Eu propunha soluções mais participadas. O governo alugava uma cave em Algés. Daquelas com janelas à altura das peúgas que passam na rua, geralmente ocupadas por armazéns de contrafacção ou escritórios de linhas eróticas de valor acrescentado. Começava por lhe aplicar uma obra de restauro, que consistia em pintar todo o interior de verde chroma (paredes, tectos, portas, móveis, tudo), como se usa no cinema. Com a correspondente portaria, ficava estabelecido o Gabinete de Estudos.
A seguir mandava fazer bonecos de papelão com as fotografias em tamanho natural de todos os parceiros sociais. O de Arménio Charles levava uma camada reforçada de verniz de alto brilho nas zonas da testa e do queixo, para ficar tal e qual. Em sistema de turnos, ia nomeando peritos para presidir a Comissões constituídas por eles mesmos e meia dúzia de personagens fictícias, representadas por figurantes sorteados entre todos os gabinetes ministeriais. Cada equipa instalava-se, digamos, durante 15 dias e escolhia uma política pública para aperfeiçoar. Durante o meio dia da manhã, recebiam e respondiam a telefonemas dos telespectadores dos programas de antena aberta. Da hora do almoço em diante intrigavam com jornalistas.
Em cada momento eram escolhidos os parceiros sociais adequados à reportagem. Para o efeito, o senhor ministro Maduro, destacado para o local, encarregava-se de retirar da despensa os respectivos bonecos, colocá-los a jeito, e voltar a arrumá-los no fim dos trabalhos. Sobre o chroma, e em pós-produção, seriam projectadas bonitas imagens dos interiores de palácios ucranianos reunidas antes da ocupação.
Uma vez por ano, os contribuintes elegiam a sua equipa favorita de entre as 24 disponíveis. Cada contribuinte dispunha de um número de votos calculado pelos cupões atribuídos a concurso no Portal das Finanças, de acordo com as facturas registadas. Como é evidente, acabava-se com o sorteio dos Audis (que nunca foi uma boa ideia). Após um período de telefonemas, rigorosamente acompanhado por um representante do Governo Civil enfiado num fato fora de moda (como é de rigueur), apurava-se o perito que os portugueses queriam homenagear.
No dia previsto, feriado nacional, alugava-se o Terreiro do Paço ao dr. Costa. O aluguer consistia numa encomenda de rissóis de berbigão, confeccionados pelo próprio segundo a sua receita de família e em número suficiente para dar de lanchar a todo o povo que quisesse juntar-se à festa. A equipa chegaria ao centro empoleirada numa carroça puxada pelos 3 peritos mais votados, rodeada por uma escolta de campinos ribatejanos.
Com recurso a um sólido sistema de roldanas, os peritos (presos pelos pés) seriam içados ao palanque e primorosamente maquilhados para uma emissão em directo. Um cabeleireiro transexual, recrutado nas oficinas de reinserção do Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, ficaria encarregado de lhes ornamentar as cabeças com penteados alusivos à selecção portuguesa de futebol. Após esta homenagem sentida, um grupo de aposentados cantava “ó pavão, lindo pavão” enquanto refrescava o segundo e terceiro classificados com esfregonas previamente mergulhadas na gordura de fritar os rissóis.
O segundo classificado tomava posse como Secretário de Estado do Empreendedorismo, Criatividade, e Inovação; o terceiro como Comissário Europeu para a mesma pasta.
A jornalista Ana Lourenço aguardava impaciente pela sua oportunidade, quando lhe seria disponibilizado o perito-mor para entrevistar. De olhinho insinuante e beicinho vulnerável, levantava 2 ou 3 assuntos fundamentais e, quando não conseguisse mais segurar os seus impulsos, rapava de uma motosserra que trazia guardada na carteira e desmontava o campeão numa pasta informe de sangue, ossos, e cabelos, para dentro de um alguidar. Da multidão soltavam-se “bravos”, “vivas”, e fogo de artifício.
