Este ano fui para fora cá dentro. E, para encher os dias, fui ver o tesouro da Sé, que é mais tesouro do que imaginava; o castelo de S. Jorge, cuja porta não franqueei porque havia uma gigantesca fila de turistas à espera do privilégio de entrar para poderem dizer que lá tinham estado; ao palácio nacional de Queluz, onde contemplei a decadência e sujidade que com esplendor lá se guardam; aos Jerónimos, que continham mais visitantes a tirar selfies, a atrapalhar a circulação e a consultar com empenho os telemóveis do que alguma vez, no passado, monges – um Cristo moderno bem podia expulsar aquele lúmpen moderno de compralhões no templo, ao menos com o expediente de os fazer pagar bilhete; ao palácio Fronteira, fechado “para férias”, mas cujo aspecto exterior não me deixou uma irreprimível vontade de o ver por dentro; e ao “palácio” de Monserrate, por duas vezes, a primeira para bater com o nariz na porta por o concelho de Sintra, aparentemente, ter mais problemas de circulação automóvel que a cidade de Nova Iorque, o que me fez chegar tarde. Os jardins merecem a visita que o “palácio” não merece: não é um palácio, para começar, é uma folly em ponto grande; a decoração, de inspiração mourisca, é um exemplo daquela mania romântica de recrear espaços de civilizações perdidas, góticas, árabes ou orientais, e haverá decerto textos contemporâneos (que infelizmente não conheço) a classificar o exercício de um industrial inglês com a mania das grandezas por aquilo que era – uma piroseira, como são quase sempre os pastiches. De resto, o senhor D. Luís deu ao homem o título de visconde, e fez muito bem, porque Cook, que não deve ter sido meigo a explorar os miseráveis nas suas fábricas inglesas, no auge da Revolução Industrial, veio aliviar a sorte dos outros miseráveis que por aquele tempo habitavam aquelas serranias.
O “palácio” está despido de quase tudo o que continha, porque tudo foi leiloado nos anos 40, salvo erro, e parece que quem o administra tem a intenção de recomprar algumas coisas. Faz bem, é claro, como é claro que falhará: aqui como em todos os outros lados, nota-se uma terrível falta de dinheiro.
Ora isto é extraordinário. Portugal é um país pobre de monumentos, apesar dos seus 900 anos de história, mas precisamente por isso deveria estimar os que tem. E aqui, como em Mafra, ou nos castelos, conventos e igrejas espalhados pela província, o que salta à vista é uma confrangedora pelintrice.
O país é pobre, não pode? Tretas: de passagem, vi no Terreiro do Paço um cone com ar de chupa-chupa gigante, que me disseram ser uma árvore de Natal, e o resto do espaço estava obstruído com palcos, decerto para uns piolhosos irem para lá ganir umas musiquetas. É o mesmo, à escala, nos mais de 300 concelhos do país: subsídios à cultura da chupice, do espectáculo, do berreiro, dos artistas e das clientelas. E em todas estas coisas circula dinheiro público, o mesmo dinheiro que nunca há para conservar o património.
Talvez faça sentido: afinal a gente que vi nos Jerónimos, sem o menor vestígio de respeito pelo lugar, que ainda é de culto, ou de atenção pela arquitectura, que impressiona, é a que vota nos Marcelos ou Medinas desta vida.
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