Domingo, 13 de Outubro de 2013

"Proíba-se!", dizem eles

 

 

Estou comovida de ver tantos "liberais" preocupados com a "segurança" dos cidadãos que se preparam para atravessar a ponte na manifestação da CGTP.

 

Compreende-se. A ponte é muito alta, e muito estreitinha, e muito comprida, e só de olhar é aflitivo. Não faz sentido comparar com as maratonas, nem com as feijoadas, porque nessas circunstâncias os cidadãos estão todos alegres e amigos uns dos outros, partilhando momentos de convívio saudável em que a felicidade e o bem estar afastam a hipótese de acidente.

 

De resto, pela natureza das outras travessias, estiveram adultos, crianças, velhos, famílias inteiras de pessoas cujo interesse era a correria, a patuscada, e o ordeiro regabofe. No caso da manifestação, trata-se maioritariamente de adultos, unidos no interesse de protestar em conjunto contra as políticas deste governo, portanto o mais provável é decidirem trocar uns estalos e sabe-se lá onde é que isto pode ir parar.

 

Pessoalmente, mais depressa me travava de razões por motivos de uma orelha de porco. Eu nem sou apreciadora das extremidades dos bichos, mas há princípios que não estou disposta a abandalhar. E uma maratona dificilmente passava sem um desaguisado: não vejo com bons olhos que uma série de imbecis passe por mim aos encontrões, correndo enlouquecidos para provar que são os melhores a fazer uma coisa que não serve para nada.

 

Facilmente me apanhavam numa manifestação, desde que ela tivesse propósitos concretos e pretendesse varrer quem prejudica directamente a minha vida, levando o meu dinheiro e servindo-me embaraços ("o governo" é uma coisa muito genérica e, aparentemente, por razões que presumo de etiqueta, é suposto que todos os países devem ter um). Estaria disposta a atravessar a ponte a pé se fosse rodeada de uma multidão que injuriasse a RTP, por exemplo. Ou a Direcção Geral do Património Cultural, que também é uma flor que nem vos conto (como tudo o que se chama "cultural"). Ou a Agência para a Energia, "ADENE" para os mais chegados, que em matéria de extorsão não tem lições a aprender.

 

Encarava mesmo com gosto uma descida até Almada para gritar insultos, gratuitos e pessoais, a um frontão de pássaros (quase todos medalhados) cuja bazófia, vacuidade, e superior descaramento, os portugueses têm suportado com paciência. Penso até que, a par com o chinquilho, esta actividade devia ser reconhecida pelas suas propriedades terapêuticas. E a quem sobra tempo, como os reformados, os desempregados, e os contemplativos, podiam ser emprestadas figuras desta malta à escala natural, construídas em papelão, para servir de mote em bonitas sessões de improviso a decorrer nos jardins públicos. Ganhava o concorrente que acertasse no insulto mais relaxante (fosse "madraço", "bichona", "totó", "badalhoca", "azeiteiro" ou "corno manso"), independentemente de estar ou não adequado ao boneco.

 

Anualmente, seria agendada a gala final deste concurso com uma passagem a pé sobre uma obra do regime, e os portugueses estavam todos convidados a celebrar os insultos com que se aliviaram durante a fase das eliminatórias. Seria uma manifestação de despudor e liberdade, sobrevoada pelos helicópteros das estações de televisão, e o país inteiro poderia assistir (em directo ou em diferido) ao acontecimento nacional, devidamente esmiuçado por painéis de comentadores, eles próprios representados na sessão solene através do respectivo gigantone.

 

Fica a minha sugestão. Até lá teremos de aproveitar as iniciativas da CGTP, que será responsável por devolver a ponte em condições. Cada cidadão tem a liberdade de decidir arriscar ou não a sua vida num percurso tão "perigoso". E os "liberais" portugueses, com a vossa licença, que se ocupem da "segurança" da sua instrução política, se não querem continuar a aparecer ao povo como uma penosa cambada de presumidos.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 16:00
link do post | comentar

Com Grande Transtorno Porém

O departamento do PCP para assuntos sindicais resolveu fazer uma manifestação que atravessa a Ponte 25 de Abril.

 

Não se sabe - eu, pelo menos, não sei - porquê atravessar aquela ponte e não uma das praças, ou avenidas, habituais. Talvez o vermelho das bandeiras ganhe com o azul do céu em fundo, talvez os manifestantes, com os semblantes irados, segurando virilmente cartazes com censuras ásperas ao governo fascista, deem excelentes photo-opts sem o enquadramento habitual dos prédios lisboetas - vá-se lá adivinhar.

 

Sucede que as autoridades competentes acham o percurso perigoso, mas as razões, decerto ponderosas, não foram divulgadas: pode ser que as palavras de ordem, sincronizadas, tenham um efeito deletério no aperto das porcas, tornando-as soltas; ou libertem, por influência das vibrações, os rebites; ou se admita que um ou outro manifestante possa ser mais liberal no consumo de mines, e, influenciado pelo clima de desgraças e falta de futuro, que a manifestação justamente verbera, vá a ponto de amplificar o impacto da manifestação pelo efeito de se atirar ao Tejo.

 

Seja como for, a CGTP não aceita a sugestão de se ir manifestar para uma ponte mais consensual e encasquetou nesta. E, sem dizer nada sobre as verdadeiras razões da importância da Ponte Salazar, rebate com bons argumentos os das autoridades.

 

Pense-se o que se pensar da CGTP, não há dúvidas de que não há perigo de aquela organização não saber controlar uma multidão; e que é perfeitamente capaz de avaliar os riscos em presença e coarctá-los.

 

O Governo pode portanto poupar-se o risco de um confronto inútil ou, pior, dar pretextos a queixas de perseguição, ou ainda evidenciar um temor para o qual não tem razões.

 

A CGTP pode perfeitamente bloquear o trânsito naquele sítio, em vez de outro qualquer, tanto mais que o dia não é útil. E, embora não tenha credenciais na área da segurança, creio estar em condições de poder afirmar que, ainda que fosse o dobro a quantidade de autocarros que virão a Lisboa despejar manifestantes, sempre a ponte, que já aguentou uma mudança de nome e de regime, pode bem aguentar uma manifestação.

publicado por José Meireles Graça às 01:09
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Últimos comentários

O blog fechou? Aconteceu alguma fatalidade? Digam ...
Como me fiei em endereços do seu perfil, recebi a ...
Perceber da Vida é o melhor, gato. Obrigado.
Muito bom post, no seu estilo. Mordaz, q.b.E que e...
Extintores (https://www.comprarextintoresbaratos.e...

Arquivos

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

angola

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cds

censura

cgd

cgtp

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desigualdade

dívida

educação

eleições europeias

ensino

esquerda

estado social

ética

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

gnr

grécia

greve

impostos

irs

itália

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

partido socialista

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

populismo

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

rui rio

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

trump

ue

união europeia

vasco pulido valente

venezuela

vital moreira

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds