Terça-feira, 2 de Outubro de 2018

Um programa económico de governação socialista

De acordo com alguns autores, o melhor que temos na Europa para nos proteger dos socialistas e da sua voragem pelo despesismo eleitoralista e irresponsável que conduz inevitavelmente ao abismo financeiro e do seu fascismo normalizador politicamente correcto são os movimentos, e tenho alguma dificuldade em baptizá-los porque os populistas dizem que não existe populismo, a extrema-direita diz que não há extrema-direita, os nacionalistas dizem que não há nacionalismo, e todos dizem que quem usa esses qualificativos para os designar é socialista ou idiota útil do socialismo, mas chamemos-lhes, sem grandes preocupações de rigor e mesmo que não sejam, apenas por uma questão de dar a entender claramente de quem estamos a falar como se usássemos uma alcunha conhecida em vez do nome verdadeiro que nem toda a gente conhece, populistas de extrema-direita nacionalista.

2018-09-30 Salvini Maio.jpg

Além de tudo o mais, estes populistas da extrema-direita nacionalista vão-nos defender contra a entrada massiva de refugiados muçulmanos, mesmo sendo verdade que em Portugal terão a missão facilitada pelo facto de não haver assim muitos refugiados muçulmanos interessados em refugiar-se cá. Mas a atitude vale, nem que seja pelo simbolismo, e portanto eles vão-nos proteger dos refugiados muçulmanos.

Já o socialismo é um problema de que precisamos mesmo de mais protecção do que temos, de tal modo se anuncia como triunfal o passeio que António Costa parece ter pela frente, de vitória eleitoral anunciada e de canja contra uma direita que parece incapaz de se afirmar como uma alternativa, tanto mais quanto por vezes se parece querer afirmar mais como um complemento, um contrapeso ao complemento bloquista do outro lado da balança, do que como uma alternativa ao socialismo.

Estamos, portanto, condenados a mais 4 anos de socialismo ou menos, se o próximo governo de António Costa conseguir rebentar com isto, por exemplo por acontecer um abrandamento do contexto global de crescimento económico que tem sustentado em Portugal o crescimento e o aparente equilíbrio das contas públicas, antes de completar o seu mandato. E o que podemos esperar do socialismo?

Vamos esquecer as propostas mais radicais que ainda há meia dúzia de anos eram repetidamente defendidas como sensatas, quase um dever para defeder as populações das garras do fascismo financeiro "de Bruxelas", como o repúdio da dívida, ou a saída do Euro, ou mesmo da União Europeia, e atentemos apenas ao que pode ser actualmente um programa económico de governação socialista:

  • O governo deve reduzir a dívida em percentagem do PIB, não através da austeridade que reduz a despesa pública nem dos impostos que aumentam a receita, mas através do crescimento económico.
  • A União Europeia devia rever as regras da estabilidade financeira, por exemplo retirando o investimento público do perímetro cálculo do deficit.
  • As dívidas do governo aos fornecedores devem poder ser pagas em títulos de dívida de curto prazo, mas estes títulos devem ser retirados do perímetro da dívida pública para efeito da verificação das regras comunitárias.
  • Aumento das penas, incluindo penas de prisão para evasão fiscal, mas amnistia fiscal para os contribuintes em dificudades para liquidarem as dívidas ao fisco.
  • Reversão de reduções de pensões e de aumentos da idade de reforma.
  • Possibilidade de aposentação antecipada para que tem carreiras contributivas longas.
  • Cortes nas pensões milionárias.
  • Instituição de rendimento mínimo universal financiado por fundos europeus e sujeito à obrigação de os beneficiários aceitarem pelo menos uma das três primeiras ofertas de emprego que tiverem.
  • Aumento do investimento em agências de emprego para melhorar a colocação de desempregados.
  • Criação de um banco público de investimento para financiar a economia.
  • Reforma do regime de resgate de bancos para castigar os gestores e reguladores e proteger os aforradores e pequenos accionistas.
  • Aligeiramento das regras de prudência na concessão de crédito para não dificultarem a concessão de crédito às pequenas empresas.
  • Impedir a reprivatização de bancos resgatados pelo Estado.
  • Impedir os bancos de executar hipotecas sem decisão judicial prévia.
  • Garantir a aplicação do salário mínimo.
  • Proibir estágios não-remunerados.
  • Relançar a companhia aérea de bandeira como empresa pública e impedir a continuação da privatização do seu capital.
  • Condicionar a continuação em laboração das indústrias poluidoras à minimização dos seus impactes ambientais.
  • Aumentar a severidade da regulamentação à indústria do jogo e dos casinos.

Em resumo, agradar a tudo e a todos com dinheiro caído do céu, de mistura com a vocação para a aldrabice que faz da prestação de contas um exercício de toda a dose desorçamentação de que se é capaz, tudo debaixo de uma capa moralista de defesa dos mais desfavorecidos contra a voragem do capitalismo e da elite financeira e contra o garrote "de Bruxelas".

Isto poderá perfeitamente vir a ser a vertente económica do próximo programa de governo socialista concertado entre o PS costista e o BE, admito que não lhes seja necessário incorporarem as sugestões igualmente socialistas de combate à especulação imobiliária do PSD de Rui Rio, mesmo que este se disponha a colaborar com eles pela defesa do interesse nacional acima do interesse egoísta do partido, por não precisarem dele para nada, e que o velho PCP continue a sua descida no plano inclinado para a irrelevância desde que, ao apoiar o governo costista, prescindiu dos travões que lhe retardavam a descida, por também não precisarem dele para nada. Isto no cenário que hoje em dia parece mais provável de o PS ganhar em 2019 as eleições que perdeu em 2015, sem maioria absoluta mas com capacidade para formar uma maioria absoluta com o apoio parlamentar ou governativo do BE.

E é disto que se espera que os populistas da extrema-direita nacionalista nos consigam proteger.

E como é que eles nos vão proteger do socialismo?

Através de um programa económico de governação populista nacionalista alternativo, de que para não inventar podemos ir buscar, a título de exemplo, o do actual governo italiano:

  • O governo deve reduzir a dívida em percentagem do PIB, não através da austeridade que reduz a despesa pública nem dos impostos que aumentam a receita, mas através do crescimento económico.
  • A União Europeia devia rever as regras da estabilidade financeira, por exemplo retirando o investimento público do perímetro cálculo do deficit.
  • As dívidas do governo aos fornecedores devem poder ser pagas em títulos de dívida de curto prazo, mas estes títulos devem ser retirados do perímetro da dívida pública para efeito da verificação dos limites comunitários.
  • Aumento das penas, incluindo penas de prisão para evasão fiscal, mas amnistia fiscal para os contribuintes em dificudades para liquidarem as dívidas ao fisco.
  • Reversão de reduções de pensões e de aumentos da idade de reforma.
  • Possibilidade de aposentação antecipada para que tem carreiras contributivas longas.
  • Cortes nas pensões milionárias.
  • Instituição de rendimento mínimo universal financiado por fundos europeus e sujeito à obrigação de os beneficiários aceitarem pelo menos uma das três primeiras ofertas de emprego que tiverem.
  • Aumento do investimento em agências de emprego para melhorar a colocação de desempregados.
  • Criação de um banco público de investimento para financiar a economia.
  • Reforma do regime de resgate de bancos para castigar os gestores e reguladores e proteger os aforradores e pequenos accionistas.
  • Aligeiramento das regras de prudência na concessão de crédito para não dificultarem a concessão de crédito às pequenas empresas.
  • Impedir a reprivatização de bancos resgatados pelo Estado.
  • Impedir os bancos de executar hipotecas sem decisão judicial prévia.
  • Garantir a aplicação do salário mínimo.
  • Proibir estágios não-remunerados.
  • Relançar a companhia aérea de bandeira como empresa pública e impedir a continuação da privatização do seu capital.
  • Condicionar a continuação em laboração das indústrias poluidoras à minimização dos seus impactes ambientais.
  • Aumentar a severidade da regulamentação à indústria do jogo e dos casinos.

Em resumo, agradar a tudo e a todos com dinheiro caído do céu, de mistura com a vocação para a aldrabice que faz da prestação de contas um exercício de toda a dose desorçamentação de que se é capaz, tudo debaixo de uma capa moralista de defesa dos mais desfavorecidos contra a voragem do capitalismo e da elite financeira e contra o garrote "de Bruxelas".

É igual ao programa económico de governação socialista? É.

E como é que estão a reagir os mercados a este programa? Como sempre reagem a programas socialistas.

2018-10-02 Yields Italy 2018 td.jpg

Se nos vier alguma vez a calhar na rifa vai voltar a ser um passeio dos alegres para novo resgate? Vai.

Mas sem refugiados muçulmanos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:20
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Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

Socialismo e propriedade privada, uma contradição de termos

2018-02-11 António Costa Tondela.jpg

Eu sou do tempo em que os militares barbudos que andavam pelo país a alfabetizar as populações ensinando-lhes os princípios básicos do socialismo não punham os pés no Alto Minho. Com razão ou sem razão, os minhotos partiam do princípio que a finalidade dos comunistas era expropriar-lhes as terras. Provavelmente os governantes da época nunca o terão chegado a proclamar preto no branco, nem sequer o truculento Vasco Gonçalves, mas o facto de terem deixado os comunistas ocupar e expropriar os grandes latifúndios do Alentejo, e não só do Alentejo, não constituía uma prova sólida em contrário da hipótese. Na dúvida os minhotos optavam por uma prudente atitude de eles que venham, mas só entram por cima do meu cadáver, destruiram com violência algumas sedes do PCP, racharam algumas cabeças, e a mensagem foi percebida e nem os soldados barbudos nem os comunistas lá apareceram a fazer ocupações. Nem faziam falta, que a sociedade civil minhota não precisava deles para nada.

Mas isto era no tempo e que eu tinha 18 anos, e o mapa de resultados das eleições, entre as de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte e as Autárquicas de 1 de Outubro de 2017, nomeadamente no Minho, evoluiu e ganhou tons de rosa onde não os tinha.

2018-02-11 Eleições 1975 e 2017 mapa de resultad

Evoluiu o mapa, e evoluiram as mentalidades.

Em 2018 o primeiro ministro socialista diz coisas sobre a propriedade privada como "Os municípios têm todo o poder para entrar nas propriedades privadas e fazerem o cus [os leitores mais atentos à pureza ortográfica que me perdoem mas, aderindo parcialmente, se não ao Acordo Ortográfico, pelo menos aos seus princípios de ortografia segue pronúncia, é assim que se escreve] proprietários não fizeram. E mais. Têm o direito de tomar posse daquelas terras e de se cobrarem, seja pela venda do material lenhoso, seja pela exploração daquelas terras, das despesas que tiverem por conta dos proprietários que não fizeram o que têm que fazer até ao próximo dia 15 de Março.", que não me lembro de alguma vez terem sido ditas por um primeiro-ministro no tempo do PREC, e no tempo do PREC teriam sido mais do que suficientes para os minhotos racharem cabeças e rebentarem com sedes, se fossem ditas por comunistas mais voluntariosos no local, ou, quem sabe? organizarem uma invasão militar de Lisboa, se fossem ditas pelo primeiro-minstro.

Traduzindo, as palavras do primeiro-ministro têm sempre que ser traduzidas para Português para serem devidamente interpretadas, os proprietários têm até 15 de Março para limparem de matos os terrenos em redor das casas e em redor dos agregados habitacionais, quer os terrenos lhes proporcionem rendimentos para pagar a limpeza, quer não, quer os proprietários tenham dinheiro para a fazer, quer não, e se não o fizerem as autarquias têm legitimidade, e um encorajamento do primeiro-ministro, para tomar posse dos terrenos privados para fazerem elas a limpeza e não os devolverem até extrairem deles rendimentos que paguem o custo da limpeza, que pode ser no dia de São Nunca.

Ou seja, exactamente aquilo porque os minhotos no tempo do PREC estavam dispostos a defender a sua propriedade, se necessário recorrendo à força das armas. Vamos a caminho do socialismo.

E os minhotos?

Os minhotos estão mansos. Tenho muita pena.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:09
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Quinta-feira, 30 de Março de 2017

A boca do lobo a morder na nuca do povo

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Hoje metemos mais 2.500.000.000€  na Caixa Geral dos Depósitos. É um número complicado de ler por extenso? Eu ajudo-vos. Todos os portugueses meteram, cada um, 250 € na CGD. Cá em casa não faltámos à chamada com os nossos 750 €. Temos que ser uns para os outros.

