Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Uma entrevista viçosa

 

 

O irmão Nuno acaba de perpetrar uma entrevista na TVI. Sobre o último livro, "Em Nome do Pai". "Tu" cá, "tu" lá, José Alberto Carvalho enlevado como uma adolescente lasciva. Leu excertos daquela "literatura", possidónios sem excepção, ignorantes sem misericórdia. Lobo Antunes considerou "estranho" o que tinha escrito (alguns espectadores também), e desabafou: "Pensar que aquilo saiu de mim".

 

Bufou com as bochechas cheias, para ilustrar, naquela espécie de teatralidade de grupo experimental da província, como era profundo, introspectivo, e penoso ocupar-se daquelas matérias tão fundamentais. Disse que não tinha "pudor dos afectos" (algum, não lhe faria mal). Que "amava muito" a mulher dele, e que a achava "linda" (abençoada senhora). Que tinha com o filho mais velho "uma relação de grande cumplicidade" (de ser cúmplice de Nuno Lobo Antunes, já Deus me livrou). E desfiou pomposo, sobre a religião católica, uma abundância de "reflexões" tão idiotas quanto erradas. Por exemplo: "Nunca ninguém antes se lembrou de escrever sobre S. José". Se fosse num programa de humor, era a deixa para a plateia "presente em estúdio" arremessar contra ele todos os livros que já foram escritos sobre S. José.

 

Apoquentei-me ao saber que, a dada altura do livro, Jesus resolve sair do sítio onde está e abalar "de encontro ao deserto" (sic). Temi que Jesus, na fantasia de Lobo Antunes, acertasse nalguma acácia perdida e esmurrasse o nariz. Mas depois sosseguei: afinal é (pasme-se!) "um deserto interior", e "não podia deixar de ser" porque há "poucos relatos daquelas paisagens". Antes assim.

 

Daquele fenómeno tão fascinante de pertencer a uma família em que "todos são médicos e todos são escritores", disse que "cada um tem o seu percurso, e cada um escreve o seu livro". Informou que não tinha fé em Deus, mas sim que tinha "fé no privilégio de viver". À pergunta sobre se "as dúvidas de S. José eram as dúvidas dele" (aqui abateu-se sobre José Alberto Carvalho um tijolo de originalidade, talvez proveniente da régie) respondeu, após um silêncio prolongado: "Não podia ser de outra forma". E à pergunta sobre se o processo tinha sido "duro", respondeu: "Não; fui corajoso".

 

A presunção dos irmãos Lobo Antunes, especialmente na proporção do asneirol que escrevem, e do tédio que provoca a maneira como usam a língua, em Portugal dá direito a prémio. Deve estar por dias.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:33
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Domingo, 26 de Agosto de 2012

Sit Com

Pode o Estado renunciar à prestação de um serviço público de media?

O serviço público de rádio e de televisão (SPRTV) pode ser “privatizado”?

E pode o Estado alienar canais do SPRTV?

O Estado não pode então adotar uma definição “minimalista” de serviço público?

Pode o serviço público de televisão ser prestado com um só canal livre de âmbito nacional?

A eliminação de segmentos importantes do serviço público é socialmente legítima?

A RTP cumpre o serviço público a que está obrigada?

 

Com uma cerrada argumentação jurídica, jpfigueiredo responde não a todas estas perguntas, com excepção da última, à qual parece responder sim.

 

Diogo Duarte Campos, porém, demonstra aqui que, por razões ligadas ao vil metal, "o problema da RTP pode ser – e em alguma medida será – um problema de serviço público, mas é sobretudo um problema financeiro."

 

Não tenho um respeito indevido pela Constituição, uma manta de retalhos saudosista do Socialismo e do PREC, revista a conta-gotas sempre que o PS achou, e tem achado muitas vezes, que afinal a última revisão que lhe foi proposta e rejeitou, até pode ficar bem jeitosinha se a edulcorar; e não duvido que, nos rasgões da manta, constitucionalistas engenhosos encontrarão excelentes razões para defender tudo e o seu contrário. Mas lá que o problema tem uma dimensão constitucional - tem.

 

E porque o Tribunal Constitucional já demonstrou que vive no mundo etéreo dos raciocínios jurídico-ideológicos de esquerda, e que entende que questões de dinheiro são questões de merceeiro, a mim sobram-me também algumas perguntas:

 

Um assunto destes não deveria chegar à praça pública em forma de decisão definitiva do Governo, sopesados todos os prós e contras? As opiniões de um consultor não deveriam ser destinadas exclusivamente a quem o contratou? Há ainda dúvidas, ao fim de mais de um ano de Governo, sobre qual é a melhor solução? A transparência da governação consiste neste cacarejar na praça pública de hipóteses, probabilidades, possibilidades, dúvidas e hesitações?

 

toda a gente dá, pela milésima vez, palpites; suspeita-se que, nos bastidores, os interesses rugem; e a RTP perde dinheiro - todos os dias.

 

Também eu ia juntar-me ao coro e esclarecer as massas anelantes sobre qual a minha solução. Mas não agora. Agora apetece-me dizer - bardamerda.

publicado por José Meireles Graça às 15:18
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Ouvido na TV - 2011

(Originalmente publicado no Senatus, em 1 de Janeiro de 2012)
 
 

 
 
"A técnica é inimiga da ciência."

(Medeiros Ferreira, a propósito de sondagens, 8 de Junho 2011)

 

"Mário Soares diz que o país tem de andar para a frente; o Marítimo tem novo preparador físico."

