelato, e aqueles que insultaram a sua fé receberem as mais altas honras nacionais, torna-se, em si mesmo, um ultraje agravado".

 

O Ocidente que se entende a si mesmo é hostil ao Islão, em todas as suas declinações, e faz muito bem. É com essa hostilidade, na exacta medida em que a sintam também, que os muçulmanos transformarão as suas igrejas, e as suas sociedades, para conseguirem duas coisas que ainda não alcançaram: uma é a separação da Igreja do Estado; e outra o dar às mulheres o estatuto que lhes pertence.

 

João César das Neves não entende nada disto, mas percebe alguma coisa de economia. Faço votos para que fale apenas do que alcança.

 

PS: Por estes dias há abundantes motivos para comentar a grotesca palhaçada em que se vem transformando o governo do país, que vem delapidando metodicamente o pobre pecúlio, de dinheiro e sanidade, que o anterior amealhou, ao mesmo tempo que os derrotados do 25 de Novembro, que deveriam estar acantonados na sua aldeia gaulesa de curiosidades históricas, renascem das cinzas para garantir outro resgate. Mas falta paciência e ginástica: do governo de Costa só se pode escrever - com a mão no nariz.

publicado por José Meireles Graça às 15:08
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