Há por aí alguém que seja contra a qualificação dos cidadãos? Ou que não queira dinamizar o crescimento sustentado? Que veja com maus olhos a coesão social, encare com reservas a qualificação dos territórios e das cidades, e lance um olhar céptico sobre o aumento da eficiência e qualidade dos serviços públicos?
Se houver, essa avis rara terá a maçada de indicar qual o destino a dar a 21,5 mil milhões de Euros, que é quanto, generosamente, a União Europeia, desde 2007 e até 2013, já gastou e se propõe gastar para a prossecução dos nobres propósitos acima enunciados.
A ideia de "qualificar" os cidadãos costuma ser o manto ao abrigo do qual se gastam incontáveis milhões para formação profissional. Sucede que, descontando casos pontuais de sucesso, ligados à utilização da informática ou a necessidades imperativas das empresas, que de todo o modo sempre fariam formação, e pouco mais, os ziliões gastos desde a adesão nunca tiveram influência significativa na taxa de desemprego (senão para a aligeirar enquanto duram as formações, que consistem geralmente nuns formadores a fingirem que ensinam uns formandos que fingem que aprendem umas larachas que de todo o modo não vão servir para nada).
O crescimento sustentado, conceito já de si prenhe de equívocos - crescimento toda a gente sabe o que é, a sustentabilidade depende de imponderáveis e de concepções sobre o futuro desejável - costuma ser o manto sob o qual se desenham apoios à indústria ou agricultura (apoio é a palavra púdica com que se descreve o financiamento da concorrência desleal), ou à construção de novas vias de comunicação, ou seja o que for que permita pensar que, com o investimento, vamos viver melhor. Sucede que, à medida que a cornucópia dos milhões se foi despejando em cima das nossas bocas sequiosas foi crescendo o produto um pouco, e a dívida muito.
E não se levará assim a mal uma pergunta desajeitada: não era melhor que o que ainda falta investir fosse abatido à dívida pública, na parte em que a União Europeia é credora? Assim como assim, se estão dispostos a dá-lo, fazíamos-lhes a fineza dessa poupança e já escusávamos de pagar 5% sobre o que nos emprestam, no mesmo montante.
As agências que distribuem a pitança, e este organismo, que observa a distribuição, poderiam com tranquilidade ser extintos. Uma pequena poupança, decerto, mas é de grãos de areia que se fazem as dunas.
Não vai acontecer, é claro; que o mesmo organismo que nos salva emprestando-nos dinheiro a 5% é nosso amigo: quer que, mesmo assim, o Estado se ocupe da qualificação dos cidadãos, da dinamização do crescimento sustentado, e de todas as outras tretas, não vá a gente lembrar-se de viver dentro dos nossos meios e ignorar quem sabe melhor do que nós o que nos convém.
Ou seja, não temos dinheiro para a sopa. Mas, de sobremesa, fazem-nos falta uns docinhos. Eles sabem. Tartufo também.
Hoje ouvi Alexandre Alves a explicar na Sic-N, em entrevista a Crespo, em que consiste o investimento que vai fazer, e não percebi patavina. Não entendi sobretudo a parte relativa à pureza do silício e, mortificado, não descarto a hipótese de usar cilícios para me castigar (eu sei: o jogo de palavras foi aqui metido a martelo, mas não resisti). Mas gostei: o Estado não faz falta, os novecentos mil Euros da Câmara de Abrantes são peanuts, as multinacionais estão interessadíssimas, a coisa vale mil milhões de investimento, a CGD não faz falta e ele é o barão vermelho por causa de ser benfiquista.
A parte em que o Estado e a CGD saem do negócio, então, caiu-me que nem ginjas: porque tenho lá interesses, nessas duas emanações do meu capital como contribuinte, e quando ouço falar em QREN, ou qualquer outra sigla que represente dinheiro europeu e nacional para ser aplicado por políticos e burocratas em projectos que uns e outros acham de interesse - levo instintivamente a mão à carteira.
Desconfio dos painéis solares e das energias alternativas porque, sem apoios do Estado, ou directamente dos consumidores por imposição do Estado, não são competitivas. Isto já não é nada pouco. E se já me custa acreditar que políticos e burocratas saibam melhor do que as pessoas comuns o que lhes convém, descubro agora que há quem, com boas razões, ache o apoio contraproducente, mesmo do ponto de vista da urgência da substituição dos combustíveis fósseis.
Boa sorte então, Alexandre Alves. Se tudo isto não for um fogo-fátuo a acabar em ruínas e calotes, tirarei, com respeito, o meu chapéu. E quanto a este senhor que sabe o que fazer com o meu dinheiro e o de outros pategos contribuintes, daria um excelente quadro para o departamento de marketing: pois se sabe vender miragens não haveria de saber vender painéis?
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