O Miguel Noronha estava atento, graças a Deus. Que eu não tinha dado por nada. Mas tenho sobre este assunto uma perspectiva diferente.
Os "milhares de regulamentos, taxas, autorizações e licenciamentos" servem, em primeiro lugar, para criar e manter empregos na administração pública. Em segundo lugar, servem para favorecer alguns negócios - certificados energéticos, sistemas de ventilação, aparelhos de ar condicionado, turbinas eólicas, literatura de cordel, etc. - em detrimento de outros e, de preferência, sem passar pela humilhação da livre concorrência. Os obstáculos que levantam, e os recursos que retiram às empresas, são o seu resultado mais directo.
Acredito noutro plano educativo. Seguindo as recomendações do dr. Pires de Lima, a filosofia e a habilidade política do dr. Nuno Crato, e o superior interesse pela excelência das nossas escolas, o ensino em Portugal não devia dispersar-se em matérias claramente fúteis (como a Matemática, o Português, a História, a Geografia, a Física, a Biologia, ou o Inglês). Tudo o que as nossas crianças precisam de estudar é Meio Ambiente, Expressão Artística, Cidadania, e (sem dúvida nenhuma) Empreendedorismo.
Foi tímido, a meu ver, Nuno Crato (e um pouco cobardolas, aqui para nós) ao decretar que as escolas deixam de ser obrigadas a oferecer a disciplina de Inglês aos alunos do 1º ciclo. Senão vejamos: porquê só o Inglês? Até parece que temos dinheiro para esbanjar em Matemática, Português, História, Geografia, Física, Biologia, e toda essa cangalhada de disciplinas supérfluas que deveriam ser obviamente facultativas.
Diz o ministro que é uma questão de "liberdade", e que não estima o conceito de "obrigatório", pelo que deixa a decisão ao critério de cada estabelecimento de "ensino". Mais de 90% dos pais não concorda, por motivos que o cérebro ladino de Crato rapidamente interpretou: para esta gente, quanto mais disciplinas houver mais horas ficam as crianças retidas na escola. O tempo (não é assim?) é um bem precioso que preferem gastar em ocupações mais dinâmicas e socialmente mais fecundas, como passear no Colombo ou arrastar-se nos cafés a criticar o Governo, em vez de aturar os filhos. E o Inglês, como todos sabem, é uma língua indispensável para entender e dominar os menus da Playstation.
Agiu portanto o ministro de acordo com o seu superior entendimento dos atavismos pátrios. Pessoalmente, incomoda-me a falta de alcance educativo, de higiene financeira, e de vontade política. Porque (sejamos sérios) vamos analisar a coisa com a profundidade que merece: que espécie de teimosia insiste em manter as outras disciplinas nos currículos do "ensino" básico? Servem exactamente para quê, se excluirmos a proverbial inclinação portuguesa para fingir que se ensina, e a bonomia com que os contribuintes estão sempre ávidos de se endividar para pagar salários a uma praga de funcionários públicos?
Não bastava a Crato ter cedido aos mimados dos professores; agora dobra-se todo perante os irresponsáveis dos encarregados de educação. A continuar assim, um dia acordamos sem verba para "oferecer" Estudos do Meio, Expressão Artística, e Cidadania. Aos filhos dos portugueses ninguém ensinará a "amar o planeta", a "respeitar" o ambiente, a separar os lixos, conceber espectáculos multi-média, ou formar "associações", "plataformas" e "movimentos" de "cidadania" - que são as matérias verdadeiramente fundamentais.
Enquanto dependermos de políticos frouxos, as políticas servirão os interesses dos inúteis e os critérios serão sempre despesistas. Alguma coisa teremos de mudar se queremos que a qualidade das nossas escolas atinja níveis exemplares. E se, nas tabelas da ONU para o capítulo educativo, queremos mesmo garantir que Portugal nunca mais passa a vergonha de sair dos 10 últimos lugares. Abaixo da Somália.
("The Fountainhead", King Vidor, 1949)
O Ministro da Educação e o Secretário de Estado da Cultura resolveram ensinar cinema às crianças. O cinema, como todos os espectáculos, faz-se de plateias. Há coisas piores do que o chamado "cinema português", que são as plateias portuguesas, os "júris de cinema" portugueses e, no topo da classificação, os "críticos de cinema" portugueses. Numa altura em que já não se consegue continuar a fingir que há dinheiro para manter esta barraca em pé, aplaudo que se faça um esforço para instruir as futuras plateias. Talvez um ou outro futuro cineasta. Num acesso de optimismo, podia até acreditar que um destes miúdos viesse um dia a realizar o primeiro filme português com alguma relevância.
Sobressaltei-me quando Viegas disse que "não houve nenhuma preocupação de instituir uma quota para o cinema português, mas a lista tem mais de 50 por cento de filmes portugueses". E apressei-me a consultá-la.
De Hitchcock, um dos poucos realizadores que identifico, talvez não tivesse escolhido "A Cortina Rasgada" - mas só porque é universalmente aclamado como o seu pior filme de sempre.
E, sem querer meter o bedelho, era capaz de incluir um ou outro realizador de importância discutível - como John Ford, Ernst Lubitsch, Joseph Mankiewicz, King Vidor, Orson Welles, Nicholas Ray, Howard Hawkes, Vincent Minelli, Anthony Mann, Samuel Fuller, D. W. Griffith, Mario Monicelli, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Pedro Almodóvar, Luis Buñuel, Jean Renoir, Robert Bresson, Jean Vigo, Jean Luc Godard, Friedrich Murnau, Otto Preminger, Fritz Lang, George Cukor, Francis Ford Coppola, Clint Eastwood, Elia Kazan, Budd Boetticher, Frank Capra, Billy Wilder, Carl Dreyer, Leo McCarey, Jacques Tourneur, Douglas Sirk, ou Walt Disney.
Entendo que a colecção de "obras cinematográficas" é relativamente curta (são apenas 37), por isso é natural que se tenham entendido sobre aquelas que, segundo Crato e Viegas, são as de maior "importância histórica".
E sobre ela tenho pouco a comentar. Vejo que "abrange longas e curtas metragens de vários géneros". Tem filmes "mudos, westerns, musicais, de animação, e documentários". O que praticamente não tem é cinema.
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