Sexta-feira, 2 de Março de 2018

A 10 à hora

Porque não há tecnicamente qualquer problema em limitar a velocidade dos próprios veículos, acabando de vez com os excessos: basta instalar limitadores invioláveis, que aliás já estão em uso em camiões (e até em alguns ligeiros por acordo entre fabricantes).

 

Isto disse eu há pouco mais de um mês. E, por causa desta notícia, vejo-me obrigado a concluir com desgosto que ando a ser lido em Bruxelas, um lugar notoriamente mal frequentado onde ao dobrar de cada esquina se pode tropeçar seja num muçulmano seja num europeísta, duas categorias de pessoas que a prudência recomenda se mantenham a uma saudável distância, as segundas mais perigosas por se vestirem de forma a não se distinguirem das pessoas comuns.

 

Duvido que seja possível até Maio que os novos automóveis já venham com estas extraordinárias modificações. E suponho que algumas mudanças implicarão “investimentos” dos poderes públicos no reforço da sinalização que seja mais facilmente reconhecível pelo hardware que vem nos veículos, assim como numerosos acertos tanto nas mudanças a introduzir na tecnologia para satisfazer todos os delírios securitários das “autoridades” como na legislação para garantir que não haverá quebra duradoura de receitas oriundas de multas.

 

E estranho que não haja ainda reacções dos condutores alemães a este português atrevido e com cara de conas (sim, o burocrata que decide é português) que nunca ninguém elegeu para coisa alguma, e que graças a Deus era até agora apenas mais um parasita anónimo, entre milhares, ocupado a encanzinar a vida de quem gordamente o paga, sobre a impossibilidade de guiarem, na maior parte das autoestradas do seu país, nos seus seguríssimos carros, à velocidade que entendem.

 

Isto tem porém pernas para andar. Preenche o velho sonho igualitarista de andarmos à mesma velocidade, já que não podemos todos ter automóveis com o mesmo grau de luxo ou performance, nem a mesma apetência e competência para andar depressa; torna as viagens de médio curso (Porto/Lisboa, por exemplo) de tal modo maçadoras que não é impossível que acicate o interesse pelo transporte colectivo, uma velha reivindicação da esquerda, que sempre torceu o nariz à liberdade e autonomia que o transporte individual proporciona; e não é impossível que numa primeira fase (antes de se constatar que cessará a evolução em travões, suspensões e outros sistemas de segurança activa, que sempre progrediram para satisfazer os transgressores, e não os cumpridores) se verifique uma diminuição das consequências dos acidentes viários, por terem lugar a velocidades inferiores. Tão inferiores que o que se recomenda, e vai impor, para as cidades, é a velocidade de um cavalo a galope, sem que ninguém tenha feito um estudo sério sobre as consequências, para a densidade do tráfego, da diminuição da velocidade média.

 

Seja. Eu discordo de numerosas disposições do Código da Estrada, mormente as que se referem a limites de velocidade (v.g., quanto às minhas razões, o post acima referido), mas estou ciente de que elas reflectem a posição na matéria da maioria esmagadora dos cidadãos.

 

Mas a Assembleia da República, mesmo que povoada com indivíduos em pijama e mais trajes contraindicados para o lugar, esganiçadas, comunistas e outros exemplares lamentáveis da espécie humana, tem legitimidade democrática; e também a tem o governo do dia, mesmo que inviamente eleito e mesmo que presidido por uma barrica de unto demagógica e aldrabona. Agora, um tal Avenoso, bruxelense?

 

A Europa sempre foi, desde a queda do Império Romano, um lugar de diversidade. E não faltam teses a sustentar que a variedade de soluções, e arranjos, para problemas semelhantes, foi uma das razões para a sua proeminência, hoje decadente.

 

A rasoira burocrática não quer saber de diferenças: somos todos iguais na nossa inferioridade face às superiores competências de um inimputável que sabe muito de trânsito porque sim. O velhinho alemão que no seu Audi se desloca a duzentos na autoestrada e que nunca teve um acidente é igual ao francês médio que, no seu Mégane, está de olho no velocímetro, não vá ultrapassar os numerosos limites diferentes que um Avenoso qualquer, engenheiro de estradas ou oficial da Gendarmerie, semeou por critérios que só ele entende. E os dois não são diferentes do condutor tuga que decerto encontrará maneira, se houver, de furar estes disparates.

