Aparentemente, há 10 anos foi uma doméstica. Desta feita, um torturado.
Pouco importa que Nuno Júdice não tenha uma única linha escrita que valha a pena ler. Ele viu "as mulheres azuis do equinócio" (partindo do princípio de que ele sabe o que são mulheres, eu punha uma apostinha em como não faz ideia do que seja "o equinócio"; 5 moedas em como ele diz que "é, por exemplo, quando passa do verão para o outono"). E sentado com as costas viradas para qualquer coisa que interesse, espremido na derrota intuida de que aquele mulherame joga numa liga superior (o falhanço no engate vende "poesia" como pãezinhos quentes), carrega nas teclas do portátil: "Espreitei-lhes o sexo por onde escorria o líquido branco de um início".
As metáforas são pindéricas ao ponto da compaixão: "Onde estão essas mulheres? Em que leito de rio dormem os seus corpos (etc.)?". Trocar o "leito do rio" com o "leito" onde se deitam as pequenas é uma ideia que não foge a nenhum vate português com idade superior a 11 anos.
Compreende-se. Em Portugal, um deprimido é "inteligente"; se é um mono, é "intimista"; se é irrelevante, é "profundo" (quem não dá valor é porque "não está preparado"); se é indecifrável, é "erudito"; se é monótono, "tem um registo próprio"; se usufruiu dos favores da família Soares, é "um democrata" e "um homem da revolução"; se escreve "mar", "flores", "areia", "rio", "vento", "chuva" (ou qualquer outro fenómeno atmosférico), é "poeta"; se falar de "líquidos", de preferência "a escorrer", além de "poeta" é "erótico"; se não fizer sentido, é "artista".
Estou convencida que, no meio destes protocóis "ibero-americanos", deve haver uma cota para portugueses. Contemplada no regulamento dos "concursos". De 10 em 10 anos, lá vai prémio para um boneco.
O país fica judiciosamente indiferente.
Os "académicos", e restantes depositários "da cultura", mordem-se de inveja, disfarçando como podem, dentro de uma roupa preta (t-shirt incluida) - que é o uniforme de rigueur. Enquanto, naquela agonia, compõem para "o Nuno" um elogio sem medida.
E as donzelas que os consomem, falsas-freiras quase todas e convencidas que aquilo que lêem é "literatura", recebem a notícia com os olhos húmidos, possuídas de "orgulho" por esta conquista tão "nossa".
Nesta altura do ano rebentam as flores dos jacarandás. A cidade fica muito bonita, cheia de manchas azuis que estão primeiro penduradas nas árvores, decorando as fachadas, recortadas nas ruas, entretendo o trânsito. Depois estão no alcatrão, nos relvados, nas calçadas, nas varandas, nos telhados, e no tecido de memórias azuis que tenho no meu cérebro, em cima de um móvel de canto onde guardo os anos felizes que passei na Câmara Municipal de Lisboa.
As casas de banho novas do Parque Eduardo VII estavam quase acabadas. Só faltava decidir sobre a pintura final. Chamada a dar o meu palpite, desloquei-me à obra e pedi ao empreiteiro que fizesse um teste com três cores diferentes, numa parte da parede exterior do conjunto. Passados uns dias, após a secagem das amostras, voltei à obra para uma reunião com "os responsáveis". A fim de tomar a decisão, apresentaram-se o arquitecto (o projecto não era meu), o construtor, uma série de vereadores, e o próprio presidente da Câmara, que não quis faltar uma vez que estava "pessoalmente muito empenhado" no processo e queria assegurar-se que tudo estaria pronto para inaugurar na Feira do Livro, dali a uma semana ou duas.
Foram os últimos a chegar, e vinham do lado de cima. Ouviam com atenção a aula de história que o presidente desenvolvia, gesticulando, parando para apontar, provocando gargalhadas espontâneas e acenos de cabeça. Pareciam um grupo de crianças, as gravatas a esvoaçar, os casacos desapertados como os bibes no recreio. "De maneira que isto, por aqui fora, era tudo putas", foi a parte que ouvi quando já estavam a poucos metros.
De seguida, deram-se as apresentações. Trocaram-se apertos de mão e os vereadores trocaram olhares cúmplices e divertidos. De pé, todos dispostos em bateria, semicerraram os olhos e fizeram silêncio por uns segundos, contemplando os rectângulos de tinta colorida, concentrados a apreciar. Da boca socialista do presidente que, apesar de calado, nunca tinha chegado a fechá-la, saiu uma decisão. "Vermelho está fora de questão. Epá, para vermelho já me basta as gajas uma vez por mês".
Aturdida com a sensibilidade do poeta, com o coração enaltecido por sentir os destinos da cidade entregues a este homem enorme, distraí-me das razões que levaram à exclusão da outra cor. Mas foi assim que em Lisboa, ao fundo do Parque Eduardo VII, para servir a Feira do Livro e os aflitos do ano inteiro, nasceu um edifício de casas de banho da cor das flores dos jacarandás.