Para quê? Para termos um banco público que conceda crédito à economia, nomeadamente às pequenas e médias empresas [LOL].

Porquê? Porque os socialistas do governo chefiado pelo José Sócrates e de que fizeram parte a maior parte dos membros do governo actual, a começar pelo próprio António Costa, torraram o dinheiro do banco público a conceder crédito a fundo perdido a grandes projectos de investimento sem viabilidade que o governo socialista queria promover para mostrar a modernidade que tinha trazido para o país, ou a amigos dos governantes, ou mesmo a testas de ferro para comprarem lugares na administração de bancos privados para os amigos dos governantes.

A grandes capitalistas e latifundiários.

Como se dizia antigamente, e até se levaram canções ao Festival da Canção RTP de 1975 da canção a propósito do tema, que cairam em desuso, mais por os lobos terem passado a ser oficialmente considerados animais simpáticos e inócuos do que por o grande capital e os latifundiários terem deixado de arranjar processos vários de nos continuar a meter na boca do lobo a morder na nuca do povo.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:14
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Terça-feira, 21 de Março de 2017

Não se fixar na árvore para não perder a perspectiva da floresta

2017-03-21 Faust So Far.jpg

O programa socialista de redução da lista de espera para cirurgias de ortopedia é genial: eliminam-se os doentes mais antigos da lista de espera e ela reduz-se automaticamente. E se eles se queixarem que ainda não foram operados mas já não estão na lista de espera? Metem-se lá de novo.

Numa perspectiva míope e de curto prazo não se consegue perceber como é que isto resolve o problema, e fica-se mesmo com a ideia que os doentes até saem prejudicados por, depois de esperarem hipoteticamente dois anos, serem repostos no fim da lista e ficarem com hipoteticamente mais dois anos para esperar. Esta perspectiva é evidentemente criticável por, como se costuma dizer, ao fixar-se na árvore, perder a perspectiva da floresta, ao fixar-se egoisticamente nos problemas específicos de uns poucos de doentes, pouco mas de mil no caso que suscitou esta discussão, esquecer a medida do bem comum da generalidade dos doentes.

Quem consegue passar além dela corre ainda o risco de cair numa segunda armadilha. Se os doentes saem da cabeça da lista de espera mas são de seguida recolocados na cauda, a lista de espera não diminui, apenas se recompõe, ou se reordena. Mais um erro. Quem olha para os fenómenos quantificáveis sem ter o cuidado de os analisar à luz das estatísticas que realmente interessam para os descrever corre o risco de extrair conclusões precipitadas e, pior do que isso, enganosas. Ora o que é de facto mais importante para os doentes à espera de cirurgia, para as pessoas? O tamanho da lista de espera, ou o tempo que têm que esperar? O tamanho é importante para os burocratas que operacionalizam estes programas, é um problema da tecnocracia economicista. O que interessa às pessoas é mesmo o tempo que esperam pela sua cirurgia, e a estatística adequada para o medir é o tempo médio de espera.

E chegamos finalmente à chave do enigma. Quando se retira da lista de espera um doente que já esperava há dois anos e se reintroduz o doente na lista, o seu tempo de espera é reposto a zero. Quando se faz o mesmo a mil e duzentos doentes, o tempo médio de espera de todos os doentes que fazem parte da lista, a tal estatística que melhor retrata o que é importante para eles, reduz-se significativamente, dependendo do tamanho total da lista, mas reduz-se mesmo, qualquer que seja o seu tamanho.

O lendário génio socialista consegue, pois, e finalmente, reduzir o tempo médio das listas de espera para cirurgia ortopédica mas, ainda mais extraordinário, sem colocar em causa as metas orçamentais e os nossos compromissos com as instituições internacionais, porque o faz sem dispêndio de recursos, e muito menos sem cometer a perversidade de financiar hospitais privados para fazer aquilo que os públicos não conseguem fazer, que era o que os neoliberais que os precederam queriam de facto, dar dinheiro a ganhar ao grande capital: uns apaganços nos ficheiros informáticos do ministério bastam para resolver o problema.

E assim se vê como o socialismo consegue colocar as pessoas acima de tudo o resto e resolver os seus problemas bastando-lhe para isso abrir as perspectivas. Um dia destes, levado pelo entusiasmo, sou bem capaz de avançar aqui com uma soluçao socialista para o problema da dívida insustentável. Só deixo uma pista: é com a ajuda da tecla Delete. E depois, seja o que Deus quiser...

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 01:56
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Domingo, 1 de Janeiro de 2017

Tirar aos pobres para dar aos ricos, o socialismo do século XXI

carteiristas.jpg

O socialismo está-se a aperfeiçoar, a tornar cada vez mais justo e menos desigual.

Se durante todo o século XX foi o sistema baseado em tirar a todos para dar a uma ínfima minoria de dirigentes de topo, colaboradores, nomeadamente militares que lhes asseguravam a permanência no poder, e seus protegidos, não parou de evoluir e, em Portugal, já se pode dizer que atingiu o estado mais avançado de tirar aos pobres para dar aos ricos.

Sabem qual é o município com maior poder de compra de Portugal? É Lisboa, com o dobro da média nacional. E o município com poder de compra mais baixo? Cinfães, com metade da média nacional. Em média, os munícipes de Lisboa têm um poder de compra quádruplo do dos de Cinfães.

2017-01-01 Pordata, poder de compra por município

Na realidade a diferença é ainda maior. A esmagadora maioria dos munícipes de Lisboa têm, a walking distance da sua casa, uma caixa multibanco, uma farmácia, o centro de saúde, a escola, a esquadra da polícia, a junta de freguesia, um Minipreço ou um supermercado low-cost. Para não falar num hospital ou numa universidade. E, se não os tiverem assim tão perto, têm uma paragem de autocarro ou uma estação de metro para apanharem o transporte público para os levar até ao destino. Por um preço abaixo do custo real do serviço, e é por isso que as empresas públicas de transporte de Lisboa acumularam prejuízos que foram pagos por uma dívida que cresceu como uma montanha para assumir proporções de impagável.

Já os de Cinfães, e eu escrevo isto correndo o risco de imprecisões sem me ter documentado previamente no Google Maps para não apanhar uma depressão no primeiro dia do ano a sofrer com as penas deles, o único equipamento que provavelmente têm a curta distância de casa é a igreja. Todos os outros, para a esmagadora maioria deles, estão à distância de uma viagem de automóvel, particular, para os que os têm, ou de praça, que é o nome que os taxis têm por esse Portugal fora. A que custo? Comparativamente com o autocarro ou o metro dos lisboetas, upa, upa! Uma única deslocação pode custar mais que o passe mensal para os transportes de Lisboa. E quando querem meter os filhos na universidade, alugam-lhes um quarto na cidade onde conseguirem vaga e pagam-lhes as deslocações à terra. Se ganham quatro vezes menos, gastam muito mais para terem o mesmo, pelo que o seu poder de compra resulta bem inferior a um quarto do dos lisboetas.

Mas eles são poucos e os lisboetas são muitos, e quando se vai a votos a quantidade de eleitores conta, e em 2017 vai-se a votos, e o governo socialista decidiu dar um presente à câmara socialista de Lisboa. Ofereceu-lhe a Carris, para poder dispor dela a seu favor nestes meses que faltam para as eleições.

Mas simplesmente entregá-la à CML tinha um problema: a dívida, resultante de décadas de prejuízos acumulados a disponibilizar aos lisboetas transportes a preço abaixo do custo real, de 700 milhões de euros, que não só constituiria um encargo pesadíssimo, como um bloqueio à capacidade de a empresa se endividar ainda mais para investir a melhorar o serviço aos utentes e fazer uns floreados que ficam bem em ano de eleições, coisas como renovar a frota com autocarros eléctricos ou reforçar carreiras para os utentes não se chatearem por ter de esperar tanto pelo autocarro. Vai daí, o António Costa, que se fosse advogado de divórcios conseguiria aos seus clientes divórcios daqueles em que o marido fica com a casa e a mulher com a dívida ao bancoassumiu a dívida da Carris para oferecer à CML uma empresa sem encargos de dívida e com a possibilidade de começar de novo a endividar-se a partir do zero, ser muito mais perdulária, e fazer um figurão nos primeiros anos de gestão camarária. E, digo eu, os lisboetas que não se assustem com a responsabilidade, porque a Carris vai continuar a gastar mais do que consegue cobrar, e vai voltar a recorrer à dívida, mas, um dia, quando a nova dívida se tornar impagável, outro governo socialista tratará de a assumir, como este fez a esta. A dádiva foi tão generosa que o próprio António Costa confessou que tinha inveja por não ser ele o presidente da CML a recebê-la para fazer floreados com ela, mas desejou-lhe felicidades, o que mostra que não é homem de rancores.

Quem diz o António Costa assumiu quer de facto dizer o António Costa transferiu para todos os contribuintes o encargo da dívida.

E assim chegámos ao socialismo do século XXI. Em vez de deixar aos lisboetas, que são os munícipes mais ricos do país, a dívida de 700 milhões de euros que foi acumulada para lhes oferecer transportes públicos a preço abaixo do custo, e que já ia em 1.400 euros por lisboeta, distribui-a por todos os contribuintes, mesmo os mais pobres a quem não são oferecidos transportes públicos nenhuns, mesmo os de Cinfães, numa razão de 70 euros por português, ou 280 euros para um agregado familiar de quatro pessoas.

Pelo que chegamos ao que queriamos provar: tirar dinheiro aos pobres de Cinfães para dar transportes públicos baratos aos ricos de Lisboa, como fazem em Portugal os socialistas do século XXI, é um grande avanço em termos de justiça social e combate às desigualdades comparativamente com tirar a todos para dar apenas aos governantes e generais e respectivas famílias, como fizeram no século XX, e continuam a fazer no XXI, os socialistas de todo o mundo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:07
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016

E como vamos de desigualdade?

Sabemos, apesar da publicação de estudos de resultados mistificados por investigadores amigos da maioria de esquerda tentar afirmar o contrário, que a desigualdade diminuiu em Portugal durante a legislatura anterior, e nomeadamente durante a implementação do programa de assistência financeira da troika e da severa austeridade a que o país se viu forçado a submeter para conseguir sobreviver com os meios limitados de que dispunha.

2016-10-21 Gini Portugal 2006-2014.jpg

* Gráfico martelado pelo autor

 

Sabemos que as medidas mais significativas do governo actual que afectam a distribuição de rendimentos favoreceram em 2016 e continuarão a favorecer em 2017 os que têm rendimentos mais altos, e até muito altos, sem qualquer benefício para a esmagadora maioria dos que têm rendimentos mais baixos, ou até muito baixos, e que as alterações propostas à tributação do património também favorecem mais os que têm mais, e até muito mais, e até os evasores fiscais.

Não sabemos, infelizmente, o modo como esta política que, escondida por trás de uma retórica socialista de diminuição da desigualdade através da tributação da riqueza, parece concertada em voltar a aumentar a desigualdade a afecta, porque o índice de Gini é calculado com um recuo extenso, e ainda nem sequer existem publicadas estimativas para 2015. A este ritmo é natural que só lá para 2018 consigamos perceber o que aconteceu à desigualdade neste ano de devolução dos rendimentos aos portugueses de 2016, e em 2019 no da consolidação orçamentada dessa devolução de 2017.

Temos que esperar para ver.

Mas a conjugação de todos os factores enumerados acima aponta para um aumento da desigualdade, que só será compensado se a redução do desemprego, que reposiciona os desempregados que arranjam emprego da cauda da distribuição de rendimentos para zonas menos extremas, que tem sido reivindicada pelas estatísticas estiver a ser real, e não um mero artifício demagógico proporcionado pela manipulação das estatísticas reais. E os números de crescimento anémico que têm sido publicados não lhe dão grande sustentação.

É provável que a desigualdade esteja a crescer no Portugal governado por socialistas sustentados no poder por bloquistas e comunistas. É apenas um dos custos de mais uma tentativa de reciclar um marxismo cada vez mais retardado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:08
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Quarta-feira, 6 de Julho de 2016

Grandes vitórias do socialismo

Se há guerra que o governo e a maioria parlamentar que o sustenta estão a ganhar, é a guerra contra a economia e os agentes económicos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:54
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Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2013

Socialismo falhado condenado a falhar

Porque é que a tentativa de implementar a social-democracia está a falhar clamorosamente nas sociedades sulistas da Europa? Provavelmente porque a Sul temos um muito maior sentido de Família que de Comunidade. O sentido de Família implica uma maior individualismo em confronto com indivíduos estranhos ao clã, e o de Comunidade uma maior sensibilidade ao impacto das nossas acções fora do clã.

