Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

Movimento 5.7

Ontem o Movimento 5.7 promoveu uma conferência no Porto com o tema “A Europa e o Futuro”.

 

Os participantes eram Rui Moreira, Rui Ramos e Miguel Morgado.

 

Para quem não saiba, este Movimento agrega quem, no espaço da direita democrática e não-socialista, queira discutir e ver discutir fora de peias partidárias assuntos de interesse colectivo. E corresponde a um sentimento difuso de que, no sufocante ambiente social e político da geringonça, há valores de direita que, nem que seja pela negativa – não somos socialistas – justificam encontros, palestras, debates, em suma, que nos conheçamos melhor, já que os adversários, e por que o são, conhecemos nós bem.

 

Como está a decorrer uma campanha eleitoral para as europeias, o assunto é oportuno.

 

Não está ainda disponível o podcast do encontro, por isso falo de memória. Mas vou já dizendo que, como esperava, os três palestrantes são europeístas convictos, e a moderadora (que, felizmente, não conhecia) da variedade militante, com, porém, diferenças de grau e de ângulo. E como eu acho a união europeia uma construção impossível e, se fosse possível, indesejável, digamos que o conjunto das intervenções não caiu particularmente bem na minha alma sensível.

 

Um ponto prévio: em Portugal toda a gente, com excepção dos comunistas, é europeísta. À Europa se atribuem as autoestradas, o SNS, a melhoria das condições de vida, o extraordinário benefício de podermos pagar com a mesma moeda dos alemães sem passar pela humilhação de a cambiar com uma local provavelmente cotada ao quilo, o Erasmus, as estrelas rock que incluem Portugal nos seus roteiros, os frequentes prémios internacionais no âmbito cultural, e todo o internacionalismo, e toda a modernidade, que conferem aos portugueses a enraizada convicção que Portugal é uma Dinamarca com ligeiramente menos dinheiro.

 

Tudo isto é falso, ou no mínimo uma verdade distorcida. Porque progresso houve em quase toda a parte, o que decorre da evolução da ciência e da tecnologia, e nada permite a certeza absoluta de que a famosa TINA da troica (There Is No Alternative) se aplique também ao caminho inelutável da integração europeia. E o progresso português recente é menor, nos últimos vinte anos, e não maior, do que o do resto do mundo e do que o do resto da Europa, cuja importância mundial não cessa ela própria de diminuir. Para utilizar uma linguagem cavaquista, a carruagem portuguesa no comboio da UE é cada vez mais próxima da última; e este vai mais devagar do que os outros.

 

Depois, o português que aqui não encontra emprego ou sequer uma remuneração condigna, vai, naturalmente, para a emigração, e esta é facilitada pela livre circulação; e, como disse com satisfação um dos conferencistas (creio que Rui Moreira) quase toda a gente tem hoje um filho que casa no estrangeiro, ou um parente que lá se radicou.

 

Este sentimento é tão esmagador que – Deus me perdoe – se houvesse um referendo em Portugal que perguntasse aos portugueses se queriam empandeirar as suas instituições estatais (presidência da república, assembleia da república, tribunais) por troca de um subsídio de 20.000 milhões de euros/ano, estes responderiam entusiasmados que sim, com a condição de o gauleiter ser louro, os juízes bebedores de cerveja morna e a legislação traduzida – como, em parte, já é.

 

Rui Ramos deteve-se longamente no Brexit, e confessou-se escandalizado por uma matéria de tanta transcendência ter sido decidida por uma maioria circunstancial de 4 pontos (52 contra 48%, num contexto em que a maioria dos jovens não votou, ou votou esmagadoramente a favor da permanência); e, se bem percebi, acha mal que escolhas desta complexidade possam ser feitas por uma opinião pública volátil, condenando a comunidade britânica a consequências gravosas que, por provocarem arrependimento, só podem ser sanadas com um novo referendo. Um que dê (suposição e conclusão minhas) um resultado inverso, caso em que a exiguidade da maioria já não terá verdadeiramente relevância, por o eleitorado ter finalmente feito a opção certa.

 

Rui Moreira também vê com maus olhos o Brexit, pelas mesmas razões, isto é, o Brexit é uma coisa que nos chateia, pá, os filhos da Ilha não são fiáveis nem sabem o que lhes convém (interpretação – muito – livre minha), e aproveitou para se lançar numa diatribe contra a disfuncionalidade do euro. Segundo Moreira (e eu, já agora) é uma moeda alemã que serve os interesse alemães, inconveniente para economias frágeis, mas a única maneira de a corrigir é aumentar massivamente as transferências para as economias periféricas, isto é, fazer crescer o orçamento da União para níveis americanos, exemplar federação onde estados como o Montana e o Wyoming recebem transferências significativas. Os outros dois intervenientes guardaram neste ponto um silêncio presumivelmente discordante, decerto porque um e outro entendem que a moeda única, por implicar uma gestão sã – isto é, sem défices – das contas públicas, já está mais do que suficientemente justificada.

 

Miguel Morgado, aparentemente o menos europeísta dos três, preferiu acentuar a importância do artº 50º do tratado de Lisboa, que consagrou o princípio de os Estados se poderem retirar da União, e que foi invocado pelo Reino Unido há dois anos, uma lembrança muitíssimo oportuna nas circunstâncias. Nas outras intervenções tinha perpassado uma sobranceria, para não dizer desprezo, em relação a esses malditos ingleses mais velhos, uma gente desconfiada de construções supranacionais e inconscientemente agarrada a nacionalismos obsoletos.

 

Na fase de perguntas, quis saber onde os conferencistas colocavam limites aos progressos da integração, agora que já se fala de “harmonização” fiscal e de exército europeu. Quase me fiquei pela pergunta porque a moderadora, incompreensivelmente com muito menos predisposição e gosto do que eu para me ouvir, me cortou nos prolegómenos, precaução que todavia não adoptou com o interpelante seguinte.

 

Rui Moreira confessou-se veementemente contra a competição fiscal, que acha desonesta; Miguel Morgado deu uma resposta algo críptica, mas na qual se podia perceber que, excepto quanto às implicações do euro, a Europa dele é a das nações, pelo que não vê com bons olhos um tal exército; e Rui Ramos disse nada.

 

Muito mais se disse, quem quiser que vá ver na página do Movimento.

 

Encerrada a sessão, fui a uma cervejaria na avenida da Boavista com alguns dos marcados reaccionários com que me dou. E, a páginas tantas, disse a um deles, que admiro pela acutilância da escrita e a independência das opiniões: Já viste que bom que seria se não houvesse a esquerda comunista e socialista? Sem sair da direita, já temos divergências que chegue.

 

Ele concordou com entusiasmo. Com o que a noite acabou numa nota de boa disposição.

publicado por José Meireles Graça às 19:14
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