
O Reino Unido tem para a troca um primeiro-ministro que vinha de férias a Aljezur, viajava na Easy-Jet, e ganhou todas as eleições a que concorreu desde que começou a liderar o seu partido, mas se demitiu por ter perdido um referendo. Moço bem parecido, mesmo de t-shirt, calções e mocassins, e europeísta convicto, mas que nunca cedeu um cêntimo dos contribuintes britânicos à voracidade da máquina de gastar dinheiro de Bruxelas.

Portugal, em troca, ganhou um primeiro-ministro que passa a vida em Paris como emplastro da Selecção, viaja de Falcon, perdeu todas as eleições a que concorreu desde que lidera o partido, e só sai se for corrido à paulada. Moço burgesso, mesmo de casaquinho de basebol no banco de trás de um Falcon, fala grosso sobre Bruxelas e tem na manga a interpretação inteligente dos tratados, mas acaba por comer tudo o que põem no prato.
Previsivelmente, um manto de bem-pensismo espalha-se pela opinião sobre o que fazer na sequência do atentado em Paris.
Assenta na constatação de que a maioria dos muçulmanos é feita de gente pacífica e ordeira, nas declarações de clérigos e cidadãos daquela confissão que repudiam o terrorismo (em termos que, como os que usou o muito nosso xeique, deixam clara o rejeição), no medo de a reacção dos Estados, para reforçar a segurança, se traduzir numa diminuição das nossas liberdades e em abusos das autoridades (como sucedeu com o Patriot Act) e ainda no facto de personagens como Marine Le Pen e todos os xenófobos quererem aproveitar a boleia para fazer passar os seus radicalismos de estimação, que incluem, no caso daquela senhora, a defesa de verdadeiros retrocessos civilizacionais, como a restauração da pena de morte.
É normal assim que se acentue a origem argelina dos terroristas, o facto de serem cidadãos franceses e o atentado ter destinatários escolhidos, e de o islamismo não ter o exclusivo da violência terrorista, para reduzir o sucedido a uma circunstância infeliz, quase um caso de polícia, a resolver com uma melhor organização e mais fundos para os serviços de informações - e pouco mais.
É passar ao lado do problema: não há sociedades islâmicas onde se respeite aquele núcleo de valores, e conjunto de liberdades, que caracterizam as nossas sociedades democráticas do Ocidente; e não há qualquer sinal de evolução - pelo contrário, os direitos das mulheres, por exemplo, não apenas não progrediram em nenhum daqueles países onde, na sequência da Primavera Árabe, se instalaram novos regimes, como se pode dizer que as ditaduras que já tinham sido derrubadas militarmente, como a de Saddam e Khadafi, deram lugar a regimes mais retrógrados ainda do que os derrubados - exactamente o que já tinha sucedido na Pérsia, com a queda do Xá.
Mesmo na Turquia, que sofreu um processo de modernização forçada por uma ditadura militar que trouxe o país para o séc. XX, há permanentemente uma tensão latente entre os militares, que guardam a herança da laicização, e o regime democrático - que a quer reverter.
Cabe perguntar então se estas massas de muçulmanos que a França e o Reino Unido acolhem contêm forças para se opor ao radicalismo islamita. Depende: se chamarmos radicalismo apenas aos movimentos terroristas, a resposta de boa fé que posso dar é que, provavelmente – sim. Sim, não são tolerados, mas o Charlie Hebdo também não. Nem as mini-saias, nem a liberdade de expressão, nem o ateísmo, nem uma longa lista de outros nens.
Mas é preciso não saber nada do que se passa nas comunidades muçulmanas inglesas, ou francesas, ou holandesas, ou suecas, para achar que são assimiláveis. Não há quaisquer sinais de que sejam, e pelo contrário à medida que crescem em número aumentam o seu pendor reivindicativo - em nome da vossa liberdade exercemos a nossa fé, em nome da nossa fé queremos anular a vossa liberdade.
Razões por que se faria bem não em arranjar um bode expiatório para os problemas das nossas sociedades, nem espoletar uma caça às bruxas, mas em tomar medidas preventivas, como disse aqui. Já basta que as sociedades muçulmanas tenham muito mais filhos que as nossas, sem ainda se lhes reforçar os números com o escancarar das portas.
A toda a gente, que é muita, cheia de boas intenções, seria de lembrar que é destas que o Inferno está cheio; e que, se os poderes vivem longe das realidades, nem todos os eleitores têm esse privilégio, pelo que, crescentemente, gritam: não queremos este tumor!
Os políticos da situação deviam ouvir. Para não serem substituídos.
