Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2019

Circulatura ou lá o que é

Maria João Avillez tem nome no jornalismo: entrevista há décadas meio mundo da política e escreveu abundantemente sobre os pais da pátria democrática. Invariavelmente, porém, perde um tempo infinito com a pequena história, porque não imagina outra. Podemos estar certos de que, se tivesse entrevistado Churchill, não quereria saber o que pensava ele do Império Britânico, do qual foi um tempo diligente soldado, e sua ruína, mas antes quantos charutos fumava por dia; e se Salazar, não sobre a herança futura de uma sociedade sem anticorpos para o esquerdismo, mas sim se era verdade a história do galinheiro em S. Bento a vender ovos para a vizinhança e se namorou ou não namorou realmente com Christine Garnier.

 

É uma fórmula de sucesso. Toda a gente quer conhecer a intimidade e as humanas fraquezas dos poderosos; e a poucos interessa o papel que cada notável desempenha no processo histórico, as consequências para a comunidade das escolhas que fez, e os paralelos com situações pretéritas.

 

Pois bem: há dias saiu no Observador uma entrevista com Lobo Xavier, o conhecido senador do comentariado, a propósito da transferência de canal do vetusto programa Quadratura do Círculo. E raras vezes uma tão completa e natural sintonia, entre entrevistado e entrevistador, se fez patente.

 

É impossível não gostar de Lobo Xavier, desde logo porque o próprio gosta de toda a gente, além de ser inalteravelmente cortês. Na entrevista, manifesta simpatia pelos colegas do programa, por Portas, Pires de Lima, Cristas, a nova geração do CDS, Francisco Mendes da Silva, Adolfo Mesquita Nunes, Passos Coelho, traça rasgados elogios a Marcelo, Deus lhe perdoe… e não tem uma palavra simpática para Jerónimo, ou Catarina, ou as manas Mortágua, decerto porque Maria João não se lembrou de o levar para aí.

 

Gostar de toda a gente não é muito diferente de não gostar de ninguém. E mesmo que se atribua esta generosidade ao catolicismo que serve de norte espiritual a Xavier, a que junta um feitio amável, resta que não é possível, se se tiver um módico de lucidez sobre o estado do país e os caminhos que trilha, deixar de verberar acerbamente a tropa fandanga que nos pastoreia e desde logo o par de colegas no programa: Pacheco Pereira, uma esponja de más leituras progressistas que vai debitando como se fossem pérolas de sabedoria; e Jorge Coelho, o manhoso e simpático aguadeiro de serviço do PS, que desmente a alegação do entrevistado da independência dos três em relação aos respectivos partidos. A urbanidade do trato e os laços de amizade resistiriam a um exercício de rigor? Duvida-se.

 

Portugal, hoje, mostra sinais de esgotamento: O Estado está mais obeso do que nunca, o controlo do défice (fruto da dura lição que a troica deu, e que o PS, benza-o Deus, interiorizou) foi conseguido, além de evidente martelanço, à custa do aumento de impostos,  a somar ao brutal de Vítor Gaspar, e de uma retoma de mais que duvidosa sustentabilidade. O país apenas cresce por arrasto, e menos do que os outros. Isto está preso por arames, dizia há tempos Daniel Bessa, com brutal sinceridade.

 

E todavia no único momento da entrevista em que Lobo Xavier disse alguma coisa de substantivo sobre a situação política exprimiu-se assim: “Acho até que se a direita, as direitas, não se comprometem com a redução da desigualdade não têm futuro”.

 

É extraordinário. Há mais de quatro décadas que todos os partidos prometem a redução das desigualdades, apenas diferindo no modo de a alcançar, pelo que se estranha que os denodados esforços empreendidos não tenham ainda sido suficientes. E em nome deste meritório objectivo se destruíram os grandes grupos económicos que existiam antes dos Cravos, cuja reconstituição apenas se fez, e parcialmente, com endividamento e com o nascimento de empórios de mercearia; e se aumentaram os impostos sobre o rendimento de forma demencial. Em consequência do que, associado à expansão imprudente do Estado assistencialista e patrão, se alienaram ao exterior sectores monopolistas da economia e se criaram condições para a banca ser quase toda estrangeira, enquanto gente profunda diz, melancolicamente, que em Portugal há falta de capital. Pois há, mas sobra igualdade.

 

Estaria a falar da igualdade dos cidadãos perante a lei, aquela que a Direita consistente defende, hoje comprometida mais do que nunca com os preços absurdos no acesso à Justiça? Ou dos poderes inquisitoriais da Autoridade Tributária, que reduzem a pó os direitos de cidadania àqueles cidadãos que têm a desdita de ser apanhados pela máquina impiedosa e acéfala do Estado predador? Não, estava a falar de igualdade no sentido que a esquerda dá à palavra, isto é, a pilhagem dos ricos para ficarmos todos remediados na teoria, e pobres na prática.

 

A Direita que levanta bandeiras de esquerda, sob pretexto de que vai à missa e tem bom coração, essa é que não tem futuro. Porque o eleitor hesitante prefere, e bem, os originais às cópias hipócritas.

 

Não sei quem inventou, para dar o pendão retroactivo para o 25 de Abril, o mote dos três dês. Não vou falar aqui da democracia (que acho, ao contrário de muito reformador social que anda por aí, um relativo sucesso), nem da descolonização, que é de todo o modo um processo encerrado. Mas de desenvolvimento estamos conversados: ainda há dias um estudo concluía que em breve estaremos em quinto lugar, em termos de rendimento por habitante,  a contar do fim, dentro da EU, tendo perdido seis lugares em apenas quase duas décadas. Apesar da chuva de 79.000 milhões da EU e de a dívida no mesmo período ter explodido.

 

É disto que se tem tratado, sequer como pano de fundo, na defunta Quadratura e se vai tratar na futura Circulatura (raio de nome), a partir de 7 de Fevereiro? Claro que não. Aquilo é malta porreira, trata de coisas porreiras, e dos sucessos do António, e dos deslizes do António, o ex-colega que utilizou o programa para sanear o concorrente Seguro, primeiro, e perder as eleições ganhando o governo depois, e dos asneiróis semanais do Poder, que criticam com tolerância porque a política é isto: um jogo de grupos de pessoas, do qual, com gosto, fazem parte.

 

A política não é isto, e por isso a Quadratura há muito tempo deixou de ser um programa de debate. Pode ser que dure mais um ano ou outros catorze anos. Mas está moribunda, como o regime.

publicado por José Meireles Graça às 21:53
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