(Notícia de rodapé da Sic N, 17 de Junho)

 

"O próximo governo não tem margem de manobra para pensar muito".

(Teresa de Sousa, 17 de Junho)

 

"O Estado tem que fixar valores mínimos, não é assim, e a calendarização tem que se afeiçoar."

(Medeiros Ferreira, sobre as privatizações, 22 de Junho)

 

"Sou burra, burra, burra."

(Clara Ferreira Alves, 3 de Julho)

 

"Uma combinação rara e senatorial."

(Mário Crespo, apresentando o Frente-a-Frente entre Vítor Ramalho e Ângelo Correia, 14 de Julho)

 

"3,5 sobre 100 é muito menos do que 3,5 sobre 1000."

(António Costa in Quadratura do Círculo, 14 de Julho)

 

"O Álvaro" lembrou a decisão tomada por Portugal e Espanha, no séc. XIX, de manter uma linha férrea com uma dimensão diferente da europeia. E considerou esta atitude muito "descompetitiva".

(19 de Agosto)

 

Honório Novo desenvolve sobre a nova proposta fiscal: "De maneira que agora vão poder finalmente taxar-se coisas de luxo", e dirigindo-se a Mário Crespo, "por exemplo, como o seu Volvo". Mário Crespo informa: "Eu não tenho um Volvo". Honório Novo usa uns segundos e responde: "Mas tenho eu".

(31 de Agosto)

 

"Elcá mino siasse cáminandu."

(Jorge Braga de Macedo, 31 de Agosto)

 

"Deus queira que Passos Coelho não se transforme num Churchill. Que veio com aquela coisa do sangue, suor e lágrimas, e lá lhes resolveu o problema. Só que o povo correu com ele, porque já estava toda a gente farta daquilo."

(Luis Delgado, 3 de Setembro)

 

O país foi informado, ao serão, da existência de "empresas de utilidades", que são, no entender de Luis Delgado, a EDP, a PT e a GALP (pelo menos). Mas não há risco, porque se essas empresas se atrevessem a alterar a sua residência fiscal para fora do país "seria uma revolta social de todo o tamanho", e "o facebook dava cabo delas".

(Luis Delgado, 3 de Setembro)

 

Márcia Rodrigues (em directo de Teerão, enfiada num fato regional):

- Qual a sua opinião sobre o apedrejamento?

Ahmadinejad:

- Faz alguma diferença a maneira como se mata as pessoas?

(RTP, 7 de Setembro)

 

Marcelo Rebelo de Sousa terminava: "Sabe que isto, na política, há uma grande diferença entre aquilo que se diz e aquilo que se faz". Júlio Magalhães: "E o senhor professor sabe isso melhor do que ninguém".

(25 de Setembro)

 

"De maneira que isto só lá para 2020", concluia Medina Carreira quando Judite de Sousa se alarmou: "Ó sotôr, nessa altura já não andamos por cá!" e acrescentou "pelo menos nós!" abanando a mão, apontando para o céu.

(25 de Outubro)

 

Não vi os antecedentes, mas quando mudei para a SIC Notícias o Mário Crespo estava a rodar a cabeça de um lado para o outro, Alfredo Barroso a prometer "pronto, não toco mais nisso", e Ângelo Correia a esclarecer: "Você está mas é a tocar-se a si próprio em público".

(27 de Outubro)

 

Uma senhora, em voz off, informa através da RTP1 que "os negócios funerários são uma actividade que nunca morre".

(31 de Outubro)

 

"A Turquia é o eixo asiático da Grécia."

(Clara Ferreira Alves, 6 de Novembro)

 

"A Pátria é como um casaco velho", disse António Barrete (com a voz igual à que o Eduardo Sá põe para dizer "a Criança não sei quê"). E depois acrescentou "ai, e tal, porque é muito confortável" e jogou as mãos ao casaco e desatou a apalpar o tronco. Para ilustrar, na SIC Notícias. Achei puxadote. E a seguir mencionou "aquele buraquinho" que "nós já sabemos onde está", e que "já foi passajado", e nessa altura voltou a fazer combinar o discurso falado com a linguagem gestual, com o indicador e o polegar em movimentos circulares á volta do buraquinho.

(16 de Novembro)

 

Maria João Avillez: "Repare, é que eu tenho praticamente um doutoramento em primeiros ministros". Mário Crespo: "Vamos então recorrer a todo esse saber acumulado no seu doutoramento em primeiros ministros".

(1 de Dezembro)

 

"A dupla Sarkosy Merkel perdeu o norte com a ideia do referendo grego. Desestabilizaram-se psico-politicamente."

(Medeiros Ferreira, 7 de Dezembro)

 

"Eu sou professor de economia e portanto ensino pessoas em plena puberdade."

(Jorge Braga da Macedo, 9 de Dezembro)

 

"Os partidos devem entender-se no sentido de alterar esta constituição, que está cheia de entropias."

(Judite de Sousa, 19 de Dezembro)

 

Medina Carreira: "Suponhamos que você era a Procuradora...

Judite de Sousa sorri e pestaneja.

MC: "... e convidava-me para jantar na sua casa."

JS: "Hehehehe."

MC: "No dia seguinte punha-me um processo."

JS: "Hahahaha."

MC: "E eu pensava assim..."

JS: "Hi... hihihi."

MC: "Logo a Judite, uma rapariga tão simpática, tão sedutora!"

JS, afagando as carótidas: "HAHAHAHAHA!"

(20 de Dezembro)

 

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:45
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