A parte protocolar das cerimónias seria encerrada com o discurso de um sociólogo prestigiado, tratando Portugal por “tu”. A festa prolongava-se noite fora numa borracheira colectiva, animada por canções de Charles do Carmo e outros bardos premiados. No dia seguinte, perante os vestígios e os eflúvios deixados das comemorações, os funcionários do lixo faziam greve.
Mas lá está; se eu mandasse no país isto ia de outra maneira.
Num fim de tarde, um cidadão sobreocupado pára para ler as notícias, por delas andar afastado há algum tempo, e descobre sem surpresa que o País continua igualzinho. Porque lhe dizem que é necessário fazer cortes de 1,2% do PIB para atingir em 2015 um défice de 2,5%, mas a coisa depende de estudos. E como entretanto há eleições de um grupo de notáveis para se juntarem a outros parasitas na Câmara dos Representantes e o eleitor não quer saber da Federação mas olha de lado para os cortes - os estudos vão ser inconclusivos.
De mais a mais, um dos grupos candidatos a fingir que tem uma palavra a dizer no Senado de Roma já anunciou o que pensa dos cortes: não são necessários, do que se faz mister é de corrupios no alto dos montes, bolsas para apurar definitivamente os efeitos no clima do bater de asa das borboletas-lobas, e a criação de clusters no sector das hortas e das enfermarias unissexo.
Entrementes, há teimosos que têm das coisas uma visão primitiva e rude. Por exemplo, vejamos este caso dos nadadores-salvadores: que resposta devem ter, depois de ponderados todos os interesses em presença? Dou uma pista: é o antónimo de sim. E quanto às velhinhas analfabetas? O caso é complicado, mas graças a Deus com alguma imaginação seria possível encontrar uma solução engenhosa: i) Extinguir a Secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade - um Ministro chega perfeitamente para se ocupar dos Assuntos Parlamentares e a Igualdade, na parte em que a consagração na Lei não chegue, pode esperar; e ii) A Senhora ex-Secretária põe-se à cabeça de um grupo de voluntários e vai ela dar aulas de alfabetização.
E agora que de uma penada já dei dois contributos - um para evitar despesa nova, outro para eliminar antiga - vou ver se trabalho mais um bocadinho.
«Um indivíduo está aborrecido com o emprego que tem, ou precisa de emprego ou ambiciona, por razões óbvias, ganhar mais. As coisas correm-lhe cada vez pior e as empresas privadas não o querem. Esclarecidamente, o indivíduo pensa no Estado, a que supõe o dever de lhe dar uma ocupação e proventos compatíveis. Não encontra nada ou o que encontra não o satisfaz.
Deste fracasso o indivíduo retira a conclusão de que o Estado não cumpre cabalmente as suas funções. Os seus enormes talentos merecem com certeza ser usados e seriam com certeza usados por um Estado que se prezasse. O indivíduo concebe então o plano simples de conseguir que o Estado reconheça a sua utilidade. Procura dentro de si sinais de distinção. Depressa se descobre uma especialidade, um amor, uma causa. Digamos, por exemplo, a casa portuguesa.
A casa portuguesa típica, que lhe despertou sempre surtos de paixão, desaparece lentamente da paisagem. As câmaras não a protegam; a Fundação Gulbenkian ignora-a; o público despreza-a. A preservação da casa portuguesa constitui um interesse social, digno da atenção do Estado. Aliás, todos os interesses sociais são dignos da atenção do Estado. O indivíduo decide, portanto, persuadir o Estado a encarregá-lo de preservar a casa portuguesa, tão ameaçada pela incúria, por autarcas néscios e pelos emigrantes.
Convoca três amigos: dois arquitectos e um autoproclamado sociólogo, como ele convencidos da sua importância e carentes de uns dinheiros. Os quatro põem-se em campo. Trata-se de obter acesso a um ministro ou a um secretário de Estado, através de relações pessoais ou de influências partidárias. O ideal é escolhê-lo num departamento com objectivos tão etéreos e brumosos como a própria preservação da casa portuguesa: a Cultura, a Qualidade de Vida, a Família, o Ordenamento Territorial, a Paz nas Consciências. Em rigor, qualquer serve, mas estes apreciam em particular os projectos fantásticos.
