Segunda-feira, 7 de Outubro de 2013

Quando a lei mata.

O recente desastre em Lampedusa onde terão morrido cerca de 300 pessoas tem um aspecto alucinante. Enquanto os náufragos ardiam e se afogavam, passavam barcos de pescadores que não prestaram ajuda. Porquê? Porque é proibido por lei, de iniciativa da Liga Norte (Lei Bossi-Fini), prestar apoio à imigração clandestina e existem sanções que os pescadores conhecem bem. Agora, o governo italiano, lamenta o caso, manifesta luto hipocritamente e diz que não é o momento para polémicas. Estamos bem entregues.

 

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publicado por João Pereira da Silva às 05:13
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Domingo, 6 de Outubro de 2013

Vergonha para quem?

 

 

Junto à costa de Lampedusa, o naufrágio de um barco carregado com cerca de 500 imigrantes ilegais resultou, até agora, na morte de mais de 140. O Papa Francisco declarou que era "uma vergonha" e alertou para a "globalização da indiferença". As vozes europeias do "humanismo" aplaudiram e o facebook partilhou estas palavras com abundância.

 

Poucos jornais se interessaram em investigar (e informar os seus fregueses) de que países vinham aquelas pessoas. Apurei sem surpresa que a maior parte vinha da Somália e da Eritreia.

 

Tenho sentido relutância em comentar os numerosos espectáculos com que este Papa generosamente entretém os fiéis. Na realidade, confesso que não o consigo perceber. Gostei da bonomia com que furou o balão do pecado homossexual, decepcionando os activistas menos atentos aos assuntos de caridade por viverem obcecados com os assuntos de cama. Apreciei os adjectivos que usou para caracterizar a Cúria, chamando "narcisistas" e "bajuladores" aos seus cardeais, e definindo "a corte" como "a lepra do papado" - mas isto são os meus afectos linguísticos.

 

Os problemas começam quando Francisco resolve apontar que "os males mais graves que afligem o mundo" são "o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixadas as pessoas idosas", ou avisar que o "liberalismo selvagem" tem como resultado "tornar os fortes mais fortes, os fracos mais fracos, e os excluídos mais excluídos". Não vejo que o desemprego dos velhos e dos cidadãos de meia idade seja menos grave, e considero que a fome é um mal mais aflitivo do que o desemprego. Por outro lado, não sei o que o Papa entende por liberalismo (palavra largamente abusada), que vejo pouco na Europa e menos ainda em Portugal. De resto, toda a doutrina selvagem me repugna e não lhe consigo encontrar nenhuma virtude (nem conheço quem a encontre, a não ser no Islão).

 

Espera-se de um Papa que dê orientações sobre moral e matérias de fé. Francisco tem liberdade para falar sobre todos os assuntos que, no seu bendito entendimento, lhe parecerem oportunos. Pessoalmente, para ouvir perorar sobre geo-política e teorias macro-económicas cedo à tentação de procurar outro tipo de peritos.

 

Vem a propósito a distinção entre clericalismo e cristianismo que o Papa também fez, e aqui se concentra outra boa parte das minhas dúvidas: presumo que a soube explicar (eu não vi a explicação), mas duvido que a tenha sabido entender. Se o clericalismo for a doutrina que usa a religião como instrumento para obter um fim político, o Papa anda a escorregar para o lado menos recomendável.

 

A Somália, a Eritreia, a Líbia, e os países de onde partem estas pessoas são regimes primitivos, que quando não matam os seus cidadãos à facada ou a tiro deixam que eles morram à fome. Que espécie de moralidade têm os "humanistas" que andaram a louvar o "multiculturalismo", os "amanhãs que cantam", as "primaveras árabes", e toda a classe de regimes (esses sim) efectivamente selvagens, e agora gemem prosas pungentes quando os desgraçados fogem destes países para se afogar na costa de Lampedusa a tentar sobreviver?

 

Quando o Papa Francisco aproveita a tragédia de Lampedusa para comunicar ao mundo que "a única palavra que lhe vem à cabeça" é "vergonha" sabe que, pelo papel que tem e por aquilo que representa, está a fazer uma crítica à política de imigração italiana. E sabe também que está a dar aos "humanistas" argumentos morais para a defesa leviana da sua inacreditável irresponsabilidade. Convinha que esclarecesse exactamente, caso saiba, a quem deve aplicar-se a palavra "vergonha".

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 23:15
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