Henrique Monteiro, pessoa com a qual tendo geralmente a concordar, preencheu a sua coluna no Expresso com um texto apaixonado que fui lendo com gosto até tropeçar na seguinte frase: "Que ganharam com isto, seus parvos? Pensam que vamos dar força aos que querem expulsar os islâmicos da Europa? Não vamos. São bem vindos, porque como costumamos dizer, Bem vindo seja quem vier por bem!"
Tenho dúvidas, Henrique, muitas dúvidas. De adquirido, sabemos que a maioria esmagadora dos Muçulmanos é feita de gente pacífica, que veio para o Ocidente à procura de vida melhor. Nisso, não são diferentes dos Portugueses, que tradicionalmente dão à sola da terra apertada e pobreta em que viram a luz.
Mas os Portugueses levam o caldo verde, o galo de Barcelos, a língua, a saudade, a memória da grandeza pretérita do seu país, e o desejo de voltar. E voltam, se não ficarem amarrados pela geração seguinte, que foi educada noutras paragens, criou laços locais e que em muitos casos já não se sente, nem é, verdadeiramente portuguesa. Na condição de trabalhadores estrangeiros, tendem a distinguir-se por não se notarem, guardando pela cultura, as regras, os hábitos, as leis do país de destino, o maior respeito. A revolta, que não expressam de outra maneira senão com desabafos doridos, guardam-na para o seu país de origem, que lhes parece, quando é e quando não é, irremediavelmente inferior.
Isto é assim quer em pequenas quer em grandes comunidades. Mesmo que a dimensão seja suficiente para haver secções inteiras de produtos portugueses em certos mercados, como sucede em Paris, ou que haja clubes de futebol e associações de todo o tipo, ou certas profissões com uma representação desproporcionada de Portugueses (no Brasil, na África do Sul, na Venezuela), nunca a comunidade é percebida como um corpo ameaçador.
Outro tanto não sucede com as comunidades muçulmanas. Estas não se distinguem apenas por toilettes diferentes, coisa que as sociedades ocidentais encarariam sem pestanejar. Não: os próprios trajos, na diferença que impõem às mulheres, impedindo-as de mostrarem o cabelo, e em muitos casos a cara ou as pernas, traduzem a rejeição de algo que nos é essencial e que representa o culminar de um longo e doloroso processo, e que vem a ser a igualdade em direitos dos sexos.
Os Muçulmanos negam esta igualdade. E negam-na não apenas na mesquita (direito que aliás lhes assiste, em nome da liberdade religiosa) mas nas casas, na rua e nas suas leis, que pretendem sobrepor às nossas logo que tenham a massa crítica, conjugada com a cega tolerância do relativismo cultural que deixamos medrar entre nós, que lhes permita ter os seus bairros, os seus estabelecimentos e as suas escolas.
Todas as outras liberdades e direitos passam igualmente pelo crivo do Alcorão, dos Hadiths e da Sharia. E estes textos medievos, comportando embora leituras diferentes segundo as tradições, as seitas e as escolas, diferem dos equivalentes cristãos num ponto essencial: a César o que é de César, disse Cristo - e as igrejas que falam em nome Dele fazem o possível para que César verta na lei, nas escolas e na prática os ensinamentos da interpretação eclesiástica das Escrituras. Coisa que César (que nas sociedades democráticas, por muito mediata que seja a representação, é o povo, quando não a volúvel opinião pública) umas vezes faz e outras não.
Maomé não disse nada de parecido. E pelo contrário, como era um chefe civil e militar, quis ser, e foi, ao mesmo tempo, César e Papa, deixando essa herança aos crentes.
Isso, conjugado com o relativo atraso das sociedades muçulmanas de origem, faz com que a sociedade muçulmana seja muito mais difícil de reformar: o chefe civil sabe que não pode ofender o chefe religioso, porque isso abana todo o edifício. O imigrante traz esta carga consigo: o governante que ignora Alá não é, por definição, legítimo.
Como e quando se vai remover este obstáculo no caminho da tolerância não faço ideia. E, de resto, cada país e cada região do globo tem os seus problemas - cada qual sabe do que lhe convém, com excepção dos Americanos, que sabem o que convém a todos.
Portanto, meu caro Henrique, alguns de nós são a favor da expulsão dos que, não tendo a nacionalidade, pratiquem crimes; de quotas na imigração que impeçam que as comunidades muçulmanas adquiram demasiada importância; do respeito rigoroso das leis, e de investigações sérias do que se passa com coisas como excisões de clitóris, incitamentos no púlpito e nas redes sociais à violência, casamentos forçados e toda a parafernália de abusos e atropelos em que as comunidades muçulmanas, quando de dimensão significativa, são férteis.
Entre nós o problema, praticamente, não existe. Mas, por um dia, também fui francês. E lá estas e outras medidas vão, creio, suceder, com Marine ou sem Marine. Se era isso o que os terroristas queriam - ganharam.
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