Quarta-feira, 7 de Março de 2018

Professores com deficit de habilitações académicas

Eu dei aulas no Instituto Superior Técnico sem ser licenciado.

O professor Diamantino Durão, na altura Catedrático no departamento de Engenharia Mecânica do IST, regente de várias cadeiras do ramo de Termodinâmica Aplicada, presidente do Conselho Directivo e mais tarde ministro da Educação, tinha que ir fazer um trabalho nos EUA e reconvidou-me, já me tinha convidado quando acabei o 4º ano onde tinha sido aluno das aulas teóricas dele nas cadeiras de Transmissão de Calor e Massa que ele regia mas eu entretanto tinha aceitado um convite para bolseiro de investigação no Laboratório Nacional de Engenharia Civil e não tinha aceitado o dele, para assegurar as aulas da cadeira como Monitor.

Nunca me chegou a explicar o motivo de o convite não ter sido precedido de um rigoroso concurso público, mas admito que o facto de eu ser o melhor aluno do curso de Engenharia Mecânica e de ter tido 19 na cadeira possa ter tido alguma influência. E suspeito que possa não ter sido por motivações políticas, porque eu só ingressei no PSD trinta e dois anos depois de acabar o curso e em 1983, entre governos do dr. Pinto Balsemão, resgates do FMI e governos do Bloco Central, interessava-me muito pouco pelo PSD, e não faço ideia se ele próprio era do PSD apesar de mais tarde ter sido ministro num dos governos de doutor Cavaco Silva.

Durante dois ou três meses assegurei sozinho as aulas da cadeira de Transmissão de Calor e Massa I, tanto as práticas como as teóricas, porque o professor que costumava dar as teóricas estava ausente. Não quero maçar os leitores com as technicalities, mas depois de duas ou três semanas dedicadas a ilustrar os princípios mais simples de transmissão de calor por condução e por convecção em regime estacionário e em corpos homogéneos de geometria simples e unidimensional passei para outras duas ou três a apresentar a Equação do Calor e a derivar várias soluções em coordenadas ortogonais, assim como em coordenadas cilíndricas e esféricas que não vos maço com a demonstração nem sequer a ilustração. Era isto.

2018-03-07 Equação do calor.jpg

Mesmo dada por um aluno imberbe era aquilo a que se podia chamar uma cadeira para alunos de barba rija, ou um cadeirão.

Entretanto eu acabei o curso e fui admitido numa empresa privada a que me candidatei e não me pareceu conveniente perturbar o início da carreira a acumular o trabalho absorvente na empresa com ausências para continuar a dar aulas, o professor Diamantino Durão regressou dos EUA com disponibilidade para retomar as aulas, e acordamos pacificamente a cessação do meu trabalho como Monitor no IST em Janeiro de 1984.

Felizmente este episódio não chegou aos jornais, nessa época não havia redes sociais, e investigadores notáveis como o professor doutor Rui Bebiano ou a professora doutora Raquel Varela não tiveram conhecimento dele nem vieram para a praça pública indignar-se contra a destruição da universidade pública pelo nepotismo partidário através da decadência da exigência do nível científico inerente à contratação de professores não doutorados, exigência que eles próprios garantem como referências científicas sólidas com base nos graus académicos que outros como eles lhes atribuiram.

E o IST não caiu no pântano em que merecia apodrecer por recrutar, pior que assistentes e professores convidados não-doutorados para ensinarem matérias, nomeadamente tecnológicas, que nenhum docente da carreira dominava, alunos para darem aulas a outros alunos, nem a Ordem dos Engenheiros recusou a atribuição do grau profissional de Engenheiro aos licenciados que foram meus alunos de Transmissão de Calor e Massa I, e graças à discrição com que o episódio foi tratado o IST até manteve, se não aumentou, o renome de universidade de excelência que conquistou ao longo de muitas décadas.

Não certamente ao nível daquelas onde eles investigam através do método de escolher os factos que sustentam as opiniões, muito mais assertivo e proactivo que o método mais modesto seguido no IST de formar conclusões com base nos factos. Método em que desgraçadamente me formei, e que limita seriamente quaisquer ambições que possa vir a ter de conseguir vir a ser intelectualmente trafulha como eles.

A academia pode perfeitamente ser colonizada por idiotas e trafulhas, mas deve ser reservada a doutorados. Ou então de esquerda.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:19
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Últimos comentários

Depois do PPC, a minha favorita na AR, bem melhor ...
300 contos mensais de bolsa nos anos 90 para "subs...
Há matéria neste artigo a aproveitar pelos explora...
Concordo em tudo com JSP (a 3 de Maio).Felicitaçõe...

Arquivos

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crescimento

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds