Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Gringos

Não sou americanófilo: detesto coca-cola, uma mistela açucarada que provoca prisão de ventre; não tenho um indevido respeito por Warhol, ou pela cultura pop; gostando muito de automóveis, acho a generalidade dos americanos do pós-guerra uma grande piroseira; não aprecio familiaridades de trato indiscriminadas, que desvalorizam a amizade e a intimidade de quem a merece ou tem; não acho que o sucesso seja a medida de todas as coisas; confundo os génios contemporâneos da música rock ou dos outros géneros populares uns com os outros, apenas lembrando bem os da minha adolescência; não aprecio a maioria das séries enlatadas americanas; e, sem estar certo de o conseguir sempre, há muito que aprendi a ligar mais ao valor das coisas que ao seu preço.

 

Se a vida me tivesse imposto a emigração como forma de abandonar a pobreza ou fazer uma carreira, e se tivesse escolha, os EUA não figurariam em nenhum dos dez primeiros lugares; e, se para fazer uma formação académica, surgisse uma oportunidade de a acabar numa instituição prestigiada americana, encararia o tempo passado naquele abominável país como um exílio.

 

Tudo isto, e mil coisas mais, está ainda no domínio do superficial. Mas não o está o lado puritano da sociedade americana, a sua religiosidade generalizada, a violência bárbara das suas instituições criminais e penais, o respeito acéfalo pela lei, qualquer lei, e pelas polícias, a obsessão com o crime, o castigo, o sexo e a moda, o grau de judicialização absurdo de todo o conflito trivial, e a importância excessiva da opinião pública, transportada com pouca mediação para o sistema de decisão política e judicial.

 

Ou seja, boa parte do que execro é o que muitos dos meus amigos admiram e, pior, gostariam de importar, que Deus lhes perdoe.

 

Porém: Foram os EUA que vieram salvar a Europa de si mesma, duas vezes no século passado; que nos protegeram, e ao nosso modo de vida, desde o pós-II guerra até à implosão da URSS; que nas ciências, incluindo as sociais,  e na tecnologia, têm liderado o mundo, apenas há pouco (desde que Deng Xiaoping renovou o comunismo pelo expediente de lhe manter o nome e as instituições enquanto instaurava o capitalismo) se adivinhando um rival; que na música, no entretenimento, na moda (eu uso blue jeans, essa é que é essa), no ensino, até na literatura (ou pelo menos na edição) e nas Artes, têm dominado. E, finalmente, que têm servido como um magneto para os deserdados do mundo, e para os cérebros sem futuro, que querem todos ir para lá.

 

Ou seja, eu não quereria ir; mas toda a gente quer.

 

Toda a gente quer porque lá há oportunidades; e em outros sítios não. Importa portanto perceber por que razão elas lá estão.

 

Os pais fundadores da América (John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison e George Washington) pertenciam à elite dos colonos brancos. E nenhum deles ignorava a história da Europa, de cujos emigrantes eram descendentes, e menos ainda as razões porque os seus ascendentes europeus tinham emigrado. Quis o destino, e as circunstâncias, que fossem homens de excepção. E os ares do tempo, o mesmo que inspirou a Revolução Francesa, mas sem a carga das instituições do Velho Regime, das tradições e da vizinhança de países hostis, permitiram-lhes desenhar uma Constituição que acomodasse a liberdade religiosa, o laissez-faire na economia, o respeito da propriedade privada, o império da lei com a igualdade dos cidadãos perante ela, os direitos dos Estados federados e a separação dos três poderes.

 

Era boa, a Constituição. Tanto que, após a vaga inicial de 10 emendas, em 1791, apenas houve mais 17 (ou 16, porque uma emenda revogou outra), e o conjunto está ainda em vigor. O país era pródigo em riquezas naturais, como outros. Mas, ao contrário dos outros, não havia uma aristocracia hereditária, mas havia uma imensidão de terra para arrotear e explorar, já meia deserta dos locais que as infecções haviam dizimado (o que restava foi cristãmente exterminado ou acantonado em reservas), e a essa tarefa se dedicaram vagas sucessivas de emigrantes brancos, oriundos pela maior parte do Velho Continente, sobretudo Irlandeses, Ingleses, Escoceses, Italianos e outros. Tinham como denominador comum a língua, que quando não era o inglês aprendiam, as instituições, o respeito pelas tradições e cultura das diferentes comunidades, que era a única maneira de conviverem sem guerras, e o cristianismo, em múltiplas denominações mas sobretudo nas protestantes com sua a ética de trabalho.

 

Havia, sobretudo no Sul, negros, emigrantes forçados. E estes eram escravos, o tempo da sua libertação formal havia de vir mais tarde, com a Guerra Civil. O do seu reconhecimento como cidadãos na posse de plenos direitos ficaria já para os anos sessenta do séc. XX; a tentativa dos poderes públicos para, através de medidas de discriminação positiva, melhorar a condição social do negro, para as décadas seguintes; e o falhanço clamoroso dessas tentativas para os nossos dias.

 

Foi com a liberdade económica, o respeito da propriedade, o influxo de emigrantes ambiciosos e trabalhadores, susceptíveis de se integrarem, que o país cresceu e se tornou na primeira potência económica e militar no mundo. E quando, muitos anos mais tarde, o presidente Kennedy, especialista em frases sonoras e ocas, declarou no seu discurso inaugural: “And so, my fellow Americans: ask not what your country can do for you — ask what you can do for your country” já na Europa se estava a enraizar um Estado Social onde os cidadãos são educados de pequeninos a pensar precisamente o oposto.

 

A eleição de Obama representou a ultrapassagem definitiva do racismo difuso, uma conquista civilizacional e um marco na história americana. Mas sendo a personagem, como era, o mais parecido com um socialista europeu que um presidente americano pode ser, deixou um rasto de intervencionismo na economia e de estatização da vida social (com o felizmente falhado Obamacare, por exemplo) que, se aprofundado, saparia a flexibilidade, a agressividade e o dinamismo da economia. Dito de outro modo: que anularia exactamente parte daquela diferença que faz que a América seja rica e poderosa, enquanto os seus vizinhos do Sul fornecem levas de emigrantes clandestinos oriundos de países onde a retórica oficial, e a prática política, são de justiça social, igualitarismo e estatismos sortidos.

 

O motto de Trump, “make America great again” não foi feito possivelmente a pensar em nada disto, mas antes no desequilíbrio comercial dos EUA com os seus parceiros comerciais, em particular a futura superpotência rival, o desemprego crónico de antigas cidades industriais em ruínas, a estagnação dos salários da classe média, o multilateralismo internacional das decisões que afrontam interesses americanos, e o sufocante newspeak a que se convencionou chamar discurso politicamente correcto.

 

Trumpista é agora um insulto, do qual, com bonomia do meu lado, tenho sido objecto na minha limitada esfera de conhecimentos e amizades. E o Donald dos tuítes torrenciais e contraditórios, do vocabulário limitado e primário, das reacções intempestivas, e do inacreditável mau gosto, decerto não ajuda quem não tenha uma posição de princípio contra a maioria das suas posições.

 

Sucede que, quando foi eleito, escrevi um texto que acabava assim: “Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim. E, se não for, também não perco o sono”.

 

Um ano depois, constatava que Trump, afinal, já tinha para apresentar uma lista de sucessos. E agora que está envolvido em duas guerras, uma comercial e outra para conservar o direito de selecionar os reforços do plantel americano, e impedir que os EUA se transformem num México em ponto grande, talvez fosse tempo de a direita lhe dar o benefício da dúvida. Porque, sendo certo que os políticos de esquerda costumam ser julgados pela bondade e superioridade das suas intenções, e abstraindo dos resultados quase sempre desastrosos, deveriam os de direita preocupar-se menos com questões adjectivas e mais com os resultados.

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publicado por José Meireles Graça às 23:32
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Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2018

Um ano depois

Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim, disse eu, e por o ter dito expus-me à irrisão geral como o trumpista que não sou, condição que me garante comentários mordazes e indirectas maldosas de certos e dilectos amigos quando o presidente se alivia, no seu inglês de brat filho de empreiteiro, das provocações tuíteiras que julga, se calhar com razão, lhe acrescentam à popularidade.

 

Passou já mais de um ano. E concedo que a economia animada, a diminuição do desemprego, e o clima geral de euforia, não se devam inteiramente a Trump. A economia tem ciclos e quando chega a maré das subidas só mesmo um governo esquerdista é que consegue abrandar a bonanza, primeiro, e criar as condições para a depressão ser pior, depois.

 

Mantenho portanto o meu prognóstico. E até mesmo na frente externa, aquela onde moram todos os perigos, Trump não tem do que se envergonhar. É como se diz aqui:

 

Massive deregulation; economic growth picking up; standing up to Russia, Iran, China and North Korea; destroying ISIS; remaking the federal courts; recognizing Jerusalem; and now, the greatest tax reform in a generation – all while the Mueller investigation crumbles, and his opponents are tied up in knots over his tweets. The winning is under way.

 

Nós portugueses, ou pelo menos aquela parte de nós que esparrama as suas opiniões nos jornais e nas televisões, achamos que um bom líder político deve ter as qualidades de seriedade e isenção que apreciamos num santo, como Eanes (de pau um tanto carunchoso, na verdade: usou a presidência para fazer um partido); que deve ser culto, amante declarado das letras e das artes, como Soares ou Marcelo (se bem que, na realidade, Soares fosse praticamente analfabeto e de Marcelo se possa razoavelmente supor que, dos livros, raramente passou da badana); que deve ser dialogante, como Guterres; que deve entender muito dos arcanos da economia, como Cavaco; que deve ser muito “solidário”, como Costa; e, mais recentemente, que deve ser muito lá de casa e amigo do peito – outra vez Marcelo.

 

Achamos mal. E já achamos mal há décadas. É por não percebermos que um líder precisa apenas de ter duas ou três ideias acertadas, podendo ser um imbecil em tudo o mais, e que essas ideias não podem ser de esquerda, que somos uma pequena região da Europa (ela própria um império decadente), vivendo de esmolas, de uma empresa emprestada por alemães, de um sector industrial sufocado por impostos e dirigismos estatais, e de uma quantidade crescente de empregados de mesa e estalajadeiros.

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publicado por José Meireles Graça às 22:34
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Domingo, 16 de Abril de 2017

Títulos pavlovianos para formatar cabecinhas de alho chocho

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A investigadora Raquel Varela, uma das mais ilustres pastoras de almas no Tempo Novo depois de ter feito parte da vanguarda ideológica dos indignados e dos okupas que se rebelaram nos anos da troika contra o neoliberalismo e o capitalismo desregulado, decidiu agregar numa única tese quase todo o conhecimento que existe, explicando de uma só penada o desemprego estrutural e o assistencialismo familiar e Estatal, o lumpen-proletariado, Trump, a Cornucópia e a juventude, dando-lhe o sugestivo título de Trump em Torremolinos.

Não dominando a ciência da Tudologia, não ouso desafiar a ligação encontrada pela investigadora entre todas estas coisas, e deixo a análise dos fundamentos teóricos e dos aspectos metodológicos que conduziram à formulação das conclusões da publicação aos que a dominam. Só tomo nota que a autora não deixa de fazer menção ao lumpen-proletariado, uma brilhante construção do socialismo para arrumar de vez com a dúvida que alguma contra-revolução ainda tinha sobre a adesão entusiástica do povo à revolução socialista e que alguns retrógrados ainda hoje persistem em ter, explicando que os que não aderem são lumpen-proletariado e, portanto, casos perdidos que não contam para a média daquilo que é o verdadeiro povo, e que hoje se aproxima mais dos pós-doutorados em ciências sociais do que dos operários e camponeses, soldados e marinheiros, e muito menos dos que não são sindicalizados, ou sindicalizados mas em sindicatos amarelos da UGT. O lumpen-proletariado é a água que se pode sacudir do capote revestido de Scotchgard para a revolução socialista seguir em frente com o povo a segui-la.

Mas percebo alguma coisa da ciência dos títulos, e o título Trump em Torremolinos é notável a todos os títulos.

Em três palavrinhas apenas remete Donald Trump para o domínio dos selvagenzinhos que exportamos regularmente nas férias da Páscoa para vandalizar hotéis do sul de Espanha. Tocada a campainha, as glândulas salivares entram em acção e os cães de Pavlov aliviam-se da ansiedade com a certeza de um petisco na iminência de chegar. E os leitores da investigadora Raquel Varela também. Assunto arrumado.

Mas um título tão brilhante, por eficaz a atingir os resultados pretendidos, merece ser investigado. O trabalho de campo da minha investigação cientifica recorreu ao método de contar o número de ocorrências da palavra "Trump" na tese através da ferramenta informática "Personalizar e controlar o Google Chrome -> Localizar... ", e revelou que a palavra aparece 3 vezes:

  • no título "Trump em Torremolinos";
  • na introdução, onde a autora explica que vai "...de uma penada só debater o desemprego estrutural e o assistencialismo familiar e Estatal, o lumpen-proletariado, Trump, a Cornucópia e a juventude";
  • e na frase "Trump de um lado lança bombas, a ONU enviada enxadas para enterrar corpos".

A análise revela que a tese tem um nível de polivalência notável. Podiam-se substituir as 3 ocorrências da palavra "Trump" por "Putin", ou "Assad", sem alterar em nada o seu sentido. Se se retirasse a palavra "ONU" da frase, qualquer lançador de bombas seria elegível para chegar ao título da tese. Deixando-se limitar pelo preciosismo, "Trump" não seria ele próprio elegível, uma vez que lançou bombas mas os corpos não foram enterrados pela ONU.

Mas isso não interessa.O verdadeiro conteúdo da tese está no título, e o título não precisa do texto para se fazer entender. Pelo menos pelo lumpen-intelectual que consome títulos da investigadora Raquel Varela à procura de campainhas que lhe diminuam a ansiedade da dúvida e a substituam pelo conforto da certeza que o Donald Trump é dos maus, e que eles, e ela, são dos bons.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:28
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017

Novos velhos e velhos novos

Miguel Sousa Tavares, um conhecido comentador que tem por hábito asneirar com grande liberdade e franqueza, nisso se distinguindo dos seus colegas socialistas que costumam ser mais calculistas, disse na SicN que "quando a vontade do povo é qualquer coisa que vai contra aquilo que nós temos como o bem comum e as melhores ideias, não é preciso ceder à vontade do povo, é preciso resistir à vontade do povo”.

 

Isto eu ouvi e disse para os meus botões que aquele ilustre residente há décadas nos lugares cativos da opinião na falida comunicação social precisava que lhe cascassem - a gente de senso sujeita-se a opiniões de comunistas e às fracturas expostas dos adolescentes do Bloco e protege-se com o comando à distância, tirando-lhes o pio, mas ainda vai ouvindo socialistas para se inteirar dos novos asneiróis da governação. E vai ele e sai-se, a propósito de Trump, com uma destas - o presidente alaranjado tira pelo visto a esquerda, e muita direita, do sério.

 

José Mendonça da Cruz acertou-lhe o passo, tão completamente que partilhei o texto no facebook e, relendo-o, não tem lá nada com que não concorde.

 

Da esquerda estamos conversados, mas fiquei a pensar. Há demasiada gente à direita (e não, não estou a pensar no PSD, que contrasta com o PS sobretudo por gostar de contas equilibradas, nem no CDS, que contrasta com os dois sobretudo por achar que o bom cidadão vai à missa) que, ainda antes de Trump se estatelar, dar o dito por não dito, ou mudar de penteado, ou cancelar a conta de twitter, nem sequer lhe dá o benefício da dúvida, e pelo contrário exibe desde já um ódio furioso.

 

Não pode ser por causa do proteccionismo. Isso aflige talvez os chineses, os japoneses e todos os que tenham um superavit comercial, além dos liberais clássicos, que aliás entre nós não chegariam a encher o estádio do Dragão. Mas mesmo entre estes há vozes que lembram que os tratados comerciais longamente negociados têm três problemas: um é que ninguém, salvo os especialistas, os entende; o outro é que há suspeitas de que estão recheados de cláusulas que favorecem grandes empresas, e que foram lá plantadas por lobbies; e o terceiro é que a liberdade de comércio permitiu a saída da pobreza a uma quantidade de pessoas sem precedente (diga lá o papa Francisco o que disser, convencido que está de que calça realmente os sapatos do santo de Assis) - mas o emprego no Ocidente já não é para a vida, e enquanto dura é relativamente mal pago. Que interessam lá os chineses, ou vietnamitas, ou os pretos, que estão todos melhor? Nós temos menos esperança no futuro que os nossos pais, e isso não pode ser. Não, não é o proteccionismo que justifica tanta exaltação.

 

Não pode ser a NATO, que Trump parece não querer bancar, nem os gestos de compreensão em relação a Putin, que a União Europeia execra, nem o evidente descaso da própria ideia daquela União, nem o alinhamento com Israel, nem muito menos a adivinhada sobranceria na relação com a ONU. Os europeístas frenéticos (com perdão da redundância) veem nestas inflexões uma excelente desculpa para o reforço da integração, agora com uma componente militar, por causa do alegado expansionismo russo, e esfregam as mãos; a perspectiva do reforço da integração, mesmo para os que a não desejam, não explica a vasta coligação anti-Trump, nem a sua veemência; contra Israel está apenas a esquerda e uma faixa minúscula da direita; e a ONU não conta, salvo para Guterres, por lá estar a bolsar irrelevâncias, e o professor Adriano Moreira, por não falar doutra coisa.

 

E também não pode ser a evidente componente anti-islâmica do discurso trumpista porque a direita sabe que o Islão é uma ameaça, e não ignora que quando as comunidades muçulmanas atingem uma certa dimensão não apenas não se integram como rejeitam a tolerância, a igualdade entre os sexos e os outros valores que fazem com que no Ocidente se viva no séc. XXI e nos países islâmicos algures entre o VII e o XVIII. Que haja alguns ingénuos que, por causa da igualdade religiosa, não queiram ver as coisas assim, não monta.

 

Não pode também ser a posição de Trump sobre o waterboarding e o reforço dos poderes das polícias. As selvajarias americanas nunca incomodaram excessivamente as direitas no tempo de Bush, e de todo o modo não faltam, à direita, justiceiros acéfalos.

 

O quê, então?

 

Trump é, como o Brexit antes dele, o novo - o mundo velho está a ruir. Está a ruir com o regresso dos fantasmas dos nacionalismos, e dos equilíbrios geoestratégicos, e das alianças, e da importância da história - uma horrorosa complicação.

 

Sousa Tavares queria que a história acabasse, a União se aprofundasse, a ONU fosse mais respeitada, os muçulmanos se integrassem, os países fossem mais solidários, os cidadãos menos desiguais, os impostos mais baixos com um Estado Social mais amplo, e que as touradas continuassem, mas sem sofrimento do touro.

 

Queria isto. E a direita tradicional, com cambiantes, não queria a parte lírica disto, pelo que se definia, nessa parte, contra.

 

No nosso mundo antigo podíamos tranquilamente sonhar com uma sociedade nova, se fôssemos comunistas; ou em mudar de sexo a expensas do Estado, se fôssemos da esquerda festiva; ou em comprar eleitores com benesses, enquanto a economia crescia como por milagre, se fôssemos socialistas; ou em gerir com um módico de sensatez a coisa pública, se não fôssemos nenhuma daquelas abominações.

 

Quer dizer que nos entendíamos perfeitamente no rotativismo em torno do que está.

 

Mas o que está vai desaparecer. E podemos recuar assustadamente à procura da segurança do antes, a golpes de manifestações, artigos, desinformação, berreiro na comunicação social e ofensa dos eleitorados; ou agir sensatamente, tirando o melhor partido das circunstâncias.

 

Dito de outro modo: os velhos que o são, e os que só têm quarenta anos, mesmo que pareçam trinta, mas não estão a ver o filme, querem pôr um dedinho no furo da barragem, imaginando que por isso ela não vai abrir brechas. Já os velhos que o não são, mesmo que tenham sessenta anos e imaginem parecer ter apenas cinquenta, e os novos lúcidos, compreendem a futilidade do exercício.

 

Por natural modéstia, que espero se me desculpe, omito qual é destas a faixa etária a que pertenço.

 

publicado por José Meireles Graça às 15:47
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

Análise trumpológica

O porta-voz da Casa Branca veio informar que as cerimónias de entronização de Trump (entronização é como quem diz, as repúblicas escavacaram a realeza mas copiaram, no geral canhestramente, cortejos, cerimónias e encenações para infundir nas massas o mesmo salutar respeito pela sacralidade do poder que dantes estava a cargo da unção) tiveram "a maior audiência de sempre, ponto final!”.

 

As redes sociais têm gozado largo, inçadas que estão de fotografias que demonstram que Santo Obama teve, no tempo dele, muito mais gente a assistir. E mesmo que nada garanta que as fotografias tenham sido tiradas à mesma hora, e do mesmo ângulo, e certamente não no mesmo dia da semana, a alegação de Sean Spicer padece do mesmo defeito que muitas do patrão: não são para levar a sério, tinha muito a ganhar se dissesse nada, e seria conveniente que rapidamente o staff, e o próprio, se apercebessem que nem o twitter teve tanta importância na vitória como se diz, nem as pessoas ligam por aí além às redes sociais senão para se aliviarem das suas próprias opiniões, e cascarem nas dos outros, nem o público at large se impressiona excessivamente com o tamanho das manifestações: lá menos do que cá mas ainda assim manifestações são coisas do povo de esquerda, e é assim natural que Obama, para mais negro, isto é, representante físico de uma minoria oprimida, socialista até ao ponto em que um americano ganhador de eleições o pode ser, actor consumado e leitor convincente de speech writers inspirados, tivesse assistências homéricas.

 

O que é que isso interessa? Nada, governar com a rua é coisa de gangues de droga e comunistas, duas classes de cidadãos das quais é desejável um certo grau de afastamento. E por isso uma provável aldrabice em torno da querela sobre quantos espectadores estiveram realmente no Capitólio é um mau negócio.

 

Trump tem de entregar: criar condições para que a economia cresça e os empregos nasçam, cortar na despesa pública que não seja investimento, libertar as forças produtivas da inovação e da criatividade que a regulamentação sufoca, eliminar os obstáculos que as fantasias sobre o aquecimento global e os combustíveis fósseis estabeleceram, obrigar os aliados a suportarem uma parte da despesa militar mesmo que isso abane alianças, combater a criminalidade e limitar a imigração de elementos que comprometam a sociedade wasp - tornar a América grande, outra vez.

 

Porque com Obamas e Clintons a América só pode ficar pequena: a receita deles é a mesma que pôs a Europa de joelhos, e que consiste em multiplicar, em nome da igualdade e da justiça social, o número de dependentes do Estado e o das agências que se ocupam de consumir improdutivamente recursos, distribuindo o que sobra de uma fiscalidade crescentemente opressiva; compensar a quebra de natalidade com importações massivas de comunidades que não são assimiláveis numa sociedade respeitadora dos valores do Ocidente, capitalista, de concorrência, e de igualdade entre os sexos e perante a Lei; e deixar que as políticas públicas sejam conduzidas por burocratas que respondem não perante eleitorados mas outros burocratas mais altamente situados na hierarquia da impunidade.

 

Muitos amigos, escorreitamente de direita, imaginam que o lado grotesco da personalidade de Trump, o seu prodigioso mau gosto, o basismo inane e popularucho dos seus discursos, as suas bravatas, a sua insondável ignorância (que aliás partilha com o cidadão médio e boa parte dos seus antecessores, incluindo Obama) e as suas teses proteccionistas, que ofendem a doutrina liberal (no sentido europeu da palavra) e que podem, se aplicadas cegamente, fazer sair o tiro pela culatra, são tudo o que há para ter em conta.

 

Mas não. Para já, soube-se hoje que a página da presidência sobre as alterações climáticas sumiu-se, assim como desapareceu a versão em castelhano; e soube-se que logo no primeiro ou segundo dia começou a fazer o que podia, sem o apoio do Congresso, para demolir o Obamacare - três boas notícias.

 

Três boas notícias porque se a temperatura está a subir ou a baixar é da ordem natural da Terra, a prevenção a golpes de estudos e normas é quase sempre uma desculpa para o avanço da agenda da consultadoria interesseira e da intervenção e poderes do Estado; a grande América é uma criação, entre outras coisas, da emigração anglo-saxónica, da sua língua e dos seus valores - se for submersa pela espanholização não será necessário um muro porque a prazo os EUA ficam um México em ponto grande; e a demolição do Obamacare corresponde a sufocar no ovo um serviço nacional de saúde que à boleia dos seus nascentes triunfos se incrustará nos costumes inamovíveis, tornando-se a prazo insustentável e um factor permanentemente negativo para o crescimento económico.