Imaginemos que o indivíduo e os três amigos se apoderam do ministro da Cultura. Tal ministro, principalmente se, como com frequência sucede, é analfabeto ou quase, jamais se atreverá a manifestar indiferença seja pelo que for que se lhe apresente como Cultura (com C grande). No "Botequim", Natália Correia vela. A esperteza reside em que tudo lhe pode ser apresentado como Cultura, até Natália Correia e a preservação da casa portuguesa. Intimidado, aflito, prevendo críticas devastadoras à sua relutância em preservar a casa portuguesa, o ministro rende-se. Discretamente, e supondo assim desembaraçar-se do sarilho, nomeia por despacho uma Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa, com o indivíduo e os três amigos, que passam a receber a remuneração mensal de cento e cinquenta contos, para o chefe, e cem cada, para os comparsas.
Ganhou-se a primeira batalha. O indivíduo adquiriu uma posição oficial. O próximo passo consiste em montar um cerco ao gabinete do ministro para lhe subtrair "espaço", isto é instalações. Como preservar a casa portuguesa nos corredores ou nos cafés? Sem telefones? Sem um sítio para guardar os papéis e atender pessoas? Os argumentos parecem racionais, a reivindicação justa. Comprometido no princípio, o ministro volta a render-se. A Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa instala-se em duas assoalhadas, num canto obscuro do ministério.
Daí reclama telefones, um contínuo (para recados), uma escriturária-dactilógrafa e um técnico de terceira, destacados de outros serviços ou contratados de fresco entre familiares indigentes. Como recusar pedidos tão lógicos e triviais? Existe a Comissão, existem duas assoalhadas: o resto segue-se. O trabalho vai, enfim, começar a sério.
A Comissão produz, após esforços esplêndidos, um documento de dezassete páginas, com título de: "A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural". Forte de semelhante obra, entra na matéria. Pouco a pouco, estende os seus tentáculos. Ocorre-lhe desde logo que os seus objectivos são intradepartamentais. A casa portuguesa também é da responsabilidade dos ministérios das Obras Públicas e Habitação, da Qualidade de Vida e dos Assuntos Sociais. A Comissão exige, por consequência, que se forme uma subcomissão com "representantes qualificados dessas áreas", e que se lhe atribuam os respectivos subsídios. Requisita, evidentemente, um carro para as tarefas de coordenação (e para ir a Sintra aos domingos). Mas não se esquece nem das autarquias nem dos emigrantes. Cheios de zelo, os seus membros partem para a província, enquanto o chefe, com mais majestade, "se desloca" às colónias portuguesas no estrangeiro, com o objectivo de esclarecer os emigrantes sobre as vantagens de "manter o perfil" das nossas queridas aldeias.
Entretanto, o chefe já informou o ministro da impossibilidade física de prosseguir estas enérgicas actividades em duas meras assoalhadas. Em luta dura com várias direcções gerais, institutos e gabinetes, a Comissão acaba por conquistar mais cinco e aumenta o seu pessoal de sete para vinte e sete. Chegou a altura de se ocupar da decisiva questão dos "contactos internacionais". A inutilidade notória do exercício assegura que a Comissão brilhará. No Conselho da Europa, na UNESCO, em viagens diplomáticas à Assíria e ao Daomé, o chefe e os sócios discutirão moções, aprovarão recomendações, estudarão acordos de intercâmbio, comerão jantares e tirarão retratos. O mundo ficará sabendo que Portugal, país civilizado, se preocupa com a preservação da casa portuguesa. O orçamento da Comissão subiu de três mil contos por ano para cinquenta mil, o que a torna uma coisa digna de respeito e, pelo menos, de uma condecoração da Embaixada Francesa.