 

Em Itália, Portugal e Espanha, o estado de limpeza das ruas é bem demonstrativo da falta de senso comunitário da maioria das gentes. Como o espaço é menos entendido como comum, o respeito por ele é menor. "O meu espaço é o do meu clã, dos outros não quero saber" e as regras de limpeza e civismo têm de ser sempre mais impostas por estados cada vez mais fiscalizadores.

 

Em contrapartida ao mais elevado sentido de comunidade, o senso apurado de Família proporciona maior solidariedade e entre-ajuda, entre os seus membros, enquanto a Norte esse conceito menos apurado, empurra, por exemplo, os filhos para fora de casa dos pais muito mais cedo que os "mammoni" do Sul que sabem poder contar com o apoio familiar. No Norte o "apoio" é no sentido de os correr de casa o mais cedo possível.

 

A dificuldade é que na base da solidariedade socialista está o senso de comunidade, e a Sul, um individualismo acentuado impede realizar esse ideal. O maior individualismo sulista tem enormes implicações ao nível das éticas e morais sociais e económicas e por isso não é de estranhar que a Sul convivamos com uma enorme diferença entre os discursos sociais-democratas de defesa do Estado-Social (apoiado num forte senso comunitário) e a prática profundamente individualista dos clãs (grupos de interesse, partidos e etc.) que pugnam, sempre e em primeira mão, pelos seus próprios interesses específicos. "Falta de sentido de Estado" não é uma expressão comum nas nossas políticas?

 

A Sul, estados grandes e reguladores, nas mãos de clãs/grupos minoritários, controladores da maior parte da sociedade, e muito representantes dos seus próprios interesses, dificilmente poderão implementar sociais-democracias de carácter nórdico. Por mais que se tente, interesseiramente, vender a ideia de que isso iria reduzir desigualdades, assimetrias e iniquidade, falta aos cidadãos, senso de Comunidade: o respeito pelos indivíduos fora da nossa Família/Clã/Grupo.

 

A cultura é uma sacana difícil de destruir e a ideologia uma arma eficaz de controlo de massas.

publicado por João Pereira da Silva às 08:02
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Domingo, 10 de Março de 2013

Fixação administrativa do preço mínimo do trabalho

No mapa: Salário mensal médio na Europa (http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_in_Europe_by_monthly_average_wage)

 

A Itália não tem salário mínimo nem se sente qualquer voz, à esquerda ou direita, a pedir a sua implementação. É o mercado a regular o pagamento do trabalho de modo totalmente livre. Olhando para o mapa acima, e para a tabela abaixo, pode constatar-se o óbvio: que o salário médio não depende da existência de um salário mínimo.

 

Lista de países europeus sem salário mínimo (via O Insurgente):

 

Olhando para a tabela do Eurostat que mostra como tem evoluído o coeficiente de Gini na Europa (http://appsso.eurostat.ec.europa.eu/nui/show.do?dataset=ilc_di12) também constatamos que a Itália é menos desigual que Portugal em termos de distribuição do rendimento. Nela, podemos ver que Portugal é o 3º país mais desigual da Europa na distribuição do rendimento, apenas superado pela Bulgária e Letónia. O país mais igualitário da Europa é a Noruega que também consta da tabela acima de países sem salário mínimo.

 

Ora, então porquê a nossa insistência no valor mítico de fixar uma remuneração mínima para o trabalho? Há ciência por detrás da sua defesa? Não me parece. Parece-me antes uma panaceia defendida por mitos. 


Um dos argumentos mais usados para defender a aplicação da fixação do preço é: "quem não quer um salário mínimo fixado pelo estado é a favor de baixos salários". Errado. - Qual empresário prefere ter uma estrutura de pouco valor e baixa produtividade, quando os lucros são maiores com mão de obra bem remunerada, motivada e produtiva? 


O nível de riqueza não está relacionado com a fixação do preço. Bem pelo contrário, tradicionalmente, quando o estado tende a fixar preços, a pobreza e a miséria são maiores. 


publicado por João Pereira da Silva às 06:04
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