Quinta-feira, 30 de Julho de 2015

Volta, Lombroso

As teorias de Lombroso, não me canso de dizer, foram arrumadas na prateleira com demasiada precipitação: não é difícil imaginar Jerónimo, com a sua cara talhada a escopo e os cantos da boca descaídos, ordenando com voz trémula e uma lágrima furtiva a escorrer pela pele curtida dos comícios a prisão de ex-camaradas dissidentes, se visse a luz do dia a revolução comunista dos seus sonhos; nem se requeria um excesso de argúcia para detectar no rictus do malogrado ministro Varoufakis o ego monstruoso do engenheiro social que, acreditando conhecer cientificamente o que é melhor para o seu povo, engendra um esquema clandestino para fazer o contrário do que o seu mandato lhe impunha; e a papada de Guterres, o traço estreito da boca de Cavaco, os olhos de goraz de Fazenda, o capacete de Roseta, o nariz de Sócrates, a adiposidade supranumerária de Costa, eram e são outros tantos traços indicativos de malformações mentais que a ciência política ignora sobranceiramente.

 

Sucede que o ministro Jorge Moreira da Silva tem uma cara irremediável de menino estudioso, daquela variedade que conhecemos nos bancos do liceu: marrão, teimoso, graxista dos professores, inteligente o bastante para ser o melhor da turma e burro o suficiente para a vida lhe passar ao lado. O destino natural destes deficientes é chegarem a catedráticos, produzirem uma obra completamente falha da mais leve centelha de originalidade, e jubilarem-se um dia no meio da consideração geral.

 

Infelizmente, em vez de se limitar a chatear os alunos com as suas fantasias bem-pensantes na área das alterações climáticas e energia, e encher os ares de Co2 a correr de avião para cimeiras ecológicas, Jorge tem uma carreira política. E resolveu, em plena campanha eleitoral, pôr em prática o que se dizia no Compromisso para o Crescimento Verde, um catálogo asnático de modernices, na parte em que estatuía: (...) "até 2020, introduzir 1250 viaturas elétricas e híbridas plug-in nos serviços do Estado" (...)

 

Aí está. Se a notícia não tiver sido, como é frequente, redigida com as patas, só para estudos são três milhões. E aos inúteis paliteiros de recarga eléctrica que Sócrates espalhou pelo país, e que apodrecem ao sol e à chuva à espera do totó que vem recarregar o seu carrinho de faz-de-conta, irão juntar-se outros milhares.

 

Talvez, nesta onda de fervor religioso pró-ambiente que os campus das universidades originaram, travestindo hipóteses em certezas, e agendas políticas de esquerda intervencionista em soluções, possa haver lugar para alguma sanidade, lembrando:

 

O modo como os funcionários se deslocam de e para o trabalho não é da tua conta, Jorge, é da conta deles. Se te achas no direito de decidir na matéria, cabe perguntar o que te impede de, amanhã, te lembrares, em nome da igualdade ou outro virtuoso pretexto, impôr as mesmas soluções aos restantes trabalhadores e seus patrões;

 

Se os carros eléctricos tiverem futuro, o mercado dirá. O que tu achas na matéria só terá interesse se quiseres pessoalmente investir em alguns empreendedores que querem revolucionar os transportes. De empresários visionários precisamos muito - mas com capital e crédito deles.

 

A ideia é poupar? E adquirindo 1200 carros eléctricos poupam-se 50 milhões exactamente como? Olha, Jorginho, do que não há falta é de empresários que sabem, de poupanças e negócios, mais a dormir do que tu alguma vez saberás acordado. Se a iniciativa fosse boa, já havia milhares de carros eléctricos a circular. E, na verdade, de certo modo, há, alguns: tuquetuques (e mesmo destes só os que não têm motor de motorizada).

 

Renovo o conselho que atirei ao vento há tempos, não apenas para substituir 1250 carros mas poupar, realmente poupar: eliminar, até 2020, 12500 viaturas nos serviços do Estado. E, não vá algum funcionário ficar apeado, todas as viaturas eliminadas devem pertencer a serviços a extinguir. Pode-se começar pelo Tribunal Constitucional e pelo próprio Ministério do Ambiente e um terço dos municípios. Deve sobrar.

 

publicado por José Meireles Graça às 11:53
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Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014

Tristezas à beira-mar

Quando o actual governo tomou posse, fui um dos que viram com bons olhos a diminuição de ministérios: apenas onze, uau.

