Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2018

Pai, já cá canta!

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O problema do nepotismo no exercício do poder em democracia não reside apenas na violação evidente da ética republicana que constitui ao criar uma classe social nova, a da família, dos amigos, da família dos amigos e dos amigos da família do detentor circunstancial, e numa democracia republicana todos os poderes são exercidos circunstancialmente pelos seus detentores circunstanciais, do poder.

Reside no facto de a concentração do exercício do poder num grupo de gente muito mais restrito do que numa democracia sem nepotismo, uma famiglia alargada, fazer do mundo visto pelos que lá estão dentro muito mais homogéneo do que o mundo visto pelos que cá estão fora. 

O que limita irremediavelmente dois factores determinantes para a socialização, seja de crianças em idade de jardim-escola, seja de governantes, a diversidade de role-models disponíveis para inspirar as atitudes e comportamentos de cada um no seu processo de crescimento, formação e integração, e a diversidade de valores dos membros do grupo no seu papel de se fiscalizarem mutuamente.

Um bocado na linha do que acontece nas redes sociais, onde parece haver evidências estatísticas suficientemente significativas para sustentar a tese de as redes de cada um tenderem dinamicamente a perder diversidade e a tornar-se mais homogéneas ao longo do tempo, por cada um tender a manter contactos mais frequentes com aqueles que mostram valores e opiniões mais próximos dos seus, e por isso cada um vai construindo dinamicamente um mundo onde os seus valores e opiniões parecem prevalecer e ser representativos do mundo alargado, e a deixarem-se enganar por essa ilusão de óptica, dentro de um governo muito homogéneo todos podem cair na tentação de acreditar que os valores do mundo homogéneo onde vivem são representativos dos do mundo cá de fora, de onde vivem crescentemente isolados pela homogeneidade do grupo.

Se numa aldeia recôndita de África onde nunca entrou um homem branco, se é que ainda as há, algumas crianças opinarem que os brancos são racistas, as que não têm opinião formada sobre o assunto e nunca viram um branco não têm razões ponderosas para duvidar da plausibilidade da asserção, e é natural acreditarem nela. Se numa aldeia mais isolada do interior, se é que ainda as há, os frequentadores do café opinarem que os muçulmanos vêm para a Europa para nos violarem as mulheres, os outros que nunca privaram com um muçulmano não têm motivos para desconfiar da plausibilidade da asserção, e é natural acreditarem nela. Ou os participantes de grupos do Facebook onde circulam notícias da alt-right a assegurar que os países do Centro e do Norte da Europa estão em estado de sítio com territórios já ocupados por extremistas islâmicos e explicam uns aos outros que os mainstream media só não dão essas notícias para as esconder.

Ou se os governantes de um governo de família e amigos disserem uns aos outros que é normal aceitarem bilhetes para a bola e que, se não lhos oferecerem, os devem pedir para não ficarem a chuchar no dedo enquanto os outros vão ao estádio à borla, os outros não têm razão para desconfiar da virtude do conselho e colocar a hipótese de, no mundo cá de fora, o pedido poder ser visto como censurável e desencadear suspeitas de troca de favores. Ou um duplex na Avenida da Liberdade ou nas Avenidas Novas. Ou mesmo no Chiado ou nos Champs Élysées.

Portanto, um dos riscos do nepotismo é a tendência para os membros do grupo instalado no poder se imitarem mutuamente, resultante da falta de referências éticas baseadas nos valores preponderantes na sociedade de que vivem isolados pela homogeneidade no seio do grupo, e também da pressão do grupo sobre o indivíduo para não ser otário e aceitar as oportunidades que a vida lhe coloca à disposição, e até de fazer por elas se elas não lhe baterem à porta espontaneamente. Se necessário, retribuindo os favores com pequenas atenções, que de qualquer modo não lhe saem do bolso a ele, mas a nós.

No domínio da pedagogia estes riscos são conhecidos e determinam a tendência para aumentar a diversidade na escola, juntando nos mesmos grupos crianças de origens sociais, culturais e étnicas diferentes.