 

O homem parece que vai fazer o que prometeu. E mesmo que fique aquém, como inevitavelmente ficará (resolver o problema da criminalidade no coração decaído das cidades e nos bairros negros? Fazer um muro a pagar pelos que ficam de fora? Come on!) é do interesse dos Estados Unidos, e também do nosso, que tenha alguma medida de sucesso.

 

Convém portanto fazer permanentemente um desconto. O homem é detestável, uma parte do que fará, se fizer, não quereria para nós (de toda a maneira aquela gente ainda não aprendeu a comer de faca e garfo, defende a pena de morte, tem um sistema penal bárbaro e um prodigioso mau-gosto, tem problemas, tradições e hábitos que são só deles) mas o verdadeiro perigo não é Trump, são os seus inimigos.

 

Nós outros, portugueses, não deveríamos precisar que nos explicassem estas coisas básicas. Que elegemos um presidente professor universitário (embora suspeite que de Direito deve saber pouco), culto (embora suspeite que é cultura dos autores da moda, e mesmo assim só de ler as badanas e ver as exposições fingindo que está a entender alguma coisa), com maneiras (embora suspeite que nem as senhoras deixe falar) e inteligente (embora, se perguntado, não saiba dizer nada que preste sobre o futuro do país, o da Europa e o do mundo, nem, já agora, sobre as alterações climáticas ou o futuro dos automóveis sem condutor) e não nos adiantou nada: o homem dança, e com ele o país, à beira do abismo, parando para tirar uma selfie com o primeiro popular que quer pôr sobre a lareira, numa moldura de plástico dourado, o sorriso de Marcelo, do mesmo material, ao lado do seu trombil obtuso.

 

Precisamos das virtudes teologais: fé em que a democracia americana tem flexibilidade para cambalhotas súbitas na orientação do país, e instituições para evitar loucuras; esperança em que o mundo se acomode aos abalos que Trump fará junto dos países amigos, e dos inimigos, a uns aparando menos o jogo e a outros mostrando os dentes; e caridade para aturar o estilo em que tudo se fará.

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publicado por José Meireles Graça às 23:57
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2016

To Trump or not to Trump?

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Ganhou as eleições o candidato que assobia às mulheres, emprega imigrantes ilegais para lhes pagar pior e foge aos impostos. Uma oportunidade para os fundamentalistas que defendem a imposição legal do que consideram politicamente correcto perceberem que andam com o carro à frente dos bois e reavaliarem os efeitos, até de ricochete, do seu fundamentalismo moralista.

Perdeu-as a candidata que tinha a esmagadora maioria dos jornalistas, comentadores e celebridades a promovê-la, e que ganhava as sondagens. Uma oportunidade para as empresas de sondagens repensarem os seus modelos de previsão e formação de amostras e para os políticos que também as perdem cá repensarem o seu investimento na propaganda baseada nos fazedores de opinião, nas celebridades e nas boas sondagens.

Resta-nos esperar que as ameaças de políticas que nos são desfavoráveis ou mesmo muito perigosas, do ataque ao comércio livre ao desinvestimento na Nato, do proteccionismo económico à desprotecção militar do mundo livre, políticas bloquistas da direita radical, fossem mais bragging para mobilizar os eleitores red neck do que intenções para levar até ao fim. Se levar, podemos vir a passar um mau bocado com a ameaça e a falta de escrúpulos dos nossos vizinhos de leste, como a Ucrânia está impiedosamente a passar, e o travão à globalização que tirou mais de mil milhões de pessoas da miséria extrema nas últimas décadas também travará o crescimento da economia global e dificultará ainda mais o nosso, e numa época em que as lideranças europeias não têm, nem a lucidez, nem a força, para neutralizar estas ameaças.

E a satisfação de ver a dor de corno dos asnos domésticos que correm a chamar porcos aos americanos que o elegeram em eleições livres e democráticas. Porca era a p. que os p.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:45
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