Quinta-feira, 16 de Janeiro de 2014

Não surfando na Nazaré

Empresários, toda a gente sabe o que são: aquele senhor Belmiro dos aglomerados e dos supermercados, o senhor Amorim das cortiças, da Bolsa e dos setecentos negócios, o filantropo Soares dos Santos, do Pingo Doce e da Polónia, uns moços que lançaram umas inovações para a informática, os telemóveis e a Internet, ou lá o que é, e que se fartaram de ganhar dinheiro.

 

É isto, não é? Não, não é; ou melhor, também é, mas é sobretudo outra coisa. Quem cria empregos, exporta, cresce, vai à falência, levanta-se ou não se levanta, ganha mais dinheiro do que parece ou menos do que finge, não são estes senhores que a opinião pública conhece - são aqueles grunhos com menos formação que os seus empregados e que fizeram reviver as indústrias tradicionais que não tinham futuro, inventaram negócios novos ou novas maneiras de trabalhar os antigos, e que não fazem parte dos associativismos sortidos senão para o efeito de pagar quotas, nem das concertações sociais senão para o efeito de sofrerem as consequências do que em nome deles se decide. Do Estado e dos sindicatos querem distância, e, inquiridos sobre assuntos políticos tendem a dizer, se forem sinceros, coisas impublicáveis e, se não forem - a minha política é o trabalho.

 

Esta gente é substancialmente diferente do primeiro grupo por um detalhe: não tem números de telefone.

 

Em Portugal sempre o número de telefone, do Ministro, do Secretário de Estado, até mesmo do senhor Presidente da Câmara, foi essencial.

 

E nem vale a pena falar do sector financeiro a este propósito, porque seria, precisamente, um despropósito: empresas que têm direito a que o Estado as salve quando estão em risco de falência, mantendo os privilégios dos responsáveis que a essa condição as conduziram, fazem parte de uma nebulosa qualquer, mas não é a do empresariado. Como não vale a pena falar dos empresários de extracção política, paraquedizados em empresas que, em nome de uma função social, têm prejuízos estratosféricos, ou, em nome de uma imaginária eficiência, mas bem real monopólio ou oligopólio, atingem lucros sem nenhuma relação com a qualidade da gestão - a EDP e o empreendedor Mexia são desta última variedade o mais conhecido exemplo.

 

Os negócios do surf e à volta dele são, por definição, pequinitates - nada que faça um magistrado da opinião saltar da cadeira.

 

E todavia esta história que mão amiga me fez chegar vale por dez artigos de fundo sobre o futuro da economia portuguesa: bastou que alguns imprudentes fossem pescar para a beira-mar em dias de borrasca e o mar os tivesse levado, uns quantos acidentes mortais nas revoltas ondas do nosso mar de Inverno e zás - há que proibir, fiscalizar, intervir, criar um extenso rol de regras impossíveis e lançar a GNR aos calcanhares dos transgressores.

 

Como Mark Wengler é estrangeiro, pode ser que o que conta sobre a Nazaré, a comparação com a vila piscatória da Dinamarca, a necessidade deliciosa da licença do capitão do porto, o grotesco da regulamentação, façam escândalo.

 

Se for o caso, os responsáveis emendarão tranquilamente a mão e continuarão pacificamente nos seus lugares, a expelir normas e opiniões; se não, a regulamentação vai para a pilha imensa e crescente da que nos sufoca, à espera de um jeitinho, ao qual aliás Mark, sem saber quase nada de nós, teve direito.

 

Alguém podia informar estes turistas do surf, para não afastar ninguém, que em Portugal, além do equipamento para a prática da modalidade, é necessário um número de telefone: um daqueles que serve para abrir portas à distância; mas que, infelizmente, não pode fechar a da estupidez.

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publicado por José Meireles Graça às 13:09
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