No da governação no regime socialista actual, em que o governo é formado por um número reduzido de famílias, amigos, famílias de amigos e amigos da família, e o resto do Estado colonizado pelos que não couberam no governo, não.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:19
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Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

Se fosse pública em vez de privada era limpinho: os BMW seriam às paletes

2017-12-15 BMW série 5 tablier.jpg

O país da exigência ética sem concessões sobressalta-se com uma IPSS, com P de privada, que paga um bom salário à fundadora e presidente, lhe faculta cartão de crédito e BMW de serviço, e agora já nem se fala nisso mas certamente que também telemóvel, lhe emprega o marido e o filho e ainda dá avenças em dinheiro ou em espécie a políticos para a ajudarem a fazer lobbying para sacar guito para a instituição. Para além de ser apoiada pro bono por outros políticos ou figuras públicas que, com o seu nome, lhe dão projecção mediática que também a ajuda a sacar guito.

Instituição que ela criou e construiu, há-que o reconhecer, fazendo das tripas coração para fazer face a um drama pessoal de proporções inimagináveis para muita gente que não é obrigada a passar por dramas semelhantes e que, também há-que o reconhecer, teria deitado muita mãe abaixo em vez de mover mundos e fundos para tentar resolver o problema da sua criança, e que colocou ao serviço de dezenas de famílias de crianças com doenças raras que, sem ela, a instituição, e sem ela, a fundadora, estariam mais ou menos abandonadas à sua sorte.

E os abutres do estatismo levantaram logo o pescoço para defender que o terceiro sector devia ser exclusivamente público, porque privado consegue fugir ao rigor do controlo público, ou mesmo, na boca de socialites socialistas mais articulados no discurso, que os donativos mais eficazes são os impostos progressivos, por acaso esses mesmos que o socialismo que nos governa tem reduzido em favor dos impostos cegos, que estão nas etiquetas de preço mas não estorvam os recibos de vencimento onde muitos contribuintes aferem o que o fisco lhes saca. Em resumo, se o P das IPSS fosse de pública, se a associação fosse um qualquer organismo das administrações públicas sujeito ao controlo de gestão a que elas estão sujeitas, o nepotismo dos privados que a geriram não teria acontecido.

Não teria acontecido, o tanas!

Ontem foram publicados na comunicação social e nas redes sociais dois exercícios de tentativa de identificação da extensão da colonização do Governo da República, dos orgãos de soberania, das administrações públicas e de empresas privadas que dependem delas ou de decisões políticas por familiares, amigos, familiares de amigos e amigos de familiares do primeiro-ministro António Costa. É um exercício meritório mas impossível de completar, tamanho o alcance e dinâmica da colonização. Pelo jornalista José Manuel Fernandes, no Observador, e a socielite política Joana Amaral Dias, no Facebook. Não vou enumerar aqui as listas que eles conseguiram reunir, mas deixo o exercício de as ler a quem estiver interessado, com o aviso que contêm cenas eventualmente chocantes, e bem mais do que um passeio de namorados em Copacabana, e envolvendo verbas com muitos mais zeros, também debitadas aos contribuintes.

Pelo que posso dizer com toda a certeza que se a Raríssimas fosse, não uma associação de direito privado gerida por privados e sujeita à ganância e ao nepotismo dos privados que a controlam, mas uma associação de direito público sujeita ao rigoroso controlo a que a gestão dos organismos públicos está sempre sujeita, em vez de um BMW, um cartão de crédito, um marido e um filho, mais um político avençado para fazer lobbying e mais alguns levados a passear por esse mundo fora, haveria dezenas de BMW, de cartões de crédito, de maridos e de filhos de amigos, e de amigos de maridos e de filhos, todos equipados de modernos iPhone do último modelo para poderem colocar de modo ainda mais eficiente os meios públicos geridos por eles ao serviço dos utentes.

E, se fosse gerida com ainda mais um bocadinho de rigor, ainda poderia talvez acrescentar ao serviço público que já presta o de informar devidamente o público sobre as grandes realizações do governo socialista através da contratação como assessores de trolls para espalhar pelas redes sociais. A cumprir este desígnio, o PS tem uma boa equipa de militantes de experiência comprovada que poderiam ser excelentes aquisições para a equipa da associação, de que vale a pena salientar o economista João Galamba e o funcionário público reformado Miguel Abrantes.

Tudo em nome do superior interesse das crianças, claro.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:15
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