(Originalmente publicado no Senatus, em 21 de Março 2012)
Comemora-se hoje o "Dia Mundial da Puézia", data que me cumpre assinalar. Esta data traz-me uma grande satisfação, porque vejo a puézia por todo o lado. E a puézia tem muito que se lhe diga.
Temos, por exemplo, a puézia popular, que é aquela que costuma vir espetada nos manjericos e nas entrevistas que os sociólogos fazem às pessoas da província. As televisões contribuem com alegria e sentido patriótico para a divulgação deste tipo de puézia, indo recolhê-la aos lares de idosos: ainda há bem pouco tempo, vi uma senhora muito lavadinha, a quem as "auxiliares de prestação de cuidados de terceira idade" tratavam na primeira pessoa do plural (vamos então dizer os nossos versinhos agora, está bem dona Helena?) debitar umas linhas de grande acutilância. São abordados temas de cariz político e grande abrangência geo-estratégica. Os sujeitos são, regra geral, os ricos e os políticos. Costumam, depois de umas voltinhas engraçadas, ser enviados para a França, para a casa deles, para a prisão ou para a puta que os pariu.
Noutro patamar, temos a puézia das grandes operadoras de telecomunicações. Este segmento literário costuma ser encontrado nas caixas de email, nos cartões de Natal e no facebook. As frases são sempre afixadas em cima de fotografias com relvados, passarinhos, crianças, mar, túneis de luz, cascatas ou animais domésticos. Os autores não costumam ser mencionados, porque o divulgador já se apropriou daquelas mundividências floridas e o que interessa é a mensagem. Noutros casos, essas frases são assinadas por um leque muito vasto de autores que toda a gente respeita, entre os quais o Dalai Lama, o Confúcio, o Paulo Coelho e a Sophia. Os agentes mais trendy publicam obras centradas no sol, nas praias, e nas "férias na neve". As "férias na neve", só por si, merecem uma reflexão, que fica desde já prometida para quando me faltar assunto. Estes textos entopem o leitor com energias positivas, e as caixas de notificações com ameaças de esperança, que vão desde a fartura em dinheiro à abundância em paz, em saúde ou em pirafos, desde que o receptor se comprometa a partilhar aquilo com uma quantidade bíblica de inocentes.
Qualquer uma das versões anteriores se encontra dentro das áreas de expressão artística da minha predilecção. Mas aquela que mais me intriga e, por isso mesmo, mais me fascina, é a puézia erudita. Esta costuma ser divulgada em programas específicos na RTP 2. Por vezes, também agarramos alguns pedaços em entrevistas publicadas nos cadernos de fim de semana dos jornais de grande tiragem. São as chamadas "reportagens de fundo" e chegam-nos através da secção de "cultura".
Gosto tanto de "cultura" como gosto de "puézia", principalmente desde que me tenho dedicado a investigá-la e já consegui desvendar alguns segredos. Há várias categorias, bem entendido, e algumas são mais apreciadas do que as outras. Há quem rime e quem não rime, eu prefiro quando rima: sempre temos um trabalhinho bem acabado.
Deve ser escura, esta puézia. Não interessa a ninguém uma historieta de sucesso. Para isso temos as conferências sobre "Empreendedorismo, Criatividade e Inovação". As personagens devem ser porcas, desgraçadas, e urbanas. Convém uma luz antiquada, para conferir à coisa o carimbo de qualidade de uma erudição formada na história. E um elemento de modernidade, mas não muito exagerado: uma referência ao cinema chega perfeitamente.
Não se dispensam os palavrões: puéta que é puéta projecta o que vê do mundo em todas as suas manifestações, não circunscreve a linguagem a exigências de chazinhos finos. As palavras devem ser "rigorosas" e também "acutilantes". Algumas podem ser inteligíveis.
Depois precisamos de um enredo. Imaginemos um idiota deprimido, sentado num café, a emborrachar-se com uma porcaria qualquer. Olha para a empregada de mesa e confunde-a com uma actriz (convém ser estrangeira, mas não americana). Enche-se de entusiasmo (obrigatória uma referência às "pulsões sexuais", que são "identitárias"), avança em direcção a ela, e faz-lhe uma proposta indecente.
Por fim, falta seleccionar os sons (atentos que devemos estar à "musicalidade do puema") e distribuir os factores numa composição toda entrecruzada. O título deve ser uma parvoíce.
Segue um exercício, para provar que existe uma puitiza dentro deste carroceiro que vos escreve.
A possidónia
De tarde, miserável sobre um cálice de absinto,
Perturba-me a gordura de uma epopeia morta,
E atrás de uma vidraça, a cintura da Binoche;
Como uma ideia espessa, contenho uma comporta,
Num passo indispensável, seguro num jacinto,
E rogo à criatura que me faça, ali, um...
(Só é chato quando não se consegue encontrar uma rima.)
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