 

O velhinho alemão pode votar no AfD, com a esperança de mandar os Avenosos para casa; eu tenho que me contentar com a esperança de que os acidentes que nunca tive não se convertam em acidentes por adormecer ao volante.

publicado por José Meireles Graça às 00:53
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Sábado, 20 de Janeiro de 2018

Da vitalidade do asneirol

Os portugueses automobilistas pertencem a uma de duas categorias: ou acham que os outros condutores, em particular senhoras e cavalheiros de chapéu, são umas lesmas (é o meu caso); ou acham que os outros condutores têm a mania que são Fângios (é o caso dos que não prestam atenção ao retrovisor, que entendem ser um acessório a bem dizer dispensável, e que quando ultrapassados a velocidade superior ao limite legal apitam e dão sinais de luzes como se acabassem de ter sido vítimas de assédio sexual).

 

Há excepções, claro – estamos a falar de pessoas. Conheço pessoalmente três mulheres e dois homens com frio na cabeça que conduzem particularmente bem.

 

Vital Moreira, que não conheço, graças a Deus, se tiver carta de condução pertence à segunda categoria. E como bom socialista que é tem ideias definitivas na matéria, e essas ideias consistem em mais impostos, mais polícia, e sistemas mais eficazes de pilhagem com multas.

 

Sucede que um tal Tilo Wagner escreveu um artigo onde confessa que os pais eram, coitados, ecologistas alemães que defendiam um limite de 100 km/h na autoestrada e se deslocavam numa pão-de-forma que não ultrapassava os 80 nas subidas. E daí o Tilo, mortificado de saudades desses tempos heroicos, parte para a descrição da situação nas autoestradas portuguesas onde, segundo ele, “basta uma vez na vida andar na A1, entre o Carregado e Torres Novas, para perceber que a velocidade mínima na autoestrada portuguesa parece ser 140 km/h, a velocidade média de 160 km/h e a velocidade máxima o que o carro permite”.

 

A julgar pelas muitas vezes que passei nesse troço, Tilo, a tua descrição não confere, excepto na parte dos 140 km/h, e mesmo isso apenas porque se sabe que tal velocidade não costuma ser penalizada, por causa do optimismo dos velocímetros e da margem de erro dos radares. Mas perdoo: na defesa de causas um certo exagero retórico aceita-se.

 

O que não se aceita sem mais é dar-se como adquirido que existe uma velocidade limite acima da qual todos os condutores em todos os automóveis constituem um perigo para si e para os outros, e que para a determinação desse limite não há critérios mais consistentes do que o preconceito do cidadão e o palpite do legislador, ou ao contrário.

 

São enormes as diferenças de comportamento e segurança activa entre automóveis antigos e modernos, velhos e novos, e entre as marcas x e y e os modelos alfa e beta. E desprezar estas diferenças, tratando tudo e todos pela mesma rasoira minimalista, diz aos fabricantes de automóveis que não vale a pena investir na performance e na segurança, e ao regime de atribuição de cartas de condução que empinado o código e demonstrada a habilidade para estacionar entre duas árvores se atingiu a suficiência.

 

Os construtores têm investido na performance e na segurança, mas em nome dos que transgridem, não dos que cumprem, porque não existem em quantidade suficiente condutores que requerem potência e comportamento desportivo para disso nunca fazer uso. Não deve, a propósito, ter sido por acaso que a indústria alemã construiu argumentavelmente os carros mais rápidos e seguros, quando no país não havia na maior parte das autoestradas limite de velocidade, ultrapassando a indústria americana – de um país onde os limites são levados a sério e cujos automóveis aí há umas três décadas eram muito menos seguros que os seus congéneres europeus e japoneses.

 

Não ignoro que este esquiço de pontos de vista é ao mesmo tempo superficial e omisso em numerosos aspectos; e que nem sequer como posição de princípio pode ser aceite pela maioria das pessoas, porque a intuição lhes diz que a velocidade é o inimigo. Ofender o que a intuição diz às pessoas é um exercício arriscado porque a intuição é um sentimento, ainda que fundado em experiências, e para contrariar sentimentos não há argumentos bons.

 

É assim, como se demonstra pelo facto de uma grande quantidade de pessoas intuir que se se esbulharem os ricos, e distribuir igualmente por todos, ficam todos remediados, não obstante todas as provas em contrário.

 

Tudo leva a crer portanto que o triunfo neste assunto viário dos Vitais deste mundo só não se verificará completamente se o Estado quiser preservar a importante receita das multas, cujos caçadores se concentram quase exclusivamente na velocidade e na irregularidade de papeladas fiscais.

 

Porque não há tecnicamente qualquer problema em limitar a velocidade dos próprios veículos, acabando de vez com os excessos: basta instalar limitadores invioláveis, que aliás já estão em uso em camiões (e até em alguns ligeiros por acordo entre fabricantes). A Vital não ocorre que essa seria a solução para o problema da sinistralidade rodoviária tal como o vê, porque a ignora.

 

Imagino que o distinto deputado europeu, quando calha ir a uma dessas conferências em que se explica de que forma é que o IV Reich tem o futuro garantido, e aos portugueses se ministram sábios conselhos para aprimorarem a sua condição de europeus, vá num automóvel recente, de gama média – um Citroen, ou Renault, ou outro charuto assim. O veículo em questão, qualquer que seja, tem quatro travões de disco, e uma suspensão, direcção e outros órgãos extraordinariamente seguros – foi projectado para se deslocar, e travar, a velocidades muito superiores às legais. Talvez a Vital pudesse ocorrer, se a sua doutoral cabeça fosse construída doutro modo, que deve a segurança em que viaja a quem, na opinião dele, corre e faz correr riscos.

 

Nada disto, provavelmente, interessa muito, porque a automatização da condução levará a que, nas autoestradas pelo menos, a velocidade passe a ser determinada pelo software; e não é sequer impossível que venha a haver faixas específicas consoante o tipo de automóveis, por um preço diferente já se vê, porque, dir-se-á, é justo que quem quer ir mais depressa pague mais – a tecnologia muda muito, os governos pouco e as pessoas nada.

 

Com sorte, estarei cá para ver. E espero que Vital também esteja, é um intelectual cómico – e típico.

publicado por José Meireles Graça às 16:25
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Sexta-feira, 27 de Dezembro de 2013

Parou de chover

Esta chuva empurrou-me para casa ao fim de pouco mais de duas horas a trabalhar no quintal, por via do anorak impermeável que começou a deixar entrar água.

 

Sento-me, ligo a TV e imediatamente me cai ao colo um programa que dá pelo nome de "Opinião Pública". Já vi bocados deste programa noutras marés e, excepto pelo facto de os participantes via telefone invariavelmente felicitarem a realização do programa e cumprimentarem o convidado, o nome poderia ser, com mais propriedade, "Indignação Pública" - coisa para fugir a sete pés, quem quer paleio de motoristas de táxi anda de táxi.

 

O tema de hoje era segurança rodoviária e previsivelmente a sessão estava estrelada com o inevitável graduado da GNR e um representante da sociedade civil, no caso um senhor da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados.

 

O hábito de convidar graduados da GNR para se pronunciarem sobre problemas rodoviários é em si uma garantia de aborrecimento: estes falam de excesso de velocidade, alcoolemia e telemóveis ao volante, queixam-se da falta de civismo dos condutores portugueses e, se instados a sugerir soluções, requerem sanções mais pesadas e reforço do policiamento, precisamente o que quaisquer polícias, em qualquer parte, recomendam para resolver quaisquer problemas de ordenação social.

 

O tal representante da associação com nome improvável criticou o hábito tão português, segundo ele, de preferir o transporte individual e, como ademais estava de barbas, concluí que devia ser ou comunista ou um desses aluados dos movimentos alternativos.

 

É, a propósito, extraordinário o respeito que se dedica a tipos que dizem representar sectores da sociedade (presidentes de sindicatos, de associações de pais e de comissões de utentes disto e daquilo), a par do universal desprezo a que se votam os eleitos - está aqui matéria para alguma tese de um futuro doutorando do ISCTE.

 

Fui ver o que era esta associação mas desisti, por não encontrar resposta satisfatória às minhas dúvidas: vivem de quê e querem realmente o quê? - que é para sossegar as minhas suspeitas de que nestas coisas costuma andar dinheiro público, o longo braço do PCP, ou os dois.

 

Uma senhora confessou que, deslocando-se na auto-estrada habitualmente a uns 140-150 km/h, se irritava muito por receber sinais de luzes de quem ia pr'aí a 200 e ser obrigada a chegar-se para a direita, onde iam umas "lesmas". Esta louvável franqueza traduz o que realmente a maioria dos condutores acha: os que vão substancialmente mais depressa são loucos do volante ou, pior, fascistas nos seus Audis e BMWs; a velocidade a que cada um se desloca é sempre razoável do ponto de vista do próprio; e os que vão substancialmente mais devagar são realmente moluscos gastrópodes.

 

Já o que eu penso não é o que pensa o senhor coronel da GNR, nem a senhora, nem o estimável cidadão auto-mobilizado para nos infernizar a paciência.

 

Mas fica para outra ocasião, que parou de chover.

publicado por José Meireles Graça às 23:09
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