 

Houve quem dissesse que os ministérios eram grandes de mais, mas era gente que acha sempre mal qualquer indício de diminuição do peso do Estado, fazendo portanto parte daquele ruído de fundo que acompanha a vida pública entre nós. Creio que, dos magistrados da opinião, Pacheco Pereira também terá dito qualquer coisa, mas Pacheco de modo geral respeita muito o PCP, detesta o PS quando este está no governo, odeia o CDS e abomina o PSD quando calha não lhe pedirem licença para eleger um militante que não o seja da pequena capela da qual julga ser o pároco. Daí que não fosse, também, para levar a sério.

 

Por mim - ó santa ingenuidade! - supus que a diminuição do número de ministérios era o sinal da reforma do Estado, e que esta consistiria na diminuição de intervencionismos sortidos, extinção de serviços, eliminação de sobreposições, privatizações do que não pertencesse às funções essenciais (as clássicas e as hoje consensuais), reforma do Poder Local diminuindo a quantidade de autarquias, as suas competências e a sua liberdade, na medida em que ela pudesse ser usada para a gestão democrática da compra de votos com endividamento, e um longo etc. - tudo dentro do que sem propriedade nenhuma se chama neoliberalismo, a fim de o qualificativo, que passa por insulto, passasse a ser justificado, se atingisse rapidamente o défice zero (nem que para isso fosse necessário utilizar parte do ouro do Banco de Portugal, a fim de ter recursos para indemnizar os funcionários despedidos), e se criassem as condições, num futuro não excessivamente distante, para poder diminuir a sufocante carga fiscal.

 

Claro que a ingenuidade tem limites. E deste programa maximalista estava preparado para ver com bons olhos a realização de apenas uma pequena parte.

 

Sabe-se o que sucedeu: o Estado sofreu apenas os cortes que a férula dos credores impôs, ou ainda menos; foram sobretudo transversais; o Poder Local, incluindo essa equivocada conquista de Abril que são as autonomias insulares, ficou incólume nas suas competências e no direito ao calote, logo que haja quem empreste; as privatizações não visaram o aumento da concorrência e da eficiência, mas apenas a obtenção de receitas para tapar um buraco que só pouco e timidamente se começou a diminuir no ritmo a que cresce; e a opinião está entupida de profetas do desenvolvimento, que têm grandes projectos de investimento na educação, no mar, na formação profissional e no mais que uma Academia de lunáticos esquerdistas, economistas do intervencionismo sortido, e autores por castigar do buraco em que enfiaram o pais, recomendam - desde que haja quem empreste.

 

Foi assim. E em devido tempo alguns ministros cansados cederam algumas competências: já que não era para extinguir nada nem revogar coisa nenhuma, realmente não se aguentava. Um dos ministérios que renasceu das cinzas foi o do Ambiente, em Julho de 2013.

 

Pois o responsável por esta pasta em má hora ressuscitada foi ver os estragos que o mar causou, como periodicamente causa, na orla costeira, e declarou há dias a uma comunicação social embevecida: “Quando, muitas vezes, algumas pessoas olham com uma certa sobranceria, até com algum cinismo, para o discurso a favor das energias renováveis, da eficiência energética, da mobilidade sustentável, da redução das emissões, é importante que tenham a noção de que a mudança climática, infelizmente, não é ficção científica, não é matéria para daqui a 20, 30 anos. Está a ocorrer”.

 

Olha, Ministro: eu sou um desses que olha com sobranceria para as energias renováveis - se e quando forem necessárias o mercado inventa-as, até lá as tuas políticas o que fazem é engordar a minha factura da EDP para sustentar parasitas, senão corruptos; não preciso de ti, nem dos teus diplomas, certificados, burocratas e taxas, para me preocupar com eficiência energética; dispenso a tua mobilidade sustentável, que suponho consista em andar de transportes públicos de pé, quando não estão em greve; se queres reduzir as emissões, vê mas é se arranjas maneira de tornar o gás mais barato; e as tuas alterações climáticas, que ainda ontem eram aquecimento global, não são ficção científica - são patranha científica para justificar fundos, estudos, tachos, conferências, notícias alarmistas e importância para gente como tu.

 

Regressa a Lisboa, vai - de bicicleta.

publicado por José Meireles Graça às 01:23
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