A Comissão, porém, é precária. Não tem lei orgância e não tem quadro. Acima de tudo não tem quadro. Os seus membros e empregados vivem no risco de despedimento, o que compreensivelmente os perturba, impedindo-os de trabalhar como gostariam. Para eles, os seus inestimáveis serviços justificam, mais, clamam, que lhes seja concedida segurança e aposentadoria. O ministro da Cultura entende esta angústia, porque aprecia que os seus subordinados o estimem. O ministro das Finanças, que não entra no ministério da Cultura, não se comove tanto. Mas é-lhe explicado o alcance da preservação da casa portuguesa, a sua indispensabilidade, o prestígio que a Comissão adquiriu em Bogotá e em Munique, e ele contrariadamente cede.
A Comissão transforma-se, deste modo, em Instituto para a Preservação da Casa Portuguesa, com um quadro de oitenta lugares, sendo cinquenta instantaneamente preenchidos. Muda de instalações, recruta telefonistas, motoristas, contínuos, técnicos, conselheiros, assessores. Gasta agora duzentos mil contos. O chefe inscreve-se no PSD e fala-se discretamente dele para secretário de Estado, em parte por causa de um livro de excessivo mérito chamado "A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural".
A moral da história é a seguinte: se amanhã desaparecessem duzentos mil funcionários públicos, ninguém, excepto os próprios, daria por nada. Ou daria - daria porque pagava metade dos impostos.»
Vasco Pulido Valente
(Diário de Notícias, 5 de Fevereiro de 1984)
Sobre o que se discutiu na conferência "Pensar o Futuro - Um Estado para a Sociedade" sabemos pouco. Não é grave, uma vez que a substância dos assuntos abordados é de interesse muito relativo para a generalidade dos portugueses. Os portugueses são, como é sabido, cidadãos pacatos sem grande inclinação para se interessarem sobre o que não lhes diz respeito. Penso que até existe, perdido numa prateleira poeirenta da Universidade de Coimbra, o registo de um provérbio muito antigo, cujo texto desconheço, mas que não vê com bons olhos que andemos a meter o nariz na vida dos outros.
Subordinados à regra de Chatham House, os admiráveis jornalistas da agência Lusa e da Antena 1 (entre outros) resolveram abandonar a sala. Fizeram exactamente o que se espera dos funcionários ao serviço do "interesse público", cujos salários constam das alíneas do orçamento de Estado português, e são pagos pelo contribuinte: não se deixaram humilhar.
A vitalidade do jornalismo é um dos mais incontroversos motivos de orgulho nacional.
Por exemplo:
Acontecimento
"Raquel Fortunato Bentinho almoçou uma salada de frutos do mar com o marido de Ilda Pereira. O encontro decorreu no restaurante "Gaivota Feliz", sobre a falésia de São Paio da Salema. Adérito Cansado, vogal da Junta de Freguesia de Portacho, Concelho de Galega Velha, e proprietário do estabelecimento, lamentou que a chuva intensa que se fez sentir não permitisse a abertura das portadas de vidro*.
(publicado às 18:37 do dia 15 de Janeiro de 2013)
* Última actualização: 16 de Janeiro de 2013, 13:07"
Títulos da Imprensa
"População Manifesta-se Chocada com Adultério de Galega Velha";
"Ilda Pereira pondera processo judicial contra Raquel Fortunato Bentinho no âmbito da protecção do interesse de menores";
"Idosos de Portacho não compreendem a recondução de Adérito Cansado ao executivo da Junta de Freguesia";
"Hábitos Alimentares dos Portugueses: 50% da população do sexo feminino insiste em abusar de alimentos com elevado teor de poli-insaturados, com graves prejuízos para a sustentabilidade do SNS";
"Galega Velha em ALERTA LARANJA";
"Ministério do Ambiente prepara legislação aplicável à indústria de Hotelaria com vista ao controlo das alterações climáticas";
"AQUECIMENTO GLOBAL - Para quando a responsabilização do sector da Hotelaria e Restauração?";
"Autarca de Portacho acumula o cargo com participação em grupo económico do sector alimentar, com interesses na região";
"Lei-Base das Incompatibilidades: Oposição aponta divergências no seio da maioria".
Foi assim que nos acostumaram. Isto, estimados leitores, é jornalismo sério. Crítico, responsável, e livre de constrangimentos.
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